Há cerca de dois meses fui contactado por um jornalista que havia encontrado alguns textos meus na internet e gostaria de publicar uma matéria sobre o darwinismo. Depois de já ter trabalho e feito cursos on-line de jornalismo científico entendo que a relação entre o jornalista e a fonte é, muitas vezes, tortuosa. Com o jornalista Rene Lopez da
Revista ClickCiência, entretanto, não tive problemas. Convidou-me para a entrevista, foi sempre polido, enviou perguntas, respondi, enviou mais alguns questionamentos finais e enviou-me o artigo para dar uma olhada antes da publicação.
Portanto, a
edição 15 da revista ClickCiência da
UFSCar comemora os 150 anos da teoria evolutiva e os 200 anos de Darwin com uma série de reportagens que utilizam os resultados desta entrevista para compor um quadro geral sobre as idéias deste que foi um dos maiores pensadores da humanidade. O jornalista e sua equipe juntaram esta e mais outras reportagens com outros pesquisadores para compor uma excelente série de reportagens que podem ser lidas
aqui.
Charles Darwin: Há duzentos anos nascia o naturalista inglês que simplesmente revolucionou todo o entendimento dos humanos sobre a vida em nosso planeta. Sem dúvida, um dos maiores gênios de todos os tempos.
Finalmente cheguei a perguntar ao jornalista se eu teria autorização de publicar esta reportagem no meu blogue, coisa que ele jamais respondeu. Espero que não se incomode com esta postagem. Eis a reportagem na íntegra:
=====
** ClickCiência:
Na sua opinião, quais os conceitos chaves que foram desenvolvidos por Darwin e que são essenciais para o entendimento da Teoria da Evolução?Esta é uma ótima pergunta, embora possa ter um sem número de respostas. Embora Darwin seja normalmente reverenciado por ter sugerido o conceito de
seleção natural, creio que o principal conceito necessário para entender a teoria evolutiva seja o conceito de
Ancestralidade Comum. Este conceito é normalmente mal entendido pelas pessoas, que ainda têm uma visão da evolução como uma
grande escada dos seres, onde os seres mais "primitivos" se transformam em seres mais "evoluídos" e onde o homem é considerado normalmente "o mais evoluído" dos seres. Esta é uma visão incorreta e que pode ser ainda hoje verificada nas mais diversas manifestações culturais (Veja o texto
Ancestralidade comum e o tribalismo)
Para Darwin não há organismos mais ou menos evoluídos, todos os organismos existentes hoje no planeta descendem de um suposto primeiro organismo que teria surgido na Terra há mais de 3,5 bilhões de anos atrás. Se pudéssemos então rodar o tempo para trás, veríamos que os organismos existentes hoje teriam sido um único animal no passado. Humanos e chimpanzés, por exemplo, já foram um outro macaco no passado -- que não era nem humano, nem chimpanzé. E aí está o conceito de ancestralidade comum.
Segundo Darwin, todos os organismos da Terra têm ancestrais comuns que podem ser mais antigos ou mais novos. Eu e minha prima, por exemplo, temos ancestrais comuns que são nossos avós. Da mesma forma, duas espécies de organismos quaisquer, como a baleia e o gato, têm ancestrais comuns que podem estar mais próximos ou mais distantes no tempo. O gato e o tigre, por exemplo, que são dois animais da ordem Felidae (os felinos) têm ancestrais comuns (avós evolutivos) mais recentes no tempo do que o sapo e homem (um anfíbio e um primata). Isso significa que o ancestral dos felinos viveu num passado mais próximo que o ancestral entre anfíbios e primatas. Assim, quanto menos tempo tenha se passado desde um determinado ancestral e o presente, mais próximos dizemos que são os organismos.
Humanos e chimpanzés, por exemplo, são muito mais próximos entre si do que, digamos, o cão e o cavalo. Estimativas dizem que humanos e chimpanzés teriam se divergido de um ancestral comum há cerca de 5 ou 7 milhões de anos no passado (é difícil medir precisamente), enquanto o tempo estimado para a divergência de cães e cavalos está em cerca de 75 milhões de anos. De fato, qualquer pessoa que observe com cuidado a anatomia desses animais, poderia ter chegado à conclusão similar (exceto pelos números precisos de tempo de divergência, claro).
