Sábado, Julho 04, 2009

Palavras e genes

A idéia me chegou há menos de 10 minutos, enquanto lia Freud [1] e associava a Saussure sob o ponto de vista de um doutor em biologia computacional. De fato, muitas de suas bases já vinham sendo montadas há tempo, mas só agora elas se ligaram num todo coerente. A idéia que aqui descrevo tem relação com o que Susan Blackmore chamou de darwinismo universal [2]. E tem também a ver com a idéia de que a língua evolui de uma forma similar aos organismos biológicos. E então o darwinismo opera em diferentes meios, permitindo-nos traçar analogias e transferir o conhecimento de uma área para a outra. Falo agora da linguística computacional que herda da biologia computacional (bioinformática) muito de sua metodologia de trabalho, embora o foco e as questões sejam bastante diferentes. Enquanto uma quer entender a evolução das línguas e fonemas falados pelo ser humano, outra quer entender a evolução dos organismos e da vida em nosso planeta. E ao formalizarmos algumas metáforas de ligação e adaptarmos certos casos, para uma realidade não idêntica, porém similar, podemos utilizar a força da ciência experimental para compreendermos e evolução de nossa linguagem.


A primeira analogia que faço é a analogia gene-palavra. E daí podemos extrapolar, mantendo o pé no chão, para sabermos como as tecnologias de análise computacional da biologia podem servir à linguística, essas maravilhosas áreas do conhecimento humano. Se o gene é a palavra e o conjunto de genes é o genoma; o conjunto das palavras é o dicionário. Assim como o genoma contém todos os genes, o dicionário contém todas as palavras; assim como cada gene pode ser mais ou menos expresso num tecido, palavras podem ser mais ou menos utilizadas em diferentes contextos sociais específicos. Em determinados tecidos, como o coração, há genes normalmente mais ou menos expressos; em um determinada obra de um pensador, há palavras mais ou menos utilizadas. No embrião, quase todos os genes do genoma se expressam e há enciclopédias que podem conter a grande maioria das palavras do dicionário. Mas tenhamos a temperança de parar a extrapolação quando ela não mais se torna útil e a língua é certamente mais fluida e evolui mais rápido do que os organismos biológicos. De fato, o entendimento da evolução linguística pode retornar à biologia molecular padrões e métodos mais precisos para tratar casos onde a evolução (mesmo a biológica) acontece de forma rápida [3].


Métodos de inteligência artificial podem hoje identificar qual é um organismo por seu DNA e pode-se supor métodos computacionais linguísticos (aprendizagem supervisionada) onde seja possível identificar as características do texto de um autor e saber se determinado texto tenha sido ou não escrito por ele. Ao quantificar palavras e dividí-las de acordo com suas características funcionais (como os genes), poderemos contar quantos artigos e verbos e sujeitos e pronomes e adjetivos presentes num texto e conseguir de certa forma forma um padrão que caracterize um determinado pensador, corrente de pensamento ou assunto tratado. É claro que a tarefa não será tão simples, como também não são as análises de genes. Haverão inquietudes e dúvidas por todo o lado; será preciso utilizar a estatística. Talvez fosse interessante para a história universal saber quão diferentes são os estilos de escrita, quais textos de cada pensador estão mais embutidos numa corrente de pensamento, quais vão mais à beira de uma idéia. Tudo isso, estou convencido, pode ser obtido a partir de uma análise linguística computacional e científica, tomando como base o que vem sendo feito há algum tempo na biologia molecular. O DNA, afinal, consiste em informação codificada em caracteres especifícos: A, C, G e T. O DNA é um vocabulário e as ferramentas computacionais de mineração de textos têm feito avanços fantásticos nos últimos anos. É hora de utilizar esta tecnologia no estudo da própria linguística.


Em nossa analogia biologia-linguística, está claro também que o equivalente a uma espécie seria o idioma. A mesma briga que existe entre os taxônomos para decidir quando chamar um organismo como espécie diferente é a briga que há entre linguístas para definir as fronteiras de uma língua. É sempre uma questão de definir limites e métricas estudadas e enviesadas para realizar a separação conceitual. De qualquer modo, no mundo real, não há esta barreira de espécie ou linguística e todos os organismos e línguas interagem entre si de uma forma emaranhante. As línguas ainda mais do que as espécies.


A criação de novas palavras ou genes é coisa que acontece a todo instante a partir da junção de partes de entidades anteriormente existentes. Se a nova entidade mista é ruim, a seleção natural a removerá do conjunto de entidades (palavras ou genes) existentes. Se ela é boa, provavelmente se replicará e passará a ocupar cada vez mais o vocabulário do falante. Além do mais, com relação às palavras há também um vocabulário fonético internacional, de acordo com o qual palavras podem ser agrupadas de acordo com seus sons. A leitura de poesias e canções através desta técnica pode nos permitir classificá-las foneticamente em grupos que talvez revelem padrões de ordem definidos. Podemos assim talvez traduzir poesias de uma língua em outra pelo conhecido grupo fonético, ao vez de apelarmos assim tão fortemente para o significado. Não são a poesia e música a expressão maior dos sentimentos? Será que sentimentos podem ser realmente traduzidos através de significados estritos? A boa tradução é quase sempre a tradução mais livre possível; ela é, de fato, uma outra obra, de um outro autor. Não acredite em livros traduzidos, leia-os no original, sempre que possível.

-- BRAINSTORM --


Um pouco ainda além, o que me despertou essa idéia foi a leitura do livro de Freud "A psicopatologia da vida cotidiana". Ele dizia que havia se esquecido o nome de um pintor e colocou uma série de palavras cujo fonema está relacionado para tentar explicar como havia reprimido seu pensamento sobre o assunto. Talvez ao examinarmos as línguas, podemos conhecer seus povos, a partir de uma antropolinguística. Parece-me um trabalho imenso, complexo e que pode ser facilmente questionável, mas talvez nos permita identificar, em cada cultura, quais tipos de pensamentos que a língua -- através de associações fonéticas -- evita que sejam lembradas. Cão e mão possuem associação fonética no português, mas não no inglês hand, dog. Poderá esse tipo de relação e desrelação fonética revelar algo sobre a cultura dos povos?

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Nos jornais e e-mails pessoais e livros contemporâneos aprenderemos sobre a expressão de palavras. Quais são mais usadas em cada labirinto cultural específico. Ao pegarmos o conjunto de obras de um certo tempo, num certo estado, poderemos reconstituir a forma como falavam as classes alta e baixa. Poderemos saber dos desniveis sociais e teremos idéia sobre como as palavras e a gramática evoluíram. Podemos também classificar as frases gramaticamente, de acordo com a ordem de sujeito e verbo e objeto e adjetivo. Consideremos frases como vias bioquímicas onde cada proteína interage com outra por um bem comum: quebrar o açúcar; ou onde palavras interagem com outras para outro bem comum: a compreensão. A visão da biologia molecular e da biologia computacional sobre a linguística é de uma fertilidade inominável.


Alguém está disposto a financiar um estudante de linguística computacional?


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[1] Freud, . Psicopatology of everyday life.
[2] Blackmore, S. The meme machine.
[3] De fato, pode-se vislumbrar algum método para compreender melhor a evolução de organismos que se reproduzam rápida e promiscuamente (como os vírus) utilizando modelos de palavras, caso eles sejam produzidos algum dia.

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Quarta-feira, Julho 01, 2009

Crítica interna da ciência

ou Os tampões das revoluções

Dentro do meio acadêmico-científico, existem certos padrões, medidas, algoritmos e normas que são definidos por alguns grupos de pesquisa e que, a partir desta definição inicial e tendo se mostrado úteis, toda a comunidade começa a utilizar. Entretanto, a utilidade de certas definições não está relacionada, absolutamente, à sua perfeição. É de se imaginar que todo e qualquer tipo de padrões e medidas possíveis de serem definidos por seres humanos conterão uma quantidade X de erros e imprecisões. Além disso, nem toda a comunidade estará de acordo com o padrão.

Assim, dentro de uma ciência ideal, seria de se esperar que os cientistas fossem abertos o suficiente para discutirem uns com os outros cientistas sobre tais práticas definidas tanto quanto fosse necessário, até que gerassem um padrão que fosse mais consensual. Entretanto, os cientistas normalmente tem um ego enorme e dificilmente aceitam críticas a seus trabalhos. Portanto, na prática, quando um pesquisador é capaz de perceber qualquer ligeira imperfeição ou mal-acabamento em determinado trabalho científico, ele se sente compelido a contactar os autores do trabalho e discutir com eles. Tais autores do trabalho, entretanto, estão teoricamente à frente do crítico pelo fato de terem inventado a medida e já possuírem trabalho publicado sobre o assunto. Politicamente falando, caso o crítico não seja alguém de "renome", normalmente os autores do trabalho ignorarão sua crítica completamente, mesmo que ela seja perfeitamente positiva e que fosse levar a uma melhoria do serviço.

== EXPERIÊNCIA PESSOAL ==

Faço parte de algumas listas de discussão na internet sobre padrões aplicados a ontologias (vocabulários comuns) que descrevem eventos relacionados à biologia molecular. Tais ontologias são invariavelmente alvo de críticas posto que o que elas fazem é relacionar conceitos da biologia num suposto mundo real com a biologia que vai dentro das cabeças dos pesquisadores. Observa-se assim um fenômeno complexo na natureza, generaliza-se esse fenômeno aplicando-lhe uma palavra e assim os pesquisadores podem contar e trabalhar com fenômenos que são discretos e quadrados, ao invés de contínuos e mal-definidos. E se por um lado está certo que a generalização e a formalização de conceitos e descrições do mundo físico/biológico é um dos pontos fortes da ciência... por outro está certo também que há inúmeras formas concorrentes de representar a realidade e que algumas podem ser melhor do que outras para determinados objetivos em especial. Enfim, o que importa é que via de regra nestas listas algum pesquisador questiona um conceito formalizado na ontologia.

Tais questionamentos, pra começar, normalmente são feitos já com um pé atrás. O cientista que o faz sabe que está do lado que sai perdendo na luta e normalmente sugere uma mudança discreta nas definições ou mesmo traveste sua mudança drástica em mudança discreta. Então os "donos do trabalho" e da lista de discussões defenderão seus pontos de vistas normalmente desviando dos pontos-chaves da discussão. Normalmente eles terão preguiça de re-avaliar todo seu trabalho e farão questão de mostrar ao crítico que o buraco é mais embaixo. No fim das contas, é difícil ver alguma modificação mesmo quando a argumentação segue densa.

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Vale começar pelo ponto de que, bem certo, nenhuma definição será definitiva ou perfeita. A ciência e o conhecimento avançam. A crítica dos pesquisadores que estão fora do grupo de desenvolvimento do trabalho, entretanto, são muito dificilmente ouvidas. Mesmo dentro de um grupo de pesquisa há desavenças com relação ao significado e extensão das métricas e há sempre algum pesquisador que tem um estatus político superior sobre o trabalho do que os outros. Este "dono do trabalho" é normalmente o último autor nas publicações científicos onde se aplica a metodologia em questão e onde ela é descrita pela primeira vez -- algumas vezes, ele é também o primeiro autor.

A verdade é que a ciência não funciona apenas através do avanço crítico do conhecimento e muitas vezes ela precisa seguir uma tradição de pesquisa mais antiga. Os cientistas não estão assim muito abertos a reconhecer erros e limitações de suas próprias pesquisas e normalmente preferem mantê-las funcionando razoavelmente bem do que tentar melhorá-las cada vez mais. Os cientistas são excessivamente conservadores.

Neste mundo da competição científica, entretanto, por vezes o crítico entende que não será ouvido pelos organizadores do trabalho em questão e então ele tem dois rumos a tomar: o mais comum é que ele desista dos questionamentos, aceite utilizar o método com suas claras limitações e volte a seus afazeres do dia-a-dia. Caso entretanto ele perceba que trata de uma área quente e promissora da pesquisa científica, ele pode resolver tentar re-pensar e re-analisar o problema por si próprio. Assim, ele começará uma guerra científica com o primeiro grupo, sendo assim obrigado a produzir um trabalho mais arrojado e com claras melhoras sobre a idéia inicial do primeiro grupo. Depois de algum tempo (normalmente medido em anos), ele pode conseguir publicar seu trabalho concorrente. Neste caso, o pesquisador normalmente terá dificuldades em encontrar alguma revista de impacto que publique seu artigo -- posto que ele vai contra o mainstream da área. Os revisores também criticarão duramente seu trabalho e ele provavelmente só será publicado se provar muito claramente que seu produto é melhor do que aquele já existente.

Além disso, em ciência normalmente valoriza-se a criatividade do primeiro trabalho apresentado em uma determinada área. E o crítico que demorou anos para produzir uma versão melhor de determinada metodologia normalmente não conseguirá tanta visibilidade quanto a publicação original conseguiu. Ele apenas alcançará um estatus mais elevado caso as melhores sejam em escala de grandeza elevada e não simples modificações em pequenos pontos dentro do que já foi feito. Neste caso o crítico precisa mostrar que causou um salto na compreensão com sua nova proposta, e não apenas deu um mero passo.

Algumas conclusões:
1) Para ter uma carreira de pesquisador, é melhor gastar os esforços na produção de métodos e definições completamente novas do que tentar melhorar ou adaptar métodos já existentes a determinadas realidades específicas -- ainda que os métodos disponíveis sejam claramente incompletos; [1]
2) Os métodos utilizados na ciência estão longe de serem os melhores possíveis e a comunidade não se ajuda e se apóia como deveria (em um mundo ideal). A competição é dura e os cientistas têm o ego muito grande, preferindo normalmente elevar seu nome do que elevar o conhecimento;
3) A crítica dentro da comunidade é árdua; normalmente aceita-se utilizar padrões razoáveis ou obsoletos que já se mostraram de algum modo úteis do que produzir padrões supostamente melhores mas ainda não testados.

