Sábado, Outubro 10, 2009

O século da biotecnologia

Mais do que nunca a bioinformática é uma área absolutamente estratégica para o desenvolvimento científico nacional. Em um recente artigo, um dos mais prominentes pesquisadores da área, Lincoln Stein, definiu que simplesmente todos os biólogos vão se transformar em bioinformatas num futuro bastante próximo [1].

O acúmulo de dados em biologia molecular e a crescente multidão de tecnologias e programas de computador para a análise científica que têm aflorado nos últimos anos exigem que todo pesquisador se torne capaz de compreender análises complexas de dados e metodologias eficientes para manipulá-los de forma a extrair ao máximo a abundante informação que a natureza nos presenteia e que é o material de questionamento de todo e qualquer cientista. O cosmos de Carl Sagan: a ordem no universo que se apresenta a todos nós para o questionamento e avaliação.

As recentes tecnologias para análise de genomas, diversidade bacteriana e análises complexas de dado através da inteligência artificial -- por exemplo -- têm nos permitido compreender de forma cada mais fina as regularidades apresentadas pela natureza. Estamos definitivamente na era da biotecnologia. Braços metálicos são ligadas ao cérebro de macacos que, depois de algum tempo, tornam-se capazes de controlá-los, mesmo à distância. Micromáquinas estão sendo desenvolvidas para entrarem dentro de nossa corrente sanguínea e acusar um infarto antes mesmo que ele ocorra; algumas outras vasculham nossa corrente sanguínea e destroem partes de gordura alojada nas artérias. Conhecemos de forma cada vez mais fina o funcionamento dos seres vivos em nível molecular e celular. Somos capazes de produzir novos organismos que nem mesmo a natureza foi capaz até hoje.


Richard Dawkins em seu livro "O gene egoísta" (1976) parece ter sido o primeiro naturalista a teorizar sobre a origem da vida através de uma molécula replicadora ancestral. O desafio da evolução molecular no século XXI será descobrir toda a cadeia de eventos que levou desta molécula à grande complexidade molecular observada hoje nos genomas dos organismos.



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"O que a natureza faz às cegas, devagar e impiedosamente, o homem pode fazer com cuidado, rapidez e carinho", diz Francis Galton em meados do século XIX. Mal imaginava onde chegaríamos com todas as novas tecnologias de manipulação biológica. Mal imaginamos onde chegaremos. O século XXI, estou convencido, será o século da biotecnologia. Seremos capazes possivelmente de aprimorar o que somos: poderemos controlar máquinas apenas com o pensamento, conseguiremos nos comunicar eficientemente com os animais e compreender suas compreensões. Engenharemos geneticamente microorganismos que serão capazes de reduzir os lixões, digerindo os mais diversos e ainda tóxicos metabólitos, transformando-os em -- se tivermos sorte e a natureza nos permitir -- água e gás-carbônico.

A engenharia genética de microorganismos pode nos ajudar certamente a reduzir o estrago que estamos fazendo no mundo. Mudaremos também o mundo e inseriremos microorganismos nele que jamais existiram antes. Estes microorganismos então se recombinarão geneticamente com outros gerando um mundo ainda inimaginável. A própria natureza vem combinando organismos entre si desde sua origem e, até hoje, parece ter tido sucesso em sua empreitada. É claro que o homem, ao acelerar e direcionar os processos de evolução dos organismos, pode causar algum desequilíbrio ecológico de escala planetária e mundial, mas é impossível saber exatamente o risco que corremos em produzirmos algo que acabará com nossa espécie. Ele pode estar tão próximo de zero como de um; com o zero representando uma chance ínfima de modificarmos toda a arrojada estrutura de super-organismo da Terra e o um como um alerta de que a qualquer momento todo o sistema pode se desestabilizar. A vida não é estável. A vida nunca foi estável. É característica da vida e dos seres vivos a instabilidade. Há quatro bilhões de anos, desde que a vida surgiu, ela consiste num emaranhado inter-conectante de organismos que modificam o meio ambiente e que então modifica os organismos. Organismos e ambientes co-evoluem desde a origem da vida. E, ao menos nestes últimos 4 bilhões de anos, nada de muito catastrófico ocorreu.

Quer dizer, aconteceu. A atmosfera redutora da Terra primitiva foi modificada para uma atmosfera oxidante desde que as cianobactérias surgiram com suas enzimas especializadas em absorver a energia do sol e transformá-la em açúcares e oxigênio através da via maravilhosa bioquímica da fotossíntese. A fotossíntese é um fenômeno surgido a partir da evolução de genes contendo o código para a fabricação de enzimas, ocorrido em um organismo ancestral. Tais genes tinham uma função ancestral ainda desconhecida e foram duplicando e modificando-se ao adquirirem mutações. Provavelmente participavam de alguma via bioquímica importante que foi se especializando ao longo do tempo até produzir esta rede complexa e intrincada de enzimas e metabólitos intermediários em que consiste a fotossíntese.

Outra das questões biotecnológicas para este próximo século está justamente focada na evolução dos genes. Como terão os genes se modificado a partir de um organismo ancestral para produzir outros genes ao longo das gerações? O estudo de evolução dos genes ainda encontra-se em uma fase muito incipiente e os cientistas ainda não são capazes de estudar a ancestralidade antiga de genes. Enquanto para os organismos vivos temos hoje uma estrutura muito bem definida para explicar suas relações de ancestralidade no passado, o mesmo não se dá para os genes.

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Richard Dawkins em seu clássico livro de 1973 (O gene egoísta) teorizou que a vida teria se iniciado quando uma molécula tivesse adquirido a capacidade de auto-replicação. Essa molécula seria, portanto, capaz de produzir outra molécula razoavelmente idêntica a ela. E esta nova cópia, então, teria obviamente herdado a capacidade da original em se auto-duplicar: a partir de um seriam gerado duas; de duas, quatro; e oito; e dezesseis... e assim crescendo exponencialmente. Dawkins continua sua argumentação explicando quais seriam os principais fatores que a seleção natural favoreceria nessas moléculas, tais como: velocidade de cópia, estabilidade no meio (tempo de vida) e fidelidade da cópia.


Stephen Jay Gould foi um dos maiores teóricos e divulgadores da ciência evolutiva no século XX. Gould teorizou sobre o fato da evolução não ter um sentido de progresso, embora progrida em direção à complexidade. Ele explicou o conceito através da metáfora do bêbado na Sarjeta.


De Gould agora, roubamos a idéia da evolução como um bêbado na sarjeta. Imagine um sujeito embriagado andando -- passo torto pra cá, passo torto pra lá -- tarde da noite ao longo de uma rua com um meio-fio ao seu lado esquerdo. Se o bêbado for na direção do meio-fio e topar com ele, vai cair no chão. Deste ponto, ele não mais sairá; bêbado que está. Por outro lado, se nosso herói dirigir-se na direção oposta à da sarjeta, ele poderá dar muitos passos em falso, sem tropeçar em nada; continuando assim seu caminho. Gould argumenta que a evolução funciona assim: o organismo, assim como o bêbado, anda numa via de complexidade (rua) onde ele pode cair, caso dirija-se muito para a esquerda... mas esta via é bem larga, caso o bêbado vá para a direita. Gould tenta sugerir com isso que a evolução não é sinônimo de progresso, embora ela progrida. Ou seja, se um organismo ficar excessivamente simples, ele cai na sarjeta da complexidade mínima para a existência de um organismo vivo. Essa simplificação não é mais compatível com a vida. Porém, se ele dirigir-se para o outro lado, ele vai ficando cada vez mais complexo. É inevitável supor o aumento de complexidade apenas devido a fatores aleatórios e considerando que existe um limite mínimo, porém não máximo, para a complexidade. O bêbado cai na sarjeta à esquerda, mas pode andar indefinidamente para a direita, tornando-se cada vez mais complexo.

Voltando a Dawkins: aquelas moléculas replicadoras que se modificaram de forma a ficarem mais simples e, por exemplo, perderam a capacidade de auto-replicação; estas cairam na sarjeta da complexidade e, incapazes de se reproduzir, deterioraram-se e não estão representadas hoje nos organismos vivos. Os genes que temos hoje presentes em nossos genomas são aqueles que foram bem sucedidos em produzir máquinas de sobrevivência eficientes no passado.

O que existe entre a molécula replicadora, entretanto, e os genomas modernos é ainda hoje um grande mistério. As questões para a permanência deste mistério são muitas. Uma das principais, entretanto, está relacionada a um fator histórico que ocorre na formação dos biólogos de hoje em dia. Os biólogos estão acostumados a fazer perguntas sobre a origem dos organismos, mas não sobre a origem dos genes. E assim seus métodos e técnicas estão altamente direcionados para responder questões sobre a origem dos organismos, esquecendo-se que os genes também são unidades autônomas evolutivas. É também uma faceta de antropocentrismo ou biocentrismo pensar que só organismos podem evoluir darwinianamente. [2]

A questão de não termos a resposta ainda sobre a origem dos genes da fotossíntese -- ou de qualquer outra via bioquímica --, entretanto, vai além de critérios paradigmáticos da biologia do século XX: há também um grande problema metodológico. A questão é que os genes são descritos principalmente nos dias de hoje através de sequências de letras químicas que podem representar ou o conjunto de bases A, C, G e T que existem em seus DNAs ou o conjunto sequencial dos 20 aminoácidos que compõem as proteínas. A questão é que o conteúdo de informação de um gene para que seja possível reconstruir sua história ancestral é pequeno. Devido ao pequeno tamanho dos genes -- que têm algo entre centenas a milhares dessas bases nitrogenadas do DNA -- faz com que a ocorrência frequemente de mutações em suas sequências faça desaparecer qualquer traço que poderia ter de seu passado remoto.

Para exemplificar o que acontece, usarei uma metáfora simples e forçada, porém que serve como demonstração do que ocorre na realidade. Imagine que uma sequência qualquer de 100 caracteres (letras) seguidas. E imagine que a cada ano que passa, alguém apareça para trocar 20 dessas letras ao substituí-las por outras quaisquer. Depois de cinco anos esperar-se-ia que boa parte das 100 letras tivessem sido trocadas e que o novo texto nada tivesse de similar ao texto original. Toda a informação do passado do texto foi perdida. E é algo bem parecido com isso que acontece com os genes. Eles têm um conteúdo informacional que pode ser considerado pequeno e a taxa de mutação em suas letras químicas é razoavelmente alta. Embora possamos criar um chamado "relógio molecular" para definirmos quantas mutações acontecem a cada ano e assim podermos calibrar nossas medidas de divergência de genes, este relógio só funciona bem para identificar acontecimentos num passado recente, sendo que ele se atrapalha quando voltamos muito no tempo e perdemos a informação da molécula original. E é por isso que ainda não sabemos qual teria sido a ordem de origem dos genes desde o primeiro replicador dawkiniano até hoje.

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Genes podem ser observados como entidades estanques (separadas) presentes no nosso genoma. As estimativas mais recentes dizem que o ser humano tenha algo entre 25.000 a 30.000 genes que codificam proteínas. Cada um deles foi produzido, principalmente, através da duplicação de algum gene ancestral seguido posteriormente por mutações que transformaram, muitas vezes, tanto o "gene pai" quanto o "gene filho". As teorias sobre evolução de genes falam principalmente sobre o que chamados de neofuncionalização e subfuncionalização. Vale lembrar aqui que, quando um gene é duplicado no genoma, ele passa a ficar livre para mutar mais rapidamente. Genes estão informacionalmente presos pela seleção natural uma vez que mutações deletérias que ocorram em seu conteúdo codificado produzirão proteínas menos eficientes e diminuirão o fitness do indivíduo que as porta. Quando são duplicados, entretanto, passa-se a produzir duas vezes mais moléculas do que a quantidade necessária para determinada função molecular; o nicho ecológico ocupado pelo gene (proteína). Agora uma das duas cópias é capaz de se modificar ligeiramente e de forma mais livre para qualquer outra sequência em proximidade molecular. (Em meu laboratório fazemos estudos de evolução de genes no computador para testarmos como acontece a evolução de genes e entendermos exatamente como funciona essa "proximidade molecular".) Uma das cópias deste gene pode então adquirir rapidamente uma grande quantidade de mutações e; caso aconteça desta nova proteína produzida ser capaz se ligar de forma mais perfeita a algum substrato, essa proteína pode ter encontrado um nicho molecular vago e diz-se que este gene realizou uma neofuncionalização, ou seja, encontrou uma nova função molecular. É de se esperar que esta nova função adquirida seja bastante parecida com a função do gene que o originou, mas ela pode ser mais fina ou mais otimizada para um caso em especial. Sobe-se assim na escada da complexidade e nosso gene anda para direita na via da complexidade de Gould, afastando-se da sarjeta molecular. Outro destino dos genes duplicados pode se dar também através do processo que se chama sub-funcionalização.

Embora os nomes dos genes sejam hoje dados a eles para representar a função que ele tenha sido "descoberto" ter no ambiente celular, muitos pesquisadores acreditam que todo e qualquer gene tenha muito mais de uma só função. Se pensarmos que praticamente todas as moléculas da célula podem funcionar como antígenos (epitopos), fica claro que dentro do ambiente celular proteínas ligam-se e desligam-se a diversas moléculas do meio. Quando então há o excesso de proteínas causado pela duplicação gênica, abre-se o espaço para que a sequência do DNA mute sem alterar a função celular. Genes são cadeias unidimensionais de nucleotídeos A, C, G e T cuja ordem define um código para a fabricação de proteínas. Se imaginarmos que as mutações acontecem ao longo da sequência gênica de maneira razoavelmente aleatória ficará simples compreender que pode acontecer que mutações ocorram na parte inicial (5') em um gene; ou na parte final de outro (3'). Se ambos os genes mutassem a parte inicial deles, entretanto, perder-se-ia a função desempenhada por esta região da proteína na célula e o fitness do organismo provavelmente diminuiria. Se regiões diferentes mutassem em cada cópia do gene, entretanto, é possível supor que as regiões não mutadas em cada um deles seriam suficientes para manter a função celular/molecular -- necessária para o bom funcionamento da célula -- intacta. E então cada gene mutaria em uma parte diferente (um no 5', outro no 3') e manteria uma parte idêntica à sequência ancestral; nesse caso, os genes teriam se sub-funcionalizado. As novas partes, entretanto, ficariam agora livres para testar a aleatoriedade evolutiva e buscarem novos pontos de adaptação.

Todas essas questões estão ainda em aberto nas ciências biológicas de hoje e é preciso que nos desenvolvamos mais e produzamos novos descritores gênicos que nos permitam estudar com mais nitidez o processo de evolução de genes. Sabe-se hoje que o estudo comparativo das estruturas secundárias e terciárias das proteínas entre genes pode nos permitir observar uma ancestralidade ainda mais antiga entre genes; do tipo que não podem ser vistas por seu conteúdo informacional enquanto sequências unidimensionais de caracteres representando formas químicas. É preciso que criemos ainda novos descritores gênicos que nos permitirão observar a evolução dos genes em temos remotos. Por enquanto não sou capaz de vislumbrar muito bem para onde irá esse estudo, mas sei que mais cedo ou mais tarde seremos capazes de encontrar tais descritores e que a diversidade genética em nível gênico será razoavelmente bem explicada; embora eu creia que -- devido justamente a esses problemas metodológicos e paradigmáticos -- sempre conheceremos mais sobre a evolução de espécies do que de genes. Quiçá eu possa estar enganado.

O que me parece certo, entretanto, é que a descrição, análise e comparação dos conteúdos informacionais de genes através de diversos descritores (tamanho, estrutura, conteúdo gênico) será utilizado e estudado através de modelos computacionais. A filogenética é e sempre foi uma ciência da informação presente nos organismos biológicos; ela compara características espaciais e funcionais de genes andando num espaço temporal. Entidades que dividem maior conteúdo informacional estarão mais próximas evolutivamente e terão ancestrais comuns mais recentes, ou seja, serão oriundas de entidades presentes num passado mais recente. A base do estudo em evolução dos organismos -- e também dos genes -- é baseada no estudo formal e comparativo da quantidade de informação dividida entre entidades. Quanto mais informação dividem, mais próximas são e menos tempo tem se passado desde que surgiram por duplicação seguida de modificação de entidades no passado. A conclusão é que apenas com o estudo da quantidade de informação nessas moléculas, feito através da catalogação de suas características seguida por análises matemáticas coalescentes é que seremos capaz de reconstruir a história evolutiva dessas entidades. Essas análises matemáticas coalescentes serão feitas através de algoritmos e simulações computacionais e nos permitirão, cada vez mais, compreender a história da evolução da vida em nosso planeta. O século da biologia foi inaugurado, a ciência da informação será imprescindível para nos permitir compreender toda a vida e a biologia, cada vez mais, será explicada por modelos complexos computacionais. O biólogo que não se transformar em um bioinformata estará ficando para trás no século XXI. Ouçamos as palavras de Stein [1].

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[1] Stein, LD. Bioinformatics: alive and kicking. Genome Biology 2008, 9:114doi:10.1186/gb-2008-9-12-114
[2] É preciso compreendermos o que é chamado de darwinismo universal, ou seja, a aplicação de modelos de evolução darwiniana a uma série de outras entidades do mundo visível, tais como os genes, os genomas, as palavras, as linguagens, o conhecimento. E cada unidade básica com relação a tais meios de evolução produz unidades indivisíveis tais quais os organismos biológicos que podem ser consideradas seres ou entes. O pensamento teleológico nos faz pensar que genes ou genomas sirvam para alguma coisa específica enquanto eles devem ser pensados, ao que me consta, como unidades fundamentais de um processo evolutivo. São de certa forma entidades, entes, tais como nós e têm uma vida própria à despeito do utilitarismo com o qual os enxergamos e permitimo-nos classificá-los. Um gene não têm uma função da mesma forma que uma vaca não tem uma função; ou mesmo um ser humano. Somos entidades vivas, simplesmente; e evoluímos darwinianamente através do contato e interação com outras entidades e com o meio ambiente. Somos entes quando considerados em nós mesmos e essentes quando considerados em nossa co-evolução com o mundo externo a nós.

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Segunda-feira, Setembro 28, 2009

O antropocentrismo nas ciências (biologia)

Posteriormente à primeira grande queda do antropocentrismo dada a força das ciências -- que ocorreu dada a queda do modelo ptolomáico --, no século XIX houve um novo surto antropocêntrico nas ciências que correu impusionado por teorias como as lamarckianas e as newtonianas. Tais pesquisadores haviam encontrado critérios últimos e inquestionáveis, verificados na observação da natureza, para explicar a supremacia humana.

Jean-Baptiste Lamarck teorizava seguindo o ideal oriundo de Aristóteles na Grécia antiga que os organismos evoluíam através de uma grande cadeia dos seres cujo ápice seria a espécie humana. Em outras palavras, todas as espécies pareciam evoluir -- dentro de sua própria linhagem -- até que se transformassem no ápice da criação; a saber: o ser humano. Não há em Lamarck o conceito tido como o mais forte em Darwin e que consiste na ancestralidade comum [1] entre espécies e organismos. Lamarck acredita que as espécies evoluem em suas linhagens, porém essas linhagens jamais se intercruzam. O homem é portanto visto como o ápice da criação, ideal a ser alcançado.

E foi mesmo pouco antes de Lamarck que o homem começou a ser visto como o animal que verdadeiramente era e sempre foi, baseado nos trabalhos de classificação animal de Lineu, Buffon e do próprio Lamarck [2]. E paradoxalmente, ao mesmo tempo em que éramos agora incluídos na categoria dos animais, tínhamos um papel de destaque entre eles e não poderíamos de fato ser chamados ou classificados assim: como animais. Um novo grupo era criado para os humanos, separado e mais virtuoso do que todos os outros grupos vivos em nosso planeta. Ao início do século XIX, somos ainda os mais desenvolvidos organismos da face da Terra; somos crias de deus e nossas formas foram moldadas à sua imagem e semelhança. Os outros organismos eram vistos como degenerações de moldes perfeitos (platônicos) existentes apenas na mente de deus.


O ataque científico ao antropocentrismo que veio das ciências biológicas ocorreu há exatamente 150 anos, quando Darwin lançou o livro "A origem das Espécies". Os humanos não eram mais os organismos mais evoluídos do planeta e todos os organismos relacionavam entre si por ancestralidade comum. O ataque foi denso e forte: como se não bastasse não sermos mais o topo dentre os orgnanismos vivos, agora nem mesmo deus era necessário para que os organismos vivos existissem.



Entretanto havia aqueles que começam a pensar diferente. Charles Darwin nasceu em família católica e acreditou na criação dos organismos por deus durante grande parte de sua vida. Em sua biografia, Darwin revela que foi apenas aos 40 anos de idade quando finalmente conseguiu ser capaz de cogitar a origem dos organismos sem que estes precisassem ser moldados por um suposto ser de inteligência superior. E quando finalmente libertou-se de tal pensamento, o naturalista inglês tornou-se um crítico mordaz -- ainda que indireto -- do que veio então a ser chamado de criacionismo.

De fato, talvez a crítica de Darwin tenha sido ainda um ataque mais direto à religião do que aquela proposta séculos antes por Copérnico, Galileu e companhia. Ao século XIX, entretanto, a igreja não tinha mais a força assassina de outrora e os governos já engatinhavam no caminho da democracia e do laicismo (separação igreja-estado). As idéias de Darwin eram simples e claras, foram bem escritas e bem argumentadas. Houve um momento em que muitas partes de sua teoria chegaram a ser vistas como óbvias e evidentes por muitos dos grandes pensadores de sua época. Grande parte do que Darwin dizia estava correto. Particularmente o também naturalista Thomas Henry Huxley -- chamado de buldogue de Darwin -- participou de debates clássicos para a história da ciência, onde defendia ardentemente o evolucionismo [3]. Huxley entendeu de tal forma as implicações teológicas do darwinismo que chegou a criar um novo tipo hoje reconhecido de religião, o agnosticismo. Segundo esta filosofia, todo o tipo de questão metafísica deve ser considerada simplesmente incompreensível e não se pode responder com clareza certas perguntas metafísicas. À questão "existe deus?", o agnóstico responderá: "não sei". Uma nova posição teológica surge então das idéias de Darwin e culmina no que hoje pode ser entendida como a teologia secular. Nesta filosofia conhecida como secularismo há uma crença na razão e na ciência como salvadores do homem, porém não se acredita mais em nenhum tipo de crença mítico-religiosa não testada experimentalmente [4] e tenta-se ao máximo separar a igreja e o estado. O estado secular é laico e entende igreja e estado como assuntos separados e que não devem interagir para a formação de um estado-nação.

Durante o amargo desenvolver de sua teoria, Darwin foi obrigado a jogar no lixo boa parte de uma visão tradicional do mundo que houvera sido incutida à sua cabeça pela conservadora esfera cultural da Inglaterra vitoriana; conservadora que é praticamente toda a esfera de grandes poderes de uma época.

Depois de Darwin o ser humano passa a ser apenas um outro tipo de macaco, não tendo sido feito à imagem e semelhança de ninguém. Todos os organismos vivos descendem de um organismo ancestral surgido há bilhões de anos e todos são igualmente evoluídos. O homem não é apenas descendente do macaco, ele é um macaco. Mais precisamente ainda: um macaco do velho mundo, sendo que tudo indica que nossos ancestrais teriam vindo da África e, depois de sucessivas migrações, colonizado praticamente todo o globo terrestre.