De qualquer forma, é preciso sempre lembrar, todos os organismos do planeta se relacionam no passado por meio de ancestralidade comum. O ornitologista alemão (especialista em pássaros) Ernst Mayr divide a teoria darwiniana em cinco sub-teorias e diz que a ancestralidade comum foi a primeira a ser universalmente aceita pelos biólogos à época, posto que tinha um poder explicativo enorme em vários campos da biologia.

O ornitologista alemão (especialista em pássaros) Ernst Mayr -- um dos principais interpretadores de Darwin ao longo do século XX -- divide a teoria darwiniana em cinco sub-teorias e diz que a ancestralidade comum foi a primeira a ser universalmente aceita pelos biólogos à época, posto que tinha um poder explicativo enorme em vários campos da biologia.
Com relação ao conceito de "seleção natural", o culto Charles Darwin -- influenciado pela leitura de um famoso ensaio do economista e demógrafo inglês Thomas Maltus sobre o crescimento da população humana e possíveis problemas de alimentação que poderiam vir desta super-população -- sugeria que na natureza haveriam lutas pela sobrevivência. Neste cenário natural, não haveria recursos para que todos os organismos sobrevivessem e, assim, apenas os indivíduos "mais aptos" seriam capazes de sobreviver e reproduzir, passando sua herança genética para a prole. A evolução consiste na história biológica daqueles organismos que sobreviveram e se reproduziram. Evolutivamente falando, um indivíduo que não se reproduz é um ramo terminal de uma cadeia evolutiva que remonta ao primeiro organismo surgido do planeta, ele é um fim na experimentação aleatória e sem propósito da natureza biológica.
** ClickCiência:
Na época como foram recebidas as teorias de Darwin? O que os cientistas sabiam até aquele momento e quais foram as grandes novidades?Darwin foi extremamente criticado quando publicou sua teoria e não foi à toa que, tendo imaginado boa parte de sua teoria ainda na juventude, quando viajou no navio HMS Beagle por todo o mundo coletando espécimes, foi publicá-la apenas quando já comemorava seus 50 anos. Esta publicação foi terminada às pressas depois que Darwin recebeu um trabalho do jovem naturalista
Alfred Russel Wallace que delineava idéias similares às suas sobre o mecanismo da evolução das espécies e de seleção natural.
Darwin foi acusado pela igreja de
ateísmo, uma vez que as implicações de sua teoria, em primeiro lugar, mostravam que o homem era simplesmente um animal -- ao invés de uma criatura criada à imagem e semelhança de um suposto deus. Além disso, a teoria da evolução Darwiniana não tornava necessário um deus sequer para explicar a origem das "outras" espécies animais e vegetais. Antes da época de Darwin, a visão que se tinha das espécies -- normalmente uma idéia oriunda dos trabalhos do naturalista francês Buffon e que de certa forma remontava a Aristóteles e a Grécia antiga -- era de que todas espécies existentes no mundo consistiam em degenerações de espécies ideais (platônicas) existentes apenas na mente de deus. Assim, de uma só vez, Darwin tirava dos homens seu estatus superior e dizia que deus não havia sido necessário para criar nenhuma outra espécie. Foi um choque e tanto para a igreja da época e até hoje as discussões infelizmente perduram entre criacionistas e evolucionistas.
** ClickCiência:
De lá pra cá, quais foram as grandes descobertas? O que mudou, no entendimento da evolução das espécies?Ah, muita coisa mudou na ciência da evolução desde Darwin, embora seja claro que tudo tenha sido feito sobre o plano de fundo criado por ele. Houveram várias
revoluções conceituais em biologia evolutiva desde Darwin, principalmente a revolução da Genética e da Biologia Molecular.
