Venho aqui hoje prestar minha homenagem à mais ampla teoria, ao cerne dos estudos do campo das ciências biológicas que é a teoria evolutiva. No dia 24 de Novembro de 1859, há exatamente 150 anos atrás, Charles Darwin publicava a primeira edição de uma obra que mudaria para sempre a humanidade. Negando um deus criador para todas as espécies e apresentando uma visão coerente sobre a ancestralidade comum, a "Origem das Espécies" foi sem dúvida um marco na história recente da humanidade e, estou certo, ainda será lembrada por muitos anos no futuro. Darwin foi atacado pela grande massa de conservadores da Inglaterra vitoriana e saiu intacto, nobre, honrado. Foi também defendido pelos melhores e mais claros intelectos da época e deixou seu legado de busca honesta pelo conhecimento para todos os cientistas ao longo desses últimos 150 anos.
Charles Darwin é autor da teoria científica mais criticada de todos os tempos. Mas, na ciência, é a crítica e a dúvida que fazem a força das teorias. Tendo sido hoje confirmada e reconfirmada várias vezes, não há mais lugar para quem diz que a evolução não tenha acontecido ou que os organismos viventes hoje não tenham ancestrais comuns. Os que negam a teoria são simplesmente ignorantes (no sentido de não terem ido buscar para saber, ou seja, pessoas que ignoram fatos) ou religiosos fundamentalistas que ainda acreditam na interpretação literal de textos religiosos. Embora detalhes ainda sejam amplamente discutidos em meios técnicos e acadêmicos, a grande teoria de Darwin é hoje corroborada em milhares de instâncias e existem centenas de periódicos científicos com enfoque em biologia evolutiva -- onde pesquisadores de todo o mundo publicam seus trabalhos sobre estudos em espécies naturais todas as semanas.
Comemorações desta postagem:
- 150 anos exatos da publicação da Origem das Espécies (24 de Novembro de 1859)
- 200 anos do nascimento de Charles Robert Darwin (1809)
- 200 anos da publicação do livro Filosofia Zoológica, de Lamarck (1809)
- 180 anos da morte de Lamarck (1829)
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Este texto foi originalmente desenvolvido como um trabalho de conclusão de curso para a disciplina:
Thomas Kuhn e a historiografia da ciência, do
mestrado em história da UFMG. Disciplina esta ministrada pelo excelente professor Mauro Condé; único indivíduo que conheço capaz de iniciar uma aula com uma visão objetiva do conhecimento científico, discutir toda a política científica nacional e regional buscando citar o pensamento de diversos autores da cultura ocidental e terminar a aula à beira do relativismo epistemológico. Sendo que, no fim das contas, aprendemos enormemente e tivemos a impressão de estarmos apenas conversando descompromissadamente. Quiçá outros professores pudessem guardar tanto conhecimento, capacidade de síntese e aplicabilidade filosófica para o mundo real.
Críticas ou sugestões sobre este texto são bem-vindas.
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Resumo
Neste trabalho apresento brevemente a gênese do pensamento evolutivo, abordando rapidamente a visão biológica aristotélica, passando na Roma antiga por Galeno e discutindo com mais enfoque a visão difundida na Europa a partir do século XVI. Discuto mais extensamente as contribuições de Buffon, Lamarck e Darwin para a história do pensamento evolutivo, apresentando partes de textos originais destes autores. Embora descreva trabalhos de outros naturalistas da época, certamente a extensão deste trabalho deixa muitos importantes pesquisadores de fora desta análise. Após um breve relato histórico sobre a evolução do pensamento evolutivo, discuto também com brevidade algumas questões epistemológicas relevantes a aspectos sociológicos, históricos e científicos importantes para a aceitação ou não das teorias apresentadas à época que forma originalmente expostas. Argumento basicamente que a teoria da evolução já havia alcançado uma profunda extensão em Lamarck e que possivelmente seu trabalho tenha sido ofuscado pelo enorme trabalho de Buffon, um filósofo natural de grande renome em sua época. A importância de Darwin, entretanto, não deve ser diminuída, considerando que ele apresentou avanços significativos na forma como entendemos e observamos o processo evolutivo; principalmente através do conceito iluminador sobre a ancestralidade comum dos organismos.
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A gênese do pensamento sobre os seres vivos
Antes de iniciarmos a história da evolução, é interessante observarmos brevemente a gênese do pensamento biológico
per se. Costuma-se considerar Aristóteles (384-322 AC) como o pai das ciências biológicas modernas. Embora antes dele outros filósofos gregos tenham pensado de alguma forma sobre as ciências biológicas, tanto Hipócrates quanto Platão (Timaeus) haviam entendido e especulado sobre a biologia segundo um aspecto mais médico, ligado ao corpo humano, à sua anatomia e a problemas fisiológicos ou patológicos. Parece ter sido de fato Aristóteles quem primeiro considerou a investigação da natureza e dos seres vivos de forma mais extensa e com um nível de sofisticação tal que só foi suplantado no século XVI [1].
O filósofo grego Aristóteles (384–322 AC), um dos primeiros grandes pensadores da história natural. Publicou os livros "A história dos animais", "Geração dos animais" e "Partes dos animais". Aristóteles classificadas os animais em níveis de complexidade crescente e tinha uma visão finalista (teleológica) do processo evolutivo; tais visões são hoje consideradas incorretas.
O método de pesquisa em biologia de Aristóteles consistia em duas partes: uma supostamente
descritiva e outra de cunho claramente
interpretativo. Possivelmente acreditando em um ideal que seria levado a cabo com mais vigor na primeira metade do século XX pelos filósofos do Círculo de Viena, que como Carnap acreditavam na possibilidade de produção de uma linguagem científica puramente descritiva [2], Aristóteles parecia separar suas obras descritivas de suas obras interpretativas com um certo zelo, diferenciando explicitamente o “
conhecimento do fato” do “
conhecimento da razão do fato”. Hoje em dia, entretanto, já pudemos entender que mesmo um conhecimento que se pense essencialmente descritivo carrega, inevitavelmente, uma grande dose interpretativa derivada tanto de nossa linguagem quanto de nossa crença enraizada em determinados paradigmas tidos como corretos no instante de nossa descrição dos fatos.
Nos primeiros capítulos de sua obra “
História dos animais”, o pensador grego aborda as similaridades e diferenças entre os animais para posteriormente poder se questionar sobre as causas dos padrões observados. De uma forma um tanto quanto latente, já é entretanto possível encontrar o pensamento evolutivo na biologia de Aristóteles.
Ele sabia que nem todo o grupo de organismos que definisse através de determinadas características poderia ser considerado um tipo teórico significativo e ele sabia que a definição de grupos permitia identificar quais predicações poderiam ser consideradas como “
básicas” ou “
derivadas”. Assim, aquele que foi aluno de Platão até a morte de seu tutor, percebia que a observação de um
conjunto particular de caracteres compartilhados era mais importante para o agrupamento de animais em determinados tipos do que a utilização de apenas um ou outro caracter: como a presença de asas, por exemplo. Além disso, ele percebia que determinados tipos naturais, tais como os peixes ou pássaros, podiam ser entendidos por apresentarem algo que ele chama de uma
natureza comum. O principal objetivo de Aristóteles, em seus livros de cunho interpretativo, parece ser relacionar a presença de determinados órgãos observados em certos animais com suas funções biológicas: onde ele conclui que
animais que apresentam nariz, também apresentam faringe e pulmão e que tais órgãos estão relacionados ao processo da respiração. Assim, o filósofo grego apresenta explicações de cunho finalista (teleológico) para a presença de determinados órgãos internos e externos de animais.
Aristóteles, portanto, está mais interessado na chamada
biologia geral do que na biologia comparativa. Ele tenta explicar a locomoção animal, a respiração, o desenvolvimento embrionário, o dormir e o acordar, a vida e a morte; e esses são todos temas da chamada biologia geral. A biologia comparativa tenta encontrar diferenças entre os animais e explicar a razão dessas diferenças. O que o pai da biologia faz em suas obras é basicamente tentar explicar mecanismos relacionados com a vida utilizando a biologia comparativa, mas sem ter a diferença entre os organismos como foco de seu trabalho. Seu foco principal parece ser o entendimento sobre os processos da vida, não exatamente sobre a diferença entre os organismos.
A classificação dos animais feita por Aristóteles, entretanto, era tida como correta até meados do século XIX. O grego separou os animais entre aqueles que tinham ou não tinham sangue, o que corresponderia aproximadamente hoje à distinção entre vertebrados e invertebrados. Os animais com sangue ainda foram separados entre os que abrigam a vida em seu interior contra aqueles que produziam ovos. Sua classificação dos invertebrados em insetos, crustáceos e moluscos é dita ainda mais moderna do que a classificação feita por Lineu mais de um milênio depois dele. (Lineu dividiu os invertebrados apenas em insetos e vermes.)
A era pré-Lamarckiana
Além de Aristóteles, o médico romano Claudius Galeno (129-200 DC) também foi um pioneiro na área da medicina e da anatomia e seus escritos influenciaram o currículo médico até o século XVI [4,5]. Foi apenas por volta de 1530 que o também médico e anatomista Andreas Vesalius (1514-1564) retomou os trabalhos de Galeno em seus estudos na Universidade de Paris. Apenas quando se mudou para a Universidade de Pádua foi que Vesalius pôde dissecar corpos por si mesmo para mostrar a seus estudantes detalhes finos da anatomia humana. E assim ele foi capaz de identificar uma grande quantidade de erros nos trabalhos de Galeno, erros estes que vinham provavelmente do fato de que, na Roma antiga, Galeno não tinha a permissão para estudar cadáveres humanos. De fato, os trabalhos de Galeno eram realizados principalmente com bios e macacos; seus estudos em humanos eram provavelmente inferidos a partir de operações que realizava, onde era capaz de observar sem muito detalhe a estrutura interna dos corpos de seres humanos [5].