ADENDO

Creio que o antropocentrismo depois de Darwin ficou restrito ao fato de nos considerarmos melhores, agora, não devido a termos sido criados à imagem e semelhança de um ser superior. Agora somos melhores porque temos nossa capacidade de cognição e linguagem. Entretanto, a complexidade animal não é algo que seja facilmente medida ou compreendida. Precisamos usar critérios precisos de medição e verificação para afirmarmos nossa supremacia. Hoje em dia mede-se a complexidade de organismos de diversas formas, entretanto normalmente os métodos mais rotineiros utilizados são justamente aqueles que colocam o homem no topo da cadeia animal. Haverão sempre critérios enviesados que podemos escolher para defendermos qualquer idéia que tenhamos. As águias enxergam melhor do que nós, os pássaros voam e há muito mais bactérias em muito mais lugares do planetas do que seres humanos. Quando as cianobactérias surgiram, houve uma extrema modificação da atmosfera de nosso planeta, que passou de redutora a oxidante. Seremos mesmo melhores ou mais virtuosos do que os animais? [5]

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[1] Para saber mais sobre a ancestralidade comum leia isto e isto.
[2] Aristóteles já havia nos classificado como animais desde antes de Cristo. Porém o pensamento cristão da idade parece nos ter retirado novamente desta classe e nos colocado em algum lugar superior na classificação dos organismos vivos.
[3] Em sua clássica discussão com o bispo Wilbeforce, Huxley afirma que prefere ser descendente de macacos por parte dos avós (como o bispo o acusava) do que utilizar a força de uma autoridade e tradição eclesiástica para ridicularizar, esconder e mascarar uma verdade científica tão importante. Definitivamente o darwinismo causou uma forte reviravolta no pensamento religioso e antropocêntrico.
[4] O secularismo também se baseia nos critérios de demarcação de ciências propostos posteriormente por Karl Popper. A ciência deve tratar de hipóteses falseáveis. Se não é possível realizar experimentos para falsear uma hipótese, ela não é científica. Argumenta-se que as questões metafísicas não podem ser testadas e, assim, não são científicas. O secularismo é, assim, uma filosofia materialista e racionalista.
[5] Um assunto relacionado ao nosso antropocentrismo e a teorias biológicas, pode também ser lido aqui.

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Quinta-feira, Setembro 24, 2009

A história do antropocentrismo nas ciências (física)


Nicolau Copérnico forneceu a primeira grande evidência matemática associada à argumentação contra o fato de que a Terra seria o centro do universo. Argumentando que o a Terra orbitava em torno do sol, Copérnico forneceu a primeira grande arma científica contra o antropocentrismo. Sua teoria só foi verdadeiramente aceita como correta 300 anos depois de sua morte, ocorrida em 1543.


Certamente um dos principais baques à idéia antropocêntrica dentro do pensamento cristão-ocidental aconteceu durante a chama revolução copernicana. O livro póstumo de Nicolau Copérnico, lançado em 1543, chamava "Das revoluções das esferas celestes", onde o astrônomo argumentava que a Terra não era o centro do universo; e sim, que girava ao redor do Sol. Não menos de 200 anos foram precisos até que esta visão, mais correta com relação ao que os epistemólogos chamavam de "contexto da justificação", pudesse ser aceita pela sociedade. O modelo ptolomáico, onde todos os corpos giravam em volta da Terra -- sendo esta o centro do universo -- enchia nosso peito daquele orgulho antropocêntrico ao nos fazer pensar que existisse algum tipo de cosmologia cósmica onde o homem e a Terra, seu planeta, fossem previstos e pensados; objetivos últimos na mente de Deus quando da criação do universo.

Aproximadamente 60 anos depois de Copérnico publicar seu ensaio, foi a vez do italiano Galileu Galilei apresentar dados que suportavam fortemente o modelo copernicano, principalmente ao verificar e estudar as fases do planeta Vênus e as luas de Saturno. Depois da publicação de seu livro que defendia o heliocentrismo, "Diálogo sobre os dois principais sistemas de mundo" (1632), Galileu foi preso pelo tribunal da inquisição e teve que se retratar, dizendo que não acreditava no que houvera dito; e tendo sido condenado à prisão domiciliar pelo resto de sua vida. Apenas em 1718, ou seja, 75 anos após sua morte (em 1642) que a igreja católica através da inquisição veio a autorizar a publicação de seus trabalhos. E ainda o livro "Diálogo..." era ainda proibido à época tendo sido permitida sua publicação, com cortes, em 1741. Foi apenas em 1835 que seu livro foi finalmente liberado para publicação e retirado da lista-negra da igreja católica.

O antropocentrismo estava tão intimamente ligado à concepção do catolismo e do deus à nossa imagem-e-semelhança, que as idéias empiricamente comprovadas de Copérnico e Galileu (dentre outros) demoraram 300 e 200 anos, respectivamente, para serem aceitas -- ainda a contra-gosto -- pela igreja católica. Um atraso claro no desenvolvimento científico e espiritual (com relação à visão de mundo) na história da humanidade.

EPÍLOGO

Por que temos esta necessidade em nos sentirmos superiores? Por que necessitamos que nossas vidas sejam recheadas de um suposto desígnio? Por que não podemos simplesmente morrer e desaparecermos por completo? Creio que apenas no século XX que Jean-Paul Sartre veio a criar um sistema filosófico -- o existencialismo -- que recusa o desígnio e tenta criar algum tipo de metafísica ateísta que valoriza a vida e nos incute uma enorme responsabilidade com relação aos nossos atos e às nossas decisões. Sartre parece ter sido um dos primeiros a aceitar nossa incompreensão com relação ao mundo que nos cerca e fugir de respostas fáceis e falsas, apostando na responsabilidade e numa certa angústia para o bem-viver. Não precisamos de respostas que nos elevem ao topo do mundo, precisamos apenas aceitar a falta de sentido do universo e da vida; e vivermos nossas vidas tão bem quanto pudermos sem esquecermos de nossas responsabilidades sociais.

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Segunda-feira, Setembro 21, 2009

É impossível fugir totalmente do antropocentrismo

ou "a lente epistemológica que temos é a lente humana"


O ponto de vista de acordo com o qual observamos e medimos regularidades científicas será sempre enviesado de acordo com a forma que sentimos e somos capazes de processar cognitivamente esta informação. É impossível que os homens consigam um conhecimento absoluto sobre alguma coisa. Todo conhecimento que temos passa pelo crivo de nossos sentidos e nosso cérebro; ele não é um conhecimento absoluto, necessário ou limpo. Só podemos saber, portanto, aquilo que nossa biologia nos "permite".


Toda nossa compreensão do mundo que temos passa pelo filtro de nossos sentidos e de nossa capacidade cognitiva. Se por um lado corremos contra o fato de por demais nos exacerbarmos antropocentricamente, por outro precisamos lembrar que todo o conhecimento que temos é um conhecimento do homem e está ligado à nossa capacidade sensorial e cognitiva de compreender o mundo. O universo per se, não é desta forma que o imaginamos, ele é muito mais complexo do que sequer podemos imaginar. Nossos modelos científicos nos permitem reunir dentro de arcabouços conceituais precisos, determinadas ordens que fomos capazes de (i) compreender e (ii) criar teorias metafísicas consistentes para integrá-los a outros conhecimentos que já possuíamos.

Houve um tempo em que não conseguíamos entender aquilo que era transparente aos nossos sentidos, como a luz-ultravioleta, o ultra-som e os raios-X. Criamos então máquinas que nos permitiram observar o mundo natural utilizando algumas dessas tecnologias; embora ainda não possamos utilizá-las que senão dentro de contextos bem específicos. Ainda não somos capazes de ver em ultravioleta ou apreender as regularidades do universo que apenas se expõem aos que têm este sentido associado a um mecanismo particular de cognição. Agora capazes de utilizar estas tecnologias para aumentar nossa compreensão sobre o mundo que nos rodeia. Agora temos lâmpadas e sonares e aceleradores de partículas. Mas nosso acesso a tudo isso é indireto. Utilizamo-os e transformamo-os em dados que podemos interpretar com os sentidos que temos. Um outro universo se revelaria a nós se pudéssemos investigá-lo e observá-lo diretamente através de novas capacidades sensoriais. Será ético algum dia associar ao corpomente de um ser humano novos captadores sensoriais? O quão mudará nossa visão de mundo depois disso? Quereremos chegar a este ponto?

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Tudo que poderemos um dia descobrir estará diretamente associado à nossa intrínseca capacidade cerebral de processamento. Da mesma maneira que somos incapacitados fisicamente de voar, acredito que sejamos também incapacitados fisicamente com relação à descobrir certas regularidades naturais cuja ordem existente no universo escapa à nossa capacidade cerebral de apreensão. Não descobriremos aquilo que só se descobriria se fosse possível ter um cérebro 10x mais "potente" -- em determinado sentido -- que o nosso [1]. É preciso que compreendamos nossas limitações para que assim possamos apreender a complexidade do mundo que nos rodeia. Tanto tempo houve em que não compreendíamos o movimento das estrelas, o mecanismo de herança biológica do DNA. Para tais eventos, nossos cérebros estavam razoavelmente preparados e moldados de forma que conseguíssemos ter uma noção do que estivesse acontecendo. Mas não sem antes aplicar uma metodologia estrita para a verificação; a ciência. Se fôssemos realmente tão perfeitos como pensamos que somos, não precisaríamos de ciência ou estatística. Somos limitados, é preciso que aceitemos. E além disso, é preciso que saibamos que nossa visão de mundo é uma visão humana, não uma visão absoluta que garante a certeza do que fazemos e trabalhamos. Se conseguimos ver estrelas emitindo luzes no comprimento de onda do vermelho, isso se dá porque concordamos sobre nossa caracterização de estrelas, ondas eletromagnéticas e a separação destas em faixas (vermelho). A ciência que temos é a ciência do homem. Ele evidencia sim regularidades naturais, mas ela consiste apenas numa parcela pequena do que pode ser visto ou compreendido. A evolução das ciências ao longo dos séculos mostra isso claramente e não há porque pensarmos que hoje sabemos tudo-o-que-poderíamos-saber. A ciência de amanhã será melhor que a de hoje; e a de depois de amanhã será melhor do que a de amanhã.

A astronomia e a genética tem nos iluminado muito -- de fato, todas as áreas da ciência têm iluminado nossa compreensão do que nos cerca. Mas precisamos lembrar que houve um tempo em que não as conhecíamos e que, digamos, os padrões de movimentação de estrelas ou de transmissão da herança biológica nos eram misteriosos. Ainda há muitas coisas desconhecidas, inclusive, detalhes destes mesmos processos descritos acima dentre outras coisas que sequer somos capazes hoje de imaginar. E todo nosso conhecimento consiste no conhecimento que podemos ter, dado que temos este aparato sensorial e cognitivo; que produziu também esta sociedade e esta ciência. O conhecimento de uma espécie sobre o universo que a cerca é um conhecimento, portanto, de características bayesianas -- no sentido que depende de algo que é dado, ou seja, nossas aptidões biológicas. Talvez, assim, possamos modelar aquilo que podemos ou não conhecer. Talvez baseando-se nisso possamos definir a probabilidade de que atinjamos determinados conhecimentos, dado que temos estes mecanismos sensoriais dados (visão, audição, tato, olfato, paladar, equilíbrio, propriosepção) e esta capacidade cognitiva; e não uma outra qualquer.

Sejam:
X = capacidade cognitiva humana
Y = capacidade sensorial humana
Z = X + Y; (X e Y não são variáveis independentes)

A = adquirir um conhecimento em particular (digamos, as bases moleculares da hereditariedade)

Aplicando o teorema de Bayes, a chance de sermos capazes de conhecer A dependerá sempre de Z; assim como a probabilidade de que A seja descoberto depende da existência de Z.
P(A|Z) = [P(Z|A) . P(A)]/P(Z)

(É claro que tais probabilidades de chegarmos a algum conhecimento são absurdamente difíceis de serem calculadas e parece que qualquer número que escolhamos sairá bastante arbitrário. A questão é simplesmente entendermos a relação entre o que sabemos e o que nos é dado a saber, dada nossa constituição animal.)

Finalmente, ao compreendermos nossas limitações, podemos assim vislumbrar que todo o conhecimento que temos é um conhecimento humano sobre o universo. O universo é caótico e excessivamente complexo, ele permite diversas formas de interpretação e de conhecimento. Perceba que o desenvolvimento das ciências se dá de forma cumulativa. A estrutura do DNA não teria sido descoberta se não conhecêssemos mecanismos de cristalografia e os raios-X. O conhecimento de uma época se desenvolve a partir do conhecimento acumulado do passado e a ordem em que as descobertas são feitas depende tanto de esforços individuais de cientistas brilhantes como da disponibilidade de certas metodologias de avaliação. Os modelos científicos que criamos não estão necessariamente corretos, eles apenas explicam groso modo, a forma como a natureza se comporta. A física newtoniana não estava absolutamente correta e o mecanismo de herança ocorre também de maneira muito mais complexa do que aquela sugerida por Mendel.

No fim, o universo pode ser interpretado através de múltiplas facetas e a ordem em meio ao caos está codificada de diversas maneiras. A ciência consiste na busca e na precisa documentação desta ordem. Mas a ordem que pode ser enxergada pelos seres humanos é diferente da ordem que pode ser observada por outros organismos. A abelha usa seu olho composto para se mover rapidamente; usam sua visão ultra-violeta para identificar as flores com pólen mais atraente e/ou nutritivo. Uma suposta ciência das abelhas talvez identificasse mais rapidamente como a diferença na absorção de luz por um pólen está relacionada com seu aspecto nutritivo, de um ponto de vista da própria abelha, que para viver precisa de uma quantidade relativamente diferente de nutrientes do que os humanos. Da mesma forma, as baleias se comunicam ao longo de todo oceano por sons muito graves, sendo capazes de emiti-los e recebe-los (hoje talvez nem sejam mais capazes de recebe-los com precisão, dada a poluição causada pelos seres humanos e pelos navios com sonares ao longo do oceano). A visão de mundo da baleia, portanto, está relacionado ao que ela consegue sentir e ao que precisa para viver. Também nosso conhecimento é altamente enviesado com relação à nossa visão de mundo e com relação à sociedade podre de consumo e dominação que criamos.

CONCLUSÃO

O antropocentrismo, finalmente, justifica-se assim, de certa forma. Poder-se-ia dizer que somos antropocêntricos porque somos humanos e seriamos baleiocêntricos se fôssemos baleias. Correto. Mas se quisermos tentar descobrir os meandros da ordem que rege nosso universo devemos tentar adquirir conhecimentos que sejam mais gerais e imparciais do que aqueles que somos capazes de compreender como seres humanos. De fato, isso parece impossível. A menos que tentemos transformar-nos em algo diferente.

A epistemologia depende de um sujeito conhecedor

O conhecimento que temos não estará escrito em nenhum livro de conhecimentos definitivos sobre o universo. Este livro não existe. Não existe epistemologia sem um sujeito conhecedor. Popper estava errado.

Os memes são parasitas de genes ou, mais precisamente, são parasitas de organismos biológicos. Os livros (ou qualquer tipo de informação codificada em caracteres) são os análogos meméticos dos vírus biológicos. Da mesma forma que os vírus só têm vida dentro de uma célula, também os memes só passam a ter vida quando dentro de um cérebro. A ciência nos mostra que cada micro-partícula tem um sem-número de detalhes e de comportamentos imprevisíveis que só podem ser descobertos depois de anos de estudos. E após esses anos de estudos, descobre-se novos comportamentos desta partícula que podem ainda ser cada vez melhor compreendidos, de um ponto de vista reducionista -- ou serem integrados holisticamente a outros conhecimentos com os quais este conhecimento interage. A busca honesta do conhecimento científico cada vez mais abre as portas para a compreensão; ao invés de fechá-las. A via do conhecimento não parece ter fim ou limite; não haverá também nenhum conhecimento definitivo. O conhecimento sempre tende a aumentar e tornar-se mais detalhado; exigindo posteriores sínteses científicas que venham interpretá-lo num contexto mais geral onde ele realiza a interseção com outro tipo de conhecimento.

Todas essas interpretações, entretanto, serão feitas pelo homem, com seus sentidos e cérebros limitados. O mundo real, portanto, é diferente e muito mais complexo do que este mundo que explicamos através da ciência. Ele tem um sem-número de pontos de ordem os quais ainda não conseguimos ainda compreender. Ele tem também um sem-número de pontos de ordem que jamais seremos capazes de compreender. É muita arrogância do homem achar que tem tudo nas mãos ou que pode saber tudo. Haverá sempre coisas que nos aguçarão a curiosidade e das quais não seremos capazes de encontrar sua ordem, embora ela possa existir e que pudesse quiçá ser descoberta por seres de cognição mais desenvolvida [2]. Tais seres, provavelmente, teriam uma ciência completamente diferente e incompatível com a nossa; embora essas ciências pudessem se adicionar caso conseguíssemos comunicar-nos com eles; algo que parece bastante utópico e irreal mesmo porque talvez toda a conceitualização de mundo deles através de palavras e símbolos seria provavelmente bastante diferente da nossa. Talvez a evolução das ciências e de nossa compreensão do mundo que nos cerca fosse extremamente impulsionada caso novos métodos de comunicação com animais fossem tentados e realizados à exaustão.

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[1] Computadores melhoram nossa capacidade de processamento, mas embora eles consigam fazer cálculos muito rapidamente, eles não conseguem compreender estes cálculos. Aumentar nossa capacidade cognitiva significa aumentá-la em diversos aspectos; inclusive talvez seja mais importante aumentar nossa capacidade de síntese e de compreensão do que aumentar o número de cálculos que fazemos por segundo ou transformarmos nossa memória em algo mais preciso. (Falo aqui sempre de aspectos filosóficos, embora a questão da bioengenharia esteja sempre permeando esta análise.)
[2] Para mim é óbvio dizer que sapos e baleias e cavalos ou vacas sabem muita coisa sobre regularidades do mundo que nós como seres humanos não sabemos. A vaca parece conseguir captar o campo gravitacional da terra, enquanto os tubarões possuem sentidos que os permitem perceber eletricidade e os morcegos são capazes de enxergar via sonar.

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Domingo, Setembro 20, 2009

A próxima queda (cognitiva) do antropocentrismo

O antropocentrismo deve morrer posto que é inverificado quando avaliamos e medimos a natureza de forma menos dogmática -- tão pouco quanto possível. Apenas com o desenvolvimento das ciências, com o acúmulo de conhecimentos sobre a natureza e o desenvolvimento de formas mais isentas de interpretação dos mesmos é que conseguiremos aos poucos nos afastar deste pensamento egoísta e absurdamente excêntrico de que a espécie humana seja de alguma forma diferenciada das outras espécies animais ou vegetais.

Precisamos de uma outra revolução contra o antropocentrismo. É hora de uma revolução da mente. Precisamos entender que a visão de outros organismos sobre o mundo é diferente da nossa de uma forma que não pode ser taxada absolutamente de pior ou melhor. A natureza nos apresenta como um enorme conjunto de condições caóticas e cheia de regras que nos são, por vezes, invisíveis. Outros sistemas sensoriais e outros cérebros evoluídos certamente apresentam formas diferentes (e úteis) de interpretação e compreensão da natureza.

Ao entendermos que nossa forma de compreender o mundo é apenas mais uma dentre as diferentes formas de compreender o mundo que possuem outros organismos, poderemos quiçá começar a utilizá-los nesta nossa busca por maior compreensão. Mais uma vez, provavelmente, utilizaremos os organismos de acordo com princípios utilitaristas. Experimentos recentes em neurobiologia já nos mostraram que a extrema plasticidade neuronal dos primatas permite a eles controlarem braços robóticos ligados aos seus cérebro por chips e distantes deles mesmos. É claro que tais experimentos foram realizados em primatas não-humanos.

Ao conectarmos novos mecanismos sensoriais aos nossos cérebros, talvez venhamos a entender melhor como outros organismos se comportam dado que sentem o que sentem e que veem o que veem. É certo que suas compreensões com relação ao mundo são diferentes e de certa forma complementares às nossas. Talvez em breve consigamos compreender melhor os animais e quiçá sejamos até capazes de nos comunicarmos de forma razoavelmente eficiente com eles. Se alcançarmos este ponto, talvez, compreendamos melhor o quanto não sabemos e quão limitado é o nosso saber. Num novo ataque futuro ao antropocentrismo seremos capazes de verificar quão minúsculos somos dado a enorme complexidade do mundo natural. É claro que mamíferos complexos possuem uma compreensão razoável do mundo natural; do contrário não teriam os comportamentos complexos que têm. Assim, eles entendem de certa forma o mundo que os rodeia.

Assim, nosso próximo salto para baixo com relação ao antropocentrismo será dado, talvez, quando percebermos nossas limitações epistemológicas, sensoriais e cognitivas. Neste momento perceberemos como outros animais à nossa volta são capazes de perceber melhor outras regularidades no mundo e tentaremos, certamente, usá-los aos nossos propósitos; egoístas que somos. A escravidão animal e vegetal é hoje apenas realizada com intuitos materiais; em breve talvez exploraremo-los sensorial e cognitivamente. Prevejo que neste momento veremo-nos pobres cognitiva e sensorialmente, haverá uma nova queda no antropocentrismo e, após percebida, partiremos a utilizar os animais para nos ajudar a vencer este problema.

Da mesma forma que hoje fazemos transgênicos, talvez no futuro seremos ciborgues -- misturas de homem-máquina-animal. Teremos a força e a compreensão dos animais e estaremos ligados a eles talvez por máquinas que traduzirão seus sentidos em nossos sentidos -- ou que nos permita interpretar diretamente seus sentidos --, dando-nos uma compreensão mais precisa da complexidade do universo. (No mínimo, esta idéia daria uma interessante ficção científica, a qual já estou, há anos, a ponto de escrever. Talvez esta postagem me motive.)

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Quarta-feira, Setembro 16, 2009

Antropocentrismo e epistemologia, II

Continuando uma reflexão epistemológica, eu não acredito que a natureza opere através de um único padrão cognoscível (que tenha sido encontrado por humanos). Acredito que a natureza pode ser interpretada através de diferentes perspectivas e que seja possível encontrar ordem por onde quer que se observe. Acredito ainda que se possa montar alicerces lógicos para compreender o que hoje é inexplicável. Deus fazendo o mundo é um tipo de ordem. Hoje, se você considerar que tudo é caos, a ordem é explicada por atratores estranhos dentro de um tempo finito. A forma da explicação mudou, hoje ela é menos antropocêntrica do que foi no passado. Provavelmente, a idéia do universo caótico ainda está parcialmente incorreta de uma maneira que hoje nos é inconcebível; talvez seja possível dividir o caos em partes ou categorias diferentes. Apenas o indivíduo que usa sua criatividade pode tentar encontrar erros em uma teoria. Só ele pode questioná-la e verificar sua inadequação ao universo observável. O indivíduo que não é criativo apenas engole a teoria tal qual lhe foi dada e vomita-a da mesma forma; ele não é capaz de verificar seus pontos fortes e fracos ou relativizá-la em condições onde ela não se adeque perfeitamente.


O atrator estranho de Lorentz; sistema dinâmico onde números escolhidos ao acaso foram iterativamente aplicados em certas regras matemáticas diferenciais e cujos resultados convergem em certas regularidades observáveis. O atrator estranho, com relação à teoria do caos, vem mostrar que mesmo em um caos completo determinada ordem pode surgir.


Mesmo a teoria do caos é ainda hoje inconcebível para o cidadão comum ou para o clérigo leigo; e vista com bastante desconfiança pelo clérigo estudioso e outros intelectuais mais conservadores. Nossos cérebros -- formadores de mitologias evoluindo num mundo animal -- parecem não ter sido capazes de conceber de forma plena o mundo que o cercava. De fato, nunca serão. A busca pelo conhecimento é infinita. Não acredito que haja um poço ou livro mágico e definitivo sobre a natureza do universo e que o homem será um dia (pensa-se, em breve) capaz de ler. O antropocentrismo-monoteísta é frequentemente baseado em visões morais estritas de certo e errado. Essas visões morais estritas normalmente também moldam a visão de mundo do indivíduo e sua visão epistemológica. Aquele que não duvida de seu deus normalmente também não duvida de sua ciência, tendo ambos como maravilhas a serem colocadas em pedestais; e jamais questionadas. Dogmas científicos têm assim uma herança desta nossa sociedade cristã; dogmas não podem ser encontrados em ciência e precisam ser destruídos para que a visão de mundo do homem avance em busca do maior conhecimento e da maior modelização e predição do universo observável.