Embora contemporâneo de Darwin, os trabalhos do monge Gregor Mendel só vieram a ser redescobertos no início do século XX. Ainda que o mendelismo inicialmente tenha sido visto como contrário à teoria gradualista de Darwin, depois de novas sínteses da teoria darwinismo e mendelismo vivem em paz e harmonia, numa simbiose teórica que eleva nossa compreensão sobre evolução dos organismos e a hereditariedade biológica.Em uma delas, por exemplo, ocorrida na primeira metade do século XX, os trabalhos do monge Gregor Mendel foram redescobertos e re-interpretados sob a óptica darwiniana. Embora a princípio os cientistas tenham interpretado Mendel de uma forma anti-darwinistas -- principalmente no que concerne ao caráter gradual da evolução darwiniana --, posteriormente com o avanço da genética a partir dos trabalhos de Thomas Morgan com drosófilas, ficou claro que o padrão evolutivo tem uma preponderante característica gradual, como previsto por Darwin. Posteriormente, a descoberta da estrutura do DNA por Watson e Crick revolucionou toda a biologia moderna, inclusive os estudos em evolução. O sequenciamento de genomas tem mostrado cada vez mais como todas as espécies em nosso planeta apresentam um metabolismo e um conteúdo de genes e proteínas bastante similar, e reforça cada vez mais a teoria da ancestralidade comum e, portanto, a teoria darwiniana da evolução.
O sequenciamento de genomas tem mostrado cada vez mais como todas as espécies em nosso planeta apresentam um metabolismo e um conteúdo de genes e proteínas bastante similar, e reforça cada vez mais a teoria da ancestralidade comum e, portanto, a teoria darwiniana da evolução.
** ClickCiência:
Quais brechas da teoria de Darwin perduram até hoje?Normalmente Darwin é bastante criticado por possíveis "brechas" existentes em sua teoria. Para explicar isso com eficácia, precisamos antes entender um pouco sobre a ciência dentro das humanidades conhecida como
epistemologia, ou teoria do conhecimento. Esta área das ciências humanas tenta explicar como produzimos conhecimento e como o interpretamos à luz das evidências e de fatores sociais e históricos. Quando estudamos epistemologia, entendamos que todas as teorias científicas possuem brechas e que nenhuma teoria pode pretender explicar absolutamente todos os fatos dentro de seu domínio de estudo. A ciência de uma determinada época consiste no melhor modelo que os humanos encontraram para explicar determinados fenômenos ou grupo de fenômenos, mas não consiste num modelo infalível ou perfeito. Humanos são assim vistos como seres limitados que jamais alcançarão a perfeição. Assim, se olharmos para a história da ciência podemos verificar que mesmo a mais fortemente embasada teoria científica de todos os tempos, a física Newtoniana, mostrou não ser capaz de explicar todos os fenômenos físicos no universo. Einstein mostrou que o espaço-tempo relativos podiam explicar ainda um número maior de fenômenos do que aqueles previstos pela física Newtoniana. Apesar disso, não creio que se possa dizer que a física Newtoniana esteja errada e ela é aplicada ainda hoje em uma quantidade enorme de domínios, porque ela consiste numa simplificação útil, clara e precisa das principais leis físicas que parecem governar o universo em que vivemos.
A ciência de uma determinada época consiste no melhor modelo que os humanos encontraram para explicar determinados fenômenos ou grupo de fenômenos, mas não consiste num modelo infalível ou perfeito.
Além disso, é preciso compreender que a ciência de uma época futura será sempre mais desenvolvida do que de uma era presente -- assim como a ciência do presente é mais desenvolvida que a do passado. A ciência, por não acreditar em dogmas, está sempre se questionando e se reconstruindo. Na ciência é uma virtude encontrar erros e corrigí-los e os mais famosos cientistas fizeram isso e continuarão fazendo, sob o risco de ganharem um Nobel. O fato da ciência apresentar brechas é um desafio para os cientistas e deve ser vista como algo positivo, não negativo.