Ardreas Vesalius (1514-1564) foi um médico e anatomista belga, autor de um dos livros mais clássicos sobre anatomia humana, "De humani corporis fabrica". Suportava o estudo das dissecações em paralelo, onde um corpo humano era dissecado ao lado de corpos de animais para observar as diferenças e semelhanças; fundou assim também a anatomia comparativa.
Vesalius publicou sete volumes do livro
De humani corporis fabrica (A fábrica do corpo humano), comumente conhecido como
a Fábrica, inaugurando uma nova tradição anatômica na Europa, onde os anatomistas eram incitados a realizar suas próprias observações e a explorar com mais detalhes o corpo humano. Com relação ao pensamento evolutivo, os trabalhos realizados por Vesalius com animais e humanos, ou seja, seus estudos de anatomia comparativa, inevitavelmente sugeriam que os humanos deveriam ser, de fato, apenas mais uma espécie dentre várias outras espécies de animais, apresentando, como qualquer outra, particularidades anatômicas a serem estudadas e entendidas [5,6].
Negando a autoridade de Aristóteles e Galeno, cada vez mais europeus começaram a estudar os animais e o homem a partir do século XVII. O médico inglês William Harvey (1578-1657) descobriu no início deste século que o coração bombeava sangue para o corpo através de um circuito fechado [7], desenvolvendo as idéias iniciais de Descartes (1596-1650) que dizia que as artérias e veias carregam substâncias nutritivas pelo corpo [8]. Trabalhando na metade do século XVII, o inglês Robert Hooke (1635-1703) publicou um livro chamado
Micrographia, apresentando observações microscópicas e foi o primeiro a cunhar o termo célula [9].
A esta época, os religiosos começaram a se amedrontar com o fato de que uma
visão mecanicista da natureza e do homem – que começava a ser visto como uma máquina formada de partes que funcionavam em um conjunto organizado – pudesse incitar o pensamento ateísta e foi então que surgiu o movimento conhecido como
teologia natural. Muitos naturalistas da época eram também teólogos e eles passaram a acreditar que deus havia criado o mundo de forma que ele pudesse ser entendido por criaturas racionais. Assim, ao estudar os organismos, os naturalistas estariam estudando a obra divina e essa era a essência do pensamento dos teólogos naturais que, ao estudarem a natureza, estariam ao mesmo tempo estudando os desígnios divinos [7]. Diz-se que a teologia natural foi precocemente descrita por Santo Agostinho (354-430), embora tenha sido retomada no contexto europeu moderno por John Ray (1627-1705) e desenvolvida posteriormente por William Paley (1743-1805) [10]. Diz-se que a teologia natural ajudou o avanço das ciências biológicas no sentido em que permitia aos clérigos estudar a biologia sem que isso entrasse em contradição com suas crenças [7,10]. Embora isso seja provavelmente verdade, é de se imaginar que a busca por explicações não metafísicas e a total independência da pesquisa com relação à religião teria acelerado ainda mais o entendimento dos processos biológicos.
É interessante notar que também como a paleontologia nascia na Europa do século XVII. Conta-se a história de dois pescadores que encontraram um tubarão gigante na costa da Itália; este tubarão foi então levado para ser avaliado pelo anatomista dinamarquês
Nicolas Steno (1638-1686) que, ao realizar seus estudos, percebeu que os dentes do animal eram idênticos a um tipo de pedra conhecido desde tempos remotos: as pedras-língua (tongue stones) [11]. Steno, ao contrário de outras autoridades que, como Plínio, diziam que as pedras-língua haviam caído do céu ou da Lua, sugeriu que as pedras eram provenientes de dentes de tubarões que haviam vivido no passado. Assim, através da utilização de uma teoria corpuscular da matéria existente à época (um tipo de atomismo), Steno supôs que o tempo havia transformado os dentes dos tubarões em pedras através de substituições do conteúdo corpuscular (molecular) do dente, passo a passo [12]. O pesquisador começou então a avaliar os sedimentos rochosos e sugeriu que as rochas e minerais haviam sido um dia líquidos e que iam se depositando aos poucos na forma de pedra, de forma que os sedimentos mais antigos ficavam em rochas mais fundas e os sedimentos superiores representavam deposições mais recentes. Assim, Steno criou sua “lei da superposição” de rochas através de camadas horizontais e sugeriu, como outros de seus contemporâneos já citados (Hooke e Ray), que os fósseis eram oriundos de organismos que haviam vivido no passado [11, 12].
As chamadas pedra-língua eram encontradas no litoral da Itália no século XVII e tidas como caídas dos céus. O dinamarquês Nicolas Steno foi o primeiro a cogitar que elas seriam resultados da calcificação de dentes de tubarões vivendo no passado. Ele é considerado como o pai da geologia e da estratigrafia.
Outro importante desenvolvimento da biologia no século XVII, foi a apresentação de um sistema natural de classificação hierárquica dos seres vivos, realizada pelo sueco
Carolus Linnaeus (1707-1778) [13]. Linnaeus sempre fora interessado por botânica e quando foi trabalhar na Universidade de Uppsala, por volta de 1729, quis estabelecer um sistema artificial de classificação de plantas. Em 1935, ele se mudou para a Holanda, onde mostrou a um botânico local um rascunho de seu trabalho sobre taxonomia e neste mesmo ano um trabalho de
11 páginas foi publicado com o nome de
Systemae Naturae [14]. Neste trabalho, Linnaeus dividia o mundo natural em três reinos: o reino animal, vegetal e mineral, e classificava os elementos que teriam sido colocados na Terra pela criação divina. O trabalho de sistematização taxonômica de Linnaeus foi se tornando mais complexo à medida que novas edições eram publicadas e a última e décima terceira edição de seu Systemae Naturae, publicado em 1770, possuía cerca de 300 páginas. A décima edição desta obra (1758) foi particularmente interessante, pois foi onde Linnaeus percebeu que
as baleias haviam sido incorretamente classificadas como peixes – agora elas passavam para o grupo dos mamíferos – e foi onde também ele sugeriu a
classificação binomial também para os animais, coisa que havia sugerido inicialmente apenas para as plantas [15]. Este trabalho foi extremamente importante pois antes dele eram realizados trabalhos com uma
nomenclatura irregular e, além de nomear os organismos de forma adequada, Linnaeus também os dividiu em grandes grupos, como os gêneros, ordens, classes e reinos – colocando nos mesmos grupos aqueles animais que apresentam características em comum [13,15]. E embora Linnaeus não tivesse percebido as implicações evolutivas de sua classificação, uma vez que os organismos estavam classificados em grupos por similaridade, era mais fácil perceber que as características comuns apresentadas por certos grupos provavelmente deveriam estar relacionadas à ancestralidade comum entre eles.
A grande obra precursora da classificação moderna dos seres biológicos. Publicada pela primeira vez em 1735 em 11 páginas por Carolus Linnaaeus, a obra dividia a história natural em 3 reinos: plantas, animais e minerais. A classificação incorreta de Lineu ainda é ensinada em muitas escolas. Lineu jamais percebeu a clara noção evolutiva de seu sistema classificatório, mas foi ele quem iniciou o sistema hierárquico de classificação zoológica utilizado até os dias de hoje.
Diz-se que o pensamento evolutivo propriamente dito teria se iniciado com o filósofo naturalista francês
Georges-Louis Leclerc, o conde de Buffon (1707-1788). Buffon de fato escreveu uma enorme enciclopédia do mundo natural "
Histoire naturelle, générale et particulière" (História natural, geral e particular), onde ele pretendia incluir todo o conhecimento sobre o mundo natural até a data de publicação de sua obra [16]. A obra apresentou 36 volumes até a morte de Buffon, além de 8 volumes extras publicados postumamente e, enquanto o primeiro volume tratava da origem da Terra, dos mares e dos lagos, os volumes posteriores tratavam extensivamente da história natural dos diversos grupos de animais [17]. No volume 3 de seu livro, "
A História Natural do Homem", Buffon compara extensivamente comportamentos e propriedades biológicas do ser humano com relação a atitudes realizadas por animais, falando claramente do homem como um animal. Em uma passagem, Buffon chega a comentar [18]:
Mas como o homem não é um simples animal e sua natureza é superior à dos outros animais, devemos tentar investigar a causa desta superioridade de forma que possamos ser capazes de distinguir o que é peculiar a ele [o homem] e o que ele posssui em comum com os outros seres animados.
Buffon, Natural History: General and Particular, Book 3, The Natural History of Man (pag. 208) (obtido em http://faculty.njcu.edu/fmoran/vol3dissertation1.htm)
Em outra passagem do livro 2 “A história natural dos animais”, Buffon escreve:
“(…) ainda que todas as realizações do Onipotente sejam em si mesmas igualmente perfeitas, os seres animados, de acordo com nosso modo de percepção, são os mais completos; e o homem é o mais bem finalizado e perfeito animal. (…) Mas tão admirável quanto este trabalho possa parecer, o grande milagre não é exibido no indivíduo. Ele é percebido na renovação sucessiva, e na continua duração das espécies, que a Natureza assume como um aspecto ao mesmo tempo inconcebível e impressionante. Esta faculdade de reprodução, que é particular a animais e vegetais; esta espécie de unidade que sempre persiste e parece ser eterna; este poder gerador que é perpetuado em ação, deve, com relação a nós, continuar sendo um mistério tão profundo que provavelmente jamais alcançaremos seu fim.” [19]
Buffon, Natural History: General and Particular, Book 2, The Natural History of Animals (Pags. 1-2) (obtido em http://faculty.njcu.edu/fmoran/vol2art1.htm)
Aqui Leclerc apresenta um pensamento evolutivo inicial, embora a “renovação sucessiva” a que ele se refere possa apenas estar relacionada ao fato da reprodução e da manutenção das espécies, não estando relacionado à origem de novos organismos.