Acredito que o universo não é só mais complexo do que pensamos, ele é mais complexo do que seremos algum dia capazes de pensar.
Nossos modelos científicos nos ajudam, em muito, a tentar entender o que nos rodeia, mas Kant já mostrou que a verdade nos será para sempre inalcançável; jamais conheceremos a coisa-em-si. Todo nosso conhecimento está fadado em ser aquele que nossos cérebros limitados (porém assim mesmo maravilhosos) são capazes de processar. Não é difícil, inclusive, produzir máquinas com mais velocidade de processamento do que o cérebro humano, mas o que então nos faz assim: diferentes, racionais? Quiçá eu tivesse a resposta. Esse senso de maravilhamento com o que somos e com o que podemos fazer está no centro do pensamento antropocêntrico que venho aqui discutir.

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Domingo, Setembro 13, 2009

Antropocentrismo e epistemologia, I

A visão antropocêntrica, por seus grandes deslizes morais, tem sido questionada há muito pelos mais propensos intelectuais e pensadores. Neste apelo à autoridade não me sinto só em minhas críticas quando leio a história filosofia ocidental: ramo rebelde de sua própria irmã teologia, que pôde também florescer de forma esquiva e calada, sempre manipulada pelos mesquinhos (o trocadilo de Estamira) das piores formas possíveis; e outras ainda piores.

O conhecimento como valor

Se de um lado o saber é o combustível desta sociedade; doutro é também um freio. Cito como evidência anedótica desta teoria algo que creio conhecer detalhes técnicos como nenhuma outra pessoa, a saber: a minha própria vida. Para que me educasse como biólogo molecular de computadores (bioinformata) estudei em alguns dos centros técnicos dentre os melhores do mundo na área, na França e Inglaterra. Tal conhecimento inter-cultural, entretanto, causou profundos e incorrigíveis danos morais em minh'alma. Senti na pele o preconceito do povo europeu com relação aos diferentes povos. Um preconceito que é tanto contra o diferente, quanto é pelo mais pobre: pelo supostamente menos dotado em quesitos intelectuais. Nenhuma pessoa é capaz de ser especialista em todas as áreas do conhecimento. Assim, aconteceram certas ocasiões em que discuti com europeus sobre assuntos que me eram extremamente familiares. Enquanto muitos deles pudessem talvez saber sobre os mais puros conhecimentos técnicos em determinada micro-área técnica do conhecimento ou até mesmo ter conhecimentos amplos sobre a história de sua sociedade, eu estava certo em saber mais do que eles sobre certas tecnicalidades da análise computacional de sequências de DNA; nesses casos cansei de vê-los dando pitacos incorretos (algumas vezes absurdos) e sempre arrogantes. Poucas vezes pediam opinião e, quando viam uma discordância bem argumentada, preferiam simplesmente esquecê-la. Lembro-me apenas de uma ou outra ocasião profissional em que eles se deram ao trabalho de modificar a metodologia por conta de uma boa e clara argumentação; praticamente inegável sobre determinado assunto ou metodologia de avaliação. Não foi apenas comigo que isso aconteceu, posso citar uma mão cheia de casos onde houve recusa intelectualmente inaceitável de cientistas (até mesmo dentro do Brasil) em ouvirem uma opinião provada mais correta por indivíduos oriundos de grupos sociais tidos estereotipicamente como menos aptos (como alunos de iniciação científica, por exemplo). Creio que se existe algo que o bom cientista e verdadeiro intelectual não pode jamais se sujeitar é ser obrigado a realizar algo que não concorde: um experimento científico, por exemplo, que poderia ser realizado de forma mais eficiente com o mesmo esforço. O problema é que normalmente a forma mais correta de se resolver um problema não é sempre a forma mais rápida, mas essa excelência da ciência e da busca pelo conhecimento deve ser buscada. O cientista não pode aceitar que seu experimento seja de alguma forma dubitável, dada as técnicas que possui num determinado tempo no qual ele trabalha [1]. Por outro lado, os líderes científicos muitas vezes não estão dispostos a escutar formas inovadoras de se realizar determinado experimento; nem mesmo estão dispostos a aceitar sua ignorância em determinado assunto e aceitarem realizar experimentos da forma mais indicada na literatura. Em suas arrogâncias de pensarem saber tudo, não permitem críticas vindas de baixo e não querem sequer escutar a argumentação. Este tipo de surdez intelectual consiste num tipo de desonestidade intelectual, onde um pesquisador pode (i) saber que usa incorretamente alguma metodologia ou; (ii) acreditar que usa uma metodologia correta e não querer escutar outros que conhecem metodologias concorrentes para se chegar à resposta de algum tipo de questionamento.


A surdez intelectual acontece quando uma determinada pessoal não deseja escutar um argumento que vá contra o que ela anteriormente pensava. A surdez intelectual é um tipo de desonestidade intelectual e atinge um número enorme de indivíduos de alto renome, que sempre se acreditam corretos e que não querem sequer escutar pontos-de-vistas contrários aos seus. O desenvolvimento intelectual do ser humano é excessivamente travado por este tipo de pensamento que pode ser encarado como uma arrogância ligada ao antropocentrismo.

A ciência deveria, acredito, basear-se em críticas argumentadas; não em abuso de poder. A visão da supremacia intelectual dos homens com relação aos outros animais; e de certos homens com relação aos outros tem empacado o desenvolvimento moral e intelectual da sociedade. Não há discussões verdadeiramente abertas e o hiper-ego arrogante dos seres humanos faz com que o mundo gire em círculos viciosos sem jamais aproveitar toda a imaginação criada por tantos de nós que hoje populamos em excesso este planeta. É preciso que o preconceito e a arrogância antropocêntrica morram para que alcancemos novos patamares morais para nossa sociedade.

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[1] Em cursos de pós-graduação onde dou aula, tento enfatizar sempre o fato de que a rigidez metodológica deve ser considerada um dos principais pilares do fazer-científico. O grau de informação que um determinado experimento científico pode trazer deve ser sempre previsto, de forma a desenvolver novas metodologias cada vez mais informativas. A classificação dos dados em grupos (clustering) deve ser sempre realizado a partir de uma hipótese prévia que o experimento queira refutar ou corroborar. Agrupamentos classificatórios alternativos podem ser experimentados de forma a funcionarem como controles positivos ou negativos do que se deseje mostrar. Podem também ser feitos de forma a ajustar o método através da observação da natureza.

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Quinta-feira, Setembro 10, 2009

Antropocentrismo


O homem vitruviano: pintura renascentista de Leonardo da Vinci. Normalmente entendido como representando a vontade do homem em realizar medições precisas e do fazer científico, esta figura também indica como o homem coloca-se, frequentemente, no centro das medições e no centro do universo. Eis a idéia do antropocentrismo.


Algo que a cristandade nos trouxe de mal -- ou se não trouxe, manteve forte em nossas mentes -- foi o fato de fazer-nos pensar em nós mesmos como organismos superiores e controladores de todos os outros; sendo esta supremacia verificada do simples fato de que podemos controlar e utilizar os outros organismos que dividem o mundo conosco a nosso "bel prazer". Tanto que o deus criado pelos cristãos aconteceu de ser idêntico à forma humana, ou melhor, nós é que teríamos sido criados à "sua" imagem e semelhança: o ser julgador.

O que pretendo relatar nesta série de postagens sobre o antropocentrismo são algumas idéias que tenho sobre história do pensamento antropocêntrico: este que coloca o homem no topo do mundo e que resultou tanto na cristandade como na sociedade contemporânea; evolução natural de uma cultura focada em nossa supremacia.

Aqui podemos perceber já um problema do tipo ovo-galinha. Terá sido o pensamento cristão a "criar" o pensamento antropocêntrico ou o contrário? Acredito que cristianismo e antropocentrismo são conceitos que dividem um arcabouço conceitual de idéias muito próximos. Mas acredito que o cristianismo seja um tipo doutrinário específico de antropocentrismo e faça parte dele como sub-grupo. Este argumento vem do fato de que há várias formas de se ser antropocêntrico sem ser cristão, mas não creio existir alguma forma de ser cristão sem ser antropocêntrico. São chamados de pagãos aqueles indígenas que acreditam que deus está na natureza; o deus cristão tem a imagem e semelhança do homem! Este pensamento também concorda em parte com idéias de outros intelectuais -- como Dawkins e Loyola [1] -- que vêm no monoteísmo o grande problema da sociedade contemporânea. O que o monoteísmo trouxe foi um deus em formato humano. O problema da sociedade entretanto não parece ser apenas o fato de ter-se apenas um único deus, porém um deus com a imagem do ser humano; concorrente com outros deuses de imagens étnicas ligeiramente diferentes de acordo com os humanos que o moldam em suas cabeças. Desta forma parece-me que o problema das sociedades modernas está mais relacionado com o antropocentrismo do que com o monoteísmo. O monoteísmo onde um deus Uno sem forma humana existisse talvez não fosse tão danoso como a idéia de um deus de características humanas. O excesso deste nosso antropocentrismo evidenciou-se também nas ciências, da Grécia antiga até Darwin. O biólogo evolutivo francês Jean-Baptiste Lamarck herdou de Aristóteles a idéia de que havia uma escada natural, uma scala naturae. Esta escada deveria ser subida pelos organismos "menos evoluídos" até alcançarem os "mais evoluídos". A rota de todas as espécies seria, um dia, chegar a ser homem. A falácia do progresso, o erro em considerar-nos melhores do que outros, de pensar que outros querem ser como nós, que ser-como-nós é melhor, é mais virtuoso. Este é o pensamento antropocêntrico.

Seguindo a mesma linha argumentativa o excelente teólogo americano Joseph Campbell, revela em sua entrevista sobre "O poder do mito" seu encontro com um padre da alta cúpula da igreja católica que o pergunta justamente se ele acreditaria num "deus pessoal". O padre sabe que a idéia do deus-pessoal está no centro da crença monoteísta cristã. Campbell diz que esta pergunta o iluminou em grande medida com relação ao entendimento teológico de nossa sociedade.


Um membro da alta hierarquia da igreja católica perguntou ao teólogo americano Joseph Campbell se ele acreditava num deus pessoal. A questão da pergunta ter-se dirigido à questão do deus "pessoal" intrigou Campbell e o fez entender melhor certos dogmas católicos e o antropocentrismo que é a base das religiões cristãs (retirado da entrevista "o poder do mito").



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[1] Talvez esse assunto possa ser melhor estudado na Roma e na Grécia antiga. Isso porque nesses momentos históricos houve algo que hoje não mais existe e que consiste na visão politeísta associada à visão antropocêntrica dos deuses. Os deuses humanos e gregos apresentavam antropomorfia, ou seja, tinham a forma de seres humanos e chegavam até mesmo a interagir com eles. Não faltam exemplos de deuses greco-romanos que se passavam por homens ou a presença de semi-deuses resultantes do acasalamento entre deuses e homens. Este tipo de religião pode ser entendido, talvez, como uma forma intermediária entre os deuses da natureza (normalmente associados à culturas indígenas) e ao monoteísmo que posteriormente veio a reinar com o desenvolvimento do cristianismo.
Parece-me que o estudo da cultura greco-romana pode tornar mais clara a questão das mudanças sociais causadas pelo monoteísmo ou pelo antropomorfismo dos deuses, que passaram de entidades místicas naturais indígenas para entes personificados como humanos.

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Quarta-feira, Agosto 12, 2009

O que o filósofo pensava...

Sinceridades filosóficas: linguagem, ciência, epistemologia e sociedade

Numerosos foram os que lhe haviam avisado: “não sigas por este caminho”. E junto ao aviso vinham atachadas as mais diferentes e absurdas explicações, por vezes até antagônicas, a justificarem porque não deveria ir por ali. Porém nunca acreditou em conselhos e preferira sempre ouvir o que lhe vinha de dentro, âmago do seu sentimento de propriocepção, identidade última de seu eu humano e orgânico; ego. E assim seguia pelos meandros obscuros de sua própria sensibilidade tentando alcançar seu patamar startrekeano de seguir bravamente à frente, chegando até onde nenhum homem jamais esteve. Em sua desventura corajosa, normalmente sentia-se sozinho, desacompanhado e carente. No mundo, ninguém o entendia, por mais que tivesse o dom de encadear de forma precisa símbolos ou fonemas a expressar a razão última e todo o propósito quiçá direcionado de seu sentimentalismo racional. Ora, pois. Sejamos francos: não tinha dom algum. Era apenas uma alma como qualquer outra que assim vagava pelo mundo, perdida em dúvidas e falsas percepções, enganosas da dura rotina social, do duro acordar e viver e dormir que todos nós passamos existencialisticamente ao longo de nossas supostas experiências sensorias a navegar pelo mar unidirecional do tempo.

Não era, em absoluto, algum tipo de solipsista. De certa forma inexplicável pelas teias da razão, sabia que não era uno e que todos eram indivíduos com dúvidas e receios, ou -- tanto pior --, com falsas, inabaláveis e errôneas certezas. Mais medo tinha das certezas do que da força da opressão dos mais fortes, embora temesse os dois de forma aguda e crônica ao mesmo tempo. Assim, temia sempre e muito qualquer fundamentalismo-cego e a opressão por pares. Tinha também essa mania verborrágica de tentar tudo explicitar através destes símbolos limitados que jamais alcançariam na mente dos outros uma compreensão completa sobre o que quisesse dizer. Sua teoria era a da semi-compreensão. Só seria de fato compreendido – de maneira em grande parte superficial – quando falasse abobrinhas ignóbeis e vazias de qualquer conteúdo sentimental; ou quando encadeasse conceitos falhos como se fossem magníficos salve-salve! e quando estivesse incluso nos domínios limitados da lógica ou da ciência. O mundo, entretanto, era muito mais do que isso.
O teimoso escutador de sua própria alma falava sem razão e escrevia livremente sem parar; de fato a refletir sobre símbolos ou fonemas que eram expelidos de seu corpo assim tão naturalmente. Ao máximo resistia em refrear seus instintos e jamais falava para agradar seus pares. Incorria em erros e gafes sociais de maneira constante e aos poucos era afastado da sociedade por Eles. O ermitão de uma nova forma de conhecimento era de fato um artista da arte epistemológica e quando gritava colocava para fora toda essa parafernália aérea que entrava por seu nariz, passava pelo pulmão e voltava sendo modificada por desvios anatômicos de sua laringe a emitir sons que para outros seres da mesma espécie poderiam ser quiçá “compreensíveis”. Falava diversas línguas e ainda assim espantava-se sempre ao encontrar indivíduos que falavam outras línguas por ele desconhecidas. Não sabia como essas pessoas conseguiam se compreender, posto que seus fonemas nada lhe diziam. Tinha para si que aprender linguagens era o supra-sumo do estudo antropológico; aprendia sobre a humanidade através dos idiomas, quiçá a expressão máxima de representação de uma cultura inteira. Tinha a convicção que, tal qual ferramentas diferentes permitem fazer trabalhos diferentes, certos idiomas eram melhores para elaborar idéias de determinados tipos em especial. Alfabetos fonéticos, como as línguas germânicas e latinas, ao contrário de alfabetos idiogramáticos – como o japonês e o chinês –, facilitavam sem dúvida o pensamento cartesiano e racional, herança grega [1]. Doutro modo, idiogramas facilitavam uma compreensão mais holista do mundo como esfera ampla e desconhecida, tal qual os Anacletos de Confúcio.

Fato é que os herdeiros dos gregos parecem ter sido “vitoriosos” nos últimos dois milênios dada a ocidentalização globalizada dos tempos modernos, mas talvez a era de aquário traga o desenrolar dos herdeiros da civilização oriental [2]. Tudo será influenciado pelo próprio desenvolvimento ideológico do mundo, assim como aquele da própria lógica do conhecimento. Certamente ainda sofremos forte influência memética inercial da visão preto-no-branco do século XIX e do positivismo lógico. Embora ainda se tenha muito para conhecer com relação às minúcias e tecnicalidades do funcionamento da matéria, da biologia e da mente, o acúmulo de conhecimento neste momento já é enorme e talvez seja o momento de chinesizar filosoficamente todo esse conhecimento, agrupando-o e olhando-o de maneira mais holista. Os dados que temos hoje, por exemplo, em biologia molecular e que estão disponíveis publicamente seriam suficientes para todos os cientistas trabalharem por dezenas ou até centenas de anos. E a cada ano são gerados dados científicos suficientes para décadas incessantes de escrutínio científico desenfreado. O problema epistemológico do mundo atual consiste justamente no tecnicalismo do trabalho científico. Os cientistas mais reconhecidos dos dias de hoje são simplesmente aqueles que repetem as técnicas consagradas em determinados dados a tentar verificar a presença de padrões já conhecidos em seus dados. Não há mais pesquisa direcionada a hipótese, há apenas utilização de técnicas modernas para buscar novas ferramentas (bio)tecnológicas. A pesquisa básica está praticamente morta e o que se faz por todo o lado são ferramentas e buscas à exaustão para encontrar algo que já se sabe ser possível. A grande maioria dos cientistas modernos trabalha no centro de iluminação do holofote da ciência [3]; onde o verdadeiro papel do cientista deveria ser tentar iluminar melhor certas regiões do conhecimento que hoje andam à luz da penumbra.

De fato, uma abordagem mais holista do conhecimento já vem sendo mesmo pregada por grandes filósofos ocidentais do século XX, como Prigogine, Morrin e Maturana; talvez uma integração reducionismo-holismo esteja próxima de acontecer. Os grandes mistérios epistemológicos chamados de lacunas explicativas até por John Hoorgan – editor por anos da revista Nature – e de “arranha-céis” por Daniel Dennet podem quiçá serem melhor compreendidos após uma visão integrativa das ciências; visão hoje deteriorada pelo excesso de reducionismo. De fato, uma curva senóide de evolução das ciências talvez venha um dia a provar que o reducionismo precise ser sempre integrado com o holismo; e vice-versa, para que se possa alcançar patamares mais elevados de compreensão do mundo físico. E possivelmente depois de dois séculos de incessante reducionismo, talvez fosse hora de uma síntese científica de largo espectro. Era isso o que pensava.

Seguia então por tais caminhos tortuosos que jamais o permitiriam compreender por completo ou se adaptar ao mundo do capital e da corrida armamentista do profissionalismo de uns e de outros. Olhava as pessoas de forma sempre a sentí-las e seu objetivo com relação aos outros seres humanos era estar sempre à vontade quando de suas presenças. Não alimentava ódio ou rancor, porém tinha pena das excessivas limitações dos outros seres humanos e de sua sede pelo poder ou pelo dinheiro. Jamais seria rico, porém já era milionário.

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[1] Nos alfabetos fonéticos, como o português, cada símbolo representa um som. E na escola as crianças aprendem a juntar os símbolos (letras) para formar fonemas, aprendem os sons de sílabas e assim por diante. O símbolo está associado, portanto, a um som. Já nos alfabetos idiogramáticos, o símbolo não está apenas associado a um som específico, como também está associado a uma idéia razoalmente específica. Símbolos complexos são formados por agrupamentos de idéias. Dentre as línguas fonéticas, talvez possa se dizer que no alemão este conceito de reunir conceitos atômicos para formar conceitos complexos tenham também acontecido, tendo o alemão um caráter ligeiramente idiogramático, ainda que grande parte do vocabulário seja fonética.
[2] Já hoje eles representam pouco mais da metade da população mundial.
[3] Fazem a ciência normal kuhniana.

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Sábado, Julho 04, 2009

Palavras e genes

A idéia me chegou há menos de 10 minutos, enquanto lia Freud [1] e associava a Saussure sob o ponto de vista de um doutor em biologia computacional. De fato, muitas de suas bases já vinham sendo montadas há tempo, mas só agora elas se ligaram num todo coerente. A idéia que aqui descrevo tem relação com o que Susan Blackmore chamou de darwinismo universal [2]. E tem também a ver com a idéia de que a língua evolui de uma forma similar aos organismos biológicos. E então o darwinismo opera em diferentes meios, permitindo-nos traçar analogias e transferir o conhecimento de uma área para a outra. Falo agora da linguística computacional que herda da biologia computacional (bioinformática) muito de sua metodologia de trabalho, embora o foco e as questões sejam bastante diferentes. Enquanto uma quer entender a evolução das línguas e fonemas falados pelo ser humano, outra quer entender a evolução dos organismos e da vida em nosso planeta. E ao formalizarmos algumas metáforas de ligação e adaptarmos certos casos, para uma realidade não idêntica, porém similar, podemos utilizar a força da ciência experimental para compreendermos e evolução de nossa linguagem.


A primeira analogia que faço é a analogia gene-palavra. E daí podemos extrapolar, mantendo o pé no chão, para sabermos como as tecnologias de análise computacional da biologia podem servir à linguística, essas maravilhosas áreas do conhecimento humano. Se o gene é a palavra e o conjunto de genes é o genoma; o conjunto das palavras é o dicionário. Assim como o genoma contém todos os genes, o dicionário contém todas as palavras; assim como cada gene pode ser mais ou menos expresso num tecido, palavras podem ser mais ou menos utilizadas em diferentes contextos sociais específicos. Em determinados tecidos, como o coração, há genes normalmente mais ou menos expressos; em um determinada obra de um pensador, há palavras mais ou menos utilizadas. No embrião, quase todos os genes do genoma se expressam e há enciclopédias que podem conter a grande maioria das palavras do dicionário. Mas tenhamos a temperança de parar a extrapolação quando ela não mais se torna útil e a língua é certamente mais fluida e evolui mais rápido do que os organismos biológicos. De fato, o entendimento da evolução linguística pode retornar à biologia molecular padrões e métodos mais precisos para tratar casos onde a evolução (mesmo a biológica) acontece de forma rápida [3].


Métodos de inteligência artificial podem hoje identificar qual é um organismo por seu DNA e pode-se supor métodos computacionais linguísticos (aprendizagem supervisionada) onde seja possível identificar as características do texto de um autor e saber se determinado texto tenha sido ou não escrito por ele. Ao quantificar palavras e dividí-las de acordo com suas características funcionais (como os genes), poderemos contar quantos artigos e verbos e sujeitos e pronomes e adjetivos presentes num texto e conseguir de certa forma forma um padrão que caracterize um determinado pensador, corrente de pensamento ou assunto tratado. É claro que a tarefa não será tão simples, como também não são as análises de genes. Haverão inquietudes e dúvidas por todo o lado; será preciso utilizar a estatística. Talvez fosse interessante para a história universal saber quão diferentes são os estilos de escrita, quais textos de cada pensador estão mais embutidos numa corrente de pensamento, quais vão mais à beira de uma idéia. Tudo isso, estou convencido, pode ser obtido a partir de uma análise linguística computacional e científica, tomando como base o que vem sendo feito há algum tempo na biologia molecular. O DNA, afinal, consiste em informação codificada em caracteres especifícos: A, C, G e T. O DNA é um vocabulário e as ferramentas computacionais de mineração de textos têm feito avanços fantásticos nos últimos anos. É hora de utilizar esta tecnologia no estudo da própria linguística.


Em nossa analogia biologia-linguística, está claro também que o equivalente a uma espécie seria o idioma. A mesma briga que existe entre os taxônomos para decidir quando chamar um organismo como espécie diferente é a briga que há entre linguístas para definir as fronteiras de uma língua. É sempre uma questão de definir limites e métricas estudadas e enviesadas para realizar a separação conceitual. De qualquer modo, no mundo real, não há esta barreira de espécie ou linguística e todos os organismos e línguas interagem entre si de uma forma emaranhante. As línguas ainda mais do que as espécies.