Uma vez entendido que nenhuma ciência pode ser perfeita e que a ciência avança sempre e que será eternamente incompleta, vamos às brechas de Darwin. Houve várias brechas que foram sanadas e há ainda várias questões sobre a evolução dos organismos em aberto. Por exemplo, não se sabe ainda como a vida se originou, não se sabe onde e não se sabe com qual organismo isso aconteceu. Além disso, as datações de eventos do passado vão sempre ficando melhores, mas nunca perfeitas. Há a incompletude do registro fóssil, sendo que não conseguimos encontrar fósseis que representem todos intermediários para as grandes mudanças anatômicas dos animais, um grande ponto de crítica da teoria, embora novos fósseis que ligam linhagens antigas sejam sempre encontrados aqui e ali, no decorrer dos anos.
** ClickCiência:
Qual a importância dos estudos de Darwin para os dias atuais / para as pesquisas que são feitas atualmente?Tudo que foi feito por Darwin é importantíssimo para os dias atuais e para todas as pesquisas feitas em biologia, incluindo aquelas em medicina e saúde. O famoso geneticista do século XX, Theodosius Dobzhansky, tem uma das mais famosas frases relacionando a biologia e a evolução. Ele disse "nada faz sentido na biologia, exceto à luz da evolução". A teoria da evolução é a teoria mais central da biologia, é ela que liga os grandes ramos das ciências biológicas sob um mesmo arcabouço teórico comum. Pode-se analisar evolutivamente dados de todas as grandes áreas da biologia, como zoologia, botânica, microbiologia, genética, biologia molecular, anatomia, farmacologia, etc. No caso de desenvolvimento de fármacos, é mais adequado testá-los em macacos do que em camundongos, por exemplo. E fármacos testados em macacos têm muito mais chance de serem eficazes em humanos do que aqueles testados em camundongos, moscas ou outros animais quaisquer.
** ClickCiência:
Objetivamente, qual a diferença principal entre a Teoria da Evolução e a Teoria Sintética da Evolução?Objetivamente: a teoria sintética da evolução é uma atualização da teoria da evolução darwiniana que leva em consideração certos fatores desconhecidos por Darwin, em 1859. A diferença é que a teoria sintética considera, principalmente, conhecimentos adquiridos depois de Darwin nas áreas da Hereditariedade (Weissmann), Genética Clássica (Mendel) e Genética de Populações (Fisher, Wright, Haldane).
** ClickCiência:
Quais as descobertas que levaram a constituição dessa nova teoria?As principais modificações conceituais que levaram à teoria sintética foram, a meu ver:
1) A refutação por August Weissmann da teoria da herança dos caracteres adquiridos, ainda no século XIX.
2) A redescoberta dos trabalhos de Mendel no início do século XX e seu posterior avanço através do estudo de moscas-das-frutas do gênero drosófilas, principalmente feitos por Thomas Morgan na década de 20/30.
3) A síntese dos conhecimentos dos zoólogos e dos geneticistas de população sob uma óptica darwiniana. Os zoólogos estiveram sempre interessados na diferenciação entre as espécies e mecanismos de especiação, enquanto os geneticistas de populações estiveram interessados na evolução dentro de uma mesma linhagem.
Ao reunir tais conhecimentos, criou-se a chamada teoria sintética da evolução no fim da primeira metade do século XX (segundo a definição de Mayr). E depois dela ainda houve uma nova revolução trazida pela descoberta da estrutura molecular da vida, o código genético e o sequenciamento de genomas.
August Weissmann foi um dos maiores biólogos evolutivos do século XIX. Ele refutou a teoria dos caracteres adquiridos de Lamarck (onde Darwin vacilava) e mostrou que o que acontecia com o indivíduo durante sua vida não passava para sua prole. Separou as células germinativas das células somáticas e permitiu também um salto nas teorias evolutivas daí em diante.** ClickCiência:
Na sua opinião, qual a importância da Teoria Sintética?A importância da teoria sintética é atualizar as idéias originais de Darwin sob uma óptica moderna da época (década de 40).