Continuando sua história dos animais, Buffon define quatro níveis hierárquicos de organização natural: (1) o homem, animal perfeito; (2) os animais “brutos”; (3) os vegetais e (4) os minerais e discute as inter-relações entre todos os níveis de organização, identificando os caracteres compartilhados entre os níveis e fazendo uma caracterização geral, principalmente dos grupos animais e vegetais. O conde de Buffon ainda recupera a visão de Aristóteles, Hipócrates e Galeno sobre a
reprodução como sendo resultante de uma mistura de fluidos e discute sobre a presença de fluidos internos nas fêmeas com relação ao processo de reprodução ou se apenas os machos possuíam o que ele chama de
princípio prolífico (Natural History: General and Particular, Book 2, The Natural History of Animals, pags. 70-85).
Outras leituras da história natural dos animais de Buffon deixam claro que o naturalista francês não tinha uma visão muito clara do processo evolutivo. Entretanto, alguns aspectos do processo evolutivo pareciam claros para Buffon, como se pode perceber a seguir:
“Ainda que as espécies de animais sejam separadas umas das outras por um intervalo que a Natureza não pode sobrepor; ainda assim algumas espécies parecem tão próximas às outras e suas relações mútuas são tão numerosas que um espaço é apenas deixado como uma linha estreita de distinção.” [20]
Buffon, Natural History: General and Particular, Book 3, The Natural History of Man, The Natural History of Goat (Pag. 484) (obtido em http://faculty.njcu.edu/fmoran/vol3goat.htm)
Como todo bom naturalista, Buffon havia percebido que em muitos grupos animais a variação que diferencia as espécie podia ser mais bem entendida como um contínuo do que como uma série de eventos um tanto quanto afastados uns dos outros. Isso está de acordo com o que se diz sobre ele acreditar na lei da continuidade de Gottfried Leibniz (1646-1716), que dizia que a natureza não dá saltos:
natura non facit saltus, embora o alemão acreditasse que devido à ausência de saltos, os animais não poderiam ser arbitrariamente classificados em determinadas categorias. (Como veremos a seguir, Lamarck também era adepto desta visão.)
Embora tivesse gastado boa parte de sua vida escrevendo sua
História Natural, percebe-se claramente que Buffon pode ser classificado mais como um
filósofo natural do que como um naturalista. Suas opiniões e idéias tratam sempre de princípios gerais – como a reprodução, o crescimento, a nutrição, os sentidos, a infância, a puberdade, etc. – sobre os animais e ele não parece ter conduzido experimentos com a extrema cautela característica do trabalho científico durante a produção de uma obra de cunho excessivamente holístico. Suas idéias, embora sempre argumentadas, às vezes parecem um tanto quanto vagas, pouco informativas e distantes da realidade. Alguns trechos abaixo exemplificam essa característica de seus trabalhos:

Georges-Louis Leclerc, o conde de Buffon (1707–1788) foi o maior naturalista francês do século XVIII. Tendo publicado 36 volumes da obra "História Natural", Buffon gozou de grande renome na sociedade de intelectuais franceses de sua época e publicou informações sobre praticamente todos os grupos animais conhecidos à época. Suas obras eram tão difundidas quanto as de Voltaire e Rousseau.
“O cão, independentemente da beleza de sua figura, sua força, vivacidade e agilidade, possui toda excelência interna que atraia a consideração do homem. Um temperamento apaixonado ou mesmo um temperamento feroz e sanguinário, torna o cão selvagem formidável com relação a todos os animais.” [21]
Buffon, Natural History: General and Particular, Book 4, The Natural History of Dog (Pag. 1) (obtido em http://faculty.njcu.edu/fmoran/subjects4a.htm)
“O lobo, tanto externamente e internamente, tem uma semelhança tão grande com o cachorro que parece ter sido formado a partir do mesmo modelo. Mas ele exibe as mesmas características sob uma mascara. A figura é parecida, mas o resultado é diretamente revertido.” [22]
Buffon, Natural History: General and Particular, Book 4, The Natural History of Wolf (Pag. 196-7) (obtido em http://faculty.njcu.edu/fmoran/subjects4a.htm)
“A girafa é um dos maiores e mais bonitos quadrúpedes: sem ser nocivo, ele é ao mesmo tempo extremamente inútil. A enorme desproporção de suas pernas, as quais as anteriores são o dobro em tamanho das posteriores, inibem-no de exercer seus poderes. Seu corpo não tem estabilidade, ele tem um tem um jeito desconcertado e seus movimentos são lentos e confinados.” [23]
Buffon, Natural History: General and Particular, Book 7, The Natural History of the Giraffe, or Camelopard (Pag. 109) (obtido em http://faculty.njcu.edu/fmoran/subjects7a.htm)
“O sentido da visão não nos permite ter idéia das distâncias. Sem a ajuda do tato, todos os objetos pareceriam estar dentro do olho, porque é lá apenas onde as imagens existem. E um feto animal, que não tenha nenhuma experiência de tato, deve considerar todos os corpos externos como existindo dentro dela. Eles aparecerão apenas maiores ou menores conforme se aproximem ou afastem do olho.” [24]
Buffon, Natural History: General and Particular, Book 3, The Natural History of Man, On The Sense of Seeing (Pag. 5-6) (obtido em http://faculty.njcu.edu/fmoran/subjects3.htm)
Apesar disso, ainda que em uma escala menor, Buffon acreditava nas mudanças das espécies de acordo com características ambientais, como demonstrado pelo seguinte trecho:
“Onde quer que o homem comece a alterar seu clima e a migrar de um país a outro, sua natureza está sujeita a várias alterações. Em países temperados, que supomos adjacentes ao local onde ele foi originado, essas alterações têm sido bem ligeiras; mas elas aumentam em proporções quando ele se afasta desta localização” [25]
Buffon, Natural History: General and Particular, Book 7, Treatise on the Degeneration of Animals (Pag. 391) (obtido em http://faculty.njcu.edu/fmoran/vol7degeneration.htm)
O caso do lobo mostrado acima, evidencia como
Leclerc acreditava na existência de alguns moldes básicos que teriam se modificado dando origem às espécies existentes. Buffon, portanto, embora tenha entendido diversos fatores responsáveis pelo processo evolutivo, como a importância da migração, não os explicitou de uma forma direta e concisa. Assim, fatores relacionados à evolução dos seres vivos permaneceram diluídos em meio à sua gigantesca obra. Uma vez que a evolução é o que dá sentido para entendermos as relações de parentesco entre os seres vivos; e dado que Buffon escreveu sobre a história natural de centenas de organismos sem abordar explicitamente a evolução, conclui-se que ele não foi, de fato, um evolucionista, como muitas vezes se supõe. Assim, talvez, a citação de Darwin a Buffon ao dizer logo na primeira página de “
A origem das espécies” – doravante citado como Origem – que o filósofo natural francês tenha sido o primeiro a tratar a evolução segundo espírito científico, deveu-se mais a um aspecto sociológico – devido à importância do naturalista em sua época, onde seus escritos eram tão difundidos quanto os de Voltaire e Rousseau –, do que realmente a um fator direto e científico, relacionado ao contexto da justificação. Na primeira página da Origem, Darwin relata:
“Some few naturalists (...) have believed that species undergo modification, and that the existing forms of life are descendants by true generation of pre-existing forms. Passing over allusions to the subject in the classical writers, the first author who in modern times has treated it in a scientific spirit was Buffon.”
“Alguns poucos naturalistas (...) têm acreditado que as espécies passam por modificações e que as formas de vida existentes são descendentes através de formas pré-existentes por intermédio de geração regular. Pondo de lado as alusões que, a tal respeito, se encontram nos autores clássicos, Buffon foi o primeiro que, nos tempos modernos, tratou este assunto com espírito científico.”
Darwin, The Origin of Species, An Historical Sketch pag. 1.
Como vimos, Buffon apenas relata pequenos processos de mudança que, embora pudessem ser entendidos num contexto contrário ao fato de que as espécies tivessem sido colocadas por deus na Terra em caráter fixo, jamais poderiam corroborar com a extensão da mudança evolutiva como sugerida por Darwin e Lamarck. Neste primeiro capítulo da Origem (
A historical sketch), portanto, Darwin reúne um conjunto de citações de outros naturalistas da época que, ainda que perdidas em meio a um conjunto enorme do trabalho dos outros autores, de alguma forma verificavam suas idéias sobre a mutabilidade das espécies ao longo das gerações. Mas passamos aqui o carro na frente dos bois e é hora de voltar a um personagem muito importante na história do pensamento evolutivo e que, além de Aristóteles e Buffon, também é citado diretamente na primeira página da
Origem.
A gênese do pensamento evolutivo
Embora freqüentemente tido como vilão da história do pensamento evolutivo, já passa da hora de dar um crédito definitivo ao francês Jean-Baptiste de Monet, o cavaleiro de Lamarck (1744-1829).