A criação de novas palavras ou genes é coisa que acontece a todo instante a partir da junção de partes de entidades anteriormente existentes. Se a nova entidade mista é ruim, a seleção natural a removerá do conjunto de entidades (palavras ou genes) existentes. Se ela é boa, provavelmente se replicará e passará a ocupar cada vez mais o vocabulário do falante. Além do mais, com relação às palavras há também um vocabulário fonético internacional, de acordo com o qual palavras podem ser agrupadas de acordo com seus sons. A leitura de poesias e canções através desta técnica pode nos permitir classificá-las foneticamente em grupos que talvez revelem padrões de ordem definidos. Podemos assim talvez traduzir poesias de uma língua em outra pelo conhecido grupo fonético, ao vez de apelarmos assim tão fortemente para o significado. Não são a poesia e música a expressão maior dos sentimentos? Será que sentimentos podem ser realmente traduzidos através de significados estritos? A boa tradução é quase sempre a tradução mais livre possível; ela é, de fato, uma outra obra, de um outro autor. Não acredite em livros traduzidos, leia-os no original, sempre que possível.

-- BRAINSTORM --


Um pouco ainda além, o que me despertou essa idéia foi a leitura do livro de Freud "A psicopatologia da vida cotidiana". Ele dizia que havia se esquecido o nome de um pintor e colocou uma série de palavras cujo fonema está relacionado para tentar explicar como havia reprimido seu pensamento sobre o assunto. Talvez ao examinarmos as línguas, podemos conhecer seus povos, a partir de uma antropolinguística. Parece-me um trabalho imenso, complexo e que pode ser facilmente questionável, mas talvez nos permita identificar, em cada cultura, quais tipos de pensamentos que a língua -- através de associações fonéticas -- evita que sejam lembradas. Cão e mão possuem associação fonética no português, mas não no inglês hand, dog. Poderá esse tipo de relação e desrelação fonética revelar algo sobre a cultura dos povos?

--


Nos jornais e e-mails pessoais e livros contemporâneos aprenderemos sobre a expressão de palavras. Quais são mais usadas em cada labirinto cultural específico. Ao pegarmos o conjunto de obras de um certo tempo, num certo estado, poderemos reconstituir a forma como falavam as classes alta e baixa. Poderemos saber dos desniveis sociais e teremos idéia sobre como as palavras e a gramática evoluíram. Podemos também classificar as frases gramaticamente, de acordo com a ordem de sujeito e verbo e objeto e adjetivo. Consideremos frases como vias bioquímicas onde cada proteína interage com outra por um bem comum: quebrar o açúcar; ou onde palavras interagem com outras para outro bem comum: a compreensão. A visão da biologia molecular e da biologia computacional sobre a linguística é de uma fertilidade inominável.


Alguém está disposto a financiar um estudante de linguística computacional?


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[1] Freud, . Psicopatology of everyday life.
[2] Blackmore, S. The meme machine.
[3] De fato, pode-se vislumbrar algum método para compreender melhor a evolução de organismos que se reproduzam rápida e promiscuamente (como os vírus) utilizando modelos de palavras, caso eles sejam produzidos algum dia.

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Quarta-feira, Julho 01, 2009

Crítica interna da ciência

ou Os tampões das revoluções

Dentro do meio acadêmico-científico, existem certos padrões, medidas, algoritmos e normas que são definidos por alguns grupos de pesquisa e que, a partir desta definição inicial e tendo se mostrado úteis, toda a comunidade começa a utilizar. Entretanto, a utilidade de certas definições não está relacionada, absolutamente, à sua perfeição. É de se imaginar que todo e qualquer tipo de padrões e medidas possíveis de serem definidos por seres humanos conterão uma quantidade X de erros e imprecisões. Além disso, nem toda a comunidade estará de acordo com o padrão.

Assim, dentro de uma ciência ideal, seria de se esperar que os cientistas fossem abertos o suficiente para discutirem uns com os outros cientistas sobre tais práticas definidas tanto quanto fosse necessário, até que gerassem um padrão que fosse mais consensual. Entretanto, os cientistas normalmente tem um ego enorme e dificilmente aceitam críticas a seus trabalhos. Portanto, na prática, quando um pesquisador é capaz de perceber qualquer ligeira imperfeição ou mal-acabamento em determinado trabalho científico, ele se sente compelido a contactar os autores do trabalho e discutir com eles. Tais autores do trabalho, entretanto, estão teoricamente à frente do crítico pelo fato de terem inventado a medida e já possuírem trabalho publicado sobre o assunto. Politicamente falando, caso o crítico não seja alguém de "renome", normalmente os autores do trabalho ignorarão sua crítica completamente, mesmo que ela seja perfeitamente positiva e que fosse levar a uma melhoria do serviço.

== EXPERIÊNCIA PESSOAL ==

Faço parte de algumas listas de discussão na internet sobre padrões aplicados a ontologias (vocabulários comuns) que descrevem eventos relacionados à biologia molecular. Tais ontologias são invariavelmente alvo de críticas posto que o que elas fazem é relacionar conceitos da biologia num suposto mundo real com a biologia que vai dentro das cabeças dos pesquisadores. Observa-se assim um fenômeno complexo na natureza, generaliza-se esse fenômeno aplicando-lhe uma palavra e assim os pesquisadores podem contar e trabalhar com fenômenos que são discretos e quadrados, ao invés de contínuos e mal-definidos. E se por um lado está certo que a generalização e a formalização de conceitos e descrições do mundo físico/biológico é um dos pontos fortes da ciência... por outro está certo também que há inúmeras formas concorrentes de representar a realidade e que algumas podem ser melhor do que outras para determinados objetivos em especial. Enfim, o que importa é que via de regra nestas listas algum pesquisador questiona um conceito formalizado na ontologia.

Tais questionamentos, pra começar, normalmente são feitos já com um pé atrás. O cientista que o faz sabe que está do lado que sai perdendo na luta e normalmente sugere uma mudança discreta nas definições ou mesmo traveste sua mudança drástica em mudança discreta. Então os "donos do trabalho" e da lista de discussões defenderão seus pontos de vistas normalmente desviando dos pontos-chaves da discussão. Normalmente eles terão preguiça de re-avaliar todo seu trabalho e farão questão de mostrar ao crítico que o buraco é mais embaixo. No fim das contas, é difícil ver alguma modificação mesmo quando a argumentação segue densa.

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Vale começar pelo ponto de que, bem certo, nenhuma definição será definitiva ou perfeita. A ciência e o conhecimento avançam. A crítica dos pesquisadores que estão fora do grupo de desenvolvimento do trabalho, entretanto, são muito dificilmente ouvidas. Mesmo dentro de um grupo de pesquisa há desavenças com relação ao significado e extensão das métricas e há sempre algum pesquisador que tem um estatus político superior sobre o trabalho do que os outros. Este "dono do trabalho" é normalmente o último autor nas publicações científicos onde se aplica a metodologia em questão e onde ela é descrita pela primeira vez -- algumas vezes, ele é também o primeiro autor.

A verdade é que a ciência não funciona apenas através do avanço crítico do conhecimento e muitas vezes ela precisa seguir uma tradição de pesquisa mais antiga. Os cientistas não estão assim muito abertos a reconhecer erros e limitações de suas próprias pesquisas e normalmente preferem mantê-las funcionando razoavelmente bem do que tentar melhorá-las cada vez mais. Os cientistas são excessivamente conservadores.

Neste mundo da competição científica, entretanto, por vezes o crítico entende que não será ouvido pelos organizadores do trabalho em questão e então ele tem dois rumos a tomar: o mais comum é que ele desista dos questionamentos, aceite utilizar o método com suas claras limitações e volte a seus afazeres do dia-a-dia. Caso entretanto ele perceba que trata de uma área quente e promissora da pesquisa científica, ele pode resolver tentar re-pensar e re-analisar o problema por si próprio. Assim, ele começará uma guerra científica com o primeiro grupo, sendo assim obrigado a produzir um trabalho mais arrojado e com claras melhoras sobre a idéia inicial do primeiro grupo. Depois de algum tempo (normalmente medido em anos), ele pode conseguir publicar seu trabalho concorrente. Neste caso, o pesquisador normalmente terá dificuldades em encontrar alguma revista de impacto que publique seu artigo -- posto que ele vai contra o mainstream da área. Os revisores também criticarão duramente seu trabalho e ele provavelmente só será publicado se provar muito claramente que seu produto é melhor do que aquele já existente.

Além disso, em ciência normalmente valoriza-se a criatividade do primeiro trabalho apresentado em uma determinada área. E o crítico que demorou anos para produzir uma versão melhor de determinada metodologia normalmente não conseguirá tanta visibilidade quanto a publicação original conseguiu. Ele apenas alcançará um estatus mais elevado caso as melhores sejam em escala de grandeza elevada e não simples modificações em pequenos pontos dentro do que já foi feito. Neste caso o crítico precisa mostrar que causou um salto na compreensão com sua nova proposta, e não apenas deu um mero passo.

Algumas conclusões:
1) Para ter uma carreira de pesquisador, é melhor gastar os esforços na produção de métodos e definições completamente novas do que tentar melhorar ou adaptar métodos já existentes a determinadas realidades específicas -- ainda que os métodos disponíveis sejam claramente incompletos; [1]
2) Os métodos utilizados na ciência estão longe de serem os melhores possíveis e a comunidade não se ajuda e se apóia como deveria (em um mundo ideal). A competição é dura e os cientistas têm o ego muito grande, preferindo normalmente elevar seu nome do que elevar o conhecimento;
3) A crítica dentro da comunidade é árdua; normalmente aceita-se utilizar padrões razoáveis ou obsoletos que já se mostraram de algum modo úteis do que produzir padrões supostamente melhores mas ainda não testados.

==> A ciência baseia-se em métodos tradicionais
==> A novidade só tem vez na ciência em determinados momentos sócio-históricos específicos

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[1] E no caso em que um pesquisador desconhecido ou oriundo do terceiro mundo tem alguma idéia realmente inovadora, esta idéia normalmente não é bem aceita na comunidade também. Mesmo Darwin demorou dezenas de anos até ter coragem de publicar "A origem das espécies". A ciência acadêmica é quadrada e fechada a novas idéia. Ela consiste, em sua maior parte, no que Thomas Kuhn chamou de ciência normal, que é o desenvolvimento gradual e minucioso -- quase técnico -- de suas aplicações. Existe um tampão contra as revoluções científicas dentro da academia -- e isso provavelmente também é verdade com relação a quaisquer novas idéias que adentrem um determinado pool memético particular, mesmo que elas tenham claramente um maior conteúdo empírico e adequação teórica. Os pesquisadores também só aceitam de fato a argumentação quando ela vem de dentro da própria área de pesquisa, por pesquisadores que já tenham se mostrado renomados em suas áreas; o argumento de autoridade está sempre em questão. Muito dificilmente um jovem pesquisador conseguirá que sua teoria seja ouvida, apresentada ou publicada em jornais de ampla circulação. E isso também está relacionado ao fato de que uma nova teoria, quando criada, não encontra os dados adaptados à sua forma de pensamento e, é claro, tem um certo conteúdo especulativo. Mesmo os tratados de Newton, quando foram publicados, tinham algo que Kuhn chama de um tipo de inexperiência e uma dificuldade vocabular e conceitual de expressão de idéias. Ainda que Einstein tenha conseguido publicar seus principais trabalhos com vinte e cinco anos, aproximadamente mais duas décadas foram necessárias até que sua genialidade tenha sido reconhecida.

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Segunda-feira, Junho 01, 2009

Fundamentalismo ideológico, respeito e liberdade de expressão

Algo que atrasa de sobremaneira a evolução de todo o pensamento, conhecimento e filosofia humanos ao longo dos séculos e milênios consiste naquilo que decidi aqui chamar de fundamentalismo ideológico. Tal fundamentalismo se caracteriza pela crença cega que determinadas ideologias são melhores do que outras e num excessivo respeito-à-ideologia-alheia, onde se acredita correntemente que determinadas ideologias -- principalmente aquelas professadas pelas classes dominantes -- não possam ser atacadas através de argumentos incisivos e devam ser protegidas sob a insígnia da palavra Respeito. Meu objetivo aqui é argumentar que ideologias não podem e não devem ser respeitadas se quisermos alcançar uma posição mais virtuosa, aberta, liberal e tolerante com relação à toda humanidade. O Respeito que deve sempre existir é um respeito entre um ser humano e o outro ser humano, entre um ser humano e toda a humanidade, mas apenas o desrespeito ideológico pode nos ajudar a retirar por completo de nossa civilização aquelas ideologias que atravancam de sobremaneira nosso desenvolvimento moral e social.


Meu objetivo aqui é argumentar que ideologias não podem e não devem ser respeitadas se quisermos alcançar uma posição mais virtuosa, aberta, liberal e tolerante com relação à toda humanidade. (...) apenas o desrespeito ideológico pode nos ajudar a extirpar de nossa civilização aquelas ideologias que atravancam de sobremaneira nosso desenvolvimento moral e social.



Pontos mal definidos de toda e qualquer ideologia devem ser apresentados e discutidos, de forma que as ideologias de um tempo presente possam se transformar em ideologias mais virtuosas para toda a humanidade do futuro -- ao invés de mantermos em nosso fundo memético ideologias podres e antigas que apenas servem para proteger e manter determinados grupos dominantes no poder. Devemos gritar Fora! a qualquer ideologia baseada no dogmatismo e que se pense infalível ou absolutamente "a melhor" dentre todas as outras. O forte ataque intelectual a toda e qualquer ideologia vai hoje contra o que chamamos respeito-ideológico e, não obstante, vai também contra nossa suposta liberdade de expressão. Eis a guerra intelectual: respeito ideológico X liberdade de expressão. Como resolver este dilema? O presente relato vem sugerir que a liberdade de expressão deve ser privilegiada sobre o respeito-ideológico e vem sugerir também que o desrespeito ideológico seja útil para o desenvolvimento da humanidade. Este argumento baseia-se no fato de que a palavra não é como o punho ou a arma, a palavra não mata e a palavra de uns pode ser sempre combatida pela palavra de outros. Ao resto da humanidade restará a função de árbitro a saber se prefere-se acreditar ou escutar a argumentação que vai a-favor-de-X ou contra-X. A ofensa moral e intelectual, embora possa ser dura a aceitar, deve ser capaz de ser engolida, tragada e devem ser consideradas até saudáveis quando ambos os lados da discussão são capazes de apresentar críticas severas -- porém bem pontuadas -- sobre suas próprias ideologias ou sobre ideologias alheias. A própria humanidade deverá ser capaz de reter as boas críticas ideológicas e rejeitar as más críticas. Críticas vazias ou de conteúdo claramente falacioso serão simplesmente ignoradas pelas próximas gerações, ainda que possam causar certo rebuliço na comunidade de uma certa época. Sugiro aqui que a palavra e a discussão intelectual têm a capacidade de nos libertar de ideologias dogmáticas que têm nos prendido há anos, séculos ou milênios e só o ataque (e também a defesa) de tais ideologias que pode nos ajudar a manter o que nelas há de bom e extirpar de nossa herança cultural o que nelas há de mórbido e podre.


(...) a palavra não mata e a palavra de uns pode ser sempre combatida pela palavra de outros. Ao resto da humanidade restará a função de árbitro a saber se prefere-se pesar para lado dos que concordam com X ou dos que discordam.



De mais a mais, alguém que se sinta profundamente ofendido com algum relato ou argumentação tem a mais completa e covarde das liberdades em deixar de ler aquilo que o ofende e fechar seus olhos ao continuar acreditando que sua crença é "a melhor", indubitavelmente. Tal comportamento fundamentalista e dogmático existe em qualquer praticante de crenças ideológicas, ou seja, todos nós, seres humanos. Em alguns, esse comportamento é (muito) mais forte do que em outros. Precisamos ser capazes de entender e tolerar o desrespeito de outros às nossas crenças/ideologias e ainda sermos capazes de respeitá-los como seres humanos! Precisamos recuperar e ampliar a visão de Voltaire: "Je ne suis pas d'accord avec ce que vous dites, mais je me battrai jusqu'à la mort pour que vous ayez le droit de le dire." (Em tradução livre: "Eu não concordo com aquilo vós dizeis, mas lutarei até a morte para que tenhais o direito de dizê-lo.")


O filósofo Francês François-Marie Arouet (Voltaire) já dizia há cerca de trezentos anos atrás: "Eu não concordo com aquilo vós dizeis, mas lutarei até a morte para que tenhais o direito de dizê-lo". Precisamos retomá-lo de forma que ampliemos as críticas ideológicas sem que sobre isso caia a insígnia de "desrespeito".



O fundamentalismo ideológico, religioso ou sócio-político é um dos maiores males que atingem a humanidade desde seu berço. E ele tem sido protegido sob a falsa insígnia do respeito a outras culturas ou modos de pensar. Um respeito falso e hipócrita que deve ser ativamente combatido. É preciso haver um diálogo aberto e crítico entre ideologias, um debate livre, crítico, mordaz. É preciso que tentemos tirar o que há de melhor e de mais humanista entre todas as ideologias criando uma ideologia de virtuose para o ser humano, ideologia baseada na liberdade, no direito comum, na igualdade e fraternidade entre os homens. E para fazer isso, é preciso criticar os pontos fracos e ressaltar os pontos fortes das ideologias e crenças humanas. Só assim poderemos erigir uma ideologia moral comum para a humanidade que ressalte nossas virtuoses e descarte ao máximo possível nossa morbidez, hipocrisia e desrespeito do homem para com o homem. Tal ideologia não estará jamais pronta e jamais será definitiva, mas ela crescerá e se espalhará e se modificará ao longo do tempo, tal qual tem crescido e espalhado o respeito aos direitos humanos por toda parte -- apesar dos infelizes excessos de ditadores ignorantes.


Enquanto isso, no Ocidente, as ideologias dominantes continuam a prevalecer e um enorme preconceito velado existe contra as culturas e ideologias orientais ou oriundas dos países em desenvolvimento. Argumento aqui que é melhor que tais preconceitos sejam expostos claramente e discutidos de forma aberta para que sejam finalmente ultrapassados e melhor compreendidos. Do contrário, o que hoje acontece é um desrespeito velado que vem se retroalimentando ao longo dos tempos. Apenas a dialética pode nos permitir vencer tais preconceitos. Quero se expressem todos aqueles que têm preconceitos contra negros, índios, brasileiros e árabes e indianos, religiosos e ateus, comunistas e capitalistas, mulheres e homossexuais e usuários de drogas. Quero que todas ideologias sejam desrespeitadas e que isso gere uma discussão aberta dentro da sociedade que nos levará em algum momento a perceber a fraqueza argumentativa que está na natureza de todo e qualquer gênero de preconceito. Quero encontrar a fraqueza dos conceitos e então fazê-los melhor e maiores; é essa a função da dialética, das discussões intelectuais legítimas e não falaciosas; quero extirpar e clarificar os preconceitos para que assim possamos matá-los em sua raiz.


Muitos dos preconceituosos, porém, continuarão sua dominação velada posto que no fundo sabem da invalidade de seus argumentos e querem apenas seu bem estar, continuando com sua dominação corpulenta contra os menos privilegiados. Balancemo-los para que deles escorra toda a falsidade e podridão.


Está claro, entretanto, que todo ser humano deve respeitar o próximo e também ser respeitado como indivíduo e ser biológico. A crítica ideológica deve estar um nível acima das críticas individuais e não importa o que pensam as pessoas, elas devem ser respeitadas e bem tratadas quando da convivência humana.

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Temas para discussão:

-- Obama tratado como islâmico na capa da New York Times
-- Obama tratado como macaco em charge
-- Preconceito dos europeus (e americanos) contra indivíduos e filosofias oriundas do oriente, do mundo árabe ou da América Latina
-- 2000 anos foram necessários até que surgisse um homem corajoso e forte suficiente (Nietzsche) para atacar mordazmente a moral cristã/católica que já ia caduca há dois mil anos. Que respeito é esse que se deve ter com relação às ideologias e que atrasa nosso desenvolvimento moral, social e ideológico?
-- Nietzsche como o Anti-Cristo só pôde surgir depois que a ideologia católica já tinha sido útil aos europeus para conquistar e catequizar, destruir e matar pessoas, culturas, línguas e modos de viver nativo-americanos. Terão os humanos sempre a ideologia daqueles que os lideram? Haverá algum dia uma ideologia realmente democrática? Conseguirá o povo subjugar os líderes algum dia?
-- Devemos aceitar a desigualdade calados?
-- Por que a apologia à utilização de drogas é crime? Isso não interferiria na nossa suposta liberdade de expressão?

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Segunda-feira, Maio 18, 2009

Entrevista sobre a Teoria da Evolução, parte 1

Há cerca de dois meses fui contactado por um jornalista que havia encontrado alguns textos meus na internet e gostaria de publicar uma matéria sobre o darwinismo. Depois de já ter trabalho e feito cursos on-line de jornalismo científico entendo que a relação entre o jornalista e a fonte é, muitas vezes, tortuosa. Com o jornalista Rene Lopez da Revista ClickCiência, entretanto, não tive problemas. Convidou-me para a entrevista, foi sempre polido, enviou perguntas, respondi, enviou mais alguns questionamentos finais e enviou-me o artigo para dar uma olhada antes da publicação.

Portanto, a edição 15 da revista ClickCiência da UFSCar comemora os 150 anos da teoria evolutiva e os 200 anos de Darwin com uma série de reportagens que utilizam os resultados desta entrevista para compor um quadro geral sobre as idéias deste que foi um dos maiores pensadores da humanidade. O jornalista e sua equipe juntaram esta e mais outras reportagens com outros pesquisadores para compor uma excelente série de reportagens que podem ser lidas aqui.


Charles Darwin: Há duzentos anos nascia o naturalista inglês que simplesmente revolucionou todo o entendimento dos humanos sobre a vida em nosso planeta. Sem dúvida, um dos maiores gênios de todos os tempos.


Finalmente cheguei a perguntar ao jornalista se eu teria autorização de publicar esta reportagem no meu blogue, coisa que ele jamais respondeu. Espero que não se incomode com esta postagem. Eis a reportagem na íntegra:

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** ClickCiência: Na sua opinião, quais os conceitos chaves que foram desenvolvidos por Darwin e que são essenciais para o entendimento da Teoria da Evolução?

Esta é uma ótima pergunta, embora possa ter um sem número de respostas. Embora Darwin seja normalmente reverenciado por ter sugerido o conceito de seleção natural, creio que o principal conceito necessário para entender a teoria evolutiva seja o conceito de Ancestralidade Comum. Este conceito é normalmente mal entendido pelas pessoas, que ainda têm uma visão da evolução como uma grande escada dos seres, onde os seres mais "primitivos" se transformam em seres mais "evoluídos" e onde o homem é considerado normalmente "o mais evoluído" dos seres. Esta é uma visão incorreta e que pode ser ainda hoje verificada nas mais diversas manifestações culturais (Veja o texto Ancestralidade comum e o tribalismo)

Para Darwin não há organismos mais ou menos evoluídos, todos os organismos existentes hoje no planeta descendem de um suposto primeiro organismo que teria surgido na Terra há mais de 3,5 bilhões de anos atrás. Se pudéssemos então rodar o tempo para trás, veríamos que os organismos existentes hoje teriam sido um único animal no passado. Humanos e chimpanzés, por exemplo, já foram um outro macaco no passado -- que não era nem humano, nem chimpanzé. E aí está o conceito de ancestralidade comum.

Segundo Darwin, todos os organismos da Terra têm ancestrais comuns que podem ser mais antigos ou mais novos. Eu e minha prima, por exemplo, temos ancestrais comuns que são nossos avós. Da mesma forma, duas espécies de organismos quaisquer, como a baleia e o gato, têm ancestrais comuns que podem estar mais próximos ou mais distantes no tempo. O gato e o tigre, por exemplo, que são dois animais da ordem Felidae (os felinos) têm ancestrais comuns (avós evolutivos) mais recentes no tempo do que o sapo e homem (um anfíbio e um primata). Isso significa que o ancestral dos felinos viveu num passado mais próximo que o ancestral entre anfíbios e primatas. Assim, quanto menos tempo tenha se passado desde um determinado ancestral e o presente, mais próximos dizemos que são os organismos.