** ClickCiência:
Atualmente, o que se sabe sobre o surgimento de uma nova espécie?Há ainda bastante discussão em biologia sobre o significado preciso do termo espécie e, em filosofia da biologia, esta discussão tem até um nome definido:
o problema das espécies. Sobre este assunto, pode-se dizer que já está claro que, quando consideramos uma espécie de bactéria -- que é um organismo unicelular de reprodução assexuada -- esse termo tem uma conotação diferente de quando utilizamos o termo para espécies de mamíferos. Da mesma forma, a definição de uma espécie bacteriana e uma espécie de reprodução sexuada é bem diferente. Espécies são nomes que biólogos dão a grupos de organismos que se parecem e que são capazes de se reproduzir dando prole fértil (conceito biológico de espécie), mas existem as mais interessantes variações no conceito e não é possível definir com exata precisão e pleno acordo do que se trate uma determinada espécie. As questões de definições de espécie são invariavelmente alvo de discussões acaloradas entre os pesquisadores especialistas num determinado grupo animal, vegetal ou microbiano.
Enfim, com relação a espécies de mamíferos de grande porte, as novas espécies são normalmente criadas (especiação alopátrica) quando dois diferentes grupos populacionais de uma mesma espécie se dividem e passam a habitar diferentes lugares. Caso essas duas populações mantenham-se separadas uma quantidade suficiente de tempo, ocorrerão mutações aleatórias em seus DNAs que serão diferentes e que serão diferentemente selecionadas de acordo com o ambiente em que vivem. Com o passar do tempo, tais espécies ficarão cada vez mais diferentes até o momento em que elas alcancem o chamado isolamento reprodutivo. Neste momento não será mais possível que indivíduos de uma espécie fertilizem indivíduos de outra gerando um híbrido fértil. Quando isso acontecer, os biólogos dirão: são espécies diferentes.
** ClickCiência:
Há explicações para o chamado “acaso”?O acaso não precisa de explicações, ele precisa de aceitações. Em inúmeros fenômenos de nossa vida cotidiana, o acaso está presente. Nas pessoas em que cruzamos pela manhã, no número de sinais abertos ou fechados que passamos (ou paramos) quando nos dirigimos de casa para o trabalho, no tempo em que esperamos o ônibus, na quantidade de pessoas que estão dentro do ônibus, na temperatura que faz durante dia, na refeição disponível no restaurante, no tempo que ainda viveremos. Embora algumas dessas coisas possamos entender e calcular, há outras que são excessivamente complexas e se apresentam à nossa compreensão como aleatórias. Assim, o acaso pode ser entendido como um conjunto de variáveis complexas o suficiente para que não sejamos capazes de entender se existe uma ordem ali contida. De fato, mesmo na física de partículas mais básica há um conteúdo probabilístico, de forma que jamais seremos capazes de prever eventos específicos com absoluta precisão.
A evolução, em seu nível mais molecular, acontece através da mutação em sequências de DNA que nos parecem razoavelmente aleatórias. Sabemos que há sequências mais susceptíveis a mutações que outras e sabemos que alguns agentes mutagênicos privilegiam certas mutações ao invés de outras. Mas jamais saberemos exatamente qual mutação irá acontecer uma vez que, por mais que algumas sejam mais prováveis que outras (teoricamente), o fator acaso está envolvido e representa uma parte importante de nossa compreensão sobre os fenômenos naturais.