O naturalista foi de fato o primeiro a considerar a evolução dos organismos de uma maneira séria e a criar uma teoria abrangente e concisa para explicar a origem e a modificação dos organismos ao longo do tempo. Lamarck nasceu no norte da França e participou cedo em sua vida em uma Guerra contra a Alemanha (1761). Quando a paz foi declarada, Lamarck mudou-se para o sul da França, onde ainda atuou no exército até que um ferimento o forçou a deixar a instituição. Assim, ele se mudou para Paris, onde depois de trabalhar por algum tempo em um banco, começou a estudar medicina e botânica, assunto em que logo se tornou um especialista. Em 1778 publicou, com sucesso, um livro chamado
"Flore française", que teve o apoio de Buffon para a publicação. Assim, com o sucesso do livro e a ajuda do filósofo natural, Jean-Baptiste de Monet foi contratado como botânico assistente no Jardim das Plantas (o jardim botânico real da França), que era na verdade um centro para a pesquisa médica e biológica. Lamarck viveu na pobreza até 1793, quando Louis XVI e Marie Antoniette foram para a guilhotina e então o Jardim das Plantas teve seu nome modificado para "
Musée National d'Histoire Naturelle", onde o naturalista se tornou um dos 12 professores indicados para reorganizar o museu. Ele trabalharia, então, com a história natural de um grupo de organismos muito pouco estudado à época: os insetos e os vermes, que foram batizados pelo francês de “invertebrados” [26].
Seu trabalho mais aclamado, onde ele expõe suas idéias sobre evolução é o livro "
Philosophie Zoologique", publicado em 1809. Logo no prefácio, o protegido de Buffon mostra o caráter teleológico de sua obra,
evidenciando acreditar em um tipo de escala de sucessão na natureza, onde os organismos tenderiam a passar de mais simples a mais complexos, de mais imperfeitos a mais perfeitos e diz que é esse desenvolvimento gradual que pretende estudar. Para isso, ele verifica que pretende estudar as causas das mudanças na escala da vida animal e apresenta duas idéias que explicariam a forma como as mudanças nos organismos se processariam: primeiramente, portanto, ele descreve pela primeira vez a idéia de
uso e desuso, onde a utilização sustentada de determinados órgãos fortaleceria-os e os tornaria maiores, enquanto a falta de uso dos mesmos iria gradualmente diminuindo-os até que eles desaparecessem por completo. Sua segunda idéia diz respeito ao
poder da movimentação dos fluídos nos organismos, onde ele acredita que o aumento dos fluidos e de sua velocidade de movimento seriam fatores importantes para gerar complexidade nos organismos vivos; uma idéia que parece ter sido refutada e completamente esquecida. Ainda no prefácio, o cavaleiro de Lamarck diz que pretende também estudar o sistema nervoso e as maneiras segundo as quais os animais usam suas condições para serem capazes de sentir o meio ambiente ao seu redor através de propriedades de um possível fluido nervoso.
Ao estudar as sensações dos animais, o naturalista francês conclui que os movimentos de sensação dos animais não são uma forma de comunicação e sim uma forma de estímulo que o ambiente empresta aos organismos de forma a estimular movimentos e ações em animais imperfeitos. Tais movimentos e ações permitiriam um aumento na complexidade desses animais e trariam um poder de transformação para dentro dos organismos, permitindo-se colocar este poder à disposição do indivíduo e verificando a aquisição de novidades de acordo com o ambiente [27]. Para Lamarck, portanto, o ambiente influencia diretamente as modificações na estrutura dos animais de forma a gerar uma maior "adaptação". Embora não se fale em seleção natural com relação à teoria lamarckiana,
o erro de Lamarck não foi o de não prever a seleção natural e sim o de reunir a seleção natural – ou seja, os efeitos do ambiente – à origem da variação. O que Lamarck não conseguiu enxergar, talvez por ter pouca experiência em realizar cruzamentos entre animais, é que
a variação surge aleatoriamente, e não é dirigida pelo ambiente. (Vale notar que mesmo Darwin não conseguiu entender de forma precisa este problema e embora suas observações comumente seguem em direção à aleatoriedade da variação, quando teoriza racionalmente, Darwin continua a utilizar o pensamento lamarckista do uso e desuso, um argumento que só foi realmente refutado no fim do século XIX com Weissman. De fato, diz-se que a primeira edição da Origem é justamente mais moderna que a sexta e última edição pois Darwin foi ao longo do tempo aceitando as críticas de seus contemporâneos e lamarckizando sua teoria no sentido incorreto.)
Mais para o fim de seu prefácio, o naturalista francês escreve em sua filosofia zoológica, sem qualquer modéstia, que os fatos que irá apresentar com relação aos “
seus estudos sobre animais, suas características gerais e particulares, sua estrutura orgânica, as causas de seus desenvolvimentos e diversidade e as faculdades que eles adquiriram (...) são numerosos e confiáveis, e as conclusões derivadas [dessas observações] parecem ser apropriadas e necessárias, de forma que estou convencido da dificuldade de trocá-las por outras melhores”. Sabendo da dificuldade de aceitação de suas novas idéias, Jean-Baptiste de Monet comenta:
“Quelquefois, néanmoins, d’excellentes vues et des pensées solides, sont (...) rejetées ou négligées. Mais il vaut mieux qu’une vérité, une fois aperçue, lutte long-temps sans obtenir l’attention qu’elle mérite, que si tout ce que produit l’imagination ardente de l’homme étoit facilement reçu.” 27
“Algumas vezes, entretanto, algumas opiniões excelentes e idéias sólidas são (...) rejeitadas ou neglicencidas. Mas é melhor que a verdade, uma vez percebida, lute por um bom tempo sem obter a atenção que merece do que aceitar que qualquer coisa produzida pela fértil imaginação humana seja facilmente aceito”
Jean-Baptiste Lamark, Philosophie Zoologique, Avertissement (obtido em http://fr.wikisource.org/wiki/Philosophie_zoologique%2C_Avertissement)
Lamarck termina, portanto, seu prefácio, com uma reflexão epistemológica. Ele diz que “
não existem verdades confiáveis para os seres humanos”, embora afirme que os fatos empíricos e observações não possam ser negadas. Como Aristóteles, mais uma vez, percebe-se que os
cientistas são mesmo inclinados a desconsiderar um claro cunho interpretativo de suas observações. Talvez, entretanto, eles queiram realmente dizer que os fatos observáveis estejam menos sujeitos a interpretações baseadas no paradigma corrente do que, evidentemente, suas teorias, opiniões, idéias, além da predição de conseqüências futuras. “
Apesar disso,” diz Lamarck, “tudo é incerto, ainda que algumas conseqüências, teorias, opiniões e assim por diante mostrem-se muito mais prováveis que outras.” Ele continua:
“(...) les pensées, les raisonnemens, et les explications dont on trouvera l’exposé dans cet ouvrage, ne devront être considérés que comme de simples opinions que je propose, dans l’intention d’avertir de ce qui me paroît être, et de ce qui pourroit effectivement avoir lieu.” 27
“(…) os pensamentos, as cadeias de raciocícios e as explicações que são apresentadas neste trabalho, devem ser consideradas apenas simples opiniões que proponho com a intenção de indicar o que me parece acontecer, e que pode efetivamente ser o caso.”
Jean-Baptiste Lamark, Philosophie Zoologique, Avertissement (obtido em http://fr.wikisource.org/wiki/Philosophie_zoologique%2C_Avertissement)
Lamarck ainda incentiva aquelas pessoas que gostam do estudo da natureza a seguir e tentar estudar mais a história natural com o intuito de verificar suas teorias, verificando quais de suas conclusões serão julgadas mais aceitáveis pelos biólogos e
termina o prefácio dizendo que terá alcançado seu objetivo caso as idéias de seu livro venham a se mostrar interessantes ou úteis para aqueles que amam o estudo da natureza. Certamente, seu objetivo foi coroado com enorme êxito.
Em seguida ao prefácio, Lamarck apresenta um discurso preliminar [29] que é uma declaração de amor à zoologia e à pesquisa científica. “
De fato, o que pode ser mais interessante na observação da natureza do que o estudo dos animais, e então pensar sobre as conexões entre suas estruturas e as estruturas dos seres humanos, sobre o poder de seus hábitos, formas de vida, climas e ambientes que precisam modificar seus órgãos, faculdades, suas características (...)”. Segue então comentando que o estudo dos animais e da ordem através da qual eles aparecem na natureza – uma frase de claro cunho evolucionista – pode nos permitir entender a origem das faculdades que eles apresentam como um notável progresso estrutural e de desenvolvimento. Em seguida, Lamarck argumenta sobre o fato de que o físico e o moral originam-se, de fato, em uma mesma coisa, embora ele pense que não se tenha ainda dado atenção suficiente à influência do moral no físico. O autor comenta também neste discurso preliminar que “
Com relação aos corpos que vivem, a natureza tem feito tudo gradual e sucessivamente, e não há mais dúvida possível quanto a isso”, evidenciando que o
gradualismo dito darwiniano já estava presente em sua obra.
Talvez o grande problema de Lamarck tenha sido o de -- como Aristóteles 2000 anos antes -- acreditar na chamada “
cadeia dos seres”, onde os seres menos complexos (ou derivados) eram tidos como inferiores e os seres mais complexos eram tidos como superiores, com o homem representando o ápice desta cadeia natural. É possível que o trabalho de Jean-Baptiste de Monet não tenha sido visto como extensamente revolucionário para a sociedade da época justamente porque, mesmo aceitando a evolução e a modificação de todas as formas, ele considerava o homem como o cume de um movimento gerador de complexidade. Esta observação antropocêntrica é bem característica do pensamento do início do século XIX.