Humanos e chimpanzés, por exemplo, são muito mais próximos entre si do que, digamos, o cão e o cavalo. Estimativas dizem que humanos e chimpanzés teriam se divergido de um ancestral comum há cerca de 5 ou 7 milhões de anos no passado (é difícil medir precisamente), enquanto o tempo estimado para a divergência de cães e cavalos está em cerca de 75 milhões de anos. De fato, qualquer pessoa que observe com cuidado a anatomia desses animais, poderia ter chegado à conclusão similar (exceto pelos números precisos de tempo de divergência, claro).

De qualquer forma, é preciso sempre lembrar, todos os organismos do planeta se relacionam no passado por meio de ancestralidade comum. O ornitologista alemão (especialista em pássaros) Ernst Mayr divide a teoria darwiniana em cinco sub-teorias e diz que a ancestralidade comum foi a primeira a ser universalmente aceita pelos biólogos à época, posto que tinha um poder explicativo enorme em vários campos da biologia.


O ornitologista alemão (especialista em pássaros) Ernst Mayr -- um dos principais interpretadores de Darwin ao longo do século XX -- divide a teoria darwiniana em cinco sub-teorias e diz que a ancestralidade comum foi a primeira a ser universalmente aceita pelos biólogos à época, posto que tinha um poder explicativo enorme em vários campos da biologia.


Com relação ao conceito de "seleção natural", o culto Charles Darwin -- influenciado pela leitura de um famoso ensaio do economista e demógrafo inglês Thomas Maltus sobre o crescimento da população humana e possíveis problemas de alimentação que poderiam vir desta super-população -- sugeria que na natureza haveriam lutas pela sobrevivência. Neste cenário natural, não haveria recursos para que todos os organismos sobrevivessem e, assim, apenas os indivíduos "mais aptos" seriam capazes de sobreviver e reproduzir, passando sua herança genética para a prole. A evolução consiste na história biológica daqueles organismos que sobreviveram e se reproduziram. Evolutivamente falando, um indivíduo que não se reproduz é um ramo terminal de uma cadeia evolutiva que remonta ao primeiro organismo surgido do planeta, ele é um fim na experimentação aleatória e sem propósito da natureza biológica.

** ClickCiência: Na época como foram recebidas as teorias de Darwin? O que os cientistas sabiam até aquele momento e quais foram as grandes novidades?

Darwin foi extremamente criticado quando publicou sua teoria e não foi à toa que, tendo imaginado boa parte de sua teoria ainda na juventude, quando viajou no navio HMS Beagle por todo o mundo coletando espécimes, foi publicá-la apenas quando já comemorava seus 50 anos. Esta publicação foi terminada às pressas depois que Darwin recebeu um trabalho do jovem naturalista Alfred Russel Wallace que delineava idéias similares às suas sobre o mecanismo da evolução das espécies e de seleção natural.

Darwin foi acusado pela igreja de ateísmo, uma vez que as implicações de sua teoria, em primeiro lugar, mostravam que o homem era simplesmente um animal -- ao invés de uma criatura criada à imagem e semelhança de um suposto deus. Além disso, a teoria da evolução Darwiniana não tornava necessário um deus sequer para explicar a origem das "outras" espécies animais e vegetais. Antes da época de Darwin, a visão que se tinha das espécies -- normalmente uma idéia oriunda dos trabalhos do naturalista francês Buffon e que de certa forma remontava a Aristóteles e a Grécia antiga -- era de que todas espécies existentes no mundo consistiam em degenerações de espécies ideais (platônicas) existentes apenas na mente de deus. Assim, de uma só vez, Darwin tirava dos homens seu estatus superior e dizia que deus não havia sido necessário para criar nenhuma outra espécie. Foi um choque e tanto para a igreja da época e até hoje as discussões infelizmente perduram entre criacionistas e evolucionistas.

** ClickCiência: De lá pra cá, quais foram as grandes descobertas? O que mudou, no entendimento da evolução das espécies?

Ah, muita coisa mudou na ciência da evolução desde Darwin, embora seja claro que tudo tenha sido feito sobre o plano de fundo criado por ele. Houveram várias revoluções conceituais em biologia evolutiva desde Darwin, principalmente a revolução da Genética e da Biologia Molecular.


Embora contemporâneo de Darwin, os trabalhos do monge Gregor Mendel só vieram a ser redescobertos no início do século XX. Ainda que o mendelismo inicialmente tenha sido visto como contrário à teoria gradualista de Darwin, depois de novas sínteses da teoria darwinismo e mendelismo vivem em paz e harmonia, numa simbiose teórica que eleva nossa compreensão sobre evolução dos organismos e a hereditariedade biológica.

Em uma delas, por exemplo, ocorrida na primeira metade do século XX, os trabalhos do monge Gregor Mendel foram redescobertos e re-interpretados sob a óptica darwiniana. Embora a princípio os cientistas tenham interpretado Mendel de uma forma anti-darwinistas -- principalmente no que concerne ao caráter gradual da evolução darwiniana --, posteriormente com o avanço da genética a partir dos trabalhos de Thomas Morgan com drosófilas, ficou claro que o padrão evolutivo tem uma preponderante característica gradual, como previsto por Darwin. Posteriormente, a descoberta da estrutura do DNA por Watson e Crick revolucionou toda a biologia moderna, inclusive os estudos em evolução. O sequenciamento de genomas tem mostrado cada vez mais como todas as espécies em nosso planeta apresentam um metabolismo e um conteúdo de genes e proteínas bastante similar, e reforça cada vez mais a teoria da ancestralidade comum e, portanto, a teoria darwiniana da evolução.

O sequenciamento de genomas tem mostrado cada vez mais como todas as espécies em nosso planeta apresentam um metabolismo e um conteúdo de genes e proteínas bastante similar, e reforça cada vez mais a teoria da ancestralidade comum e, portanto, a teoria darwiniana da evolução.


** ClickCiência: Quais brechas da teoria de Darwin perduram até hoje?

Normalmente Darwin é bastante criticado por possíveis "brechas" existentes em sua teoria. Para explicar isso com eficácia, precisamos antes entender um pouco sobre a ciência dentro das humanidades conhecida como epistemologia, ou teoria do conhecimento. Esta área das ciências humanas tenta explicar como produzimos conhecimento e como o interpretamos à luz das evidências e de fatores sociais e históricos. Quando estudamos epistemologia, entendamos que todas as teorias científicas possuem brechas e que nenhuma teoria pode pretender explicar absolutamente todos os fatos dentro de seu domínio de estudo. A ciência de uma determinada época consiste no melhor modelo que os humanos encontraram para explicar determinados fenômenos ou grupo de fenômenos, mas não consiste num modelo infalível ou perfeito. Humanos são assim vistos como seres limitados que jamais alcançarão a perfeição. Assim, se olharmos para a história da ciência podemos verificar que mesmo a mais fortemente embasada teoria científica de todos os tempos, a física Newtoniana, mostrou não ser capaz de explicar todos os fenômenos físicos no universo. Einstein mostrou que o espaço-tempo relativos podiam explicar ainda um número maior de fenômenos do que aqueles previstos pela física Newtoniana. Apesar disso, não creio que se possa dizer que a física Newtoniana esteja errada e ela é aplicada ainda hoje em uma quantidade enorme de domínios, porque ela consiste numa simplificação útil, clara e precisa das principais leis físicas que parecem governar o universo em que vivemos.

A ciência de uma determinada época consiste no melhor modelo que os humanos encontraram para explicar determinados fenômenos ou grupo de fenômenos, mas não consiste num modelo infalível ou perfeito.


Além disso, é preciso compreender que a ciência de uma época futura será sempre mais desenvolvida do que de uma era presente -- assim como a ciência do presente é mais desenvolvida que a do passado. A ciência, por não acreditar em dogmas, está sempre se questionando e se reconstruindo. Na ciência é uma virtude encontrar erros e corrigí-los e os mais famosos cientistas fizeram isso e continuarão fazendo, sob o risco de ganharem um Nobel. O fato da ciência apresentar brechas é um desafio para os cientistas e deve ser vista como algo positivo, não negativo.

Uma vez entendido que nenhuma ciência pode ser perfeita e que a ciência avança sempre e que será eternamente incompleta, vamos às brechas de Darwin. Houve várias brechas que foram sanadas e há ainda várias questões sobre a evolução dos organismos em aberto. Por exemplo, não se sabe ainda como a vida se originou, não se sabe onde e não se sabe com qual organismo isso aconteceu. Além disso, as datações de eventos do passado vão sempre ficando melhores, mas nunca perfeitas. Há a incompletude do registro fóssil, sendo que não conseguimos encontrar fósseis que representem todos intermediários para as grandes mudanças anatômicas dos animais, um grande ponto de crítica da teoria, embora novos fósseis que ligam linhagens antigas sejam sempre encontrados aqui e ali, no decorrer dos anos.

** ClickCiência: Qual a importância dos estudos de Darwin para os dias atuais / para as pesquisas que são feitas atualmente?

Tudo que foi feito por Darwin é importantíssimo para os dias atuais e para todas as pesquisas feitas em biologia, incluindo aquelas em medicina e saúde. O famoso geneticista do século XX, Theodosius Dobzhansky, tem uma das mais famosas frases relacionando a biologia e a evolução. Ele disse "nada faz sentido na biologia, exceto à luz da evolução". A teoria da evolução é a teoria mais central da biologia, é ela que liga os grandes ramos das ciências biológicas sob um mesmo arcabouço teórico comum. Pode-se analisar evolutivamente dados de todas as grandes áreas da biologia, como zoologia, botânica, microbiologia, genética, biologia molecular, anatomia, farmacologia, etc. No caso de desenvolvimento de fármacos, é mais adequado testá-los em macacos do que em camundongos, por exemplo. E fármacos testados em macacos têm muito mais chance de serem eficazes em humanos do que aqueles testados em camundongos, moscas ou outros animais quaisquer.

** ClickCiência: Objetivamente, qual a diferença principal entre a Teoria da Evolução e a Teoria Sintética da Evolução?

Objetivamente: a teoria sintética da evolução é uma atualização da teoria da evolução darwiniana que leva em consideração certos fatores desconhecidos por Darwin, em 1859. A diferença é que a teoria sintética considera, principalmente, conhecimentos adquiridos depois de Darwin nas áreas da Hereditariedade (Weissmann), Genética Clássica (Mendel) e Genética de Populações (Fisher, Wright, Haldane).

** ClickCiência: Quais as descobertas que levaram a constituição dessa nova teoria?

As principais modificações conceituais que levaram à teoria sintética foram, a meu ver:
1) A refutação por August Weissmann da teoria da herança dos caracteres adquiridos, ainda no século XIX.
2) A redescoberta dos trabalhos de Mendel no início do século XX e seu posterior avanço através do estudo de moscas-das-frutas do gênero drosófilas, principalmente feitos por Thomas Morgan na década de 20/30.
3) A síntese dos conhecimentos dos zoólogos e dos geneticistas de população sob uma óptica darwiniana. Os zoólogos estiveram sempre interessados na diferenciação entre as espécies e mecanismos de especiação, enquanto os geneticistas de populações estiveram interessados na evolução dentro de uma mesma linhagem.

Ao reunir tais conhecimentos, criou-se a chamada teoria sintética da evolução no fim da primeira metade do século XX (segundo a definição de Mayr). E depois dela ainda houve uma nova revolução trazida pela descoberta da estrutura molecular da vida, o código genético e o sequenciamento de genomas.


August Weissmann foi um dos maiores biólogos evolutivos do século XIX. Ele refutou a teoria dos caracteres adquiridos de Lamarck (onde Darwin vacilava) e mostrou que o que acontecia com o indivíduo durante sua vida não passava para sua prole. Separou as células germinativas das células somáticas e permitiu também um salto nas teorias evolutivas daí em diante.


** ClickCiência: Na sua opinião, qual a importância da Teoria Sintética?

A importância da teoria sintética é atualizar as idéias originais de Darwin sob uma óptica moderna da época (década de 40).

** ClickCiência: Atualmente, o que se sabe sobre o surgimento de uma nova espécie?

Há ainda bastante discussão em biologia sobre o significado preciso do termo espécie e, em filosofia da biologia, esta discussão tem até um nome definido: o problema das espécies. Sobre este assunto, pode-se dizer que já está claro que, quando consideramos uma espécie de bactéria -- que é um organismo unicelular de reprodução assexuada -- esse termo tem uma conotação diferente de quando utilizamos o termo para espécies de mamíferos. Da mesma forma, a definição de uma espécie bacteriana e uma espécie de reprodução sexuada é bem diferente. Espécies são nomes que biólogos dão a grupos de organismos que se parecem e que são capazes de se reproduzir dando prole fértil (conceito biológico de espécie), mas existem as mais interessantes variações no conceito e não é possível definir com exata precisão e pleno acordo do que se trate uma determinada espécie. As questões de definições de espécie são invariavelmente alvo de discussões acaloradas entre os pesquisadores especialistas num determinado grupo animal, vegetal ou microbiano.

Enfim, com relação a espécies de mamíferos de grande porte, as novas espécies são normalmente criadas (especiação alopátrica) quando dois diferentes grupos populacionais de uma mesma espécie se dividem e passam a habitar diferentes lugares. Caso essas duas populações mantenham-se separadas uma quantidade suficiente de tempo, ocorrerão mutações aleatórias em seus DNAs que serão diferentes e que serão diferentemente selecionadas de acordo com o ambiente em que vivem. Com o passar do tempo, tais espécies ficarão cada vez mais diferentes até o momento em que elas alcancem o chamado isolamento reprodutivo. Neste momento não será mais possível que indivíduos de uma espécie fertilizem indivíduos de outra gerando um híbrido fértil. Quando isso acontecer, os biólogos dirão: são espécies diferentes.

** ClickCiência: Há explicações para o chamado “acaso”?

O acaso não precisa de explicações, ele precisa de aceitações. Em inúmeros fenômenos de nossa vida cotidiana, o acaso está presente. Nas pessoas em que cruzamos pela manhã, no número de sinais abertos ou fechados que passamos (ou paramos) quando nos dirigimos de casa para o trabalho, no tempo em que esperamos o ônibus, na quantidade de pessoas que estão dentro do ônibus, na temperatura que faz durante dia, na refeição disponível no restaurante, no tempo que ainda viveremos. Embora algumas dessas coisas possamos entender e calcular, há outras que são excessivamente complexas e se apresentam à nossa compreensão como aleatórias. Assim, o acaso pode ser entendido como um conjunto de variáveis complexas o suficiente para que não sejamos capazes de entender se existe uma ordem ali contida. De fato, mesmo na física de partículas mais básica há um conteúdo probabilístico, de forma que jamais seremos capazes de prever eventos específicos com absoluta precisão.

A evolução, em seu nível mais molecular, acontece através da mutação em sequências de DNA que nos parecem razoavelmente aleatórias. Sabemos que há sequências mais susceptíveis a mutações que outras e sabemos que alguns agentes mutagênicos privilegiam certas mutações ao invés de outras. Mas jamais saberemos exatamente qual mutação irá acontecer uma vez que, por mais que algumas sejam mais prováveis que outras (teoricamente), o fator acaso está envolvido e representa uma parte importante de nossa compreensão sobre os fenômenos naturais.

== Adendo: TRANSGÊNICOS ==

** ClickCiência: Fazendo pesquisas em seu currículo encontrei o seguinte título “SOMOS TODOS TRANGÊNICOS”. Gostaria, se possível, que você falasse um pouco a respeito. Como você encara as atuais pesquisas dos transgênicos?

O artigo "Todos somos transgênicos" que escrevi e publiquei na revista latinoamericana para a ciência e razão (revista PENSAR), em 2006, baseia-se no conceito de transgenia para mostrar como este processo é bastante comum na natureza. O processo de transgênese pode ser descrito, de forma puramente conceitual, como a inserção de moléculas de DNA de certo organismo no genoma de um outro organismo. A natureza tem gerado transgênicos desde o início dos tempos e, se levarmos o conceito ao pé-da-letra, podemos considerar que toda virose que pegamos é um tipo de transgenia, onde o DNA viral se integra ao nosso genoma. Assim, para cada gripe que pegamos, transformamo-nos em um novo transgênico. Do lado tecnológico, o processo de transgenia tem ajudado bastante o desenvolvimento da ciência e da medicina. Por exemplo, boa parte da insulina humana produzida hoje para medicar os diabéticos é produzida em organismos transgênicos (onde foi inserida a sequência de DNA humano para esta proteína). Assim os diabéticos não precisam mais ingerir uma insulina de porco, como ocorria anteriormente, graças à tecnologia de transgenia. Além disso, todos os genomas de organismos que são hoje produzidos e que ajudam em nossa compreensão sobre eles (e sobre nós) foram feitos devido à tecnologia de transgenia em bactérias, onde os genomas são partidos e colocados dentro de bactérias que os guardam e amplificam para a posterior reação de sequenciamento. O genoma humano não seria conhecido hoje sem a técnica de transgenia.

Com relação às plantas transgênicas que porventura venhamos a comer, o assunto é mais delicado. A idéia do meu artigo era dizer sim que existe um medo exagerado dos organismos transgênicos em nossa sociedade e que não é provável que um organismo transgênico vá nos fazer algum mal místico, absurdo ou inesperado -- como as pessoas temem. Isso é muito pouco provável. A problemática dos transgênicos está portanto mais relacionada a questões sociais e ambientais do que a questões de saúde pública. Explico. Com relação aos aspectos sociais, é um consenso hoje que os organismos transgênicos devem ser rotulados como tal, especificando qual tipo de transgênico eles são. Isso deve-se ao fato de que há várias formas diferentes de realizar a transgênese e que algumas pessoas podem ser alérgicas a determinadas proteínas em especial que tenham sido adicionadas na planta (transgênica) em questão. Estas pessoas não devem ingerir os organismos que contém tais alergenos. E, além disso, de um ponto de vista mais liberal todos devem ter a opção de não ingerirem alimentos transgênicos, se não quiserem. Assim, a rotulagem é bastante importante.

Ambientalmente falando, alega-se a transgenia substitui os organismos naturais por outros organismos modificados em laboratório e que, de certa forma, os transgênicos -- ao evitar seu ataque por pragas -- modificam a estrutura ecológica de um ecossistema e o modificam de sobremaneira. Embora concorde com o argumento, creio que o mesmo se aplica a qualquer tipo de monocultura. E assim, como biólogo e defensor da biodiversidade natural dos organismos, sou contra a cultura de transgênicos da mesma forma que sou contra qualquer tipo de destruição de mata nativa para abrigar uma monocultura. Também as sementes utilizadas em qualquer monocultura são excessivamente modificadas por contínuas e históricas seleções (artificiais) das melhores sementes e também não representam a espécie natural. Também a destruição de ambientes nativos para a produção de monocultura modifica de sobremaneira a estrutura ecológica de um ambiente. Por outro lado, creio que não seria possível hoje em dia alimentar toda a população humana urbana sem a existência de monoculturas e talvez não seja possível alimentar toda a população humana do futuro sem a utilização de transgênicos. É sabido que os transgênicos normalmente aumentam a produtividade das áreas cultivadas e, de certa forma, podem talvez evitar o desmatamento de outras áreas para a cultura agrícola. Há ainda novas tecnologias transgênicas que permitem que certas culturas sejam cultivadas em locais onde elas não eram originalmente apropriadas.

===

Esta foi a primeira parte da entrevista, posteriormente o jornalista ainda enviou uma outra série de outras perguntas para elucidar alguns detalhes que ele teve certas dificuldades para compreender. Publicá-la-ei aqui oportunamente.

Mais uma vez, clique aqui para ler a excelente reportagem.

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Quinta-feira, Abril 23, 2009

Do crítico-pensador

Para sermos verdadeiros críticos-pensadores precisamos seguir os seguintes passos:

1) Esforçarmo-nos ao máximo para entender as teorias e argumentações de outros
2) Identificar os pontos fortes e fracos da argumentação alheia
3) Tecer uma crítica específica e ponderada com relação aos argumentos que discordamos

== 1 ==

Não se pode almejar ser um pensador sem que saibamos realizar o que na literatura chamam de leitura-atenta (close-reading) de todo e qualquer texto. O pensador especializa-se nesse tipo de leitura e jamais lê o que quer que seja sem a devida atenção. De fato, o pensador crê que a leitura desatenta é o mais grave tipo de analfabetismo intelectual.

== 2 ==

Diretamente a partir da leitura-atenta de um texto e, considerando todo o "background" de conhecimento do leitor-pensador, identifica-se de pronto (1) os pontos de determinado texto que convergem perfeita e maravilhosamente dentro de uma linha lógica e bem moldada de raciocínio e, por conseguinte, (2) outros pontos que não tenham sido muito bem esclarecidos ou que se situem à periferia da argumentação principal.

É claro que diferentes pessoas pensarão que diferentes pontos de um texto argumentativo tenham sido bem ou mal argumentados. Por isso é também necessário conhecer algo sobre o autor do texto e dividir com eles conceitos básicos com relação ao assunto do qual ele trata. Quanto mais se lê um autor, mais se entende sua linha argumentativa, posto que assim aprendemos a ter a mesma linguagem do autor e identificar claramente o que ele quer dizer quando apresenta conceitos relativamente vagos ou de múltiplas identidades.

EXEMPLOS: Os conceitos de liberdade, democracia, segurança e autoritarismo -- para citar alguns -- frequentemente dependem da posição ideológica de quem escreve um texto. Alguns autores podem considerar que os indivíduos são livres num estado-nação, outros discordarão (anarquistas, por exemplo). Certamente o conceito de Social-Democracia de um filósofo é bem diferente do conceito de social-democracia que vai dentro do partido neoliberal brasileiro (PSDB). Da mesma forma, o conceito de democracia do partido democrata brasileiro (DEM, antigo PFL) pode ser considerado um tanto enviesado e, a meu ver, bastante diferente do sentido sugerido pela palavra em sua acepção original oriunda do grego (do grego démokratía, de dêmos "povo" + kratía "força, poder"[1]).

Fato é que da leitura atenta, identifica-se a linha argumentativa traçada pelo autor e disto ficam claros tanto os pontos de concordância ou discordância do leitor (com sua bagagem cultural) com relação à argumentação principal. Identifica-se, sobretudo, os pontos de extrema discordância e repúdio ou plena concordância e admiração. Um dos maiores prazeres do intelectual é observar, durante a leitura-atenta de autores clássicos, a mais bela cadeia argumentativa que identifica de forma sublime, singela, elegante, lógica, sensível e maravilhosa como toda a humanidade houvera visto ou tratado erroneamente um problema antes daquele discurso. A filosofia e os tratados intelectuais estão entre as mais belas formas de expressão do ser humano e são de uma beleza estética fenomenal. Porém, apenas através da leitura atenta e partindo de um conhecimento razoavelmente vasto sobre os principais conceitos em discussão é que se pode chegar a ter este tipo de impressão (maravilhamento ou repúdio) sobre um texto analítico sério. Mais uma vez: semi-analfabetos, portanto, podem ser considerados aqueles que leem determinados textos de inclinações claramente tendenciosas e não são capazes de identificar seus conteúdos ideológicos. [2]

== 3 ==

Uma vez tendo feito uma leitura de um texto e tendo identificado os pontos de concordância ou discordância ideológica, seus pontos fortes e fracos de argumentação, vem então a parte mais difícil da tarefa do pensador. Esta etapa consiste em fornecer argumentação contrária aos pontos de discordância e em explicar com precisão as razões segundo a qual o pensador-leitor tem uma visão diferente sobre o assunto a ser tratado. [3]

É preciso aqui fugir das críticas vazias. A maior parte daqueles que criticam um determinado texto, criticam-no de forma vazia, apontando apenas seu desgosto ou repúdio com relação a determinada exposição argumentativa. De acordo com experiências próprias no campo da discussão séria, as críticas falaciosas consistem na principal forma segundo a qual ignorantes questionam algum texto [4] -- usando por exemplo falácias "ad hominens", argumento de autoridade ou "non sequitur". Assim, críticos-vazios criticam o autor ou o texto por características de sua forma, não conteúdo [5]; por argumentarem contra algum dito de notória autoridade [6]; ou por chegarem a conclusões que não se baseiam logicamente nas relações entre as premissas [7]. Tais críticas -- por vezes duras em tom -- são simplesmente vazias em conteúdo e não são capazes de identificar exatamente pontos onde existem problemas no conteúdo argumentativo de uma obra intelectual.