== Adendo: TRANSGÊNICOS ==
** ClickCiência:
Fazendo pesquisas em seu currículo encontrei o seguinte título “SOMOS TODOS TRANGÊNICOS”. Gostaria, se possível, que você falasse um pouco a respeito. Como você encara as atuais pesquisas dos transgênicos?O artigo "Todos somos transgênicos" que escrevi e publiquei na revista latinoamericana para a ciência e razão (
revista PENSAR), em 2006, baseia-se no conceito de transgenia para mostrar como este processo é bastante comum na natureza. O processo de transgênese pode ser descrito, de forma puramente conceitual, como a inserção de moléculas de DNA de certo organismo no genoma de um outro organismo. A natureza tem gerado transgênicos desde o início dos tempos e, se levarmos o conceito ao pé-da-letra, podemos considerar que toda virose que pegamos é um tipo de transgenia, onde o DNA viral se integra ao nosso genoma. Assim, para cada gripe que pegamos, transformamo-nos em um novo transgênico. Do lado tecnológico, o processo de transgenia tem ajudado bastante o desenvolvimento da ciência e da medicina. Por exemplo, boa parte da insulina humana produzida hoje para medicar os diabéticos é produzida em organismos transgênicos (onde foi inserida a sequência de DNA humano para esta proteína). Assim os diabéticos não precisam mais ingerir uma insulina de porco, como ocorria anteriormente, graças à tecnologia de transgenia. Além disso, todos os genomas de organismos que são hoje produzidos e que ajudam em nossa compreensão sobre eles (e sobre nós) foram feitos devido à tecnologia de transgenia em bactérias, onde os genomas são partidos e colocados dentro de bactérias que os guardam e amplificam para a posterior reação de sequenciamento. O genoma humano não seria conhecido hoje sem a técnica de transgenia.
Com relação às plantas transgênicas que porventura venhamos a comer, o assunto é mais delicado. A idéia do meu artigo era dizer sim que existe um medo exagerado dos organismos transgênicos em nossa sociedade e que não é provável que um organismo transgênico vá nos fazer algum mal místico, absurdo ou inesperado -- como as pessoas temem. Isso é muito pouco provável. A problemática dos transgênicos está portanto mais relacionada a questões sociais e ambientais do que a questões de saúde pública. Explico. Com relação aos aspectos sociais, é um consenso hoje que os organismos transgênicos devem ser rotulados como tal, especificando qual tipo de transgênico eles são. Isso deve-se ao fato de que há várias formas diferentes de realizar a transgênese e que algumas pessoas podem ser alérgicas a determinadas proteínas em especial que tenham sido adicionadas na planta (transgênica) em questão. Estas pessoas não devem ingerir os organismos que contém tais alergenos. E, além disso, de um ponto de vista mais liberal todos devem ter a opção de não ingerirem alimentos transgênicos, se não quiserem. Assim, a rotulagem é bastante importante.
Ambientalmente falando, alega-se a transgenia substitui os organismos naturais por outros organismos modificados em laboratório e que, de certa forma, os transgênicos -- ao evitar seu ataque por pragas -- modificam a estrutura ecológica de um ecossistema e o modificam de sobremaneira. Embora concorde com o argumento, creio que o mesmo se aplica a qualquer tipo de monocultura. E assim, como biólogo e defensor da biodiversidade natural dos organismos, sou contra a cultura de transgênicos da mesma forma que sou contra qualquer tipo de destruição de mata nativa para abrigar uma monocultura. Também as sementes utilizadas em qualquer monocultura são excessivamente modificadas por contínuas e históricas seleções (artificiais) das melhores sementes e também não representam a espécie natural. Também a destruição de ambientes nativos para a produção de monocultura modifica de sobremaneira a estrutura ecológica de um ambiente. Por outro lado, creio que não seria possível hoje em dia alimentar toda a população humana urbana sem a existência de monoculturas e talvez não seja possível alimentar toda a população humana do futuro sem a utilização de transgênicos. É sabido que os transgênicos normalmente aumentam a produtividade das áreas cultivadas e, de certa forma, podem talvez evitar o desmatamento de outras áreas para a cultura agrícola. Há ainda novas tecnologias transgênicas que permitem que certas culturas sejam cultivadas em locais onde elas não eram originalmente apropriadas.
===
Esta foi a primeira parte da entrevista, posteriormente o jornalista ainda enviou uma outra série de outras perguntas para elucidar alguns detalhes que ele teve certas dificuldades para compreender. Publicá-la-ei aqui oportunamente.
Mais uma vez, clique
aqui para ler a excelente reportagem.
Marcadores: evolução, história da ciência, jornalismo científico