Lamarck então apresenta um pequeno resumo do método segundo o qual ele acredita que a ciência progrida e segundo o qual podemos adquirir um conhecimento ao máximo coordenado que pudermos, apresentando tanto aspectos metodológicos da pesquisa quanto a rigidez dos estudos empíricos. Em geral, Lamarck apresenta suas teorias pragmáticas sobre a ciência, ou seja, tenta nos convencer como ele acredita que a pesquisa científica deva ser conduzida. Ele diz ainda que não devemos nos guiar por nenhum método que restrinja ou limite nossas idéias. Finalmente, ele descreve as
três partes em que são constituídas seu livro: uma primeira parte mais epistemológica, onde ele irá discutir o que ele chama de “partes artísticas” das ciências e evidenciará seu método de pesquisa; uma segunda parte onde ele dissertará sobre a ordem e a condição das coisas que criam a essência da vida animal; e uma terceira parte que tratará de sua opinião sobre as causas dos sentimentos, o poder da ação e os atos de inteligência de certos animais. [29]
No primeiro capítulo de sua obra, portanto, o naturalista francês discorre sobre o que é fazer ciência e, ainda em 1809, já percebe a importância das práticas sociais da ciência ao reconhecer como um dos três fatores importantes para a aquisição de conhecimento
a capacidade de se comunicar e trocar conhecimento entre colegas. O evolucionista também percebe a relevância de aspectos econômicos para o avanço das ciências e considera que o verdadeiro naturalista é aquele que apresenta um interesse filosófico em entender a natureza.
Jean-Baptiste Pierre Antoine de Monet, Chevalier de Lamarck (Bazentin, 1 de agosto de 1744 — Paris, 28 de dezembro de 1829) foi o primeiro naturalista a defender seriamente uma ampla e moderna teoria da evolução, teorizando sobre a hereditariedade e o surgimento de mutações. Foi ele quem primeiro teve a idéia da relação do ambiente com os organismos e, portanto, a idéia de adaptação que culminaria posteriormente na seleção natural. Segundo alguns foi ele que, de fato, introduziu o termo biologia.
O cavaleiro de Lamarck foi, portanto, um exímio
filósofo da biologia e que olhava para a natureza já com as questões do tipo “porquê” com que Darwin posteriormente também olhou, talvez com mais cuidado. Como poeta, Lamarck evidencia seu amor à vida e ao estudo das ciências; como epistemólogo, mostra-se preocupado em definir uma metodologia apropriada das ciências e evidenciar o aspecto interpretativo de seu trabalho; como evolucionista, as passagens mostram o quanto sua teoria era complexa por pensar (i) o gradualismo, (ii) a artificialidade dos sistemas de classificação e (iii) a continuidade apresentada pela natureza. Vale ainda notar que a artificialidade da classificação animal e a extensa continuidade das formas de vida como entendidas por Lamarck pode estar relacionado ao fato de que ele aceitava a extinção apenas para determinadas formas – a existência de grandes extinções só veio a ser um assunto aceito depois de extensos trabalhos de seu contemporâneo, Georges Cuvier. Vejamos alguns trechos:
“En effet, le défaut de règles convenues, relatives à la formation des genres, des familles et des classes mêmes, exposant ces parties de l'art à toutes les variations de l'arbitraire (...)” 30
“De fato, devido à falta de consenso com relação às regras para a formação de gêneros, famílias e mesmo classes mostra que essas práticas artísticas estão sujeitas a todas as formas de variações arbitrárias (...)”
Jean-Baptiste Lamark, Philosophie Zoologique, chapitre premier, Des Parties de l'Art dans les productions de la Nature (obtido em http://fr.wikisource.org/wiki/Philosophie_zoologique%2C_Premi%C3%A8re_Partie%2C_Premier_Chapitre)
“Si l'on eut considéré que toutes les lignes de séparation que l'on peut tracer dans la série des objets qui compose un des règnes des corps vivans, sont réellement artificielles, sauf celles qui résultent des vides à remplir, cela ne fut point arrivé.” 30
“Se considerássemos que todas as linhas de separação que podem ser traçadas entre as séries de objetos que compõem o reino dos seres vivos são artificiais, salvo aquelas que resultam de buracos a serem preenchidos, nada disso [os problemas da classificação animal] estaria acontecendo.”
Jean-Baptiste Lamark, Philosophie Zoologique, chapitre premier, Des Parties de l'Art dans les productions de la Nature (obtido em http://fr.wikisource.org/wiki/Philosophie_zoologique%2C_Premi%C3%A8re_Partie%2C_Premier_Chapitre)
No início de seu terceiro capítulo, "
De l'Espèce parmi les Corps vivans, et de l'idée que nous devons attacher à ce mot" (Da especiação entre seres vivos e da idéia de que nós devemos ter sobre esta palavra), Lamarck inicia questionando o dogma vigente sobre a estabilidade das espécies:
“Ce n'est pas un objet futile que de déterminer positivement l'idée que nous devons nous former de ce que l'on nomme des espèces parmi les corps vivans, et que de rechercher s'il est vrai que les espèces ont une constance absolue, sont aussi anciennes que la nature, et ont toutes existé originairement telles que nous les observons aujourd'hui ; ou si, assujetties aux changemens de circonstances qui ont pu avoir lieu à leur égard, quoiqu'avec une extrême lenteur, elles n'ont pas changé de caractère et de forme par la suite des temps. § L'éclaircissement de cette question n'intéresse pas seulement nos connoissances zoologiques et botaniques, mais il est en outre essentiel pour l'histoire du globe.” 31
“Não é algo fútil determinar afirmativamente a idéia que devemos ter sobre o que chamamos de espécies entre os organismos vivos, e se é verdadeira a pesquisa que diz que as espécies apresentam uma constância absoluta, sendo velhas na natureza e tendo existido originalmente da forma como as observamos hoje; ou se, sujeitas às mudanças de circunstancias que aconteceram com relação a elas, ainda que extremamente lentas, [essas espécies] não mudaram suas características e formas ao longo dos tempos. § O esclarecimento desta questão não é apenas de interesse para o nosso conhecimento de zoologia ou botânica, mas é essencial para a história do nosso planeta.”
Jean-Baptiste Lamark, Philosophie Zoologique, chapitre troisième, De l'Espèce parmi les Corps vivans, et de l'idée que nous devons attacher à ce mot (obtido em http://fr.wikisource.org/wiki/Philosophie_zoologique%2C_Premi%C3%A8re_Partie%2C_Troisi%C3%A8me_Chapitre)
A
estabilidade das espécies, portanto, é atacada veementemente e em várias passagens por Lamarck, que acredita que este pensamento foi estabelecido em um tempo em que as pessoas não observavam a natureza suficientemente e quando as ciências naturais ainda eram extremamente incipientes.
“(...) mais, par la suite des temps, la continuelle différence des situations des individus dont je parle, qui vivent et se reproduisent successivement dans les mêmes circonstances, amène en eux des différences qui deviennent, en quelque sorte, essentielles à leur être ; de manière qu'à la suite de beaucoup de générations qui se sont succédées les unes aux autres, ces individus, qui appartenoient originairement à une autre espèce, se trouvent à la fin transformés en une espèce nouvelle, distincte de l'autre.” [31]
“(...) mas como o tempo passa, a diferença contínua na situação dos indivíduos que abordo, que vivem e reproduzem sucessivamente nas mesmas circunstâncias, leva a mudanças neles que se torna, de certa maneira, essencial para seu ser; de maneira que após muitas gerações que se sucedem uma após a outra, os indivíduos, que pertenciam originalmente a uma espécie, encontram-se transformados em uma espécie nova, distinta da outra.
Jean-Baptiste Lamark, Philosophie Zoologique, chapitre troisième, De l'Espèce parmi les Corps vivans, et de l'idée que nous devons attacher à ce mot (obtido em http://fr.wikisource.org/wiki/Philosophie_zoologique%2C_Premi%C3%A8re_Partie%2C_Troisi%C3%A8me_Chapitre)
Assim, o pensamento evolutivo já se mostrava excessivamente desenvolvido em Lamarck e talvez seu grande erro tenha sido um que ele não pôde evitar devido a um provável fator sócio-histórico no contexto do início do século XIX: seu antropocentrismo colocava uma ordem de complexidade inexistente na natureza (a escalada dos seres), evidenciando o homem como o ápice da criação divina; sendo que também o pensamento religioso por vezes encontrava lugar no trabalho deste
primeiro grande evolucionista.
Em tempo: outro ponto característico da idéia lamarckiana da evolução está ligada ao fato de que, para Lamarck, todas
espécies evoluem apenas dentro de sua própria linhagem. Não existe o conceito de
cladogênese no pensamento lamarckiano; existe apenas a
anagênese, ou seja, evolução dentro de linhagens. A especiação ocorre quando aquela linhagem já alcançou uma modificação tal em suas estruturas anatômicas de forma que possa agora ser chamada de outro nome pelos naturalistas. A história de cada uma das espécies existente nos dias de hoje deve ser traçada em direção ao passado diretamente:
não há o conceito de ancestralidade comum e todas as espécies existentes provavelmente teriam se iniciado como organismos unicelulares e se modificado ao longo do tempo, transformando-se e modificando-se apenas dentro de sua linhagem. Lamarck peca por não entender a questão espacial durante a evolução dos organismos, focando apenas na dimensão temporal. Além do mais, colocando o homem no
topo da escalae naturae, seria de se esperar que todas as espécies fossem se complexificando mais e mais até se tornarem um organismo como o ser humano.
Lamarck não foi capaz de se desviar deste pensamento antropocêntrico.