A verdadeira crítica é a crítica específica e pontuada, onde o crítico identifica um pensamento enviesado do pensador que lê e busca outras referências, razões ou argumentos segundo os quais identificará com a devida precisão a razão de seu repúdio à determinada idéia ou relação entre idéias. Assim, não basta simplesmente apresentar o repúdio, como também -- e principalmente -- explicar sob qual sentido o crítico compreendeu mal determinado trabalho e qual é exatamente o ponto de discordância [8].

Todos os pensadores estão sempre a serem criticados por suas idéias ou teorias. Entretanto, as únicas críticas que realmente devem ser respondidas e levadas em consideração são essas críticas bem argumentadas e trabalhadas sobre determinado ponto que (1) provavelmente não tenha sido abordado com suficiente detalhe, (2) tenha sido tomado abordado de forma enviesada ou (3) tenha sido realmente mal articulado pelo pensador -- dentre outras possibilidades. É possível entretanto prever que toda teoria seja criticável e que nenhum pensador terá sempre a razão. A razão é de certa forma maleável e depende de uma inter-relação entre conceitos que se modificam de acordo com um contexto social, cultural, político, histórico -- ou ainda -- com relação a critérios mais rígidos ou frouxos de objetividade relacionado ao assunto tratado. Mesmo considerando um contexto linguístico/social similar entre autor e crítico, teorias que almejem um conteúdo de seriedade e cientificidade devem levar determinados fatores-chave em consideração -- como ponto de partida -- quando de sua formação. E tais fatores-chave não são fixos ou inquestionáveis, porém dependem de uma infinidade de outras relações entre conceitos e idéias. Todo trabalho é, sem dúvida, criticável. Porém todo trabalho feito com seriedade, cuidado e honestidade intelectuais, buscando alcançar um patamar mais elevado para a compreensão do homem sobre si mesmo e sobre a natureza, tem um alto valor como expressão cultural e ajuda-nos em nossa eterna e infinita busca pela compreensão do que somos e daquilo que nos rodeia. É claro que haverão trabalhos melhores do que outros, dependendo dos parâmetros que se utilize para avaliar tais virtudes. [9]


== NOTAS ==

[1] Informações sobre a origem da palavra retirada do dicionário Houaiss eletrônico, 29/04/09
[2] É o caso do brasileiro médio lendo a revista Veja e pensando-a imparcial. A leitura atenta e a crítica a todo e qualquer texto precisa urgentemente ser encorajada nas escolas brasileiras -- e de todo o mundo.
[3] Por outro lado, no caso de extrema concordância com o texto, o leitor-pensador pode decidir que o estudo fala por si mesmo. Daí por diante a tarefa do pensador passa a ser a de (1)divulgar tal texto, ou (2) avançar os conhecimentos a partir deste texto. No caso (1) de pensá-lo realmente bom ou útil para a humanidade, de uma forma qualquer, o pensador deve tentar resumi-lo, acrescentá-lo ou clarificar suas idéias, tornando-o mais acessível e simples para a população, segundo a interpretação do pensador que o lê. Esta é uma tarefa do divulgador de filosofia. Todos que prezam pelo bem da humanidade, de fato, deveriam ser divulgadores de filosofia. No caso (2), o pensador pode tentar se basear nessas idéias para avançar nossa compreensão sobre o mundo tendo como base este texto original. Assim, inicia-se uma linha de pesquisa baseado nesta obra.
[4] Guia de falácias -- em inglês ou em português; outro bom em inglês
[5] Exemplo de falácia "ad hominens": "Alguém com um nariz desse tamanho não pode dizer nada de bom". Troque o "nariz-desse-tamanho" por palavras como: mulher, pobre, rico, negro, homossexual, ateu, árabe, brasileiro e verás como esta crítica -- totalmente vazia de conteúdo -- é comum. Outra crítica similar relacionada ao conteúdo do texto também pode ser feita: "um texto com tantos erros tipográficos, não deve ser levado a sério". Foge-se da argumentação principal para criticar o argumentador -- ou, alternativamente, a forma como ele argumenta.
[6] Outra falácia bastante comum é também o argumento de autoridade. Em nossa sociedade judáico-cristã normalmente considera-se que todo conhecimento que vá contra a Bíblia -- autoridade máxima(!) -- deve estar errado. De forma similar, considera-se sempre que os "chefes" têm a razão; infelizmente considera-se que o ministro do STJ deve estar correto apenas porque ele é, justamente, o ministro do STJ. Ou então cita-se algum filósofo, cientista ou personalidade de renome para "provar" certa argumentação. ==> Vale notar que mesmo os melhores pensadores da humanidade cometeram erros de argumentação e que todo argumento deve ser avaliado de forma independente de quem o falou. <== Para o verdadeiro filósofo, o argumento do mais humilde dos humanos ou do presidente dos Estados Unidos deve ser considerado sob o mesmo ponto de partida, isto é: igualmente criticáveis.
[7] Se 1 + 1 = 2, LOGO amanhã vai chover. É claro que exagero nos exemplos pra ficar claro. Mas o non-sequitur é uma das formas mais comuns através das quais pessoas má-intencionadas usam e abusam no intuito de confundir uma platéia. Ela é excessivamente utilizada por políticos para convencer a população de que suas manobras neoliberais beneficiam à sociedade; e não aos seus próprios bolsos. Eles dizem: "Se há pobreza no país e se há pessoas nas ruas, LOGO devemos abrir o mercado para o capital internacional." Enquanto isso, o problema sempre da educação de base e da desigualdade social permanece por se resolver, enquanto uns poucos empresários enchem seus bolsos de dinheiro.
[8] Todo e qualquer trabalho pode ser bem criticado e toda crítica pode ser bem rebatida. É ao leitor (e à toda humanidade) que restará a função de juri ao considerar certa discussão ou trabalho sob a luz da razão; tendo o papel de julgar qual dos dois lados da argumentação estará mais próximo do que definimos chamamos de ter a razão.
[9] Na filosofia chinesa, por exemplo, uma obra é normalmente mais virtuosa quanto mais filosófica, abrangente e metafórica ela puder ser (veja "Os Anacletos" de Confúcio, por exemplo). Já na filosofia grega, a virtuose está mais relacionada a um tipo de argumentação mais direto, esmiuçado e detalhado. O chinês pensa o grego específico, pequeno e limitado; o grego pensa o chinês amplo, ambíguo e excessivamente abrangente. Certamente pode-se dizer que um ou outro sejam melhores, dependendo dos critérios que se adote para realizar tal definição.

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Segunda-feira, Abril 06, 2009

Notas sobre a prática linguística

Antes de aprender qualquer idioma, um adulto deve considerar e aceitar duas verdades básicas sobre o que aprender:

1. Jamais terás uma compreensão completa do que se diz
2. Jamais falarás como um nativo


== DISCUSSÃO ==


1. O vocabulário de uma língua é extremamente vasto e os verbetes dos dicionários linguísticos ultrapassam as centenas de milhares de palavras [1]. Com o avanço das técnicas e especialidades, só se pode esperar que tais vocábulos se multipliquem nos anos que se seguirão. Ken Kister estima que 25.000 palavras sejam adicionadas por ano ao idioma inglês [2]. De certa forma, entretanto, pode-se dizer que, felizmente, para que compreendamos o que acontece ao nosso redor no dia-a-dia não se faz necessário que se conheça um vocabulário assim extremamente amplo. Algo que desde algum tempo me interessa como intelectual vem do fato de como os humanos conseguem compreender o que se lhes diz, ou seja: como é formado o sentido -- e assim, a compreensão -- quando de uma comunicação verbal (parole).


Sendo oriundo de uma tradição científica dentro das ciências biológicas, sei que cada pesquisador tem um entendimento ligeiramente diferente sobre o conjunto de teorias que suportam a grande ciência com a qual trabalhamos. Mesmo quando os cientistas são especialistas na mesma área de atuação, por vezes uns têm um background mais relacionado às ciências exatas, outros dialogam melhor com as ciências humanas. E isso faz com que sua abordagem experimental de um determinado problema científico (modus tollens) seja mais direcionada para aspectos mais fenomênicos per se ou aspectos mais relacionados à forma como os humanos enxergam e/ou interpretam tais aspectos. O que importa é que há muita incompreensão em ciência quando esses dois indivíduos são colocados para conversar entre si e é preciso que eles expliquem-se muito bem um ao outro para que haja algum consenso semântico. Assim, voltemos à pergunta inicial: como entender o que os outros dizem dado que a experiência de mundo deles é diferente?


A formação de sentido em meios científicos ou quando estão envolvidos indivíduos que falam línguas diferentes [3] nunca se dá pela compreensão completa do assunto, por uns e por outros. A compreensão entre dois indivíduos é apenas 100% eficiente quando se discute assuntos extremamente básicos e simples. Discussões conceituais, ideológicas ou científicas normalmente relacionam e utilizam conceitos abstratos que são compreendidos diferentemente por cada indivíduo. Se imaginarmos pessoas a discutir se o Brasil é um país democrático, podemos encontrar aqueles que concordem com a afirmação simplesmente porque há o sufrágio universal. Outros podem discordar porque consideram que os parlamentares roubam excessivamente o dinheiro público em causa própria e que isso não caracteriza um estado democrático. Outros ainda podem discordar porque não é exatamente qualquer indivíduo que pode se candidatar -- é necessário estar filiado a um partido político. O conceito de democracia, assim, depende da compreensão de cada um e não é simplesmente possível dizer que alguns tenham conceitos mais precisos do que outros. Além disso, a forma como o conceito de democracia para um indivíduo se relaciona a outros conceitos próximos, como por exemplo: liberdade de expressão, liberdade religiosa e sexual, liberdade de imprensa; ou ainda, antiteticamente, aos conceitos de totalitarismo, tirania privada e estado laico, para citar apenas alguns, influencia diretamente a forma segundo a qual as pessoas compreendem o que vem sendo discutido ou a leitura de alguma informação.


Assim, em qualquer tipo de comunicação, é possível encontrar indivíduos que não se entendam entre si -- embora outros possam entendê-los e pode até mesmo haver uma determinada pessoa que entenda ambos razoavelmente bem. Neste caso, este intermediário pode inclusive identificar as diferenças conceituais entre os indivíduos e traduzir a "língua de um" na "língua do outro" de forma que eles venham então a se entender. E se esta falha na compreensão acontece até mesmo dentro da mesma plataforma linguística (mesmo idioma), quando diferentes idiomas estão envolvidos a situação se torna ainda mais complexa. De fato, cada indivíduo possui sua plataforma conceitual linguística associada a uma teia de correlações e estruturas rígidas segundo as quais articulam tais conceitos que lhe são próprias e únicas. Assim, cada um tem uma visão do mundo e da sociedade que lhe é particular e diferente de todos os outros indivíduos, baseada em tudo que aprendeu, na ordem em que aprendeu os conceitos, no contexto socio-histórico-cultural em que está envolvido, na capacidade biológica de funcionamento de seu cérebro e órgãos do sentido. Paul Hermann disse, já em 1880, que de fato haverão tantas línguas quanto haverão indivíduos [4].


Para que duas pessoas possam conversar e se compreenderem bem, é preciso que haja concordância com relação a uma parte significativa de suas associações conceituais e das relações entre conceitos-padrões da prática da comunicação entre humanos. Tais padrões de certa forma dependem contextos sócio-histórico-culturais e normalmente pessoas de mesmo estado, país ou região se compreendem melhor entre si do que quando discutem com pessoas oriundas de outras posições geográficas e fundos culturais. De outra forma, quando falantes de linguagens diferentes discutem, as diferenças em seus backgrounds culturais torna seus entendimentos menos completos. Uma vez entretanto, que estes indivíduos oriundos de diferentes culturas cheguem a se compreender -- depois de muita discussão e incompreensões --, pode-se gerar um novo entendimento ainda mais completo e global, mais virtuoso, que leve em consideração aspectos antes não considerados por uma ou outra cultura, criando visões de mundo mais assentadas e sólidas, que sejam mais válidas num contexto de uma cultura geral de toda a humanidade.

O cerne desta argumentação


Enfim, para a prática linguística cotidiana a formação do sentido não depende absolutamente do entendimento completo das palavras ditas, ou das regras de gramática. A formação do sentido se dá de forma mais ampla. Quando estudamos neurologia, sabemos que nosso cérebro é moldado para observar certos padrões específicos e que ele é capaz de completá-los de certo modo, mesmo quando eles estão incompletos. As ilusões de óptica nos revelam isso com eficácia e também em música sabemos que nosso cérebro adiciona uma nota faltante à nossa "audição" quando uma escala é tocada sem ela. No campo do estudo da formação semântica, esta premeditação e esse complemento também acontece. Durante uma conversação, por exemplo, nosso cérebro entende parcialmente o que é dito e tem uma expectativa sobre o que será dito a seguir. Esta expectativa criada neurologicamente ajuda-nos a compreender um assunto mesmo quando a maioria das palavras nos é desconhecida. Quando, portanto, da incompreensão de determinadas palavras ou relações gramáticas entre elas dentro de uma conversação, acredito que nosso cérebro seja capaz de completar o sentido para formar uma sentença que, simplesmente, faça sentido para o ouvinte. Não digo que escutamos palavras que não estejam lá, ainda que considere isso possível de acontecer em alguns casos, mas argumento que dentro de nosso cérebro a compreensão do sentido provavelmente se faz por associações entre o que foi dito e diversas outras palavras e conceitos que não tenham sido empregadas em uma conversação mas que são empregadas durante o processamento cerebral para formar a compreensão. Seguindo a mesma linha de argumentação, podemos ainda afirmar que é mais fácil entendermos os falantes de uma língua estrangeira quando eles estão a discutir algo que nos é familiar, mesmo que desconheçamos o significado de uma porção significativa das palavras ditas. Dentro do assunto familiar, nosso conjunto de conceitos cerebrais opera de forma mais organizada e somos capazes de supor o que se diz, mesmo quando somos capazes de traduzir de fato apenas poucas palavras. Talvez aqui seja interessante propor estudos onde indivíduos de diferentes idiomas e com conhecimentos razoáveis de certos idiomas (iniciante, médio, avançado) sejam colocados para se comunicar. Apresenta-se uma situação a um indivíduo e verifica-se o quanto desta situação foi entendida, tanto pelo contexto quanto pela ação verbal (parole). É de se supor que discussões sobre a vida diária em uma casa ou sobre assuntos relacionados à nossa profissão sejam mais fáceis de ser entendidos pelo ouvinte posto que -- se não entendemos exatamente o que dizem -- podemos entender 'pelo contexto' e formar associações cerebrais de forma a prever o que se está sendo falado mesmo que muito da gramática ou vocabulário da língua nos sejam desconhecidos. Até quanto nosso cérebro conseguirá completar? Haverão grandes diferenças entre os indivíduos? Eu chegaria a dizer que a habilidade de um ser humano em compreender o sentido de uma discussão verbal pelo "contexto" -- relacionado é claro ao assunto que se fala -- é tão importante quanto entender as exatamente as palavras ditas. Assim, a observação atenta do que acontece ao redor do falante e a atenção ao que ocorre à nossa volta é uma parte importantíssima da compreensão e que não é absolutamente ensinada ou explicitada em escolas de línguas. Ainda sobre a questão do contexto, vale dizer que quanto mais culto for um indivíduo, maior será sua facilidade em compreender um novo idioma. A cultura geral permite a um sujeito compreender a maior parte de assuntos dos quais um ser humano genérico possa falar-sobre. Além disso, quanto mais um sujeito é capaz de reparar e estar atento à como as coisas acontecem ao seu redor -- quanto mais esperto for o sujeito -- mais ele poderá compreender sobre os acontecimentos antes mesmo que qualquer palavra seja proferida. Vale notar aqui que certos tipos de compreensão dos acontecimentos são culturais e, por exemplo, certos tipos de piadas são feitos mais por uns povos do que por outros. Assim é preciso também um certo entendimento sobre o que certos povos costumam reparar em determinadas situações para ter uma idéia do que falarão uma vez que tenham visto determinado acontecimento. Para falar bem uma língua, é preciso tentar, portanto, ter uma percepção do mundo como aquela que é tida pelo falante desta língua. Desta forma, a compreensão será mais completa. A língua talvez seja a expressão máxima de uma cultura.


2. O falante nativo normalmente pode reconhecer facilmente um indivíduo que não tenha nascido ou vivido quando criança em seu meio linguístico. É claro também que quanto mais tempo e quanto mais envolvimento alguém tem com uma cultura e uma língua, quanto mais ele tenha gastado tempo com o aprendizado e a compreensão da mesma, mais rápido ele irá entender e conseguir agilidade para falá-la com proficiência.

INTERLÚDIO: O estudo de línguas por anos a fio, entretanto, sem o contato direto com a cultura, é a meu ver um desperdício de tempo de estudo. Há um determinado tempo, diferente para cada aluno, e que provavelmente pode ser medido a partir de quando ele pode já compreender diálogos razoavelmente densos, onde o estudante deve emigrar e se embeber da cultura que deseja conhecer.
EXPERIÊNCIA PESSOAL: Muitos dos brasileiros cultos que conheço supõe que sabem falar bem o inglês. De fato, conseguem se comunicar com eficácia. Entretanto, utilizam determinadas palavras que nenhum nativo do idioma inglês utilizaria, certas sinonímias que são claras traduções do português e certas construções verbais estranhas. Mesmo eu que já morei um ano na Inglaterra e já viajei algumas vezes para os Estados Unidos continuo tendo dificuldades -- e sei que ainda as terei por muito tempo -- em comunicar-me na língua de Shakespeare. (A propósito, nem é a mesma língua de Shakespeare uma vez que o próprio inglês evoluiu desde o século XVI-XVII, processo de anagênese linguística.)

Com o passar do tempo, medido em anos, um indivíduo pode chegar a falar um determinado idioma de uma maneira cada vez mais próxima a um nativo. Entretanto, sem querer desapontar ou desanimar o leitor, creio que em raríssimas exceções se chegará a falar como um nativo e perceber-se-á em algum momento certos deslizes realizados que verdadeiros-nativos darão como certo o fato de que o falante não se nascera ou crescera ali. Tais deslizes, a meu ver, podem ser de três tipos rasos e um tipo profundo, sendo os tipos rasos: (1) fonéticos, onde o falante não produz bem um som da língua (como o "ão" do português); (2) gramaticais, onde o falante não é capaz de fazer construções verbais tidas como normais por um falante da língua ou (3) vocabulares, onde uma quantidade excessiva das palavras proferidas não fazem parte do vocabulário normal do nativo. No sentido profundo está um tipo de compreensão que envolve um encadeamento de conceitos e idéias que estão relacionadas a contextos sociais, históricos e culturais. O conceito de democracia na Europa é diferente do conceito na América do Sul que é diferente do conceito na América do Norte que é diferente do conceito na China, Japão, Irã, Venezuela, etc. Questão culturais estão envolvidas certamente em compreensões semânticas. (Além disso, eu diria que uma imersão cultural e linguística de ao menos um punhado de anos se torna necessária para alguém que não conheça bem certo idioma, até que ele possa falar com completa desenvoltura e passar como falante nativo para a maior parte das pessoas. É claro que tal experiência variará dependendo da quantidade de estudo, da distância da língua/cultura em questão de sua língua/cultura nativa ou em quão imerso o indivíduo se sujeitar a esta segunda cultura. De fato, há pessoas que jamais chegam ou chegarão a falar o idioma de forma a passar como nativos. Elas podem também não estar interessadas em fazê-lo e, antes de tudo, é preciso o interesse, posto que falar como um nativo não aprende sem vontade e luta. É um desafio intelectual.)


Além disso, é preciso compreender que a língua consiste na maior expressão de uma cultura e, poderia-se dizer que a cultura está para a língua como o ambiente está para o animal: eles co-evoluem; um modifica o outro e vice-versa.

EXPERIÊNCIA PESSOAL: Certa vez fiz uma viagem com mais seis franceses e grande parte dos assuntos colocados em pauta consistia em lembranças culturais sobre assuntos relacionadas à música, arte, cultura televisiva, histórias em quadrinhos, política, etc. Tais assuntos não podem jamais ser bem compreendidos por pessoas oriundas de outras culturas. Também se estivéssemos em meio a brasileiros falando sobre o Lula, o Monteiro Lobato, o castelo Ratimbum ou sobre o Gilberto Gil e a tropicália, também não nos entenderiam. Neste tipo de assunto falta ao ouvinte a questão do contexto, sendo que normalmente ele está completamente por fora da cadeia de conceitos e inter-relação entre eles que se dá nessas manifestações culturais. Desta forma o cérebro não pode funcionar muito bem ao prever o que será dito, uma vez que ele não foi apresentado a este conjunto de conceitos culturais que caracterizam um estado ou região ou povo. Assim, acredito que entender uma língua é também entender uma cultura, uma história de manifestações culturais relacionadas à contemporaneidade histórica da vida dos humanos com quem se dialoga. E nas escolas de línguas também não se estuda muito sobre a cultura dos países. Vamos e venhamos: só temos uma vida e não temos tempo de simplesmente estudar ou compreender todas as manifestações culturais de uma ou duas décadas em determinado país onde se fale a língua que desejemos aprender. E assim, precisamos admitir que jamais compreenderemos os assuntos como um indivíduo que sempre viveu em sua própria cultura. Também eles não compreenderão, de outro modo, o que falamos com nossos conterrâneos. E assim, talvez, fosse melhor que cada ciência fosse desenvolvida em seu país de origem no idioma nativo. Certamente a articulação de conceitos realizada pelos pesquisadores seria melhor formulada. Já encontrei um sem-número de artigos escritos por brasileiros, em inglês, que de tão mal escritos chegam a ser praticamente incompreensíveis. Acredito que as ciências devam ser feitas pelos pesquisadores em sua língua nativa e apenas traduzidas para outros idiomas por razões de troca informacional. É uma pena que a ciência mundial seja dominada pelos falantes do inglês.


Para finalizar, gostaria de citar PH Mattews [5], em tradução livre: "(...) o que sabemos com certeza é como maravilhosamente variadas as linguagens podem ser, com relação às categorias que eles deixam explícitas, quanto aos tipos de palavras diferentes que usam, quanto à forma segundo a qual seus falantes discutem em geral sobre o mundo. Isso, apenas em si mesmo, é uma forma grande de abrir nossos olhos e liberar nossa mente." Também a crítica literária Hélène Cixous nos diz em seu texto "Conversations"[6] questiona a Bíblia ao dizer que a suposta maldição mitológica da Torre de Babel tenha nos trazido algum mal, ela crê ser uma benção e um enriquecimento estar em meio há tantos idiomas e formas diferentes de representação e formalização do mundo externo a nós. A compreensão de outros idiomas, assim, mostra-nos como nossa visão é parcial e enviesada com relação ao que aprendemos e é sempre bom verificarmos que há outras formas -- piores em determinados aspectos, melhores em outros -- de se enxergar e representar o mundo através de conceitos, símbolos ou fonemas.


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[1] Este link da wikipedia informa que o Oxford English Dictionary (2ed) inclui mais do que 600.000 palavras (entre termos correntes, antigos e técnicos), enquanto o dicionário Webster tem 475.000.
[2] Kister, Ken. "Dictionaries defined." Library Journal, 6/15/92, Vol. 117 Issue 11, p43, 4p, 2bw cited in wikipedia.
[3] A ciência aqui pode ser também entendida como uma linguagem, ou seja, um conjunto de conceitos que se associam a realidades físicas prováveis (da forma como os humanos a vêm ou interpretam) e relações ou regras pré-definidas sobre a forma segundo a qual tais conceitos se articulam.
[4] Cited on Mattews, PH. Linguistics, a very short introduction. pg 77.
[5] Mattews, PH. Linguistics, a very short introduction. pg 75.
[6] Cixous, Hélène. Conversations. In: Newton, KM (1997). Reprinted from Writing Differences: readings from the seminar of Hélène Cixous, ed Susan Sellers (milton Keynes, 1988), pp. 142-54.