==> A ciência baseia-se em métodos tradicionais
==> A novidade só tem vez na ciência em determinados momentos sócio-históricos específicos

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[1] E no caso em que um pesquisador desconhecido ou oriundo do terceiro mundo tem alguma idéia realmente inovadora, esta idéia normalmente não é bem aceita na comunidade também. Mesmo Darwin demorou dezenas de anos até ter coragem de publicar "A origem das espécies". A ciência acadêmica é quadrada e fechada a novas idéia. Ela consiste, em sua maior parte, no que Thomas Kuhn chamou de ciência normal, que é o desenvolvimento gradual e minucioso -- quase técnico -- de suas aplicações. Existe um tampão contra as revoluções científicas dentro da academia -- e isso provavelmente também é verdade com relação a quaisquer novas idéias que adentrem um determinado pool memético particular, mesmo que elas tenham claramente um maior conteúdo empírico e adequação teórica. Os pesquisadores também só aceitam de fato a argumentação quando ela vem de dentro da própria área de pesquisa, por pesquisadores que já tenham se mostrado renomados em suas áreas; o argumento de autoridade está sempre em questão. Muito dificilmente um jovem pesquisador conseguirá que sua teoria seja ouvida, apresentada ou publicada em jornais de ampla circulação. E isso também está relacionado ao fato de que uma nova teoria, quando criada, não encontra os dados adaptados à sua forma de pensamento e, é claro, tem um certo conteúdo especulativo. Mesmo os tratados de Newton, quando foram publicados, tinham algo que Kuhn chama de um tipo de inexperiência e uma dificuldade vocabular e conceitual de expressão de idéias. Ainda que Einstein tenha conseguido publicar seus principais trabalhos com vinte e cinco anos, aproximadamente mais duas décadas foram necessárias até que sua genialidade tenha sido reconhecida.

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Segunda-feira, Junho 01, 2009

Fundamentalismo ideológico, respeito e liberdade de expressão

Algo que atrasa de sobremaneira a evolução de todo o pensamento, conhecimento e filosofia humanos ao longo dos séculos e milênios consiste naquilo que decidi aqui chamar de fundamentalismo ideológico. Tal fundamentalismo se caracteriza pela crença cega que determinadas ideologias são melhores do que outras e num excessivo respeito-à-ideologia-alheia, onde se acredita correntemente que determinadas ideologias -- principalmente aquelas professadas pelas classes dominantes -- não possam ser atacadas através de argumentos incisivos e devam ser protegidas sob a insígnia da palavra Respeito. Meu objetivo aqui é argumentar que ideologias não podem e não devem ser respeitadas se quisermos alcançar uma posição mais virtuosa, aberta, liberal e tolerante com relação à toda humanidade. O Respeito que deve sempre existir é um respeito entre um ser humano e o outro ser humano, entre um ser humano e toda a humanidade, mas apenas o desrespeito ideológico pode nos ajudar a retirar por completo de nossa civilização aquelas ideologias que atravancam de sobremaneira nosso desenvolvimento moral e social.


Meu objetivo aqui é argumentar que ideologias não podem e não devem ser respeitadas se quisermos alcançar uma posição mais virtuosa, aberta, liberal e tolerante com relação à toda humanidade. (...) apenas o desrespeito ideológico pode nos ajudar a extirpar de nossa civilização aquelas ideologias que atravancam de sobremaneira nosso desenvolvimento moral e social.



Pontos mal definidos de toda e qualquer ideologia devem ser apresentados e discutidos, de forma que as ideologias de um tempo presente possam se transformar em ideologias mais virtuosas para toda a humanidade do futuro -- ao invés de mantermos em nosso fundo memético ideologias podres e antigas que apenas servem para proteger e manter determinados grupos dominantes no poder. Devemos gritar Fora! a qualquer ideologia baseada no dogmatismo e que se pense infalível ou absolutamente "a melhor" dentre todas as outras. O forte ataque intelectual a toda e qualquer ideologia vai hoje contra o que chamamos respeito-ideológico e, não obstante, vai também contra nossa suposta liberdade de expressão. Eis a guerra intelectual: respeito ideológico X liberdade de expressão. Como resolver este dilema? O presente relato vem sugerir que a liberdade de expressão deve ser privilegiada sobre o respeito-ideológico e vem sugerir também que o desrespeito ideológico seja útil para o desenvolvimento da humanidade. Este argumento baseia-se no fato de que a palavra não é como o punho ou a arma, a palavra não mata e a palavra de uns pode ser sempre combatida pela palavra de outros. Ao resto da humanidade restará a função de árbitro a saber se prefere-se acreditar ou escutar a argumentação que vai a-favor-de-X ou contra-X. A ofensa moral e intelectual, embora possa ser dura a aceitar, deve ser capaz de ser engolida, tragada e devem ser consideradas até saudáveis quando ambos os lados da discussão são capazes de apresentar críticas severas -- porém bem pontuadas -- sobre suas próprias ideologias ou sobre ideologias alheias. A própria humanidade deverá ser capaz de reter as boas críticas ideológicas e rejeitar as más críticas. Críticas vazias ou de conteúdo claramente falacioso serão simplesmente ignoradas pelas próximas gerações, ainda que possam causar certo rebuliço na comunidade de uma certa época. Sugiro aqui que a palavra e a discussão intelectual têm a capacidade de nos libertar de ideologias dogmáticas que têm nos prendido há anos, séculos ou milênios e só o ataque (e também a defesa) de tais ideologias que pode nos ajudar a manter o que nelas há de bom e extirpar de nossa herança cultural o que nelas há de mórbido e podre.


(...) a palavra não mata e a palavra de uns pode ser sempre combatida pela palavra de outros. Ao resto da humanidade restará a função de árbitro a saber se prefere-se pesar para lado dos que concordam com X ou dos que discordam.



De mais a mais, alguém que se sinta profundamente ofendido com algum relato ou argumentação tem a mais completa e covarde das liberdades em deixar de ler aquilo que o ofende e fechar seus olhos ao continuar acreditando que sua crença é "a melhor", indubitavelmente. Tal comportamento fundamentalista e dogmático existe em qualquer praticante de crenças ideológicas, ou seja, todos nós, seres humanos. Em alguns, esse comportamento é (muito) mais forte do que em outros. Precisamos ser capazes de entender e tolerar o desrespeito de outros às nossas crenças/ideologias e ainda sermos capazes de respeitá-los como seres humanos! Precisamos recuperar e ampliar a visão de Voltaire: "Je ne suis pas d'accord avec ce que vous dites, mais je me battrai jusqu'à la mort pour que vous ayez le droit de le dire." (Em tradução livre: "Eu não concordo com aquilo vós dizeis, mas lutarei até a morte para que tenhais o direito de dizê-lo.")


O filósofo Francês François-Marie Arouet (Voltaire) já dizia há cerca de trezentos anos atrás: "Eu não concordo com aquilo vós dizeis, mas lutarei até a morte para que tenhais o direito de dizê-lo". Precisamos retomá-lo de forma que ampliemos as críticas ideológicas sem que sobre isso caia a insígnia de "desrespeito".



O fundamentalismo ideológico, religioso ou sócio-político é um dos maiores males que atingem a humanidade desde seu berço. E ele tem sido protegido sob a falsa insígnia do respeito a outras culturas ou modos de pensar. Um respeito falso e hipócrita que deve ser ativamente combatido. É preciso haver um diálogo aberto e crítico entre ideologias, um debate livre, crítico, mordaz. É preciso que tentemos tirar o que há de melhor e de mais humanista entre todas as ideologias criando uma ideologia de virtuose para o ser humano, ideologia baseada na liberdade, no direito comum, na igualdade e fraternidade entre os homens. E para fazer isso, é preciso criticar os pontos fracos e ressaltar os pontos fortes das ideologias e crenças humanas. Só assim poderemos erigir uma ideologia moral comum para a humanidade que ressalte nossas virtuoses e descarte ao máximo possível nossa morbidez, hipocrisia e desrespeito do homem para com o homem. Tal ideologia não estará jamais pronta e jamais será definitiva, mas ela crescerá e se espalhará e se modificará ao longo do tempo, tal qual tem crescido e espalhado o respeito aos direitos humanos por toda parte -- apesar dos infelizes excessos de ditadores ignorantes.


Enquanto isso, no Ocidente, as ideologias dominantes continuam a prevalecer e um enorme preconceito velado existe contra as culturas e ideologias orientais ou oriundas dos países em desenvolvimento. Argumento aqui que é melhor que tais preconceitos sejam expostos claramente e discutidos de forma aberta para que sejam finalmente ultrapassados e melhor compreendidos. Do contrário, o que hoje acontece é um desrespeito velado que vem se retroalimentando ao longo dos tempos. Apenas a dialética pode nos permitir vencer tais preconceitos. Quero se expressem todos aqueles que têm preconceitos contra negros, índios, brasileiros e árabes e indianos, religiosos e ateus, comunistas e capitalistas, mulheres e homossexuais e usuários de drogas. Quero que todas ideologias sejam desrespeitadas e que isso gere uma discussão aberta dentro da sociedade que nos levará em algum momento a perceber a fraqueza argumentativa que está na natureza de todo e qualquer gênero de preconceito. Quero encontrar a fraqueza dos conceitos e então fazê-los melhor e maiores; é essa a função da dialética, das discussões intelectuais legítimas e não falaciosas; quero extirpar e clarificar os preconceitos para que assim possamos matá-los em sua raiz.


Muitos dos preconceituosos, porém, continuarão sua dominação velada posto que no fundo sabem da invalidade de seus argumentos e querem apenas seu bem estar, continuando com sua dominação corpulenta contra os menos privilegiados. Balancemo-los para que deles escorra toda a falsidade e podridão.


Está claro, entretanto, que todo ser humano deve respeitar o próximo e também ser respeitado como indivíduo e ser biológico. A crítica ideológica deve estar um nível acima das críticas individuais e não importa o que pensam as pessoas, elas devem ser respeitadas e bem tratadas quando da convivência humana.

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Temas para discussão:

-- Obama tratado como islâmico na capa da New York Times
-- Obama tratado como macaco em charge
-- Preconceito dos europeus (e americanos) contra indivíduos e filosofias oriundas do oriente, do mundo árabe ou da América Latina
-- 2000 anos foram necessários até que surgisse um homem corajoso e forte suficiente (Nietzsche) para atacar mordazmente a moral cristã/católica que já ia caduca há dois mil anos. Que respeito é esse que se deve ter com relação às ideologias e que atrasa nosso desenvolvimento moral, social e ideológico?
-- Nietzsche como o Anti-Cristo só pôde surgir depois que a ideologia católica já tinha sido útil aos europeus para conquistar e catequizar, destruir e matar pessoas, culturas, línguas e modos de viver nativo-americanos. Terão os humanos sempre a ideologia daqueles que os lideram? Haverá algum dia uma ideologia realmente democrática? Conseguirá o povo subjugar os líderes algum dia?
-- Devemos aceitar a desigualdade calados?
-- Por que a apologia à utilização de drogas é crime? Isso não interferiria na nossa suposta liberdade de expressão?

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Segunda-feira, Maio 18, 2009

Entrevista sobre a Teoria da Evolução, parte 1

Há cerca de dois meses fui contactado por um jornalista que havia encontrado alguns textos meus na internet e gostaria de publicar uma matéria sobre o darwinismo. Depois de já ter trabalho e feito cursos on-line de jornalismo científico entendo que a relação entre o jornalista e a fonte é, muitas vezes, tortuosa. Com o jornalista Rene Lopez da Revista ClickCiência, entretanto, não tive problemas. Convidou-me para a entrevista, foi sempre polido, enviou perguntas, respondi, enviou mais alguns questionamentos finais e enviou-me o artigo para dar uma olhada antes da publicação.

Portanto, a edição 15 da revista ClickCiência da UFSCar comemora os 150 anos da teoria evolutiva e os 200 anos de Darwin com uma série de reportagens que utilizam os resultados desta entrevista para compor um quadro geral sobre as idéias deste que foi um dos maiores pensadores da humanidade. O jornalista e sua equipe juntaram esta e mais outras reportagens com outros pesquisadores para compor uma excelente série de reportagens que podem ser lidas aqui.


Charles Darwin: Há duzentos anos nascia o naturalista inglês que simplesmente revolucionou todo o entendimento dos humanos sobre a vida em nosso planeta. Sem dúvida, um dos maiores gênios de todos os tempos.


Finalmente cheguei a perguntar ao jornalista se eu teria autorização de publicar esta reportagem no meu blogue, coisa que ele jamais respondeu. Espero que não se incomode com esta postagem. Eis a reportagem na íntegra:

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** ClickCiência: Na sua opinião, quais os conceitos chaves que foram desenvolvidos por Darwin e que são essenciais para o entendimento da Teoria da Evolução?

Esta é uma ótima pergunta, embora possa ter um sem número de respostas. Embora Darwin seja normalmente reverenciado por ter sugerido o conceito de seleção natural, creio que o principal conceito necessário para entender a teoria evolutiva seja o conceito de Ancestralidade Comum. Este conceito é normalmente mal entendido pelas pessoas, que ainda têm uma visão da evolução como uma grande escada dos seres, onde os seres mais "primitivos" se transformam em seres mais "evoluídos" e onde o homem é considerado normalmente "o mais evoluído" dos seres. Esta é uma visão incorreta e que pode ser ainda hoje verificada nas mais diversas manifestações culturais (Veja o texto Ancestralidade comum e o tribalismo)

Para Darwin não há organismos mais ou menos evoluídos, todos os organismos existentes hoje no planeta descendem de um suposto primeiro organismo que teria surgido na Terra há mais de 3,5 bilhões de anos atrás. Se pudéssemos então rodar o tempo para trás, veríamos que os organismos existentes hoje teriam sido um único animal no passado. Humanos e chimpanzés, por exemplo, já foram um outro macaco no passado -- que não era nem humano, nem chimpanzé. E aí está o conceito de ancestralidade comum.

Segundo Darwin, todos os organismos da Terra têm ancestrais comuns que podem ser mais antigos ou mais novos. Eu e minha prima, por exemplo, temos ancestrais comuns que são nossos avós. Da mesma forma, duas espécies de organismos quaisquer, como a baleia e o gato, têm ancestrais comuns que podem estar mais próximos ou mais distantes no tempo. O gato e o tigre, por exemplo, que são dois animais da ordem Felidae (os felinos) têm ancestrais comuns (avós evolutivos) mais recentes no tempo do que o sapo e homem (um anfíbio e um primata). Isso significa que o ancestral dos felinos viveu num passado mais próximo que o ancestral entre anfíbios e primatas. Assim, quanto menos tempo tenha se passado desde um determinado ancestral e o presente, mais próximos dizemos que são os organismos.