O período entre-gigantes
Os trabalhos de Lamarck infelizmente não tiveram tanta aceitação no meio dos naturalistas de sua época, talvez devido ao ofuscamento de suas teorias pela extensa obra quase contemporânea de Buffon, um cientista de mais renome à época. Mas enquanto seus contemporâneos pensavam na evolução apenas de um modo muito restrito, com pesquisadores como o próprio Buffon e Richard Owen, na Inglaterra, acreditando que as espécies derivavam de outras espécies “moldes”, possivelmente colocadas por deus na Terra, Lamarck já havia expandido as fronteiras do pensamento evolutivo de forma extensa. Mesmo pesquisadores vivendo uma geração depois de Lamarck – como o próprio Owen (1804-1892), que criou o conceito de “
arquétipo”, identificando o padrão geral que formava um vertebrado – normalmente não acreditavam que um possível padrão geral relativo a um grupo de animais correspondesse a um provável ancestral destes e sim a uma idéia tipológica presente na mente divina [32]. Como veremos abaixo,
St. Hilaire também tinha pensamentos similares sobre a origem das espécies.
Dois outros biólogos que trataram de alguma forma de evolução dos organismos vivos precisam ser considerados neste período entre gigantes:
Georges Cuvier e Étienne Geoffroy St. Hilaire.
Georges Cuvier (1769-1832) foi um naturalista francẽs que ressaltava a questão da presença de arquétipos anatômicos em grupos biológicos e defendia uma visão teleológica da evolução, com as estruturas anatômicas sendo formadas para realizar uma determinada função em particular. Ele também era adepto do chamado catastrofismo e teorizava sobre as extinções e o registro fóssil.
Georges Cuvier (1769-1832) nasceu em uma comunidade francesa na Alemanha e após estudar em uma escola em Stuttgart, mudou-se para a Normandia para atuar como tutor de uma família de nobres. Dessa forma, conseguiu fugir da revolução francesa e adquiriu uma posição dentro do governo local, logo começando a atuar como naturalista.
Cuvier acreditava na perfeita organização biológica em nível anatômico e, portanto, não pensava em evolução, uma vez que qualquer mudança anatômica em um organismo o desestabilizaria e o faria incapaz de sobreviver. Uma das grandes contribuições de Cuvier para a biologia evolutiva vem do fato de que ele foi o
primeiro grande partidário das extinções e sugeria que a Terra havia sido palco de inúmeras extinções e catástrofes ambientais [34]. Além disso, ele apresentava argumentos para explicar a descontinuidade do registro fóssil, mostrando que a fossilização deveria acontecer em situações específicas; do contrário a decomposição dos animais os faria invisíveis para a posteridade.
“That catastrophe also left in the northern countries the cadavers of great quadrupeds locked in the ice, preserved right up to our time with their skin, hair, and flesh. If they had not been frozen as soon as they were killed, decay would have caused them to decompose.” 35
“Aquela catástrofe [ele provavelmente se refere ao dilúvio] também deixou nos países nórdicos os cadáveres dos grandes quadrúpedes presos no gelo, preservados até os nossos tempos com sua pele, cabelo e corpo. Se eles não tivessem sido congelados, tão logo tenham morrido, pois o decaimento os teria feito decompor-se.”
Georges Cuvier, Discourse on the revolutionary upheavals on the surface of the globe and on the changes which they have produced in the animal kingdom (obtido em http://www.victorianweb.org/science/science_texts/cuvier/cuvier-e.htm)
Talvez por dar grande importâncias às formas anatômicas, o barão de Cuvier acreditava que os diferentes ramos mais amplos da classificação animal (como as classes Vertebrata, Articulata, Mollusca e Radiata) eram formas tão fundamentalmente diferentes entre si que não poderiam estar conectadas entre si através de mudanças evolutivas. As semelhanças entre os organismos, segundo Cuvier, eram explicadas através de convergências adaptativas, onde órgãos originalmente diferentes apresentariam similaridades devido a um objetivo funcional:
a função explicava a forma, não o contrário [34]. Essa sua filosofia era contrária à de seus contemporâneos como Buffon, Lamarck e Geoffroy St. Hilaire e em 1830, ele e St. Hilaire realizaram
famosos debates sobre suas posições na Academia Real de Ciências, em Paris. Enquanto se diz que Cuvier teria vencido o debate, são as idéias de seu oponente que parecem ter se perpetuado nos círculos científicos.
Étienne Geoffroy Saint-Hilaire (1772-1844) foi um naturalista francês. Adepto do saltacionismo, suas principais contribuições foram os estudos da homologia de caracteres animais e acreditava num tipo de lamarckismo ainda mais ferrenho onde o ambiente influenciava diretamente na modificação de caracteres nos animais.
Nestas discussões, Cuvier argumentava que os organismos ocupavam determinados ambientes devido, justamente, às formas anatômicas que apresentavam, enquanto St. Hilaire argumentava, com maior propriedade evolutiva, que os organismos eram adaptados ao meio, que moldava seus corpos adaptativamente. Geoffroy St. Hilaire (1772-1844) nasceu na França e estudou filosofia natural em Paris; além de participar do círculo de naturalistas que trabalhavam no Jardim das Plantas. Assim como Lamarck, quando a monarquia francesa caiu, ele foi chamado para ocupar uma das doze cadeiras do novo
"Muséum National d'Histoire Naturelle", tendo ocupado, entretanto, uma cadeira mais nobre que a de Lamarck ao trabalhar com zoologia de vertebrados [36]. Por ter estudado teratologia em boa parte da sua carreira, além de outros estudos sobre o desenvolvimento embrionário precoce,
St. Hilaire não era adepto do gradualismo e tinha opiniões saltacionistas [37,38]. Ao contrário de Cuvier, Geoffroy acreditava que os animais não tinham hábitos que resultavam da estrutura de seus órgãos e acreditava que, se os órgãos dos organismos variavam devido ao processo evolutivo, variavam da mesma maneira suas atitudes, faculdades e ações.
O zoólogo francês parece ter gastado boa parte de seu tempo estudando quais estruturas animais eram variantes de um mesmo tipo original e, assim, fez um importante estudo sobre homologia dos caracteres. Depois de Lamarck, Buffon e Aristóteles, St. Hilaire é o próximo naturalista citado por Darwin na introdução histórica que faz sobre a origem das espécies; Darwin evidencia a crença de Geoffroy que as espécies eram degenerações de um mesmo tipo ou arquétipo (como também pensavam Buffon e Owen) e que o zoólogo francês acreditava que as condições do meio ambiente eram de alguma forma as causas de mudanças nos animais, embora Darwin faça uma citação de St. Hilaire onde ele sugere que este assunto seria mais bem estudado pelas gerações do porvir.
A evolução, segundo Darwin
É portanto em meio a toda essa discussão que o naturalista inglês Charles Robert Darwin (1809-1882) chega com sua excelente articulação da teoria evolutiva para explicar origem e a diversidade dos organismos vivos. A história de Darwin já é um tanto quanto bem conhecida e dado que ele pôde gozar de sua enorme fama ainda em vida, ele mesmo nos ajuda a contar sua história, tendo publicado diversos textos autobiográficos onde apresenta a origem de seus pensamentos e opiniões. Dessa forma, há muito material disponível para um estudo extenso da vida deste que foi um dos maiores estudiosos da biologia em todos os tempos. Restringirei esta abordagem, entretanto, apenas aos principais pontos de sua carreira.
O grande evolucionista inglês Charles Robert Darwin, em 1854, com 45 anos. À esta época Darwin trabalhava nas primeiras edições de sua grande obra: A Origem das Espécies.
Darwin nasceu na Inglaterra, em Shrewsbury, em uma família de religião anglicana. Seu pai era médico e, em 1825, ele se mudou para a Escócia para estudar medicina na universidade de Edimburgo e logo entrou para um grupo de estudos em história natural, onde seu professor era um proponente defensor da teoria lamarckiana da evolução das características adquiridas. Em 1827, seu pai estava preocupado com o baixo aproveitamento do filho em seus estudos e o inscreveu em um curso de bacharelado em artes da universidade de Cambridge, onde ele se formaria como clérigo. Logo Darwin começou a coletar besouros e, em seguida, foi apresentado a um professor de botânica e trabalhou com ele até se formar, em 1831, com o décimo melhor aproveitamento dentre 178 alunos. Neste mesmo ano, Charles foi convidado a viajar no navio HMS Beagle como naturalista, realizando uma enorme viagem que durou quase cinco anos, onde ele foi capaz de construir seu olhar crítico sobre a natureza e adquirir uma enormidade de dados empíricos que foram suficientes para formular, depois de muita reflexão e leituras variadas, suas teorias evolutivas [39].