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Sexta-feira, Março 27, 2009

Operação castelo de areia

ou Sobre as empresas e governo, o "novo" segundo poder

DISCLAIMER: Peço licença aos leitores deste blogue para desviar o assunto um pouco para a área política. Voltaremos em breve aos temas epistemológicos, evolutivos e filosóficos.

Nos dias de hoje, o segundo poder ao lado do governo não é mais a igreja, como aconteceu durante grande parte da história da civilização ocidental, como na idade média. O segundo poder consiste hoje na força do dinheiro, da economia de mercado e do capital -- força esta que está do lado das grandes empresas. Desde a revolução industrial no fim do século XVIII até hoje, o poder das empresas tem crescido assustadoramente e elas influenciam fortemente as decisões políticas daqueles países que hasteiam a bandeira do capitalismo, como é o caso da maioria dos estados no continente americano. É esta a crítica constante feita pelo filósofo Noam Chomsky -- em inúmeras obras -- à sociedade contemporânea nos Estados Unidos e em todo o mundo.

Um exemplo claro deste poder paralelo explodiu esta semana também no Brasil, onde a polícia federal (PF) deflagrou a operação chamada Castelo de Areia. Nesta operação, a construtora Camargo Corrêa é acusada de fazer doações ilegais a partidos políticos durante as eleições municipais de 2008. O que acho particularmente impressionante é que tais empresas não têm absolutamente nenhum alinhamento moral quanto à escolha dos partidos aos quais vão financiar. Talvez fosse "normal" que uma empresa tendo um alinhamento moral de cunho mais social (será que existe alguma assim?) ou prezando a economia de mercado, fizesse doações ao PT ou ao PSDB, por exemplo. Entretanto é assustador perceber que a Camargo Corrêa é agora acusada de fazer doações ilegais a sete partidos diferentes: incluindo o PSDB, PPS, PSB, PDT, DEM, PP e o PMDB. Ou seja, um número enorme de vereadores e prefeitos lhe deve agora "favores"... realmente esta é uma ótima estratégia para se conseguir o que se quer dos políticos. E parece ser desta forma que as empresas conseguem roubar de todos os cidadãos brasileiros, beneficiando apenas a si e certos políticos comprados. É uma vergonha que esta afronta ao ideal democrático aconteça em nosso país.

E se enquanto de um lado o nosso ex-presidente FHC ironiza o fato de que o PT tenha sido um dos únicos grandes partidos que não teria recebido verba desta empresa, de outro -- mais importante! -- parece extremamente normal aos políticos da mais alta hierarquia, o fato de suas campanhas serem financiadas ilegalmente por grandes empresas. É claro que tais financiamentos são posteriormente trocados pelos governantes por benefícios legais, licitações fraudulentas e vistas-grossas sob possíveis irregularidades. Nesta operação agora deflagrada pela PF, a Camargo Corrêa é acusada dos crimes de: evasão de divisas, operação de instituição financeira sem a competente autorização, formação de quadrilha, lavagem de dinheiro e fraude a licitações. Acusação, entretanto, sabemos bem... não é veredicto. Esperemos para saber qual coelho sairá deste mato.

Caso as acusações venham a se mostrar verdadeiras, entretanto, seria um caso de estudo interessante a ser apresentado ao filósofo e ensaísta político Noam Chomsky, um dos maiores intelectuais da atualidade -- autor de livros como "Lucro versus pessoas: neoliberalismo e a ordem mundial" e "Entendendo o poder". Chomsky ainda apresenta o conceito de tiranias privadas existentes na era moderna e que representam, segundo o autor, uma das mais fortes formas de tirania e totalitarismo já construídas pelos seres humanos [1].

E ainda sobre este assunto é interessante observar um artigo publicado no Observatório da Imprensa onde o jornalista Luciano Martins Costa critica a cobertura da imprensa ao caso. Costa compara este escândalo com o mensalão, questiona a imparcialidade da imprensa e sugere que certos periódicos tenham dado excessivo espaço para a defesa dos acusados. Finalmente, ele comenta sobre a posição do juiz "Fausto Martin de Sanctis, que acatou o inquérito da Polícia Federal e da Procuradoria da República e expediu dez mandados de prisão e quase vinte mandados de busca no caso atual." O juiz Sanctis parece ser um dos poucos membros do alto judiciário realmente empenhados em acabar com as irregularidades que acontecem nos mais diversos níveis do escalão do governo brasileiro. Mas considerando que sua luta é contra o enorme poder do capital, temos a certeza de que terá bastante trabalho. Coragem e boa sorte é o que devemos desejar-lhe.

=== Leia mais ===

[1] On "Private Tyrannies", by Ben O'Neill. http://mises.org/story/3304
[2] Noam Chomsky, 2001. Understanding Power: The Indispensable Chomsky. Cahners Business Information, Inc.
[3] Noam Chomsky, 2003. Profit over People: Neoliberalism and Global Order. Seven Stories Press.
[4] Noam Chomsky, 2006. Chomsky on Anarchism. AK Press.

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Quinta-feira, Fevereiro 12, 2009

Revoluções conceituais (kuhnianas) em Biologia Evolutiva desde Darwin

Estimulado pelo ducentésimo aniversário de Charles Darwin e pelos 150 anos de publicação da Origem das Espécies, escrevo este relato sobre a história das principais revoluções conceituais em biologia evolutiva desde Darwin.

Charles Darwin, o pai da teoria evolutiva.
Mostrou a toda humanidade -- com argumentos mais do que fortes -- que o homem não passa de outra espécie de macacos. O antropocentrismo humano é tão forte, entretanto, que até hoje implicações de sua teoria continuam a causar espanto e desgosto em círculos religiosos e dogmáticos.


O presente ensaio trata sobre as revoluções do pensamento evolutivo desde Darwin e sugere que -- embora por vezes drásticas -- as grandes revisões do pensamento evolutivo desde a segunda metade do século XIX até hoje permitem-nos continuar chamando o evolucionismo moderno sob a alcunha de Darwinismo.

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O ornitologista alemão Ernst Mayr, também um dos mais renomados biólogos evolutivos do século XX divide a teoria Darwiniana da evolução em cinco sub-teorias: 1) a evolução propriamente dita, 2) a ancestralidade comum, 3) o gradualismo, 4) o pensamento populacional e, finalmente, 5) a seleção natural (Mayr, 2004). Os anos que se seguiram após Darwin mostraram um grande número de incompreensões sobre o real significado de sua teoria -- ele próprio se referia a ela como uma única e ampla teoria. Em seu livro 'One Long Argument', Mayr apresenta nove diferentes usos do termo Darwinismo ao longo dos 80 anos que seguiram a publicação de A Origem das Espécies, em 1853 (Mayr, 1991). Apesar de que a evolução como oposta ao criacionismo e a ancestralidade comum foram logo incorporadas e aceitas como corretas pela maioria dos evolucionistas ainda no século XIX, muitas outras partes da teoria eram ainda vistas com ceticismo.

O primeiro ponto de discordância teórica foi resolvido ainda no século XIX pelo mais importante biólogo evolutivo deste século depois de Darwin (e Wallace). O alemão August Weissmann -- incrivelmente pouco mencionado nas histórias do pensamento evolutivo -- publicou em 1883 um livro chamado 'On heredity' que finalmente trazia um fim à idéia Lamarkiana sobre o uso e desuso de caracteres e a herança dos caracteres adquiridos. Weissmann propunha a chamada teoria do germoplasma, segundo a qual a herança poderia ocorrer apenas através de modificações em células germinativas; uma vez que as outras células do corpo não influenciavam as próximas gerações e, portanto, não poderiam agir como agentes de hereditariedade (Jacob, 1970; Weissmann, 1889). O próprio Darwin nunca conseguiu explicar a origem e modificação de caracteres e normalmente adotava uma visão Lamarckiana com relação ao uso e desuso de caracteres. Este ponto de vista de Charles Darwin pode ser extensivamente observado em sua obra publicada em 1872 'The expression of the emotions in man and animals'. Embora possa parecer à primeira vista estranho, Darwin explicava ainda muitos fenômenos naturais sobre uma óptica Lamarkiana. O termo neodarwinismo é frequentemente utilizado para expressar a reforma na biologia evolutiva realizada por Weissmann (Mayr, 2004).

Durante a primeira década do século XX, os trabalhos do monge austríaco Gregor Mendel foram redescobertos. Entretanto, a interpretação de seus trabalhos realizada principalmente pelo botânico holandês Hugo De Vries evidenciava uma característica saltacionista da evolução que se opunha fortemente ao gradualismo Darwiniano (Jacob, 1970). Posteriores desenvolvimentos deste campo de pesquisa no Reino Unido -- principalmente realizados por William Bateson -- vieram trazer o nascimento da genética como disciplina científica e fizeram proliferar a idéia do saltacionismo. Nesta época, o Darwinismo foi impopular como nunca (Mayr, 2004).

Seria apenas durante as décadas de 30 e 40 que uma nova revolução conceitual em biologia evolutiva tomaria lugar, acontecendo principalmente por influência dos estudos de Thomas Hunt Morgan na Universidade de Columbia, em Nova Iorque. Seus estudos em heredidariedade e evolução eram principalmente desenvolvidos em moscas-das-frutas do gênero Drosophila, tornando este um dos mais estudados organismos-modelo em todo o campo da biologia. Ainda segundo Mayr (1991), os estudos de Morgan e seus estudantes apontavam que a grande parte das mutações produzia efeitos pequenos o suficiente para permitir uma modificação gradual no fenótipo de populações ao longo do tempo; saltos repentinos preditos pela teoria saltacionista não eram mais necessários para explicar a evolução. Isso logo permitiu que teóricos como Fisher, Wright e Haldane descrevessem modelos teóricos mostrando que os alelos gênicos com pequena vantagem seletiva pudessem aumentar sua representatividade em populações ao longo do tempo e que isso poderia causar modificações drásticas no genótipo e fenótipo destas populações de uma maneira gradual. Esta nova reforma em biologia evolutiva, integrando gradualismo, mendelismo e a recém-formada genética de populações sob uma perspectiva Darwinista foi chamada de síntese Fisheriana (Mayr, 2004).

A próxima integração conceitual que tomaria lugar no maravilhoso campo da biologia evolutiva colocaria sob uma visão comum a genética de populações, a biodiversidade, padrões espaço-temporais e o pensamento populacional. O vanguardista Charles Darwin, portanto, vinha sendo integrado portanto, lenta e parcialmente, ao 'mainstream' paradigmático da teoria evolutiva. Esta nova integração deu-se ao reunir a visão da evolução que acontecia dentro de uma única linhagem de organismos (anagênese) e a visão da evolução entre diferentes linhagens ou populações (cladogênese). Enquanto os geneticistas de populações estavam interessados em explicar a evolução através de mudanças alélicas dentro de um grupo populacional, naturalistas estavam interessados em explicar como dois grupos populacionais poderiam originar espécies novas (através de especiação). A publicação do livro 'Genetics and the origin of species' por Dobzhansky em 1937 abriu as portas para a integração desses dois pontos-de-vistas inicialmente inconsistentes. Julian Huxley chamou esta reforma de teoria sintética da evolução ou nova síntese e ela foi melhor elaborada após a publicação de livros por Mayr, Simpson, Huxley e Stebbins -- cada um deles apresentando a síntese segundo uma perspectiva particular, para diferentes grupos de organismos. Finalmente havia sido compreendido por naturalistas que uma população não necessariamente precisa gerar uma nova espécie para permanecer adaptada (ela poderia apenas modificar-se dentro da própria linhagem); assim como havia sido entendido pelos geneticistas de populações como a separação geográfica poderia produzir dois ou mais grupos populacionais novos (raças ou espécies) através da acumulação e modificação de um número finito e particular de alelos gênicos.

Finalmente, a última grande revolução conceitual em biologia evolutiva veio através do desenvolvimento da biologia molecular. O dogma central de Francis Crick predizia que o fluxo da informação genética era unidirecional, finalmente explicando em nível molecular porque (de forma geral) modificações produzidas nas espécies pelo ambiente não poderiam influenciar e modificar diretamente o DNA. Esta observação corroborou em modo reducionista os estudos de Weissmann sobre a hereditariedade (Mayr, 1991).

A extrema similaridade entre o código genético e o funcionamento molecular de toda a vida conhecida pôde ser vista como uma evidência extremamente forte corroborando toda a teoria evolutiva -- vista em oposição ao criacionismo. Além disso, as impressionantes similaridades entre as sequências de genes e proteínas das mais básicas vias metabólicas entre bactérias, arqueobactérias, protozoários, fungos, plantas e animais (incluindo evidentemente o homem) pôde ser vista como o critério último -- um experimento crucial popperiano -- que certifica o fato de que a evolução biológica de fato ocorre e que os organismos definitivamente possuem uma história comum de ancestralidade que remonta até a origem da vida.

E é depois da enorme revolução causada pela biologia molecular; e ajudada por todas as revoluções conceituais anteriores, que a teoria evolutiva finalmente alcança sua completa maturação. Mayr sugere que a versão moderna da teoria evolutiva deva simplesmente ser chamada de Darwinismo.

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1. Jacob F. (1970) La logique du vivant: une histoire de l’heredité. Gallimard.
2. Mayr E. (2004) What makes biology unique?: considerations on the autonomy of a scientific discipline. Cambridge, UK: Cambridge University Press.
3. Mayr E. (1991) One Long Argument.: Charles Darwin and the Genesis of Modern Evolutionary Thought (Questions of Science). Cambridge: Harvard University Press.


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Este artigo consiste numa versão traduzida livremente e ligeiramente modificada da seção 3.1 do capítulo de livro Knowledge standardization in evolutionary biology: the Comparative Data Analysis Ontology (CDAO), escrito por mim e outros colaboradores que será publicado este ano (2009) no livro editado por Pierre Pontarotti, Evolutionary Biology from Concept to Application 2


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PÓS-ESCRITO

Novos fatores têm também contribuído para uma nova fase da teoria evolutiva moderna. Após a revolução da biologia molecular, novos dados moleculares puderam ser observados que sugerem um retorno ao lamarckismo -- ainda que de maneira moderada. Estudos em epigenética mostram que regiões do DNA podem ser metiladas (onde ocorre a adição de um radical metil -- CH3 -- a determinadas bases) e que esta metilação é induzida pelo meio ambiente e passada para a prole. O mesmo pode ser visto no chamado código das histonas, onde modificações nas proteínas histonas -- responsáveis pela compactação do DNA e formação da cromatina -- têm se mostrado herdáveis. Tais modificações estão frequentemente acontecendo ao longo da vida de um indivíduo e influenciam a atividade de genes de forma a silenciar ou super-expressar alguns deles.

De certa forma, portanto, a biologia moderna retoma a idéia lamarckista do ambiente influenciando a herança. Mas ao contrário de predições normalmente alarmistas sobre um "retorno do lamarckismo", a código epigenético não parece ser uma forma forte de herança -- e parecem limitadas as maneiras segundo as quais ele pode funcionar como transmissor de hereditariedade ou modificar o fenótipo de organismos. O estudo da epigenética não parece, portanto, revolucionar a biologia evolutiva, mas acrescentar um novo fator que deve ser levado em consideração em determinados casos especiais. Vai aqui uma promessa de me aprofundar sobre este interessante tema em postagens futuras...


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Quarta-feira, Fevereiro 11, 2009

Linguagem, epistemologia e teoria da ciência

O ser humano normalmente acredita excessivamente na fidelidade de seus conceitos para descrever a Realidade. Acredita-se piamente nas teorias científicas e na sua verificabilidade prática e certeza teórica. Sugiro aqui chamarmos aquele que tem esta visão de Associalista ingênuo, posto que ele associa conceitos limitados -- de bordas fuzzy [1] -- a uma suposta Realidade que ele pensa representar com excessiva precisão através de suas teorias. Muitos dos cientistas que conheci possuem este tipo de visão.

Já poetas e filósofos não são assim tão ingênuos. Eles sabem que a realidade e a existência per se vão muito além daquilo que conseguimos representar através de caracteres ou mesmo pela fala. Na experiência cotidiana, sente-se este buraco conceitual e lingüístico quando se relata um caso a alguém. Por vezes percebe-se uma falta imensa sobre a descrição do evento e não se consegue representar o caso real com tanto explendor, graça ou beleza. Normalmente a explicação acontece mais facilmente através de palavras (utterance) do que através de símbolos (escrita). Somos naturalmente melhores prosadores que escritores.

Minha mente e a representação do mundo que faço quando o enxergo é muito mais ampla do que aquela que consigo transmitir -- de qualquer forma imaginável -- aos outros seres humanos. As palavras e os conceitos são maneiras extremamente limitadas de representação da realidade e por isso, talvez, o cinema seja uma arte assim de tão forte apelo. Não é à toa que existe o ditado: "uma imagem vale mais que mil palavras". Por vezes esta noção é muito forte. [2] Como representar em palavras ou símbolos a emoção que se tem ao ver a Mona Lisa no museu do Louvre (e ter toda a história da cultura ocidental passando em sua mente)? Como expressar em palavras a emoção de se andar completamente perdido em meio aos guetos alagados de Amsterdã? Como representar o delírio de assistir uma palestra do Richard Dawkins ou do Stephen Hawking? Como dizer aos outros humanos o que se sente quando se faz amor com quem se ama de verdade? Isso é totalmente irrepresentável num papel ou mesmo numa conversa. A experiência sensorial, imagética ou mesmo racional que temos de vida é muito mais ampla do que aquela que podemos representar e a nossa forma de comunicação é absurdamente limitada para expressar a paixão humana e nosso sentimento aesthetico! E isso também se reflete fortemente na apreciação e na busca pelo conhecimento.


Com que palavras podemos expressar nosso enorme sentimento de admiração ao vermos de perto uma obra de arte que representa um marco em toda a história da cultura ocidental?
Mona Lisa (La Gioconda), pintura a óleo por Leonardo Da Vinci (1452-1519).




Um verdadeiro escritor sabe que às vezes não é possível passar um evento para o papel posto que nos faltam palavras para representá-lo ou, as palavras que existem não representam-no em toda sua dimensão e magnitude. O associalista realista reconhece o enorme abismo que existe entre as representações-da-realidade e uma possível Realidade per se, inalcançável.

Assim -- se tal abismo descrito é evidente para a vida cotidiana -- ele se torna ainda mais crasso e sério quando falamos de epistemologia e teoria da ciência. Grande parte dos conceitos que formamos em ciência são errôneos, incompletos e apresentam limites muitas vezes arbitrários, superpostos e até desconhecidos -- dependendo extremamente da interpretação que alguém faça deles [3].

Os humanos têm uma dificuldade enorme na expressão de sentimentos e categorização ou conceitualização de entidades ou relações do mundo dito Real. Todo o conhecimento e toda a ciência é feita através da troca de documentos explicativos: trabalhos científicos, livros, etc. Ou então através da comunicação de trabalhos em palestras e eventos, ou mesmo em conversas descompromissadas. E tais documentos ou disposições verbais são transmitidos através de palavras -- que por sua vez representam conceitos não muito claros. Ainda que uma Verdade última possa existir [4] o que sabemos sobre ela passa e passará sempre pelo filtro da linguagem, que é a forma como necessitamos representá-la para sermos capazes de nos comunicarmos e melhor compreendê-la. Não é possível haver ciência ou conhecimento sem linguagem, sem comunicação, sem conceitualização. Esta base linguística do conhecimento parece-me forte e inquestionável. Uma epistemologia ou teoria da ciência que não considere a enorme influência da linguagem e do problema de conceitualização do mundo será para sempre uma epistemologia manca.

SE 1) A Verdade está acima da linguagem
SE 2) O homem acessa e interpreta a Verdade através da linguagem
LOGO Para o homem, a verdade-conhecida dá-se através do filtro da linguagem
COROLÁRIO Jamais conheceremos aquilo que não conseguirmos conceitualizar

Finalmente, aquilo que conseguimos representar através da linguagem está intrinsecamente ligado aos nossos mecanismos sensoriais e cognitivos. Nossos cérebros e sistemas sensoriais funcionam de uma forma tal que é bastante limitada. Apenas conseguimos conceitualizar e compreender razoavelmente aquelas informações que conseguimos captar através dos órgãos do sentido e interpretar com esta capacidade de processamento cerebral que temos enquanto espécie. Se tivéssemos outros órgãos do sentido e outra forma de processamento cerebral, outra seria nossa ciência e nosso conhecimento. A questão que resta é: quão diferente seria nossa ciência se fosse outro nosso mecanismo sensorial ou nossa capacidade cerebral? O associalista ingênuo dirá que nossa ciência seria praticamente a mesma -- posto que acredita que acessamos a realidade de maneira fiel através de nossos métodos. O associalista realista dirá que nossa ciência seria bastante diferente.

(E tudo isso que descrevi pode ser entendido apenas com relação àquilo que os epistemólogos normalmente chamam de "contexto da justificação" das teorias científicas, ou seja, o fato delas consistirem em conhecimento verdadeiro justificável. Ainda há toda um ramo da epistemologia que trata sobre o "contexto da descoberta", onde fatores sociais, históricos, comerciais e brigas de poder influenciam fortemente e regem a maneira pela qual produzimos e avançamos o conhecimento. Tudo isso precisa ser levado em consideração caso desejemos entender os grandes fatores a moldar a forma como o ser humano produz conhecimento.) [5]

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[1] Li recentemente uma discussão bem interessante sobre este assunto no livro do cientista cognitivo Daniel Levitin "This is your brain on music".
[2] Um exemplo mais mundano: quando li no livro "O Gene Egoísta" sobre o fato dos leões matarem os filhotes das leoas pra que elas ficassem novamente no cio e tivessem filhos deles (ao invés de filhos do leão que anteriormente liderava o bando), isso não me chocou tanto quando vi o mesmo num documentário doDiscovery Channel.
[3] Lembro agora de uma citação na abertura de um capítulo do excelente livro sobre a corrida genômica de Kevin Davies "Cracking The Genome: Inside The Race To Unlock Human Dna". Infelizmente não tenho agora o livro em mãos, mas ele citava algum biólogo molecular notável que dizia: "se você pergunta o que é um gene, você nunca vai saber", exatamente evidenciando que o conceito de gene é um conceito altamente complexo e extremamente difícil de ser enquadrado dentro do modelo linguístico e conceitual que somos capazes de montar. Vale notar aqui -- defendendo meu ponto de vista -- que biólogos normalmente precisam ter conceitos fuzzy posto que a biologia não pode ser descrita com modelos assim tão diretos como aqueles utilizados nas ciências exatas como a física. A biologia é um ótimo modelo epistemológico para evidenciar esta desconexão entre Realidade e representação-da-realidade.
[4] Embora não precise necessariamente existir.
[5] Metalinguisticamente, este texto também não representa com fidelidade ideal o que penso sobre o assunto. Se estas limitadas palavras me permitissem expressar com clareza, o leitor veria que o mundo Real da minha experiência sensorial estaria completa e totalmente desvinculado deste mundo de conceitos que criamos para descrevê-lo, em maior ou menor grau. Minha experiência de vida não pode nem poderá jamais ser reduzida a um livro ou a um relato. Ela transcende enormemente tudo isso e ninguém será capaz de compreender realmente a vida de outra pessoa que senão de si mesmo.

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Quinta-feira, Novembro 13, 2008

Notas sobre Lamarck


Jean-Baptiste Pierre Antoine de Monet, Chevalier de Lamarck (Bazentin, 1 de agosto de 1744 — Paris, 28 de dezembro de 1829) foi um importante naturalista francês. Foi ele quem primeiro teve a idéia da relação do ambiente com os organismos e, portanto, a idéia de adaptação que culminaria posteriormente na seleção natural. Segundo alguns foi ele que, de fato, introduziu o termo biologia.