Humanos e chimpanzés, por exemplo, são muito mais próximos entre si do que, digamos, o cão e o cavalo. Estimativas dizem que humanos e chimpanzés teriam se divergido de um ancestral comum há cerca de 5 ou 7 milhões de anos no passado (é difícil medir precisamente), enquanto o tempo estimado para a divergência de cães e cavalos está em cerca de 75 milhões de anos. De fato, qualquer pessoa que observe com cuidado a anatomia desses animais, poderia ter chegado à conclusão similar (exceto pelos números precisos de tempo de divergência, claro).

De qualquer forma, é preciso sempre lembrar, todos os organismos do planeta se relacionam no passado por meio de ancestralidade comum. O ornitologista alemão (especialista em pássaros) Ernst Mayr divide a teoria darwiniana em cinco sub-teorias e diz que a ancestralidade comum foi a primeira a ser universalmente aceita pelos biólogos à época, posto que tinha um poder explicativo enorme em vários campos da biologia.


O ornitologista alemão (especialista em pássaros) Ernst Mayr -- um dos principais interpretadores de Darwin ao longo do século XX -- divide a teoria darwiniana em cinco sub-teorias e diz que a ancestralidade comum foi a primeira a ser universalmente aceita pelos biólogos à época, posto que tinha um poder explicativo enorme em vários campos da biologia.


Com relação ao conceito de "seleção natural", o culto Charles Darwin -- influenciado pela leitura de um famoso ensaio do economista e demógrafo inglês Thomas Maltus sobre o crescimento da população humana e possíveis problemas de alimentação que poderiam vir desta super-população -- sugeria que na natureza haveriam lutas pela sobrevivência. Neste cenário natural, não haveria recursos para que todos os organismos sobrevivessem e, assim, apenas os indivíduos "mais aptos" seriam capazes de sobreviver e reproduzir, passando sua herança genética para a prole. A evolução consiste na história biológica daqueles organismos que sobreviveram e se reproduziram. Evolutivamente falando, um indivíduo que não se reproduz é um ramo terminal de uma cadeia evolutiva que remonta ao primeiro organismo surgido do planeta, ele é um fim na experimentação aleatória e sem propósito da natureza biológica.

** ClickCiência: Na época como foram recebidas as teorias de Darwin? O que os cientistas sabiam até aquele momento e quais foram as grandes novidades?

Darwin foi extremamente criticado quando publicou sua teoria e não foi à toa que, tendo imaginado boa parte de sua teoria ainda na juventude, quando viajou no navio HMS Beagle por todo o mundo coletando espécimes, foi publicá-la apenas quando já comemorava seus 50 anos. Esta publicação foi terminada às pressas depois que Darwin recebeu um trabalho do jovem naturalista Alfred Russel Wallace que delineava idéias similares às suas sobre o mecanismo da evolução das espécies e de seleção natural.

Darwin foi acusado pela igreja de ateísmo, uma vez que as implicações de sua teoria, em primeiro lugar, mostravam que o homem era simplesmente um animal -- ao invés de uma criatura criada à imagem e semelhança de um suposto deus. Além disso, a teoria da evolução Darwiniana não tornava necessário um deus sequer para explicar a origem das "outras" espécies animais e vegetais. Antes da época de Darwin, a visão que se tinha das espécies -- normalmente uma idéia oriunda dos trabalhos do naturalista francês Buffon e que de certa forma remontava a Aristóteles e a Grécia antiga -- era de que todas espécies existentes no mundo consistiam em degenerações de espécies ideais (platônicas) existentes apenas na mente de deus. Assim, de uma só vez, Darwin tirava dos homens seu estatus superior e dizia que deus não havia sido necessário para criar nenhuma outra espécie. Foi um choque e tanto para a igreja da época e até hoje as discussões infelizmente perduram entre criacionistas e evolucionistas.

** ClickCiência: De lá pra cá, quais foram as grandes descobertas? O que mudou, no entendimento da evolução das espécies?

Ah, muita coisa mudou na ciência da evolução desde Darwin, embora seja claro que tudo tenha sido feito sobre o plano de fundo criado por ele. Houveram várias revoluções conceituais em biologia evolutiva desde Darwin, principalmente a revolução da Genética e da Biologia Molecular.


Embora contemporâneo de Darwin, os trabalhos do monge Gregor Mendel só vieram a ser redescobertos no início do século XX. Ainda que o mendelismo inicialmente tenha sido visto como contrário à teoria gradualista de Darwin, depois de novas sínteses da teoria darwinismo e mendelismo vivem em paz e harmonia, numa simbiose teórica que eleva nossa compreensão sobre evolução dos organismos e a hereditariedade biológica.

Em uma delas, por exemplo, ocorrida na primeira metade do século XX, os trabalhos do monge Gregor Mendel foram redescobertos e re-interpretados sob a óptica darwiniana. Embora a princípio os cientistas tenham interpretado Mendel de uma forma anti-darwinistas -- principalmente no que concerne ao caráter gradual da evolução darwiniana --, posteriormente com o avanço da genética a partir dos trabalhos de Thomas Morgan com drosófilas, ficou claro que o padrão evolutivo tem uma preponderante característica gradual, como previsto por Darwin. Posteriormente, a descoberta da estrutura do DNA por Watson e Crick revolucionou toda a biologia moderna, inclusive os estudos em evolução. O sequenciamento de genomas tem mostrado cada vez mais como todas as espécies em nosso planeta apresentam um metabolismo e um conteúdo de genes e proteínas bastante similar, e reforça cada vez mais a teoria da ancestralidade comum e, portanto, a teoria darwiniana da evolução.

O sequenciamento de genomas tem mostrado cada vez mais como todas as espécies em nosso planeta apresentam um metabolismo e um conteúdo de genes e proteínas bastante similar, e reforça cada vez mais a teoria da ancestralidade comum e, portanto, a teoria darwiniana da evolução.


** ClickCiência: Quais brechas da teoria de Darwin perduram até hoje?

Normalmente Darwin é bastante criticado por possíveis "brechas" existentes em sua teoria. Para explicar isso com eficácia, precisamos antes entender um pouco sobre a ciência dentro das humanidades conhecida como epistemologia, ou teoria do conhecimento. Esta área das ciências humanas tenta explicar como produzimos conhecimento e como o interpretamos à luz das evidências e de fatores sociais e históricos. Quando estudamos epistemologia, entendamos que todas as teorias científicas possuem brechas e que nenhuma teoria pode pretender explicar absolutamente todos os fatos dentro de seu domínio de estudo. A ciência de uma determinada época consiste no melhor modelo que os humanos encontraram para explicar determinados fenômenos ou grupo de fenômenos, mas não consiste num modelo infalível ou perfeito. Humanos são assim vistos como seres limitados que jamais alcançarão a perfeição. Assim, se olharmos para a história da ciência podemos verificar que mesmo a mais fortemente embasada teoria científica de todos os tempos, a física Newtoniana, mostrou não ser capaz de explicar todos os fenômenos físicos no universo. Einstein mostrou que o espaço-tempo relativos podiam explicar ainda um número maior de fenômenos do que aqueles previstos pela física Newtoniana. Apesar disso, não creio que se possa dizer que a física Newtoniana esteja errada e ela é aplicada ainda hoje em uma quantidade enorme de domínios, porque ela consiste numa simplificação útil, clara e precisa das principais leis físicas que parecem governar o universo em que vivemos.

A ciência de uma determinada época consiste no melhor modelo que os humanos encontraram para explicar determinados fenômenos ou grupo de fenômenos, mas não consiste num modelo infalível ou perfeito.


Além disso, é preciso compreender que a ciência de uma época futura será sempre mais desenvolvida do que de uma era presente -- assim como a ciência do presente é mais desenvolvida que a do passado. A ciência, por não acreditar em dogmas, está sempre se questionando e se reconstruindo. Na ciência é uma virtude encontrar erros e corrigí-los e os mais famosos cientistas fizeram isso e continuarão fazendo, sob o risco de ganharem um Nobel. O fato da ciência apresentar brechas é um desafio para os cientistas e deve ser vista como algo positivo, não negativo.

Uma vez entendido que nenhuma ciência pode ser perfeita e que a ciência avança sempre e que será eternamente incompleta, vamos às brechas de Darwin. Houve várias brechas que foram sanadas e há ainda várias questões sobre a evolução dos organismos em aberto. Por exemplo, não se sabe ainda como a vida se originou, não se sabe onde e não se sabe com qual organismo isso aconteceu. Além disso, as datações de eventos do passado vão sempre ficando melhores, mas nunca perfeitas. Há a incompletude do registro fóssil, sendo que não conseguimos encontrar fósseis que representem todos intermediários para as grandes mudanças anatômicas dos animais, um grande ponto de crítica da teoria, embora novos fósseis que ligam linhagens antigas sejam sempre encontrados aqui e ali, no decorrer dos anos.

** ClickCiência: Qual a importância dos estudos de Darwin para os dias atuais / para as pesquisas que são feitas atualmente?

Tudo que foi feito por Darwin é importantíssimo para os dias atuais e para todas as pesquisas feitas em biologia, incluindo aquelas em medicina e saúde. O famoso geneticista do século XX, Theodosius Dobzhansky, tem uma das mais famosas frases relacionando a biologia e a evolução. Ele disse "nada faz sentido na biologia, exceto à luz da evolução". A teoria da evolução é a teoria mais central da biologia, é ela que liga os grandes ramos das ciências biológicas sob um mesmo arcabouço teórico comum. Pode-se analisar evolutivamente dados de todas as grandes áreas da biologia, como zoologia, botânica, microbiologia, genética, biologia molecular, anatomia, farmacologia, etc. No caso de desenvolvimento de fármacos, é mais adequado testá-los em macacos do que em camundongos, por exemplo. E fármacos testados em macacos têm muito mais chance de serem eficazes em humanos do que aqueles testados em camundongos, moscas ou outros animais quaisquer.

** ClickCiência: Objetivamente, qual a diferença principal entre a Teoria da Evolução e a Teoria Sintética da Evolução?

Objetivamente: a teoria sintética da evolução é uma atualização da teoria da evolução darwiniana que leva em consideração certos fatores desconhecidos por Darwin, em 1859. A diferença é que a teoria sintética considera, principalmente, conhecimentos adquiridos depois de Darwin nas áreas da Hereditariedade (Weissmann), Genética Clássica (Mendel) e Genética de Populações (Fisher, Wright, Haldane).

** ClickCiência: Quais as descobertas que levaram a constituição dessa nova teoria?

As principais modificações conceituais que levaram à teoria sintética foram, a meu ver:
1) A refutação por August Weissmann da teoria da herança dos caracteres adquiridos, ainda no século XIX.
2) A redescoberta dos trabalhos de Mendel no início do século XX e seu posterior avanço através do estudo de moscas-das-frutas do gênero drosófilas, principalmente feitos por Thomas Morgan na década de 20/30.
3) A síntese dos conhecimentos dos zoólogos e dos geneticistas de população sob uma óptica darwiniana. Os zoólogos estiveram sempre interessados na diferenciação entre as espécies e mecanismos de especiação, enquanto os geneticistas de populações estiveram interessados na evolução dentro de uma mesma linhagem.

Ao reunir tais conhecimentos, criou-se a chamada teoria sintética da evolução no fim da primeira metade do século XX (segundo a definição de Mayr). E depois dela ainda houve uma nova revolução trazida pela descoberta da estrutura molecular da vida, o código genético e o sequenciamento de genomas.


August Weissmann foi um dos maiores biólogos evolutivos do século XIX. Ele refutou a teoria dos caracteres adquiridos de Lamarck (onde Darwin vacilava) e mostrou que o que acontecia com o indivíduo durante sua vida não passava para sua prole. Separou as células germinativas das células somáticas e permitiu também um salto nas teorias evolutivas daí em diante.


** ClickCiência: Na sua opinião, qual a importância da Teoria Sintética?

A importância da teoria sintética é atualizar as idéias originais de Darwin sob uma óptica moderna da época (década de 40).

** ClickCiência: Atualmente, o que se sabe sobre o surgimento de uma nova espécie?

Há ainda bastante discussão em biologia sobre o significado preciso do termo espécie e, em filosofia da biologia, esta discussão tem até um nome definido: o problema das espécies. Sobre este assunto, pode-se dizer que já está claro que, quando consideramos uma espécie de bactéria -- que é um organismo unicelular de reprodução assexuada -- esse termo tem uma conotação diferente de quando utilizamos o termo para espécies de mamíferos. Da mesma forma, a definição de uma espécie bacteriana e uma espécie de reprodução sexuada é bem diferente. Espécies são nomes que biólogos dão a grupos de organismos que se parecem e que são capazes de se reproduzir dando prole fértil (conceito biológico de espécie), mas existem as mais interessantes variações no conceito e não é possível definir com exata precisão e pleno acordo do que se trate uma determinada espécie. As questões de definições de espécie são invariavelmente alvo de discussões acaloradas entre os pesquisadores especialistas num determinado grupo animal, vegetal ou microbiano.

Enfim, com relação a espécies de mamíferos de grande porte, as novas espécies são normalmente criadas (especiação alopátrica) quando dois diferentes grupos populacionais de uma mesma espécie se dividem e passam a habitar diferentes lugares. Caso essas duas populações mantenham-se separadas uma quantidade suficiente de tempo, ocorrerão mutações aleatórias em seus DNAs que serão diferentes e que serão diferentemente selecionadas de acordo com o ambiente em que vivem. Com o passar do tempo, tais espécies ficarão cada vez mais diferentes até o momento em que elas alcancem o chamado isolamento reprodutivo. Neste momento não será mais possível que indivíduos de uma espécie fertilizem indivíduos de outra gerando um híbrido fértil. Quando isso acontecer, os biólogos dirão: são espécies diferentes.