Quando retornou de sua viagem com o Beagle, Darwin demorou cerca de um ano para organizar seus dados e publicar um livro com suas anotações. Em 1837, o naturalista já tinha alguns sintomas da doença que iria acompanhá-lo pelo resto da vida; e alguns sugerem que ele tenha sido uma vítima crônica da doença de Chagas. Em 1938, ele teve a oportunidade de ler o livro de Malthus sobre o aumento da população humana e foi de onde ele diz ter se inspirado para produzir a idéia da seleção natural, o ponto tido pela maioria como realmente forte e inovador de seu trabalho. (
Este humilde estudioso pensa que na verdade a ancestralidade comum é que consiste na grande idéia de Darwin; e tenho a impressão de que a seleção natural já estava contida na idéia de evolução lamarckiana, embora ela tenha sido muito melhor articulada pelo inglês do que pelo francês.) Darwin relata em sua autobiografia que em Junho de 1842 ele realizou os primeiros escritos sobre sua teoria em 35 páginas e que, no verão de 1844, estas foram ampliadas para 230 páginas [40]. Nesta época, entretanto, ele parecia não ter percebido como as mudanças graduais aconteciam de forma a permitir uma melhor adaptação dos organismos ao meio ambiente onde viviam. Em 1856, o geólogo Charles Lyell escreve a Darwin sugerindo que este escreva com detalhe sobre suas teorias e nosso herói então começa a escrever um livro que teria sido três a quatro vezes maior do que a
Origem. Enquanto ainda trabalhava nesta obra, em junho de 1858, Darwin recebeu a correspondência de Alfred Russel Wallace (1823-1913), um naturalista inglês trabalhando no arquipélago malaio que apresentava uma teoria evolutiva bastante similar à sua. Charles então mostrou a carta de Wallace a Lyell e Hooker, com quem trocava correspondências sobre suas teorias; e eles decidiram apresentar a teoria de Wallace à
Sociedade Lineana de Londres juntamente com partes de um ensaio que Darwin havia enviado anteriormente para Hooker e uma carta de 1857 de Darwin à Asa Gray,
de forma que a prioridade de Darwin sobre Wallace ficasse evidente. O artigo de Wallace, entretanto, fez com que Darwin resolvesse apressar a redação da
Origem e, portanto, ele foi obrigado a fazer um resumo daquilo que já acreditava ser uma versão resumida de sua teoria. Em sua autobiografia de 1876, Darwin diz que no fundo este parece ter sido um ponto importante, pois poucos provavelmente teriam tido paciência em ler a enorme obra que pretendia publicar, ao passo que também poucos foram de fato influenciados pela publicação do artigo de Wallace e de suas cartas à sociedade Lineana [40]. A primeira versão da
Origem foi publicada em
24 de novembro de 1859 com uma tiragem de 1250 exemplares, todos vendidos no mesmo dia. Menos de dois meses depois, em 7 de janeiro de 1860, foi lançada uma segunda edição de 3000 cópias cuja única diferença da primeira edição havia sido o acréscimo da frase “
pelo criador”, na fase de fechamento do livro, já em respostas à enxurrada de críticas contra sua visão de mundo que veio posteriormente a ser chamada de
agnóstica. De fato, foi o grande defensor das idéias darwinianas -- e apelidado de buldogue de Darwin -- Thomas Henry Huxley que cunhou o termo "agnóstico" e que delineou o primeiro grande texto inaugural da filosofia conhecida como o agnosticismo.
É interessante notar que Darwin sabia muito pouco sobre como as diferentes variedades animais e vegetais surgiam, o que se nota ao observar, por exemplo, o primeiro capítulo da
Origem, chamado “
Variação sobre domesticação”, que contém capítulos com o sub-título “
Causas da variabilidade”, “
Efeito do hábito e do uso e desuso de partes”, “
Herança”, etc. e que mostram claramente o pensamento lamarckista de Darwin, como se pode perceber na citação abaixo, extraída do primeiro capítulo, sexta edição da obra [41].
“Changed habits produce an inherited effect as in the period of the flowering of plants when transported from one climate to another. With animals the increased use or disuse of parts has had a more marked influence; (…)” 41
“Habitats modificados produzem um efeito herdável no período de floração de plantas quando transportadas de um clima a outro. Com animais, o aumento do uso ou desuso das partes tem ainda uma influência mais marcante; (...)”
Charles Darwin, The origin of species, 6ª edição, 1872.
De fato, o uso e desuso das partes somado à herança dos caracteres adquiridos foi uma teoria só refutada pelo naturalista alemão
August Weissmann, no fim do século XIX com sua teoria do germoplasma; onde ele separava finalmente as células germinativas das células somáticas (do corpo) e dizia que apenas modificações ocorridas nas primeiras (germinativas) é que tinham alguma chance de serem passadas hereditariamente.
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A seguir apresento, portanto, um breve resumo analítico dos fatos históricos aqui apontados e tento realizar uma comparação entre os trabalhos de Darwin e seus predecessores, tentando evidenciar alguns aspectos tanto sociológicos e históricos da história do conhecimento evolutivo quanto também questões relacionadas à sua ciência -- que fizeram com que Darwin seja hoje visto como o verdadeiro pai da biologia evolutiva, onde a história desta disciplina apresentou, sem dúvida, uma extensa e bem demarcada ruptura historiográfica.
Uma análise epistemológica da teoria evolutiva
Com relação aos tópicos sobre a história do pensamento evolutivo aqui apresentados, parece interessante realizar uma análise das idéias e da sucessão entre as teorias discutidas. A abordagem histórica para a compreensão da ciência parece ter tido em
Thomas Kuhn seu mais forte adepto e, de fato, não parece mais possível falar de “progresso” em ciência que não seja a simples sucessão de programas de pesquisa pontuados por pequenas ou grandes rupturas [42]. Ao mesmo tempo, está claro que as novas teorias científicas precisam apresentar um conteúdo empírico maior e mais abrangente que as teorias anteriores [43] e podem ser considerados
relativistas ingênuos aqueles que acreditam que a sucessão de teorias científicas consiste apenas em jogos de aceitação sociológica e política entre os cientistas, estando completamente desvinculados de um princípio qualquer de realidade que permeia a forma como os experimentos científicos são realizados. É claro, por outro lado, que os fatores históricos, culturais e sociais que podem ser aglutinados no termo
contexto da descoberta são tão ou mais importante do que qualquer nova evidência experimental ou reformas conceituais produzidas pelos cientistas e que contam do lado do
contexto da justificação para a aceitação de uma teoria em determinada época. A história do pensamento evolutivo ilustra este ponto de uma forma interessante, uma vez que o cerne da teoria da evolução darwiniana já podia ser encontrado na teoria de Lamarck, embora o trabalho do naturalista francês não tenha de fato chamado atenção quando este ainda era vivo. Tentarei dar uma explicação sociológica para este fato, embora prefira, anteriormente, dissertar ligeiramente sobre a
substituição dos paradigmas que aconteceram ao longo da história do pensamento evolutivo.
A primeira teoria evolutiva que precisou ser aceita pelos humanos, foi a de que eles mesmos faziam parte do mundo natural e eram espécies como quaisquer outras, ao contrário de criações divinas especiais. Embora fosse possível aceitar a evolução dos animais a despeito da evolução do próprio homem, o desenvolvimento dos estudos em biologia, desde seus primórdios, já sugeriam fortemente a existência de uma continuidade natural entre animais e humanos. Ainda assim, foi apenas no século XVI que os estudos anatômicos mais profundos de Vesalius estimularam os cientistas a sugerirem e compararem humanos e animais em pé de igualdade. Enquanto parece estar claro que o pensamento evolutivo ainda não havia se aflorado em Buffon, que considerava os organismos como oriundos de possíveis moldes – que poderiam ser os animais originalmente colocados por deus na Terra –, este filósofo natural francês tem o mérito de falar sobre os humanos diretamente como animais, sem sequer questionar ou discutir esta evidente verdade. Existem relatos de críticas a Buffon com relação a este aspecto: homem enquanto animal.
Tanto Buffon quanto Lamarck, entretanto, acreditavam em uma cadeia progressiva dos seres segundo a qual o homem ocupava o lugar de maior destaque: a
scala naturae. Lamarck foi, entretanto, sem qualquer sombra de dúvida, o pai do pensamento evolutivo. Para ele, todos os animais do planeta modificavam através de linhagens evolutivas independentes. As espécies, segundo Lamarck, eram identificadas apenas devido a uma descontinuidade histórica na observação dos cientistas. Assim, já está claro que o pensamento evolutivo, incluindo o humano dentro deste contexto, já existia na obra de Lamarck.
Entretanto, foi somente com Darwin que parece ter se operado algum tipo de grande ruptura no conhecimento científico da época. Se Lamarck, entretanto, já havia sugerido a teoria evolutiva, por que esta só teria sido aceita muitos anos depois? Há várias possíveis respostas para esta questão. A primeira resposta, já comentada, pode estar relacionada ao enorme estrelato de Buffon. Tendo escrito uma enorme enciclopédia tratando da história natural de centenas de animais e tendo precedido e agido como incentivador do trabalho de Lamarck,
Buffon era o grande naturalista francês da época. Embora tenha ajudado Lamarck a divulgar seus trabalhos, Buffon estava certamente mais interessado em sua própria obra do que na divulgação das obras de outros autores. Uma boa obra científica, entretanto, parece ser redescoberta mais cedo ou mais tarde – o que atesta a importância do
contexto da justificação. Ainda que o contexto sócio-histórico-cultural de uma época evite que uma obra científica seja aceita em determinado momento, o fato de uma obra apresentar um conteúdo bem fundamentado, racional e empiricamente sustentado, irá torná-la bem sucedida em contextos históricos mais propícios (espera-se).
De fato, parece que o tempo de uma geração é normalmente suficiente para acabar com o jugo da comunidade contemporânea com relação a uma determinada obra e este é um fator interessante a ser pesquisado. Restará saber se existem obras de conteúdo filosófico excelentes sobre ciência que tenham sido deixadas de lado por mais de uma geração e restará saber qual o tempo médio até que uma obra de destaque seja “redescoberta”. Darwin, portanto, parece ter dado sorte. O livro
Filosofia Zoológica de Lamarck havia sido publicado em 1809, exatamente 50 anos antes da publicação da Origem e exatamente no ano de nascimento de Charles Darwin. O lapso de tempo decorrido até que Lamarck tivesse sido definitivamente aceito parece ter expandido o tempo da mais famosa publicação de Darwin e com isso quero dizer que ainda em 1859, Lamarck não era muito bem conhecido.