Faz pouco tempo que entendi realmente o que Lamarck pensava sobre a Origem das Espécies. A questão muito estressada nos colégios e tida como diferença clara entre a visão de Lamarck e Darwin consiste no seguinte ponto:

Para Lamarck acontecia a adaptação ao ambiente e esta adaptação obtida ao longo da vida do indivíduo, era passada diretamente para a prole. Esta teoria é chamada de "herança dos caracteres adquiridos". Na visão darwinista simplificada explicada nos colégios, a variação acontece aleatoriamente e os indivíduos que dão sorte de serem mais aptos reproduzem-se mais e passam seus genes para a próxima geração.[1]


O caso da girafa é aqui dado como grande exemplo. Para Lamarck, as girafas -- durante suas vidas -- aumentavam seu pescoço ao se esforçarem para conseguir alimento nas copas mais altas das árvores. Esse esforço adquirido ao longo de suas vidas seria passado diretamente para a prole que, já na próxima geração, nasceria com um pescoço maior. Para Darwin, haveria dentre a população de girafas uma variação natural, onde algumas já teriam pescoços maiores ou menores. Esta variação já existia na população. E assim aquelas apresentando pescoços maiores conseguiriam alimento mais facilmente e reproduzir-se-ão mais do que as de pescoço curto (se isso for realmente uma pressão ambiental) e assim a próxima geração de girafas apresentaria indivíduos com pescoços maiores. Isso deve-se ao fato de que as girafas que já tinham pescoços maiores reproduzem-se mais do que as outras. É justamente a diferença na taxa reprodutiva que caracteriza adaptação. [2]

Este exemplo explica bem a teoria e fica simples perceber que a evolução pregada por Darwin é mais gradual e lenta do que aquela pregada por Lamarck [3]. Mas para entendermos de fato isto, precisamos entender que faltava a Lamarck também o chamado pensamento populacional.

A idéia de evolução estava presente em Lamarck [4] apenas no sentido de evolução em uma única linhagem. Para Lamarck não existia a idéia de que dois grupos de uma mesma população original podiam se dividir no espaço e adaptarem-se diferentemente a dois ambientes diferentes [5], acumulando variações diferencialmente e sendo selecionados pelo ambiente. Já do princípio falta à teoria lamarkiana pelo menos dois conceitos básicos dispostos posteriormente com elegância por Darwin, a saber: o "pensamento populacional" e a ancestralidade comum entre as espécies. Isso sem falar, obviamente, da seleção natural. Resumindo e repetindo: Lamarck acreditava que as espécies evoluíam dentro de sua própria linhagem no sentido da maior adaptação, mas jamais uma espécie seria ancestral de qualquer outra. Se compreendi verdadeiramente bem, parece que Lamarck tinha um pensamento evolutivo que vai apenas em direção ao futuro, ele jamais pensou em dizer que os organismos tinham ancestralidade comum.

Tenho a impressão de que, em Lamarck, ainda há o pensamento da grande cadeia dos seres, que coloca o homem no topo da adaptação [confirmar esta informação]. Segundo este pensamento todas as espécies acabariam chegando ao ser-humano se continuassem a evolução ao longo de sua linhagem. Este foi um pensamento antropocentrista que foi muito difícil para Darwin destruir. Tirar o homem do topo e colocá-lo ao lado de qualquer outra espécie foi uma atitude que mexeu com os brios de alguns. E neste ponto, a teoria darwiniana está em pé de igualdade filosófico com a teoria heliocêntrica. De fato, estes foram grandes pontos de viradas conceituais na história da ciência: a revolução copernicana e darwiniana. Ambas tiraram o homem (ou seu planeta) do centro do universo. Ainda hoje quando explico evolução a alguns amigos formados nas melhores universidades, dentre outros músicos e intelectuais, percebo que muitos deles ainda pensam no homem como o topo dos animais e não entendem corretamente o conceito de ancestralidade comum. [6] Esta é uma grande deficiência na educação de nossa população.

Lamarck, entretanto, primou por desenvolver nos biólogos da época a idéia de evolução dos organismos, adaptação e mudança ao longo do tempo. Certamente isso ajudou -- de alguma forma -- a teoria darwiniana em ser aceita tempos depois. Seus contemporâneos não deram muito crédito à teoria de Lamarck, talvez por que a França estivesse sob a influência do grande naturalista Georges-Louis Leclerc de Buffon à época. Lamarck é citado como discípulo de Buffon. Este último, embora gostasse das idéias do aluno, parecia não considerá-las muito sérias. [7][8]


== NOTAS ==

[1] Darwin de fato tinha dúvidas sobre o assunto e por várias vezes argumentou em prol da herança dos caracteres adquiridos (ver o livro "A expressão das emoções nos homens e nos animais"). Esta teoria só foi de fato refutada por experimentos do mais importante evolucionista do século XIX pós-darwin e fora das discussões recorrentes na Inglaterra victoriana, o alemão August Weissmann.
[2] Segundo critérios estritamente darwinianos, poder-se-ia dizer hoje que os europeus seriam menos adaptados do que outras populações em países em desenvolvimento, uma vez que eles têm menos filhos -- e assim contribuem menos para o pool genético futuro da humanidade. Os chineses que, devido a problemas de super-população no país, só podem ter um filho se quiserem ter seus direitos de cidadão também poderiam ser considerados hoje darwinianamente menos adaptados -- no caso deles, já foram muito adaptados no passado e, por isso, consistem em 1/3 da população mundial.
[3] Ainda que Mayr tenha dito que a evolução para Lamarck era gradual, este "gradual" lamarckiano atua mais rápido que o gradual de Darwin. O gradualismo lamarckiano está somente ligado ao fato de que a evolução ocorre etapa por etapa. Mas estas etapas se sucedem rapidamente para Lamarck, pois a adaptação é passada à prole em uma única geração. O gradualismo darwiniano é muito mais lento pois incorpora o pensamento populacional e o fato de que as adaptações podem acontecer ligeiramente e causarem um efeito "bola-de-neve" que tornará pouco a pouco as populações descendentes diferentes das populações originais.
[4] Ao menos segundo poucas leituras diretas dele e muitas interpretações de Mayr.
[5] Conceito de evolução alopátrica (parapátrica).
[6] Para um texto de divulgação científica sobre o assunto, leia: Ancestralidade comum e o tribalismo
[7] E depois desta postagem fico necessariamente devendo uma próxima sobre a ancestralidade comum, talvez a maior das sacadas de Darwin. Quando Mayr divide a teoria darwiniana em cinco e as analisa separadamente, a ancestralidade comum foi aquela que foi primeiramente aceita sem dúvida por quase todos os biólogos da época. Ela tinha um poder explicativo enorme dentro do que os epistemólogos chamam do contexto da justificação. Um trecho que costumo citar de Mayr: "Mesmo aqueles que não acreditavam em recapitulação estrita com frequência descobriam similaridades em embriões que eram apagadas em adultos. Tais similaridades, como a corda em tunicados e vertebrados e arcos branquiais em peixes e tetrápodes terrestres, foram totalmente desconcertantes até ser interpretadas como vestígios de um passado comum". Em alguma postagem futura, explicarei isso melhor.
[8] Ainda sobre Lamarck, é possível acessar sua obra mais importante inteira na wikipedia. É preciso saber um pouco de francês para lê-la, porém é possível entender alguma coisa para quem fala apenas português. Eis o link para a obra: http://fr.wikisource.org/wiki/Philosophie_zoologique

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Quarta-feira, Outubro 29, 2008

Modificações concetuais em biologia evolutiva: o caso do termo "espécie"

From these remarks it will be seen that I look at the term species, as one arbitrarily given for the sake of convenience to a set of individuals closely resembling each other, and that it does not essentially differ from the term variety, which is given to less distinct and more fluctuating forms. The term variety, again, in comparison with mere individual differences, is also applied arbitrarily and for mere convenience sake. (Darwin, The Origin of Species, 1859)


Estava agora há pouco lendo um livro do naturalista Ernst Mayr sobre a história da teoria da evolução darwiniana. Percebi que é muito difícil tentar pensar uma teoria científica com a cabeça que as pessoas tinha à época em que ela tenha sido descrita. As grandes generalidades da teoria da evolução de Darwin já foram hoje tão minuciosamente comprovadas em tantos diferentes experimentos, que é praticamente impossível acreditar que alguém, em algum tempo, já tenha duvidado dela. É claro que falo de pesquisadores sérios e estudiosos da área. Entretanto, li agora no texto de Mayr algo que me chocou. Ainda que isso possa ser óbvio, jamais havia atentado-me ao fato. Explico-me: o conceito de espécies que temos hoje em biologia e que entendemos como o mais claro e abrangente consiste no chamado conceito biológico de espécies. Ele diz que uma espécie consiste num grupo populacional fechado reprodutivamente. Assim, a barreira entre as espécies vem do fato de que indivíduos de uma mesma espécie são capazes de se reproduzir com prole fértil, infinitamente (ao menos na teoria). Por conseqüência, indivíduos de espécies diferentes não são capazes de se intercruzar produzindo prole (fértil). É bastante difícil para mim pensar no conceito de espécie sem associá-lo a esta questão da barreira reprodutiva.


Biologia: ciência única. Excelente livro do evolucionista Ernst Mayr publicado em 2004 (quando Mayr comemorava seu centésimo aniversário) e que serviu de base para esta divagação. Mayr explicita o estatus da questão sobre o termo "espécie" em Darwin e seus contemporâneos.

Arrisco-me a dizer que este conceito de reprodução-com-prole-fértil chega a ser completamente intuitivo para qualquer biólogo moderno. Acontece que este conceito, e era isso que Mayr expunha naquelas páginas, houvera sido articulado por ele mesmo, dentre outros, aproximadamente entre as décadas de 30 e 40. Ou seja, no século XX! Quando Darwin publicou seu livro clássico em 1859, provavelmente mal sabia definir um conceito claro sobre o que era ou não era uma espécie. A epígrafe que inicia esta exposição torna clara esta afirmação. À época, o que existia era antes um conceito tipológico de espécies. Ou seja, organismos de espécies diferentes eram aqueles que apresentavam determinadas características -- normalmente em forma -- distintas entre si. Certamente, entretanto, a quantidade e a qualidade destas características necessárias para se considerar certa variedade como nova espécie eram temas de discussão entre os taxonomistas da época. Mas o que quero ressaltar aqui, é que o conceito de tempo contínuo onde as espécies se intercruzam e se modificam, gerando novas variedades, não era sequer compreendido pelos pesquisadores quando falavam entre si sobre espécies. O pensamento sobre espécies à época de Darwin era definitivamente fixista. Quando Mayr, em outro livro, separa a teoria darwiniana em cinco sub-teorias, uma delas é chamada de "evolução propriamente dita" e significa exatamente este pensamento segundo o qual os organismo evoluem e se modificam uns nos outros ao invés de surgirem a partir de um molde platônico ou divino. Apesar de absurda, esta teoria era tida como certa mesmo pelos principais e mais sérios biólogos evolucionistas do século XIX, como Buffon por exemplo. Foi Lamarck o primeiro a dizer que as espécies mudam umas nas outras, embora ele mesmo acreditasse que elas evoluíssem dentro de uma mesma linhagem. Lamarck nunca acreditou na ancestralidade comum entre espécies, porém na evolução e modificação de linhagens separadamente. Até Darwin, simplesmente não existia sequer o conceito de homologia de caracteres, ou seja, o fato de que duas estruturas ou comportamentos em determinados animais são idênticos porque estes animais haviam sido um só animal num passado. Assim, explicava-se o fato de que dois animais eram mais parecidos entre si justamente devido ao acaso -- ou ao gosto divino. Esta teoria da criação divina entretanto tem um conteúdo empírico muito menor do que a homologia de caracteres e é muito menos parcimoniosa -- menos provável -- do que a teoria da ancestralidade comum. Entretanto, era este o pensamento dos pensadores sérios à época. (Veja que não falo de religiosos.) Tanto é assim que Mayr fala, um pouco mais à frente no mesmo capítulo: "Mesmo aqueles que não acreditavam em recapitulação estrita com frequência descobriam similaridades em embriões que eram apagadas em adultos. Tais similaridades, como a corda em tunicados e vertebrados e arcos branquiais em peixes e tetrápodes terrestres, foram totalmente desconcertantes até ser interpretadas como vestígios de um passado comum".



Livro de Charles Darwin: a expressão das emoções nos homens e nos animais. Durante a leitura deste livro fica clara a confusão de Darwin com relação à origem das variedades e quanto à transmissão das características para a prole. Estes problemas só foram inicialmente resolvidos depois da redescoberta dos trabalhos de Mendel e da descoberta da estrutura do DNA por Watson e Crick, quando ficou finalmente claro como acontecia a herança biológica em nível molecular. [Veja nota 1]

Através então da teoria da ancestralidade comum, que separa as espécies no tempo, somada à teoria da especiação alopátrica, que separa as espécies no espaço, Darwin foi finalmente capaz de concluir sobre como surgia e se estabelecia a diferenciação entre as espécies viventes. Grupos da mesma espécie viajavam para locais diferentes e cada um dos grupos se adaptava particularmente às condições ambientais existentes no local. O processo da seleção natural podia ser visto entre as ilhas Galápagos com seus tentilhões. Tentilhões de uma ilha tinham bicos adaptados para comer exatamente o tipo de alimento que estava presente naquela ilha. A natureza havia de certa forma selecionado variedades adaptadas às condições locais. O próximo problema com que Darwin se deparou então foi: como será que a natureza seleciona essas variedades mais adaptadas? Darwin titubeia neste ponto em várias passagens em "A origem das espécies" e também em outras de suas obras. Por vezes, parece concordar com Lamarck, que acreditava no surgimento espontâneo das características e na transmissão dos caracteres adquiridos (durante a vida) para a prole. Ele repete este argumento incessantemente no livro "Da expressão das emoções nos homens e nos animais". Há passagens, entretanto, na Origem das espécies em que Darwin toma partido do fato, hoje tido como verdadeiro, que as variações surgem aleatoriamente na população. Aquelas que trazem benefício, entretanto, são "escolhidas" pelo processo cego de seleção natural para serem mantidas. Explico-me melhor: o que quero dizer aqui é que dentro da população de tentilhões que habitam as ilhas, haviam aqueles que apresentavam variações nas cores das penas, variações no tamanho de seus membros, no tamanho de órgãos internos, variações comportamentais e etc. Entretanto, muitas destas características variantes que não faziam os indivíduos que as apresentassem sobrevivessem mais ou melhor. Mudar o formato do bico, entretanto, fazia com que aqueles que apresentassem -- ao acaso -- um bico ligeiramente modificado, pudessem conseguir e processar melhor o alimento. E esta característica fazia com que estes reproduzissem mais e deixassem uma maior de prole. A seleção natural está sempre ligada à reprodução diferencial dos mais "aptos". Vale lembrar aqui o caso clássico das mariposas brancas e negras durante a revolução industrial na Inglaterra. Rapidamente, com o acúmulo de fumaça, as mariposas brancas ficaram mais à vista dos predadores do que as negras, tendo estas últimas reproduzido mais no novo ambiente por não serem tão predadas quanto às brancas -- as negras camuflavam-se pela sua cor nos muros ingleses e assim não eram vistas pelos predadores. O fato de existirem as variedades brancas e pretas surgiu aleatoriamente -- da mesma forma que há seres humanos brancos e negros -- antes da revolução industrial. Porém até antes da transformação ambiental do surgimento da indústria e da fumaça, não havia uma relação clara entre a cor da mariposa e o número de prole que ela produzia. Assim, é preciso notar que o variante bem sucedido ao novo ambiente já existia na população original. Só que ambas as mariposas reproduziam-se em quantidades iguais.

Adiciono mais um aspecto que pode estar associado ao caso dos tentilhões -- embora não esteja certamente associado ao caso das mariposas: talvez tenha sido justamente uma variação morfológica que tenha tornado alguns indivíduos de um grupo mais adaptados a determinado ambiente -- e que esta tenha sido antes a causa (não a consequência) da migração do grupo para uma determinada área. A seleção então não teria começado com uma modificação no ambiente, porém com um surgimento de uma nova variedade que permitiu a exploração do ambiente novo, como por exemplo, a quebra de alguma castanha ou fruto dado a uma variação ocorrida no bico. (É claro que a castanha mais facilmente aberta pelo "novo" bico já deveria existir e, assim, retorna-se ao ambiente como causa primeira.) Assim a espécie passou a ocupar um novo nicho -- no caso, um novo tipo de alimentação -- devido a uma variação morfológica que tenha se mostrado adaptativa.

De qualquer forma, embora haja controvérsias, normalmente se diz que a teoria darwiniana da evolução baseia-se, principalmente, na especiação alopátrica ou parapátrica, ou seja, na especiação que está associada a disseminação geográfica de populações de uma mesma espécie.

Mas há também as plantas, onde sempre foram conhecidos casos de espécies bastante similares vivendo em um mesmo ambiente (simpatria). Isso de alguma forma ia contra a teoria da especiação por adaptação local. Afinal: se duas espécies similares estivessem na mesma área, era de se esperar que tivessem exatamente as mesmas adaptações. Se não fosse assim, onde afinal estaria a força da seleção natural a moldar a biologia dos organismos? Tenho a impressão de que Darwin deve ter passado algumas noites sem dormir pensando no problema. Para solucionar este aparente problema de inconsistência -- quando duas espécies vivem no mesmo ambiente e apresentam diferentes adaptações --, Darwin tirou da cartola um novo conceito chamado de "princípio da divergência" ("Darwin's principle of divergence". Journal of the History of Biology, 25: 343-59, 1992), do qual voltarei a falar noutra postagem. Por ora resta saber que a teoria moderna prega que a modificação ambiental é sim importante, mas ela deve estar acoplada ao surgimento (aleatório) de uma modificação em nível genômico que culmina em uma diferença fenotípica que pode ser vantajosa a um indivíduo. Por exemplo: talvez fosse interessante para os humanos se nós pudéssemos enxergar no comprimento de onda do ultravioleta (assim como as abelhas o fazem). Entretanto nosso genoma jamais se modificou de uma certa forma que nos dotasse com órgãos para enxergar o ultravioleta (de fato, provavelmente seriam necessárias uma grande série de modificações). E assim, por mais que isso pudesse ser vantajoso, tal característica nunca aconteceu de evoluir em nossa linhagem evolutiva. Diz-se, assim, que a evolução tem um aspecto contingente (aleatório + histórico).

Mayr finaliza: "O tratamento da especiação por Darwin na obra 'A origem das espécies' revela sua confusão acerca de espécies e especiação. Isso não foi esclarecido até a síntese dos anos 1940." A conclusão epistemológica que alcanço é que é bastante difícil para o historiador e filósofo da ciência moderno, entender exatamente qual era o estágio do pensamento dos pesquisadores envolvidos em qualquer discussão científica do passado [Veja nota 2]. Com relação a esta nota, quando leio os escritos de Darwin e Lamarck e Buffon preciso educar minha mente para entender que aquilo que eles chamam pelo nome de espécie está relacionado organismos apresentando certas diferenças ou semelhanças morfológicas; e não ao conceito moderno -- este relacionado à barreira reprodutiva. Naturalistas do século XIX tinham em espécie um conceito tipológico, não biológico.

Há um enorme número de conceitos que foram apenas recentemente inventados e devidamente entendidos por pesquisadores no campo das ciências biológicas. Tais conceitos são tão evidentes para o pesquisador atual que é difícil se ver livre deles e pensar com a cabeça dos cientistas do passado quando estudando a história da ciência. É claro que a leitura de seus relatos facilita a compreensão, mas por vezes não se sabe muito bem o que pensavam sobre diversos aspectos relacionados à hereditariedade ou mesmo à fisiologia e ao desenvolvimento dos organismos. A questão da espécie foi apenas um exemplo e há toda uma enorme sorte de conceitos que eram compreendidos diferentemente por estes pesquisadores do passado, em qualquer área do conhecimento. Lembro que durante minha graduação em biologia, tanto eu quanto uma amiga estávamos lendo ao mesmo tempo o livro de Darwin "Da expressão das emoções nos homens e nos animais" que havia sido recentemente relançado por uma grande editora brasileira. Tive a sorte de perceber rapidamente um pensamento associado ao lamarckismo em Darwin, onde ele sugere que tenha acontecido mesmo a herança das características adquiridas. Minha colega não percebeu o fato até que comentássemos juntos o livro e teria tido uma má compreensão da teoria darwiniana moderna se não tivéssemos esclarecido o ponto em conjunto. Assim, é precisamos tomar cuidado e estarmos atentos quando lemos obras histórias posto que o conceito apresentado pelos estudiosos pode ser um conceito já excessivamente modificado e alterado ao longo das discussões e da evolução da linguagem e dos conceitos científicos. A leitura de relatos históricos deve ser acompanhada de textos explicativos que apresentem exatamente estes pontos ao leitor para que ele se dê conta da evolução da linguagem, evolução do pensamento científico, modificação conceitual e etc.


Thomas Kuhn, O caminho desde a estrutura. Livro do filósofo e historiador da ciência Thomas Kuhn, onde ele expande seus argumentos brilhantemente apresentados em sua obra clássica "A estrutura das revoluções científicas". Aqui ele discorre mais diretamente com relação à questões linguístas e conceituais que ocorrem durante as revoluções científicas. O conceito de que o pesquisador deve ser bilingue para entender dois sistemas conceitual é explorado com certo detalhe.


Vale notar ainda que este tipo de reforma conceitual foi excessivamente bem discutido e formulado por Thomas Kuhn em seu livro "O caminho desde a estrutura". Ao comparar principalmente Newton e Einstein, Kuhn apresenta exemplos onde os termos matéria, massa ou energia eram aplicados diferentemente por cada um desses teóricos. A energia de Einstein não é a mesma energia de Newton, assim como o conceito de espécie moderno não é o mesmo tido como certo por Darwin. Kuhn diz que o verdadeiro historiador e filósofo da ciência precisa ser de certa forma "bilíngue" para que possa realmente compreender as revoluções conceituais dentro de seu campo de pesquisa.

Enfim, torna-se também essencial que os pensadores e pesquisadores de uma determinada época escrevam textos simples e genéricos para mostrarem aos historiadores e pesquisadores do futuro qual o grau de evolução conceitual em que eles se enquadram com relação às teorias que discorrem sobre. Como se não bastasse, a fabricação destes textos ajuda também na importante tarefa do filósofo e do cientista em passar seu conhecimento por meio de textos tão simplificados quanto o possível para o grande público. Educar a população deveria ser algo tomado como dever por todo cientista. Sejamos todos divulgadores do conhecimento!

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[Nota 1] A idéia moderna da herança dos caracteres adquiridos só realmente extinta no fim do século XIX através do trabalho de um grande evolucionista muito pouco conhecido mesmo pelos biólogos. Foi August Weismann que extinguiu finalmente a teoria da herança dos caracteres adquiridos. De qualquer forma, a forma como acontecia a herança de caracteres e sobre como era transmitida a informação teleonômica para "montar" um novo organismo foi inicialmente teorizada nas décadas de 30 e 40 quando os trabalhos de Mendel foram observados e analisados em uma perspectiva darwiniana. Finalmente, o cluster conceitual da biologia evolutiva moderna só foi realmente colocado dentro de um cenário compreensível e bem estruturado alguns anos depois que o trabalho de Watson e Crick foi publicado (1953).

[Nota 2] Por sinal, lembro agora de um livro muito bom que me ajudou a percorrer este espaço científico conceitual do passado, com relação à história das ciências biológicas. O livro se "A lógica da vida" e foi escrito por Jacques Monod contando a história das revoluções conceituais no campo da biologia e, particularmente, com relação á biologia evolutiva. Altamente recomendado!

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Para saber mais:

Ernst Mayr: http://en.wikipedia.org/wiki/Ernst_Mayr
Charles Darwin: http://en.wikipedia.org/wiki/Charles_Darwin
O problema das espécies: http://en.wikipedia.org/wiki/Species_problem
Thomas Kuhn: http://en.wikipedia.org/wiki/Thomas_Kuhn
August Weismann http://en.wikipedia.org/wiki/August_Weismann

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