** ClickCiência: Há explicações para o chamado “acaso”?

O acaso não precisa de explicações, ele precisa de aceitações. Em inúmeros fenômenos de nossa vida cotidiana, o acaso está presente. Nas pessoas em que cruzamos pela manhã, no número de sinais abertos ou fechados que passamos (ou paramos) quando nos dirigimos de casa para o trabalho, no tempo em que esperamos o ônibus, na quantidade de pessoas que estão dentro do ônibus, na temperatura que faz durante dia, na refeição disponível no restaurante, no tempo que ainda viveremos. Embora algumas dessas coisas possamos entender e calcular, há outras que são excessivamente complexas e se apresentam à nossa compreensão como aleatórias. Assim, o acaso pode ser entendido como um conjunto de variáveis complexas o suficiente para que não sejamos capazes de entender se existe uma ordem ali contida. De fato, mesmo na física de partículas mais básica há um conteúdo probabilístico, de forma que jamais seremos capazes de prever eventos específicos com absoluta precisão.

A evolução, em seu nível mais molecular, acontece através da mutação em sequências de DNA que nos parecem razoavelmente aleatórias. Sabemos que há sequências mais susceptíveis a mutações que outras e sabemos que alguns agentes mutagênicos privilegiam certas mutações ao invés de outras. Mas jamais saberemos exatamente qual mutação irá acontecer uma vez que, por mais que algumas sejam mais prováveis que outras (teoricamente), o fator acaso está envolvido e representa uma parte importante de nossa compreensão sobre os fenômenos naturais.

== Adendo: TRANSGÊNICOS ==

** ClickCiência: Fazendo pesquisas em seu currículo encontrei o seguinte título “SOMOS TODOS TRANGÊNICOS”. Gostaria, se possível, que você falasse um pouco a respeito. Como você encara as atuais pesquisas dos transgênicos?

O artigo "Todos somos transgênicos" que escrevi e publiquei na revista latinoamericana para a ciência e razão (revista PENSAR), em 2006, baseia-se no conceito de transgenia para mostrar como este processo é bastante comum na natureza. O processo de transgênese pode ser descrito, de forma puramente conceitual, como a inserção de moléculas de DNA de certo organismo no genoma de um outro organismo. A natureza tem gerado transgênicos desde o início dos tempos e, se levarmos o conceito ao pé-da-letra, podemos considerar que toda virose que pegamos é um tipo de transgenia, onde o DNA viral se integra ao nosso genoma. Assim, para cada gripe que pegamos, transformamo-nos em um novo transgênico. Do lado tecnológico, o processo de transgenia tem ajudado bastante o desenvolvimento da ciência e da medicina. Por exemplo, boa parte da insulina humana produzida hoje para medicar os diabéticos é produzida em organismos transgênicos (onde foi inserida a sequência de DNA humano para esta proteína). Assim os diabéticos não precisam mais ingerir uma insulina de porco, como ocorria anteriormente, graças à tecnologia de transgenia. Além disso, todos os genomas de organismos que são hoje produzidos e que ajudam em nossa compreensão sobre eles (e sobre nós) foram feitos devido à tecnologia de transgenia em bactérias, onde os genomas são partidos e colocados dentro de bactérias que os guardam e amplificam para a posterior reação de sequenciamento. O genoma humano não seria conhecido hoje sem a técnica de transgenia.

Com relação às plantas transgênicas que porventura venhamos a comer, o assunto é mais delicado. A idéia do meu artigo era dizer sim que existe um medo exagerado dos organismos transgênicos em nossa sociedade e que não é provável que um organismo transgênico vá nos fazer algum mal místico, absurdo ou inesperado -- como as pessoas temem. Isso é muito pouco provável. A problemática dos transgênicos está portanto mais relacionada a questões sociais e ambientais do que a questões de saúde pública. Explico. Com relação aos aspectos sociais, é um consenso hoje que os organismos transgênicos devem ser rotulados como tal, especificando qual tipo de transgênico eles são. Isso deve-se ao fato de que há várias formas diferentes de realizar a transgênese e que algumas pessoas podem ser alérgicas a determinadas proteínas em especial que tenham sido adicionadas na planta (transgênica) em questão. Estas pessoas não devem ingerir os organismos que contém tais alergenos. E, além disso, de um ponto de vista mais liberal todos devem ter a opção de não ingerirem alimentos transgênicos, se não quiserem. Assim, a rotulagem é bastante importante.

Ambientalmente falando, alega-se a transgenia substitui os organismos naturais por outros organismos modificados em laboratório e que, de certa forma, os transgênicos -- ao evitar seu ataque por pragas -- modificam a estrutura ecológica de um ecossistema e o modificam de sobremaneira. Embora concorde com o argumento, creio que o mesmo se aplica a qualquer tipo de monocultura. E assim, como biólogo e defensor da biodiversidade natural dos organismos, sou contra a cultura de transgênicos da mesma forma que sou contra qualquer tipo de destruição de mata nativa para abrigar uma monocultura. Também as sementes utilizadas em qualquer monocultura são excessivamente modificadas por contínuas e históricas seleções (artificiais) das melhores sementes e também não representam a espécie natural. Também a destruição de ambientes nativos para a produção de monocultura modifica de sobremaneira a estrutura ecológica de um ambiente. Por outro lado, creio que não seria possível hoje em dia alimentar toda a população humana urbana sem a existência de monoculturas e talvez não seja possível alimentar toda a população humana do futuro sem a utilização de transgênicos. É sabido que os transgênicos normalmente aumentam a produtividade das áreas cultivadas e, de certa forma, podem talvez evitar o desmatamento de outras áreas para a cultura agrícola. Há ainda novas tecnologias transgênicas que permitem que certas culturas sejam cultivadas em locais onde elas não eram originalmente apropriadas.

===

Esta foi a primeira parte da entrevista, posteriormente o jornalista ainda enviou uma outra série de outras perguntas para elucidar alguns detalhes que ele teve certas dificuldades para compreender. Publicá-la-ei aqui oportunamente.

Mais uma vez, clique aqui para ler a excelente reportagem.

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Quinta-feira, Abril 23, 2009

Do crítico-pensador

Para sermos verdadeiros críticos-pensadores precisamos seguir os seguintes passos:

1) Esforçarmo-nos ao máximo para entender as teorias e argumentações de outros
2) Identificar os pontos fortes e fracos da argumentação alheia
3) Tecer uma crítica específica e ponderada com relação aos argumentos que discordamos

== 1 ==

Não se pode almejar ser um pensador sem que saibamos realizar o que na literatura chamam de leitura-atenta (close-reading) de todo e qualquer texto. O pensador especializa-se nesse tipo de leitura e jamais lê o que quer que seja sem a devida atenção. De fato, o pensador crê que a leitura desatenta é o mais grave tipo de analfabetismo intelectual.

== 2 ==

Diretamente a partir da leitura-atenta de um texto e, considerando todo o "background" de conhecimento do leitor-pensador, identifica-se de pronto (1) os pontos de determinado texto que convergem perfeita e maravilhosamente dentro de uma linha lógica e bem moldada de raciocínio e, por conseguinte, (2) outros pontos que não tenham sido muito bem esclarecidos ou que se situem à periferia da argumentação principal.

É claro que diferentes pessoas pensarão que diferentes pontos de um texto argumentativo tenham sido bem ou mal argumentados. Por isso é também necessário conhecer algo sobre o autor do texto e dividir com eles conceitos básicos com relação ao assunto do qual ele trata. Quanto mais se lê um autor, mais se entende sua linha argumentativa, posto que assim aprendemos a ter a mesma linguagem do autor e identificar claramente o que ele quer dizer quando apresenta conceitos relativamente vagos ou de múltiplas identidades.

EXEMPLOS: Os conceitos de liberdade, democracia, segurança e autoritarismo -- para citar alguns -- frequentemente dependem da posição ideológica de quem escreve um texto. Alguns autores podem considerar que os indivíduos são livres num estado-nação, outros discordarão (anarquistas, por exemplo). Certamente o conceito de Social-Democracia de um filósofo é bem diferente do conceito de social-democracia que vai dentro do partido neoliberal brasileiro (PSDB). Da mesma forma, o conceito de democracia do partido democrata brasileiro (DEM, antigo PFL) pode ser considerado um tanto enviesado e, a meu ver, bastante diferente do sentido sugerido pela palavra em sua acepção original oriunda do grego (do grego démokratía, de dêmos "povo" + kratía "força, poder"[1]).

Fato é que da leitura atenta, identifica-se a linha argumentativa traçada pelo autor e disto ficam claros tanto os pontos de concordância ou discordância do leitor (com sua bagagem cultural) com relação à argumentação principal. Identifica-se, sobretudo, os pontos de extrema discordância e repúdio ou plena concordância e admiração. Um dos maiores prazeres do intelectual é observar, durante a leitura-atenta de autores clássicos, a mais bela cadeia argumentativa que identifica de forma sublime, singela, elegante, lógica, sensível e maravilhosa como toda a humanidade houvera visto ou tratado erroneamente um problema antes daquele discurso. A filosofia e os tratados intelectuais estão entre as mais belas formas de expressão do ser humano e são de uma beleza estética fenomenal. Porém, apenas através da leitura atenta e partindo de um conhecimento razoavelmente vasto sobre os principais conceitos em discussão é que se pode chegar a ter este tipo de impressão (maravilhamento ou repúdio) sobre um texto analítico sério. Mais uma vez: semi-analfabetos, portanto, podem ser considerados aqueles que leem determinados textos de inclinações claramente tendenciosas e não são capazes de identificar seus conteúdos ideológicos. [2]

== 3 ==

Uma vez tendo feito uma leitura de um texto e tendo identificado os pontos de concordância ou discordância ideológica, seus pontos fortes e fracos de argumentação, vem então a parte mais difícil da tarefa do pensador. Esta etapa consiste em fornecer argumentação contrária aos pontos de discordância e em explicar com precisão as razões segundo a qual o pensador-leitor tem uma visão diferente sobre o assunto a ser tratado. [3]

É preciso aqui fugir das críticas vazias. A maior parte daqueles que criticam um determinado texto, criticam-no de forma vazia, apontando apenas seu desgosto ou repúdio com relação a determinada exposição argumentativa. De acordo com experiências próprias no campo da discussão séria, as críticas falaciosas consistem na principal forma segundo a qual ignorantes questionam algum texto [4] -- usando por exemplo falácias "ad hominens", argumento de autoridade ou "non sequitur". Assim, críticos-vazios criticam o autor ou o texto por características de sua forma, não conteúdo [5]; por argumentarem contra algum dito de notória autoridade [6]; ou por chegarem a conclusões que não se baseiam logicamente nas relações entre as premissas [7]. Tais críticas -- por vezes duras em tom -- são simplesmente vazias em conteúdo e não são capazes de identificar exatamente pontos onde existem problemas no conteúdo argumentativo de uma obra intelectual.

A verdadeira crítica é a crítica específica e pontuada, onde o crítico identifica um pensamento enviesado do pensador que lê e busca outras referências, razões ou argumentos segundo os quais identificará com a devida precisão a razão de seu repúdio à determinada idéia ou relação entre idéias. Assim, não basta simplesmente apresentar o repúdio, como também -- e principalmente -- explicar sob qual sentido o crítico compreendeu mal determinado trabalho e qual é exatamente o ponto de discordância [8].

Todos os pensadores estão sempre a serem criticados por suas idéias ou teorias. Entretanto, as únicas críticas que realmente devem ser respondidas e levadas em consideração são essas críticas bem argumentadas e trabalhadas sobre determinado ponto que (1) provavelmente não tenha sido abordado com suficiente detalhe, (2) tenha sido tomado abordado de forma enviesada ou (3) tenha sido realmente mal articulado pelo pensador -- dentre outras possibilidades. É possível entretanto prever que toda teoria seja criticável e que nenhum pensador terá sempre a razão. A razão é de certa forma maleável e depende de uma inter-relação entre conceitos que se modificam de acordo com um contexto social, cultural, político, histórico -- ou ainda -- com relação a critérios mais rígidos ou frouxos de objetividade relacionado ao assunto tratado. Mesmo considerando um contexto linguístico/social similar entre autor e crítico, teorias que almejem um conteúdo de seriedade e cientificidade devem levar determinados fatores-chave em consideração -- como ponto de partida -- quando de sua formação. E tais fatores-chave não são fixos ou inquestionáveis, porém dependem de uma infinidade de outras relações entre conceitos e idéias. Todo trabalho é, sem dúvida, criticável. Porém todo trabalho feito com seriedade, cuidado e honestidade intelectuais, buscando alcançar um patamar mais elevado para a compreensão do homem sobre si mesmo e sobre a natureza, tem um alto valor como expressão cultural e ajuda-nos em nossa eterna e infinita busca pela compreensão do que somos e daquilo que nos rodeia. É claro que haverão trabalhos melhores do que outros, dependendo dos parâmetros que se utilize para avaliar tais virtudes. [9]