Darwin, entretanto, apresentou sua teoria como bombástica e à época, aqueles que ainda não pensavam de forma evolutiva sobre a origem das espécies, precisaram passar a pensar. A teoria da evolução explicava de forma sofisticada a biodiversidade observada pelos naturalistas ao estudarem os animais dispersos pelo mundo. A teoria de Darwin é comumente comentada, principalmente por Mayr [44], como contendo um núcleo duro de pesquisa lakatosiano fundamentado em cinco pontos-chave: (1) a evolução propriamente dita; (2) a seleção natural; (3) o gradualismo; (4) a biodiversidade e (5) a ancestralidade comum entre indivíduos. Se observarmos essas teorias sob uma perspectiva histórica, fica claro que os pontos 1 e 2 já eram ressaltados e apresentados de alguma forma por Lamarck. Assim, se considerarmos o contexto da justificação, parece que as diferenças entre Darwin e Lamarck, com relação a cada um dos pontos citados acima, eram os seguintes:
- O fato de que a evolução acontecia quando comparada à constância das espécies já era um ponto claramente evidenciado e reforçado por Lamarck;
- Um conceito mais amplo de seleção natural parece-me estar presente também em Lamarck. A questão do uso e desuso pode ser interpretada sob uma ótica de seleção natural; a maior utilização de um órgão dá-se pelo fato de que ele é mais útil e, portanto, tem sido selecionado. A questão que se coloca entre Darwin e Lamarck aqui é que Darwin enfoca a pressão vinda do ambiente limitado e em constante modificação para mostrar como os indivíduos menos aptos sucumbirão, enquanto Lamarck foca na maior utilização de um órgão para tornar um indivíduo mais apto a determinado ambiente. No fundo, ambos os pensamentos me parecem complementares e têm um quê de seleção natural.
- Ainda: as idéias de uso e desuso associadas à herança dos caracteres adquiridos, ou seja, a base das idéias evolutivas lamarckianas causariam um resultado evolutivo (ou modificativo) no mundo natural que seria muito mais rápido e maleável do que o suposto gradualismo darwiniano, onde as espécies mutariam aleatoriamente e onde o processo evolutivo era sem-direção. Portanto, embora Darwin tenha tropeçado em nas idéias lamarckianas por muito tempo, o caráter geral da evolução darwiniana é muito mais gradual do que a teoria proposta pelo cavaleiro francês no início do século XIX;
- A origem da biodiversidade, embora também seja tratada diretamente por Lamarck, atinge seu ponto alto em Darwin devido à suas extensas explicações sobre a biologia observada em ilhas próximas, como no caso de Galápagos;
- Já a ancestralidade comum consiste na grande sacada de Darwin, a idéia da coalescência, o pensamento de que vários organismos vivendo hoje teriam sido originados de uma única espécie no passado. É este o ponto alto do pensamento darwiniano. Para Lamarck cada espécie evolui sozinha; abandonada e presa em sua própria linhagem. A idéia de árvore da vida e de ancestrais comuns consiste definitivamente no ponto de ruptura do pensamento evolutivo e no maior trunfo de Darwin. Até antes dele, a ancestralidade comum era apenas considerada para espécies muito próximas, jamais para toda a diversidade da vida. A idéia de homologia de caracteres, a árvore da vida e a ancestralidade comum consistem nas principais idéias do inglês.
Além disso, a filosofia natural de Darwin entrava em contraponto com relação a outras visões de mundo religiosas da época e, assim, ele comprou mais briga com os religiosos do que seu antecessor francês. As idéias evolutivas de Darwin eram contrárias à filosofia lamarckiana nos seguintes pontos: (1) não pressupunha um mundo criado e projetado por um criador sábio e benigno, (2) não colocava o homem em nenhum tipo de lugar especial com relação aos outros animais e (3) retirava, de uma vez por todos, os pensamentos finalistas com relação ao processo evolutivo [45].
Evolução não era mais sinônimo de progresso, porém de mudança. Depois de Darwin, portanto, não havia mais lugar para divindades na biologia – exceto talvez no primeiro sopro da vida; o que, de qualquer forma, diminuía extensamente a necessidade metafísica e jogava o deus-das-lacunas dos cristãos para um único e mísero ponto. Além disso, a evolução deixava de ter um caráter progressivo e a pergunta de “para quê” no pensamento evolutivo deixava de ser relevante. A pergunta central da biologia agora era histórica; era um "por quê". Dessa mesma forma, o homem não havia sido de forma alguma previsto por um processo cego e, assim, não era melhor do que os outros organismos da escala natural e nem havia sido alcançado por um contínuo processo de melhora adaptacionista. Foi Darwin, portanto, que erigiu o conceito de biologia que temos hoje e todas as ciências biológicas devem muito ao inglês que mais do que qualquer outro deu um golpe mortal no antropocentrismo que imperava nesta área de estudos.
Darwin, no entanto, parecia extremamente confuso com relação ao tópico sobre a
origem da variação e, enquanto em alguns excertos ele pareça acreditar no fator aleatório da variação (particularmente em vários pontos da primeira versão da
Origem), em outros ele se mostra excessivamente lamarckista (como na obra “
A expressão das emoções nos homens e nos animais”) e parece acreditar piamente no uso e desuso de características como critério de permanência das mesmas nas espécies biológicas [46]. Da mesma forma, vale notar, parece que Darwin deu um estímulo para o impulso do pensamento lamarckiano com a publicação da
Origem e, por isso, chegou a ter problemas. Muitos de seus críticos, como Kelvin e Jenkin, sugeriram mudanças nas edições subseqüentes da
Origem que se diz terem enfraquecido o argumento de Darwin [47] ou tiveram feito com que ele explicasse suas teorias segundo padrões mais condizentes com a teoria de Lamarck, que depois da publicação da
Origem, parece ter sido finalmente aceita consensualmente.
Conclusão
É claro que não foi minha intenção aqui realizar um trabalho extenso sobre a história da biologia evolutiva, embora tenha sido meu objetivo estudar ao menos um pouco as obras originais dos grandes evolucionistas e tentar extrair fatos ou conclusões interessantes desta leitura e analisá-las em um contexto epistemológico. Vale notar que August Weissmann (1834-1914), o único grande evolucionista do século XIX capaz de entender perfeitamente Darwin – talvez até melhor do que ele mesmo –, refutou de vez a teoria do uso e desuso de Lamarck. (Em um experimento crucial, Weissmann cortou os rabos de ratos e verificou que os filhotes continuavam nascendo com rabos. É claro, ainda, que Lamarck criou uma hipótese ad hoc dizendo que o experimento de Weissmann não era valido.) Assim, ao darwinismo sem a herança das características adquiridos, conforme proposto por Weissmann, foi dado o nome de
neodarwinismo. Em seguida, os trabalhos de Mendel foram redescobertos nas primeira décadas do século XX por Bateson e De Vries e os estudos em genética de populações avançaram com Fisher, Wright e Haldane. A reunião ocorrida por volta dos anos 40 entre a teoria da evolução dos
geneticistas de populações e a teoria da evolução dos
naturalistas, ficou conhecida com a
síntese moderna evolutiva. Entretanto, um aspecto muito importante do pensamento evolutivo: a forma atomizada como ocorre a herança através da transmissão genética só foi completamente entendida depois que a natureza molecular dos genes foi descoberta por Watson e Crick, em 1953. Ainda hoje, tenho a forte impressão de que uma versão hiper-moderna do darwinismo, que leve em consideração a evolução dos genes para explicar a evolução dos organismos, ainda não foi sugerida ou apresentada de forma plena, mesmo depois de Zuckerkandl, Pauling, Sanger, Kimura e Dawkins. Fico devendo, portanto, um trabalho mais aprofundado sobre a história da sucessão de programas de pesquisa em evolução ao longo do século XX, levando em consideração justamente a continuação desta história e o entendimento preciso sobre a ligação feita em algum lugar do século XX entre as teorias macro-evolutivas apresentadas pelos autores citados e a nova ciência da biologia molecular.
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40. Charles Darwin. (1903) An autobiographical fragment. Cambridge: Cambridge University Press.
41. Charles Darwin (1872). The origin of species, 6ª edição.
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47. Charles Darwin (1985) The origin of species, 1ª edição. Penguin Books.
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O grande biólogo evolucionista Ernst Mayr que viveu, estudou e escreveu sobre biologia e evolução ao longo de todo o século XX e tem vários livros interessantes sobre a evolução do pensamento darwiniano; retratando as mudanças e incompreensões da teoria darwiniana desde que foi proposta até os dias de hoje. Os biólogos vêm sempre re-interpretando as teorias darwinianas dado novos contextos para onde vai a biologia. Mais recentemente a genômica e o sequenciamento do conteúdo genético completo de vários organismos tem corroborado com extrema eficácia as previsões evolutivas darwinianas.
Depois dessa postagem fico imediatamente devendo uma outra descrevendo esta história da evolução desde Darwin até os dias de hoje. Há vários capítulos interessantes, passando pela refutação da herança dos caracteres adquiridos por Weissmann ao esquecimento de Mendel e sua redescoberta, a nova síntese evolutiva dos anos 20-40, o estudo de drosófilas, o modelo de Watson e Crick, os estudos genômicos e de evolução molecular. Até lá!
E mais uma vez presto aqui minha homenagem à ciência da evolução; meu hobby, campo de interesse e de atuação profissional do qual jamais me canso de exercitar um ócio criativo ao estudá-la em meus horários vagos.
Parabéns pelos 150 anos da teoria da evolução! Parabéns a todos que a fizeram, a todos que a amam e a todos que ainda a fazem com o espírito honesto e não dogmático. Celebremos o estudo da vida!Marcadores: evolução, história da ciência