== NOTAS ==

[1] Informações sobre a origem da palavra retirada do dicionário Houaiss eletrônico, 29/04/09
[2] É o caso do brasileiro médio lendo a revista Veja e pensando-a imparcial. A leitura atenta e a crítica a todo e qualquer texto precisa urgentemente ser encorajada nas escolas brasileiras -- e de todo o mundo.
[3] Por outro lado, no caso de extrema concordância com o texto, o leitor-pensador pode decidir que o estudo fala por si mesmo. Daí por diante a tarefa do pensador passa a ser a de (1)divulgar tal texto, ou (2) avançar os conhecimentos a partir deste texto. No caso (1) de pensá-lo realmente bom ou útil para a humanidade, de uma forma qualquer, o pensador deve tentar resumi-lo, acrescentá-lo ou clarificar suas idéias, tornando-o mais acessível e simples para a população, segundo a interpretação do pensador que o lê. Esta é uma tarefa do divulgador de filosofia. Todos que prezam pelo bem da humanidade, de fato, deveriam ser divulgadores de filosofia. No caso (2), o pensador pode tentar se basear nessas idéias para avançar nossa compreensão sobre o mundo tendo como base este texto original. Assim, inicia-se uma linha de pesquisa baseado nesta obra.
[4] Guia de falácias -- em inglês ou em português; outro bom em inglês
[5] Exemplo de falácia "ad hominens": "Alguém com um nariz desse tamanho não pode dizer nada de bom". Troque o "nariz-desse-tamanho" por palavras como: mulher, pobre, rico, negro, homossexual, ateu, árabe, brasileiro e verás como esta crítica -- totalmente vazia de conteúdo -- é comum. Outra crítica similar relacionada ao conteúdo do texto também pode ser feita: "um texto com tantos erros tipográficos, não deve ser levado a sério". Foge-se da argumentação principal para criticar o argumentador -- ou, alternativamente, a forma como ele argumenta.
[6] Outra falácia bastante comum é também o argumento de autoridade. Em nossa sociedade judáico-cristã normalmente considera-se que todo conhecimento que vá contra a Bíblia -- autoridade máxima(!) -- deve estar errado. De forma similar, considera-se sempre que os "chefes" têm a razão; infelizmente considera-se que o ministro do STJ deve estar correto apenas porque ele é, justamente, o ministro do STJ. Ou então cita-se algum filósofo, cientista ou personalidade de renome para "provar" certa argumentação. ==> Vale notar que mesmo os melhores pensadores da humanidade cometeram erros de argumentação e que todo argumento deve ser avaliado de forma independente de quem o falou. <== Para o verdadeiro filósofo, o argumento do mais humilde dos humanos ou do presidente dos Estados Unidos deve ser considerado sob o mesmo ponto de partida, isto é: igualmente criticáveis.
[7] Se 1 + 1 = 2, LOGO amanhã vai chover. É claro que exagero nos exemplos pra ficar claro. Mas o non-sequitur é uma das formas mais comuns através das quais pessoas má-intencionadas usam e abusam no intuito de confundir uma platéia. Ela é excessivamente utilizada por políticos para convencer a população de que suas manobras neoliberais beneficiam à sociedade; e não aos seus próprios bolsos. Eles dizem: "Se há pobreza no país e se há pessoas nas ruas, LOGO devemos abrir o mercado para o capital internacional." Enquanto isso, o problema sempre da educação de base e da desigualdade social permanece por se resolver, enquanto uns poucos empresários enchem seus bolsos de dinheiro.
[8] Todo e qualquer trabalho pode ser bem criticado e toda crítica pode ser bem rebatida. É ao leitor (e à toda humanidade) que restará a função de juri ao considerar certa discussão ou trabalho sob a luz da razão; tendo o papel de julgar qual dos dois lados da argumentação estará mais próximo do que definimos chamamos de ter a razão.
[9] Na filosofia chinesa, por exemplo, uma obra é normalmente mais virtuosa quanto mais filosófica, abrangente e metafórica ela puder ser (veja "Os Anacletos" de Confúcio, por exemplo). Já na filosofia grega, a virtuose está mais relacionada a um tipo de argumentação mais direto, esmiuçado e detalhado. O chinês pensa o grego específico, pequeno e limitado; o grego pensa o chinês amplo, ambíguo e excessivamente abrangente. Certamente pode-se dizer que um ou outro sejam melhores, dependendo dos critérios que se adote para realizar tal definição.

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Segunda-feira, Abril 06, 2009

Notas sobre a prática linguística

Antes de aprender qualquer idioma, um adulto deve considerar e aceitar duas verdades básicas sobre o que aprender:

1. Jamais terás uma compreensão completa do que se diz
2. Jamais falarás como um nativo


== DISCUSSÃO ==


1. O vocabulário de uma língua é extremamente vasto e os verbetes dos dicionários linguísticos ultrapassam as centenas de milhares de palavras [1]. Com o avanço das técnicas e especialidades, só se pode esperar que tais vocábulos se multipliquem nos anos que se seguirão. Ken Kister estima que 25.000 palavras sejam adicionadas por ano ao idioma inglês [2]. De certa forma, entretanto, pode-se dizer que, felizmente, para que compreendamos o que acontece ao nosso redor no dia-a-dia não se faz necessário que se conheça um vocabulário assim extremamente amplo. Algo que desde algum tempo me interessa como intelectual vem do fato de como os humanos conseguem compreender o que se lhes diz, ou seja: como é formado o sentido -- e assim, a compreensão -- quando de uma comunicação verbal (parole).


Sendo oriundo de uma tradição científica dentro das ciências biológicas, sei que cada pesquisador tem um entendimento ligeiramente diferente sobre o conjunto de teorias que suportam a grande ciência com a qual trabalhamos. Mesmo quando os cientistas são especialistas na mesma área de atuação, por vezes uns têm um background mais relacionado às ciências exatas, outros dialogam melhor com as ciências humanas. E isso faz com que sua abordagem experimental de um determinado problema científico (modus tollens) seja mais direcionada para aspectos mais fenomênicos per se ou aspectos mais relacionados à forma como os humanos enxergam e/ou interpretam tais aspectos. O que importa é que há muita incompreensão em ciência quando esses dois indivíduos são colocados para conversar entre si e é preciso que eles expliquem-se muito bem um ao outro para que haja algum consenso semântico. Assim, voltemos à pergunta inicial: como entender o que os outros dizem dado que a experiência de mundo deles é diferente?


A formação de sentido em meios científicos ou quando estão envolvidos indivíduos que falam línguas diferentes [3] nunca se dá pela compreensão completa do assunto, por uns e por outros. A compreensão entre dois indivíduos é apenas 100% eficiente quando se discute assuntos extremamente básicos e simples. Discussões conceituais, ideológicas ou científicas normalmente relacionam e utilizam conceitos abstratos que são compreendidos diferentemente por cada indivíduo. Se imaginarmos pessoas a discutir se o Brasil é um país democrático, podemos encontrar aqueles que concordem com a afirmação simplesmente porque há o sufrágio universal. Outros podem discordar porque consideram que os parlamentares roubam excessivamente o dinheiro público em causa própria e que isso não caracteriza um estado democrático. Outros ainda podem discordar porque não é exatamente qualquer indivíduo que pode se candidatar -- é necessário estar filiado a um partido político. O conceito de democracia, assim, depende da compreensão de cada um e não é simplesmente possível dizer que alguns tenham conceitos mais precisos do que outros. Além disso, a forma como o conceito de democracia para um indivíduo se relaciona a outros conceitos próximos, como por exemplo: liberdade de expressão, liberdade religiosa e sexual, liberdade de imprensa; ou ainda, antiteticamente, aos conceitos de totalitarismo, tirania privada e estado laico, para citar apenas alguns, influencia diretamente a forma segundo a qual as pessoas compreendem o que vem sendo discutido ou a leitura de alguma informação.


Assim, em qualquer tipo de comunicação, é possível encontrar indivíduos que não se entendam entre si -- embora outros possam entendê-los e pode até mesmo haver uma determinada pessoa que entenda ambos razoavelmente bem. Neste caso, este intermediário pode inclusive identificar as diferenças conceituais entre os indivíduos e traduzir a "língua de um" na "língua do outro" de forma que eles venham então a se entender. E se esta falha na compreensão acontece até mesmo dentro da mesma plataforma linguística (mesmo idioma), quando diferentes idiomas estão envolvidos a situação se torna ainda mais complexa. De fato, cada indivíduo possui sua plataforma conceitual linguística associada a uma teia de correlações e estruturas rígidas segundo as quais articulam tais conceitos que lhe são próprias e únicas. Assim, cada um tem uma visão do mundo e da sociedade que lhe é particular e diferente de todos os outros indivíduos, baseada em tudo que aprendeu, na ordem em que aprendeu os conceitos, no contexto socio-histórico-cultural em que está envolvido, na capacidade biológica de funcionamento de seu cérebro e órgãos do sentido. Paul Hermann disse, já em 1880, que de fato haverão tantas línguas quanto haverão indivíduos [4].


Para que duas pessoas possam conversar e se compreenderem bem, é preciso que haja concordância com relação a uma parte significativa de suas associações conceituais e das relações entre conceitos-padrões da prática da comunicação entre humanos. Tais padrões de certa forma dependem contextos sócio-histórico-culturais e normalmente pessoas de mesmo estado, país ou região se compreendem melhor entre si do que quando discutem com pessoas oriundas de outras posições geográficas e fundos culturais. De outra forma, quando falantes de linguagens diferentes discutem, as diferenças em seus backgrounds culturais torna seus entendimentos menos completos. Uma vez entretanto, que estes indivíduos oriundos de diferentes culturas cheguem a se compreender -- depois de muita discussão e incompreensões --, pode-se gerar um novo entendimento ainda mais completo e global, mais virtuoso, que leve em consideração aspectos antes não considerados por uma ou outra cultura, criando visões de mundo mais assentadas e sólidas, que sejam mais válidas num contexto de uma cultura geral de toda a humanidade.

O cerne desta argumentação


Enfim, para a prática linguística cotidiana a formação do sentido não depende absolutamente do entendimento completo das palavras ditas, ou das regras de gramática. A formação do sentido se dá de forma mais ampla. Quando estudamos neurologia, sabemos que nosso cérebro é moldado para observar certos padrões específicos e que ele é capaz de completá-los de certo modo, mesmo quando eles estão incompletos. As ilusões de óptica nos revelam isso com eficácia e também em música sabemos que nosso cérebro adiciona uma nota faltante à nossa "audição" quando uma escala é tocada sem ela. No campo do estudo da formação semântica, esta premeditação e esse complemento também acontece. Durante uma conversação, por exemplo, nosso cérebro entende parcialmente o que é dito e tem uma expectativa sobre o que será dito a seguir. Esta expectativa criada neurologicamente ajuda-nos a compreender um assunto mesmo quando a maioria das palavras nos é desconhecida. Quando, portanto, da incompreensão de determinadas palavras ou relações gramáticas entre elas dentro de uma conversação, acredito que nosso cérebro seja capaz de completar o sentido para formar uma sentença que, simplesmente, faça sentido para o ouvinte. Não digo que escutamos palavras que não estejam lá, ainda que considere isso possível de acontecer em alguns casos, mas argumento que dentro de nosso cérebro a compreensão do sentido provavelmente se faz por associações entre o que foi dito e diversas outras palavras e conceitos que não tenham sido empregadas em uma conversação mas que são empregadas durante o processamento cerebral para formar a compreensão. Seguindo a mesma linha de argumentação, podemos ainda afirmar que é mais fácil entendermos os falantes de uma língua estrangeira quando eles estão a discutir algo que nos é familiar, mesmo que desconheçamos o significado de uma porção significativa das palavras ditas. Dentro do assunto familiar, nosso conjunto de conceitos cerebrais opera de forma mais organizada e somos capazes de supor o que se diz, mesmo quando somos capazes de traduzir de fato apenas poucas palavras. Talvez aqui seja interessante propor estudos onde indivíduos de diferentes idiomas e com conhecimentos razoáveis de certos idiomas (iniciante, médio, avançado) sejam colocados para se comunicar. Apresenta-se uma situação a um indivíduo e verifica-se o quanto desta situação foi entendida, tanto pelo contexto quanto pela ação verbal (parole). É de se supor que discussões sobre a vida diária em uma casa ou sobre assuntos relacionados à nossa profissão sejam mais fáceis de ser entendidos pelo ouvinte posto que -- se não entendemos exatamente o que dizem -- podemos entender 'pelo contexto' e formar associações cerebrais de forma a prever o que se está sendo falado mesmo que muito da gramática ou vocabulário da língua nos sejam desconhecidos. Até quanto nosso cérebro conseguirá completar? Haverão grandes diferenças entre os indivíduos? Eu chegaria a dizer que a habilidade de um ser humano em compreender o sentido de uma discussão verbal pelo "contexto" -- relacionado é claro ao assunto que se fala -- é tão importante quanto entender as exatamente as palavras ditas. Assim, a observação atenta do que acontece ao redor do falante e a atenção ao que ocorre à nossa volta é uma parte importantíssima da compreensão e que não é absolutamente ensinada ou explicitada em escolas de línguas. Ainda sobre a questão do contexto, vale dizer que quanto mais culto for um indivíduo, maior será sua facilidade em compreender um novo idioma. A cultura geral permite a um sujeito compreender a maior parte de assuntos dos quais um ser humano genérico possa falar-sobre. Além disso, quanto mais um sujeito é capaz de reparar e estar atento à como as coisas acontecem ao seu redor -- quanto mais esperto for o sujeito -- mais ele poderá compreender sobre os acontecimentos antes mesmo que qualquer palavra seja proferida. Vale notar aqui que certos tipos de compreensão dos acontecimentos são culturais e, por exemplo, certos tipos de piadas são feitos mais por uns povos do que por outros. Assim é preciso também um certo entendimento sobre o que certos povos costumam reparar em determinadas situações para ter uma idéia do que falarão uma vez que tenham visto determinado acontecimento. Para falar bem uma língua, é preciso tentar, portanto, ter uma percepção do mundo como aquela que é tida pelo falante desta língua. Desta forma, a compreensão será mais completa. A língua talvez seja a expressão máxima de uma cultura.


2. O falante nativo normalmente pode reconhecer facilmente um indivíduo que não tenha nascido ou vivido quando criança em seu meio linguístico. É claro também que quanto mais tempo e quanto mais envolvimento alguém tem com uma cultura e uma língua, quanto mais ele tenha gastado tempo com o aprendizado e a compreensão da mesma, mais rápido ele irá entender e conseguir agilidade para falá-la com proficiência.

INTERLÚDIO: O estudo de línguas por anos a fio, entretanto, sem o contato direto com a cultura, é a meu ver um desperdício de tempo de estudo. Há um determinado tempo, diferente para cada aluno, e que provavelmente pode ser medido a partir de quando ele pode já compreender diálogos razoavelmente densos, onde o estudante deve emigrar e se embeber da cultura que deseja conhecer.
EXPERIÊNCIA PESSOAL: Muitos dos brasileiros cultos que conheço supõe que sabem falar bem o inglês. De fato, conseguem se comunicar com eficácia. Entretanto, utilizam determinadas palavras que nenhum nativo do idioma inglês utilizaria, certas sinonímias que são claras traduções do português e certas construções verbais estranhas. Mesmo eu que já morei um ano na Inglaterra e já viajei algumas vezes para os Estados Unidos continuo tendo dificuldades -- e sei que ainda as terei por muito tempo -- em comunicar-me na língua de Shakespeare. (A propósito, nem é a mesma língua de Shakespeare uma vez que o próprio inglês evoluiu desde o século XVI-XVII, processo de anagênese linguística.)

Com o passar do tempo, medido em anos, um indivíduo pode chegar a falar um determinado idioma de uma maneira cada vez mais próxima a um nativo. Entretanto, sem querer desapontar ou desanimar o leitor, creio que em raríssimas exceções se chegará a falar como um nativo e perceber-se-á em algum momento certos deslizes realizados que verdadeiros-nativos darão como certo o fato de que o falante não se nascera ou crescera ali. Tais deslizes, a meu ver, podem ser de três tipos rasos e um tipo profundo, sendo os tipos rasos: (1) fonéticos, onde o falante não produz bem um som da língua (como o "ão" do português); (2) gramaticais, onde o falante não é capaz de fazer construções verbais tidas como normais por um falante da língua ou (3) vocabulares, onde uma quantidade excessiva das palavras proferidas não fazem parte do vocabulário normal do nativo. No sentido profundo está um tipo de compreensão que envolve um encadeamento de conceitos e idéias que estão relacionadas a contextos sociais, históricos e culturais. O conceito de democracia na Europa é diferente do conceito na América do Sul que é diferente do conceito na América do Norte que é diferente do conceito na China, Japão, Irã, Venezuela, etc. Questão culturais estão envolvidas certamente em compreensões semânticas. (Além disso, eu diria que uma imersão cultural e linguística de ao menos um punhado de anos se torna necessária para alguém que não conheça bem certo idioma, até que ele possa falar com completa desenvoltura e passar como falante nativo para a maior parte das pessoas. É claro que tal experiência variará dependendo da quantidade de estudo, da distância da língua/cultura em questão de sua língua/cultura nativa ou em quão imerso o indivíduo se sujeitar a esta segunda cultura. De fato, há pessoas que jamais chegam ou chegarão a falar o idioma de forma a passar como nativos. Elas podem também não estar interessadas em fazê-lo e, antes de tudo, é preciso o interesse, posto que falar como um nativo não aprende sem vontade e luta. É um desafio intelectual.)


Além disso, é preciso compreender que a língua consiste na maior expressão de uma cultura e, poderia-se dizer que a cultura está para a língua como o ambiente está para o animal: eles co-evoluem; um modifica o outro e vice-versa.

EXPERIÊNCIA PESSOAL: Certa vez fiz uma viagem com mais seis franceses e grande parte dos assuntos colocados em pauta consistia em lembranças culturais sobre assuntos relacionadas à música, arte, cultura televisiva, histórias em quadrinhos, política, etc. Tais assuntos não podem jamais ser bem compreendidos por pessoas oriundas de outras culturas. Também se estivéssemos em meio a brasileiros falando sobre o Lula, o Monteiro Lobato, o castelo Ratimbum ou sobre o Gilberto Gil e a tropicália, também não nos entenderiam. Neste tipo de assunto falta ao ouvinte a questão do contexto, sendo que normalmente ele está completamente por fora da cadeia de conceitos e inter-relação entre eles que se dá nessas manifestações culturais. Desta forma o cérebro não pode funcionar muito bem ao prever o que será dito, uma vez que ele não foi apresentado a este conjunto de conceitos culturais que caracterizam um estado ou região ou povo. Assim, acredito que entender uma língua é também entender uma cultura, uma história de manifestações culturais relacionadas à contemporaneidade histórica da vida dos humanos com quem se dialoga. E nas escolas de línguas também não se estuda muito sobre a cultura dos países. Vamos e venhamos: só temos uma vida e não temos tempo de simplesmente estudar ou compreender todas as manifestações culturais de uma ou duas décadas em determinado país onde se fale a língua que desejemos aprender. E assim, precisamos admitir que jamais compreenderemos os assuntos como um indivíduo que sempre viveu em sua própria cultura. Também eles não compreenderão, de outro modo, o que falamos com nossos conterrâneos. E assim, talvez, fosse melhor que cada ciência fosse desenvolvida em seu país de origem no idioma nativo. Certamente a articulação de conceitos realizada pelos pesquisadores seria melhor formulada. Já encontrei um sem-número de artigos escritos por brasileiros, em inglês, que de tão mal escritos chegam a ser praticamente incompreensíveis. Acredito que as ciências devam ser feitas pelos pesquisadores em sua língua nativa e apenas traduzidas para outros idiomas por razões de troca informacional. É uma pena que a ciência mundial seja dominada pelos falantes do inglês.


Para finalizar, gostaria de citar PH Mattews [5], em tradução livre: "(...) o que sabemos com certeza é como maravilhosamente variadas as linguagens podem ser, com relação às categorias que eles deixam explícitas, quanto aos tipos de palavras diferentes que usam, quanto à forma segundo a qual seus falantes discutem em geral sobre o mundo. Isso, apenas em si mesmo, é uma forma grande de abrir nossos olhos e liberar nossa mente." Também a crítica literária Hélène Cixous nos diz em seu texto "Conversations"[6] questiona a Bíblia ao dizer que a suposta maldição mitológica da Torre de Babel tenha nos trazido algum mal, ela crê ser uma benção e um enriquecimento estar em meio há tantos idiomas e formas diferentes de representação e formalização do mundo externo a nós. A compreensão de outros idiomas, assim, mostra-nos como nossa visão é parcial e enviesada com relação ao que aprendemos e é sempre bom verificarmos que há outras formas -- piores em determinados aspectos, melhores em outros -- de se enxergar e representar o mundo através de conceitos, símbolos ou fonemas.


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[1] Este link da wikipedia informa que o Oxford English Dictionary (2ed) inclui mais do que 600.000 palavras (entre termos correntes, antigos e técnicos), enquanto o dicionário Webster tem 475.000.
[2] Kister, Ken. "Dictionaries defined." Library Journal, 6/15/92, Vol. 117 Issue 11, p43, 4p, 2bw cited in wikipedia.
[3] A ciência aqui pode ser também entendida como uma linguagem, ou seja, um conjunto de conceitos que se associam a realidades físicas prováveis (da forma como os humanos a vêm ou interpretam) e relações ou regras pré-definidas sobre a forma segundo a qual tais conceitos se articulam.
[4] Cited on Mattews, PH. Linguistics, a very short introduction. pg 77.
[5] Mattews, PH. Linguistics, a very short introduction. pg 75.
[6] Cixous, Hélène. Conversations. In: Newton, KM (1997). Reprinted from Writing Differences: readings from the seminar of Hélène Cixous, ed Susan Sellers (milton Keynes, 1988), pp. 142-54.

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Sexta-feira, Março 27, 2009

Operação castelo de areia

ou Sobre as empresas e governo, o "novo" segundo poder

DISCLAIMER: Peço licença aos leitores deste blogue para desviar o assunto um pouco para a área política. Voltaremos em breve aos temas epistemológicos, evolutivos e filosóficos.

Nos dias de hoje, o segundo poder ao lado do governo não é mais a igreja, como aconteceu durante grande parte da história da civilização ocidental, como na idade média. O segundo poder consiste hoje na força do dinheiro, da economia de mercado e do capital -- força esta que está do lado das grandes empresas. Desde a revolução industrial no fim do século XVIII até hoje, o poder das empresas tem crescido assustadoramente e elas influenciam fortemente as decisões políticas daqueles países que hasteiam a bandeira do capitalismo, como é o caso da maioria dos estados no continente americano. É esta a crítica constante feita pelo filósofo Noam Chomsky -- em inúmeras obras -- à sociedade contemporânea nos Estados Unidos e em todo o mundo.

Um exemplo claro deste poder paralelo explodiu esta semana também no Brasil, onde a polícia federal (PF) deflagrou a operação chamada Castelo de Areia. Nesta operação, a construtora Camargo Corrêa é acusada de fazer doações ilegais a partidos políticos durante as eleições municipais de 2008. O que acho particularmente impressionante é que tais empresas não têm absolutamente nenhum alinhamento moral quanto à escolha dos partidos aos quais vão financiar. Talvez fosse "normal" que uma empresa tendo um alinhamento moral de cunho mais social (será que existe alguma assim?) ou prezando a economia de mercado, fizesse doações ao PT ou ao PSDB, por exemplo. Entretanto é assustador perceber que a Camargo Corrêa é agora acusada de fazer doações ilegais a sete partidos diferentes: incluindo o PSDB, PPS, PSB, PDT, DEM, PP e o PMDB. Ou seja, um número enorme de vereadores e prefeitos lhe deve agora "favores"... realmente esta é uma ótima estratégia para se conseguir o que se quer dos políticos. E parece ser desta forma que as empresas conseguem roubar de todos os cidadãos brasileiros, beneficiando apenas a si e certos políticos comprados. É uma vergonha que esta afronta ao ideal democrático aconteça em nosso país.

E se enquanto de um lado o nosso ex-presidente FHC ironiza o fato de que o PT tenha sido um dos únicos grandes partidos que não teria recebido verba desta empresa, de outro -- mais importante! -- parece extremamente normal aos políticos da mais alta hierarquia, o fato de suas campanhas serem financiadas ilegalmente por grandes empresas. É claro que tais financiamentos são posteriormente trocados pelos governantes por benefícios legais, licitações fraudulentas e vistas-grossas sob possíveis irregularidades. Nesta operação agora deflagrada pela PF, a Camargo Corrêa é acusada dos crimes de: evasão de divisas, operação de instituição financeira sem a competente autorização, formação de quadrilha, lavagem de dinheiro e fraude a licitações. Acusação, entretanto, sabemos bem... não é veredicto. Esperemos para saber qual coelho sairá deste mato.

Caso as acusações venham a se mostrar verdadeiras, entretanto, seria um caso de estudo interessante a ser apresentado ao filósofo e ensaísta político Noam Chomsky, um dos maiores intelectuais da atualidade -- autor de livros como "Lucro versus pessoas: neoliberalismo e a ordem mundial" e "Entendendo o poder". Chomsky ainda apresenta o conceito de tiranias privadas existentes na era moderna e que representam, segundo o autor, uma das mais fortes formas de tirania e totalitarismo já construídas pelos seres humanos [1].

E ainda sobre este assunto é interessante observar um artigo publicado no Observatório da Imprensa onde o jornalista Luciano Martins Costa critica a cobertura da imprensa ao caso. Costa compara este escândalo com o mensalão, questiona a imparcialidade da imprensa e sugere que certos periódicos tenham dado excessivo espaço para a defesa dos acusados. Finalmente, ele comenta sobre a posição do juiz "Fausto Martin de Sanctis, que acatou o inquérito da Polícia Federal e da Procuradoria da República e expediu dez mandados de prisão e quase vinte mandados de busca no caso atual." O juiz Sanctis parece ser um dos poucos membros do alto judiciário realmente empenhados em acabar com as irregularidades que acontecem nos mais diversos níveis do escalão do governo brasileiro. Mas considerando que sua luta é contra o enorme poder do capital, temos a certeza de que terá bastante trabalho. Coragem e boa sorte é o que devemos desejar-lhe.

=== Leia mais ===

[1] On "Private Tyrannies", by Ben O'Neill. http://mises.org/story/3304
[2] Noam Chomsky, 2001. Understanding Power: The Indispensable Chomsky. Cahners Business Information, Inc.
[3] Noam Chomsky, 2003. Profit over People: Neoliberalism and Global Order. Seven Stories Press.
[4] Noam Chomsky, 2006. Chomsky on Anarchism. AK Press.

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Quinta-feira, Fevereiro 12, 2009

Revoluções conceituais (kuhnianas) em Biologia Evolutiva desde Darwin

Estimulado pelo ducentésimo aniversário de Charles Darwin e pelos 150 anos de publicação da Origem das Espécies, escrevo este relato sobre a história das principais revoluções conceituais em biologia evolutiva desde Darwin.

Charles Darwin, o pai da teoria evolutiva.
Mostrou a toda humanidade -- com argumentos mais do que fortes -- que o homem não passa de outra espécie de macacos. O antropocentrismo humano é tão forte, entretanto, que até hoje implicações de sua teoria continuam a causar espanto e desgosto em círculos religiosos e dogmáticos.


O presente ensaio trata sobre as revoluções do pensamento evolutivo desde Darwin e sugere que -- embora por vezes drásticas -- as grandes revisões do pensamento evolutivo desde a segunda metade do século XIX até hoje permitem-nos continuar chamando o evolucionismo moderno sob a alcunha de Darwinismo.

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O ornitologista alemão Ernst Mayr, também um dos mais renomados biólogos evolutivos do século XX divide a teoria Darwiniana da evolução em cinco sub-teorias: 1) a evolução propriamente dita, 2) a ancestralidade comum, 3) o gradualismo, 4) o pensamento populacional e, finalmente, 5) a seleção natural (Mayr, 2004). Os anos que se seguiram após Darwin mostraram um grande número de incompreensões sobre o real significado de sua teoria -- ele próprio se referia a ela como uma única e ampla teoria. Em seu livro 'One Long Argument', Mayr apresenta nove diferentes usos do termo Darwinismo ao longo dos 80 anos que seguiram a publicação de A Origem das Espécies, em 1853 (Mayr, 1991). Apesar de que a evolução como oposta ao criacionismo e a ancestralidade comum foram logo incorporadas e aceitas como corretas pela maioria dos evolucionistas ainda no século XIX, muitas outras partes da teoria eram ainda vistas com ceticismo.

O primeiro ponto de discordância teórica foi resolvido ainda no século XIX pelo mais importante biólogo evolutivo deste século depois de Darwin (e Wallace). O alemão August Weissmann -- incrivelmente pouco mencionado nas histórias do pensamento evolutivo -- publicou em 1883 um livro chamado 'On heredity' que finalmente trazia um fim à idéia Lamarkiana sobre o uso e desuso de caracteres e a herança dos caracteres adquiridos. Weissmann propunha a chamada teoria do germoplasma, segundo a qual a herança poderia ocorrer apenas através de modificações em células germinativas; uma vez que as outras células do corpo não influenciavam as próximas gerações e, portanto, não poderiam agir como agentes de hereditariedade (Jacob, 1970; Weissmann, 1889). O próprio Darwin nunca conseguiu explicar a origem e modificação de caracteres e normalmente adotava uma visão Lamarckiana com relação ao uso e desuso de caracteres. Este ponto de vista de Charles Darwin pode ser extensivamente observado em sua obra publicada em 1872 'The expression of the emotions in man and animals'. Embora possa parecer à primeira vista estranho, Darwin explicava ainda muitos fenômenos naturais sobre uma óptica Lamarkiana. O termo neodarwinismo é frequentemente utilizado para expressar a reforma na biologia evolutiva realizada por Weissmann (Mayr, 2004).

Durante a primeira década do século XX, os trabalhos do monge austríaco Gregor Mendel foram redescobertos. Entretanto, a interpretação de seus trabalhos realizada principalmente pelo botânico holandês Hugo De Vries evidenciava uma característica saltacionista da evolução que se opunha fortemente ao gradualismo Darwiniano (Jacob, 1970). Posteriores desenvolvimentos deste campo de pesquisa no Reino Unido -- principalmente realizados por William Bateson -- vieram trazer o nascimento da genética como disciplina científica e fizeram proliferar a idéia do saltacionismo. Nesta época, o Darwinismo foi impopular como nunca (Mayr, 2004).

Seria apenas durante as décadas de 30 e 40 que uma nova revolução conceitual em biologia evolutiva tomaria lugar, acontecendo principalmente por influência dos estudos de Thomas Hunt Morgan na Universidade de Columbia, em Nova Iorque. Seus estudos em heredidariedade e evolução eram principalmente desenvolvidos em moscas-das-frutas do gênero Drosophila, tornando este um dos mais estudados organismos-modelo em todo o campo da biologia. Ainda segundo Mayr (1991), os estudos de Morgan e seus estudantes apontavam que a grande parte das mutações produzia efeitos pequenos o suficiente para permitir uma modificação gradual no fenótipo de populações ao longo do tempo; saltos repentinos preditos pela teoria saltacionista não eram mais necessários para explicar a evolução. Isso logo permitiu que teóricos como Fisher, Wright e Haldane descrevessem modelos teóricos mostrando que os alelos gênicos com pequena vantagem seletiva pudessem aumentar sua representatividade em populações ao longo do tempo e que isso poderia causar modificações drásticas no genótipo e fenótipo destas populações de uma maneira gradual. Esta nova reforma em biologia evolutiva, integrando gradualismo, mendelismo e a recém-formada genética de populações sob uma perspectiva Darwinista foi chamada de síntese Fisheriana (Mayr, 2004).

A próxima integração conceitual que tomaria lugar no maravilhoso campo da biologia evolutiva colocaria sob uma visão comum a genética de populações, a biodiversidade, padrões espaço-temporais e o pensamento populacional. O vanguardista Charles Darwin, portanto, vinha sendo integrado portanto, lenta e parcialmente, ao 'mainstream' paradigmático da teoria evolutiva. Esta nova integração deu-se ao reunir a visão da evolução que acontecia dentro de uma única linhagem de organismos (anagênese) e a visão da evolução entre diferentes linhagens ou populações (cladogênese). Enquanto os geneticistas de populações estavam interessados em explicar a evolução através de mudanças alélicas dentro de um grupo populacional, naturalistas estavam interessados em explicar como dois grupos populacionais poderiam originar espécies novas (através de especiação). A publicação do livro 'Genetics and the origin of species' por Dobzhansky em 1937 abriu as portas para a integração desses dois pontos-de-vistas inicialmente inconsistentes. Julian Huxley chamou esta reforma de teoria sintética da evolução ou nova síntese e ela foi melhor elaborada após a publicação de livros por Mayr, Simpson, Huxley e Stebbins -- cada um deles apresentando a síntese segundo uma perspectiva particular, para diferentes grupos de organismos. Finalmente havia sido compreendido por naturalistas que uma população não necessariamente precisa gerar uma nova espécie para permanecer adaptada (ela poderia apenas modificar-se dentro da própria linhagem); assim como havia sido entendido pelos geneticistas de populações como a separação geográfica poderia produzir dois ou mais grupos populacionais novos (raças ou espécies) através da acumulação e modificação de um número finito e particular de alelos gênicos.

Finalmente, a última grande revolução conceitual em biologia evolutiva veio através do desenvolvimento da biologia molecular. O dogma central de Francis Crick predizia que o fluxo da informação genética era unidirecional, finalmente explicando em nível molecular porque (de forma geral) modificações produzidas nas espécies pelo ambiente não poderiam influenciar e modificar diretamente o DNA. Esta observação corroborou em modo reducionista os estudos de Weissmann sobre a hereditariedade (Mayr, 1991).

A extrema similaridade entre o código genético e o funcionamento molecular de toda a vida conhecida pôde ser vista como uma evidência extremamente forte corroborando toda a teoria evolutiva -- vista em oposição ao criacionismo. Além disso, as impressionantes similaridades entre as sequências de genes e proteínas das mais básicas vias metabólicas entre bactérias, arqueobactérias, protozoários, fungos, plantas e animais (incluindo evidentemente o homem) pôde ser vista como o critério último -- um experimento crucial popperiano -- que certifica o fato de que a evolução biológica de fato ocorre e que os organismos definitivamente possuem uma história comum de ancestralidade que remonta até a origem da vida.

E é depois da enorme revolução causada pela biologia molecular; e ajudada por todas as revoluções conceituais anteriores, que a teoria evolutiva finalmente alcança sua completa maturação. Mayr sugere que a versão moderna da teoria evolutiva deva simplesmente ser chamada de Darwinismo.

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1. Jacob F. (1970) La logique du vivant: une histoire de l’heredité. Gallimard.
2. Mayr E. (2004) What makes biology unique?: considerations on the autonomy of a scientific discipline. Cambridge, UK: Cambridge University Press.
3. Mayr E. (1991) One Long Argument.: Charles Darwin and the Genesis of Modern Evolutionary Thought (Questions of Science). Cambridge: Harvard University Press.


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Este artigo consiste numa versão traduzida livremente e ligeiramente modificada da seção 3.1 do capítulo de livro Knowledge standardization in evolutionary biology: the Comparative Data Analysis Ontology (CDAO), escrito por mim e outros colaboradores que será publicado este ano (2009) no livro editado por Pierre Pontarotti, Evolutionary Biology from Concept to Application 2


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PÓS-ESCRITO

Novos fatores têm também contribuído para uma nova fase da teoria evolutiva moderna. Após a revolução da biologia molecular, novos dados moleculares puderam ser observados que sugerem um retorno ao lamarckismo -- ainda que de maneira moderada. Estudos em epigenética mostram que regiões do DNA podem ser metiladas (onde ocorre a adição de um radical metil -- CH3 -- a determinadas bases) e que esta metilação é induzida pelo meio ambiente e passada para a prole. O mesmo pode ser visto no chamado código das histonas, onde modificações nas proteínas histonas -- responsáveis pela compactação do DNA e formação da cromatina -- têm se mostrado herdáveis. Tais modificações estão frequentemente acontecendo ao longo da vida de um indivíduo e influenciam a atividade de genes de forma a silenciar ou super-expressar alguns deles.

De certa forma, portanto, a biologia moderna retoma a idéia lamarckista do ambiente influenciando a herança. Mas ao contrário de predições normalmente alarmistas sobre um "retorno do lamarckismo", a código epigenético não parece ser uma forma forte de herança -- e parecem limitadas as maneiras segundo as quais ele pode funcionar como transmissor de hereditariedade ou modificar o fenótipo de organismos. O estudo da epigenética não parece, portanto, revolucionar a biologia evolutiva, mas acrescentar um novo fator que deve ser levado em consideração em determinados casos especiais. Vai aqui uma promessa de me aprofundar sobre este interessante tema em postagens futuras...


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Quarta-feira, Fevereiro 11, 2009

Linguagem, epistemologia e teoria da ciência

O ser humano normalmente acredita excessivamente na fidelidade de seus conceitos para descrever a Realidade. Acredita-se piamente nas teorias científicas e na sua verificabilidade prática e certeza teórica. Sugiro aqui chamarmos aquele que tem esta visão de Associalista ingênuo, posto que ele associa conceitos limitados -- de bordas fuzzy [1] -- a uma suposta Realidade que ele pensa representar com excessiva precisão através de suas teorias. Muitos dos cientistas que conheci possuem este tipo de visão.

Já poetas e filósofos não são assim tão ingênuos. Eles sabem que a realidade e a existência per se vão muito além daquilo que conseguimos representar através de caracteres ou mesmo pela fala. Na experiência cotidiana, sente-se este buraco conceitual e lingüístico quando se relata um caso a alguém. Por vezes percebe-se uma falta imensa sobre a descrição do evento e não se consegue representar o caso real com tanto explendor, graça ou beleza. Normalmente a explicação acontece mais facilmente através de palavras (utterance) do que através de símbolos (escrita). Somos naturalmente melhores prosadores que escritores.

Minha mente e a representação do mundo que faço quando o enxergo é muito mais ampla do que aquela que consigo transmitir -- de qualquer forma imaginável -- aos outros seres humanos. As palavras e os conceitos são maneiras extremamente limitadas de representação da realidade e por isso, talvez, o cinema seja uma arte assim de tão forte apelo. Não é à toa que existe o ditado: "uma imagem vale mais que mil palavras". Por vezes esta noção é muito forte. [2] Como representar em palavras ou símbolos a emoção que se tem ao ver a Mona Lisa no museu do Louvre (e ter toda a história da cultura ocidental passando em sua mente)? Como expressar em palavras a emoção de se andar completamente perdido em meio aos guetos alagados de Amsterdã? Como representar o delírio de assistir uma palestra do Richard Dawkins ou do Stephen Hawking? Como dizer aos outros humanos o que se sente quando se faz amor com quem se ama de verdade? Isso é totalmente irrepresentável num papel ou mesmo numa conversa. A experiência sensorial, imagética ou mesmo racional que temos de vida é muito mais ampla do que aquela que podemos representar e a nossa forma de comunicação é absurdamente limitada para expressar a paixão humana e nosso sentimento aesthetico! E isso também se reflete fortemente na apreciação e na busca pelo conhecimento.


Com que palavras podemos expressar nosso enorme sentimento de admiração ao vermos de perto uma obra de arte que representa um marco em toda a história da cultura ocidental?
Mona Lisa (La Gioconda), pintura a óleo por Leonardo Da Vinci (1452-1519).




Um verdadeiro escritor sabe que às vezes não é possível passar um evento para o papel posto que nos faltam palavras para representá-lo ou, as palavras que existem não representam-no em toda sua dimensão e magnitude. O associalista realista reconhece o enorme abismo que existe entre as representações-da-realidade e uma possível Realidade per se, inalcançável.

Assim -- se tal abismo descrito é evidente para a vida cotidiana -- ele se torna ainda mais crasso e sério quando falamos de epistemologia e teoria da ciência. Grande parte dos conceitos que formamos em ciência são errôneos, incompletos e apresentam limites muitas vezes arbitrários, superpostos e até desconhecidos -- dependendo extremamente da interpretação que alguém faça deles [3].

Os humanos têm uma dificuldade enorme na expressão de sentimentos e categorização ou conceitualização de entidades ou relações do mundo dito Real. Todo o conhecimento e toda a ciência é feita através da troca de documentos explicativos: trabalhos científicos, livros, etc. Ou então através da comunicação de trabalhos em palestras e eventos, ou mesmo em conversas descompromissadas. E tais documentos ou disposições verbais são transmitidos através de palavras -- que por sua vez representam conceitos não muito claros. Ainda que uma Verdade última possa existir [4] o que sabemos sobre ela passa e passará sempre pelo filtro da linguagem, que é a forma como necessitamos representá-la para sermos capazes de nos comunicarmos e melhor compreendê-la. Não é possível haver ciência ou conhecimento sem linguagem, sem comunicação, sem conceitualização. Esta base linguística do conhecimento parece-me forte e inquestionável. Uma epistemologia ou teoria da ciência que não considere a enorme influência da linguagem e do problema de conceitualização do mundo será para sempre uma epistemologia manca.

SE 1) A Verdade está acima da linguagem
SE 2) O homem acessa e interpreta a Verdade através da linguagem
LOGO Para o homem, a verdade-conhecida dá-se através do filtro da linguagem
COROLÁRIO Jamais conheceremos aquilo que não conseguirmos conceitualizar

Finalmente, aquilo que conseguimos representar através da linguagem está intrinsecamente ligado aos nossos mecanismos sensoriais e cognitivos. Nossos cérebros e sistemas sensoriais funcionam de uma forma tal que é bastante limitada. Apenas conseguimos conceitualizar e compreender razoavelmente aquelas informações que conseguimos captar através dos órgãos do sentido e interpretar com esta capacidade de processamento cerebral que temos enquanto espécie. Se tivéssemos outros órgãos do sentido e outra forma de processamento cerebral, outra seria nossa ciência e nosso conhecimento. A questão que resta é: quão diferente seria nossa ciência se fosse outro nosso mecanismo sensorial ou nossa capacidade cerebral? O associalista ingênuo dirá que nossa ciência seria praticamente a mesma -- posto que acredita que acessamos a realidade de maneira fiel através de nossos métodos. O associalista realista dirá que nossa ciência seria bastante diferente.

(E tudo isso que descrevi pode ser entendido apenas com relação àquilo que os epistemólogos normalmente chamam de "contexto da justificação" das teorias científicas, ou seja, o fato delas consistirem em conhecimento verdadeiro justificável. Ainda há toda um ramo da epistemologia que trata sobre o "contexto da descoberta", onde fatores sociais, históricos, comerciais e brigas de poder influenciam fortemente e regem a maneira pela qual produzimos e avançamos o conhecimento. Tudo isso precisa ser levado em consideração caso desejemos entender os grandes fatores a moldar a forma como o ser humano produz conhecimento.) [5]

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[1] Li recentemente uma discussão bem interessante sobre este assunto no livro do cientista cognitivo Daniel Levitin "This is your brain on music".
[2] Um exemplo mais mundano: quando li no livro "O Gene Egoísta" sobre o fato dos leões matarem os filhotes das leoas pra que elas ficassem novamente no cio e tivessem filhos deles (ao invés de filhos do leão que anteriormente liderava o bando), isso não me chocou tanto quando vi o mesmo num documentário doDiscovery Channel.
[3] Lembro agora de uma citação na abertura de um capítulo do excelente livro sobre a corrida genômica de Kevin Davies "Cracking The Genome: Inside The Race To Unlock Human Dna". Infelizmente não tenho agora o livro em mãos, mas ele citava algum biólogo molecular notável que dizia: "se você pergunta o que é um gene, você nunca vai saber", exatamente evidenciando que o conceito de gene é um conceito altamente complexo e extremamente difícil de ser enquadrado dentro do modelo linguístico e conceitual que somos capazes de montar. Vale notar aqui -- defendendo meu ponto de vista -- que biólogos normalmente precisam ter conceitos fuzzy posto que a biologia não pode ser descrita com modelos assim tão diretos como aqueles utilizados nas ciências exatas como a física. A biologia é um ótimo modelo epistemológico para evidenciar esta desconexão entre Realidade e representação-da-realidade.
[4] Embora não precise necessariamente existir.
[5] Metalinguisticamente, este texto também não representa com fidelidade ideal o que penso sobre o assunto. Se estas limitadas palavras me permitissem expressar com clareza, o leitor veria que o mundo Real da minha experiência sensorial estaria completa e totalmente desvinculado deste mundo de conceitos que criamos para descrevê-lo, em maior ou menor grau. Minha experiência de vida não pode nem poderá jamais ser reduzida a um livro ou a um relato. Ela transcende enormemente tudo isso e ninguém será capaz de compreender realmente a vida de outra pessoa que senão de si mesmo.

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Quinta-feira, Novembro 13, 2008

Notas sobre Lamarck


Jean-Baptiste Pierre Antoine de Monet, Chevalier de Lamarck (Bazentin, 1 de agosto de 1744 — Paris, 28 de dezembro de 1829) foi um importante naturalista francês. Foi ele quem primeiro teve a idéia da relação do ambiente com os organismos e, portanto, a idéia de adaptação que culminaria posteriormente na seleção natural. Segundo alguns foi ele que, de fato, introduziu o termo biologia.


Faz pouco tempo que entendi realmente o que Lamarck pensava sobre a Origem das Espécies. A questão muito estressada nos colégios e tida como diferença clara entre a visão de Lamarck e Darwin consiste no seguinte ponto:

Para Lamarck acontecia a adaptação ao ambiente e esta adaptação obtida ao longo da vida do indivíduo, era passada diretamente para a prole. Esta teoria é chamada de "herança dos caracteres adquiridos". Na visão darwinista simplificada explicada nos colégios, a variação acontece aleatoriamente e os indivíduos que dão sorte de serem mais aptos reproduzem-se mais e passam seus genes para a próxima geração.[1]


O caso da girafa é aqui dado como grande exemplo. Para Lamarck, as girafas -- durante suas vidas -- aumentavam seu pescoço ao se esforçarem para conseguir alimento nas copas mais altas das árvores. Esse esforço adquirido ao longo de suas vidas seria passado diretamente para a prole que, já na próxima geração, nasceria com um pescoço maior. Para Darwin, haveria dentre a população de girafas uma variação natural, onde algumas já teriam pescoços maiores ou menores. Esta variação já existia na população. E assim aquelas apresentando pescoços maiores conseguiriam alimento mais facilmente e reproduzir-se-ão mais do que as de pescoço curto (se isso for realmente uma pressão ambiental) e assim a próxima geração de girafas apresentaria indivíduos com pescoços maiores. Isso deve-se ao fato de que as girafas que já tinham pescoços maiores reproduzem-se mais do que as outras. É justamente a diferença na taxa reprodutiva que caracteriza adaptação. [2]

Este exemplo explica bem a teoria e fica simples perceber que a evolução pregada por Darwin é mais gradual e lenta do que aquela pregada por Lamarck [3]. Mas para entendermos de fato isto, precisamos entender que faltava a Lamarck também o chamado pensamento populacional.

A idéia de evolução estava presente em Lamarck [4] apenas no sentido de evolução em uma única linhagem. Para Lamarck não existia a idéia de que dois grupos de uma mesma população original podiam se dividir no espaço e adaptarem-se diferentemente a dois ambientes diferentes [5], acumulando variações diferencialmente e sendo selecionados pelo ambiente. Já do princípio falta à teoria lamarkiana pelo menos dois conceitos básicos dispostos posteriormente com elegância por Darwin, a saber: o "pensamento populacional" e a ancestralidade comum entre as espécies. Isso sem falar, obviamente, da seleção natural. Resumindo e repetindo: Lamarck acreditava que as espécies evoluíam dentro de sua própria linhagem no sentido da maior adaptação, mas jamais uma espécie seria ancestral de qualquer outra. Se compreendi verdadeiramente bem, parece que Lamarck tinha um pensamento evolutivo que vai apenas em direção ao futuro, ele jamais pensou em dizer que os organismos tinham ancestralidade comum.

Tenho a impressão de que, em Lamarck, ainda há o pensamento da grande cadeia dos seres, que coloca o homem no topo da adaptação [confirmar esta informação]. Segundo este pensamento todas as espécies acabariam chegando ao ser-humano se continuassem a evolução ao longo de sua linhagem. Este foi um pensamento antropocentrista que foi muito difícil para Darwin destruir. Tirar o homem do topo e colocá-lo ao lado de qualquer outra espécie foi uma atitude que mexeu com os brios de alguns. E neste ponto, a teoria darwiniana está em pé de igualdade filosófico com a teoria heliocêntrica. De fato, estes foram grandes pontos de viradas conceituais na história da ciência: a revolução copernicana e darwiniana. Ambas tiraram o homem (ou seu planeta) do centro do universo. Ainda hoje quando explico evolução a alguns amigos formados nas melhores universidades, dentre outros músicos e intelectuais, percebo que muitos deles ainda pensam no homem como o topo dos animais e não entendem corretamente o conceito de ancestralidade comum. [6] Esta é uma grande deficiência na educação de nossa população.

Lamarck, entretanto, primou por desenvolver nos biólogos da época a idéia de evolução dos organismos, adaptação e mudança ao longo do tempo. Certamente isso ajudou -- de alguma forma -- a teoria darwiniana em ser aceita tempos depois. Seus contemporâneos não deram muito crédito à teoria de Lamarck, talvez por que a França estivesse sob a influência do grande naturalista Georges-Louis Leclerc de Buffon à época. Lamarck é citado como discípulo de Buffon. Este último, embora gostasse das idéias do aluno, parecia não considerá-las muito sérias. [7][8]


== NOTAS ==

[1] Darwin de fato tinha dúvidas sobre o assunto e por várias vezes argumentou em prol da herança dos caracteres adquiridos (ver o livro "A expressão das emoções nos homens e nos animais"). Esta teoria só foi de fato refutada por experimentos do mais importante evolucionista do século XIX pós-darwin e fora das discussões recorrentes na Inglaterra victoriana, o alemão August Weissmann.
[2] Segundo critérios estritamente darwinianos, poder-se-ia dizer hoje que os europeus seriam menos adaptados do que outras populações em países em desenvolvimento, uma vez que eles têm menos filhos -- e assim contribuem menos para o pool genético futuro da humanidade. Os chineses que, devido a problemas de super-população no país, só podem ter um filho se quiserem ter seus direitos de cidadão também poderiam ser considerados hoje darwinianamente menos adaptados -- no caso deles, já foram muito adaptados no passado e, por isso, consistem em 1/3 da população mundial.
[3] Ainda que Mayr tenha dito que a evolução para Lamarck era gradual, este "gradual" lamarckiano atua mais rápido que o gradual de Darwin. O gradualismo lamarckiano está somente ligado ao fato de que a evolução ocorre etapa por etapa. Mas estas etapas se sucedem rapidamente para Lamarck, pois a adaptação é passada à prole em uma única geração. O gradualismo darwiniano é muito mais lento pois incorpora o pensamento populacional e o fato de que as adaptações podem acontecer ligeiramente e causarem um efeito "bola-de-neve" que tornará pouco a pouco as populações descendentes diferentes das populações originais.
[4] Ao menos segundo poucas leituras diretas dele e muitas interpretações de Mayr.
[5] Conceito de evolução alopátrica (parapátrica).
[6] Para um texto de divulgação científica sobre o assunto, leia: Ancestralidade comum e o tribalismo
[7] E depois desta postagem fico necessariamente devendo uma próxima sobre a ancestralidade comum, talvez a maior das sacadas de Darwin. Quando Mayr divide a teoria darwiniana em cinco e as analisa separadamente, a ancestralidade comum foi aquela que foi primeiramente aceita sem dúvida por quase todos os biólogos da época. Ela tinha um poder explicativo enorme dentro do que os epistemólogos chamam do contexto da justificação. Um trecho que costumo citar de Mayr: "Mesmo aqueles que não acreditavam em recapitulação estrita com frequência descobriam similaridades em embriões que eram apagadas em adultos. Tais similaridades, como a corda em tunicados e vertebrados e arcos branquiais em peixes e tetrápodes terrestres, foram totalmente desconcertantes até ser interpretadas como vestígios de um passado comum". Em alguma postagem futura, explicarei isso melhor.
[8] Ainda sobre Lamarck, é possível acessar sua obra mais importante inteira na wikipedia. É preciso saber um pouco de francês para lê-la, porém é possível entender alguma coisa para quem fala apenas português. Eis o link para a obra: http://fr.wikisource.org/wiki/Philosophie_zoologique

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Quarta-feira, Outubro 29, 2008

Modificações concetuais em biologia evolutiva: o caso do termo "espécie"

From these remarks it will be seen that I look at the term species, as one arbitrarily given for the sake of convenience to a set of individuals closely resembling each other, and that it does not essentially differ from the term variety, which is given to less distinct and more fluctuating forms. The term variety, again, in comparison with mere individual differences, is also applied arbitrarily and for mere convenience sake. (Darwin, The Origin of Species, 1859)


Estava agora há pouco lendo um livro do naturalista Ernst Mayr sobre a história da teoria da evolução darwiniana. Percebi que é muito difícil tentar pensar uma teoria científica com a cabeça que as pessoas tinha à época em que ela tenha sido descrita. As grandes generalidades da teoria da evolução de Darwin já foram hoje tão minuciosamente comprovadas em tantos diferentes experimentos, que é praticamente impossível acreditar que alguém, em algum tempo, já tenha duvidado dela. É claro que falo de pesquisadores sérios e estudiosos da área. Entretanto, li agora no texto de Mayr algo que me chocou. Ainda que isso possa ser óbvio, jamais havia atentado-me ao fato. Explico-me: o conceito de espécies que temos hoje em biologia e que entendemos como o mais claro e abrangente consiste no chamado conceito biológico de espécies. Ele diz que uma espécie consiste num grupo populacional fechado reprodutivamente. Assim, a barreira entre as espécies vem do fato de que indivíduos de uma mesma espécie são capazes de se reproduzir com prole fértil, infinitamente (ao menos na teoria). Por conseqüência, indivíduos de espécies diferentes não são capazes de se intercruzar produzindo prole (fértil). É bastante difícil para mim pensar no conceito de espécie sem associá-lo a esta questão da barreira reprodutiva.


Biologia: ciência única. Excelente livro do evolucionista Ernst Mayr publicado em 2004 (quando Mayr comemorava seu centésimo aniversário) e que serviu de base para esta divagação. Mayr explicita o estatus da questão sobre o termo "espécie" em Darwin e seus contemporâneos.

Arrisco-me a dizer que este conceito de reprodução-com-prole-fértil chega a ser completamente intuitivo para qualquer biólogo moderno. Acontece que este conceito, e era isso que Mayr expunha naquelas páginas, houvera sido articulado por ele mesmo, dentre outros, aproximadamente entre as décadas de 30 e 40. Ou seja, no século XX! Quando Darwin publicou seu livro clássico em 1859, provavelmente mal sabia definir um conceito claro sobre o que era ou não era uma espécie. A epígrafe que inicia esta exposição torna clara esta afirmação. À época, o que existia era antes um conceito tipológico de espécies. Ou seja, organismos de espécies diferentes eram aqueles que apresentavam determinadas características -- normalmente em forma -- distintas entre si. Certamente, entretanto, a quantidade e a qualidade destas características necessárias para se considerar certa variedade como nova espécie eram temas de discussão entre os taxonomistas da época. Mas o que quero ressaltar aqui, é que o conceito de tempo contínuo onde as espécies se intercruzam e se modificam, gerando novas variedades, não era sequer compreendido pelos pesquisadores quando falavam entre si sobre espécies. O pensamento sobre espécies à época de Darwin era definitivamente fixista. Quando Mayr, em outro livro, separa a teoria darwiniana em cinco sub-teorias, uma delas é chamada de "evolução propriamente dita" e significa exatamente este pensamento segundo o qual os organismo evoluem e se modificam uns nos outros ao invés de surgirem a partir de um molde platônico ou divino. Apesar de absurda, esta teoria era tida como certa mesmo pelos principais e mais sérios biólogos evolucionistas do século XIX, como Buffon por exemplo. Foi Lamarck o primeiro a dizer que as espécies mudam umas nas outras, embora ele mesmo acreditasse que elas evoluíssem dentro de uma mesma linhagem. Lamarck nunca acreditou na ancestralidade comum entre espécies, porém na evolução e modificação de linhagens separadamente. Até Darwin, simplesmente não existia sequer o conceito de homologia de caracteres, ou seja, o fato de que duas estruturas ou comportamentos em determinados animais são idênticos porque estes animais haviam sido um só animal num passado. Assim, explicava-se o fato de que dois animais eram mais parecidos entre si justamente devido ao acaso -- ou ao gosto divino. Esta teoria da criação divina entretanto tem um conteúdo empírico muito menor do que a homologia de caracteres e é muito menos parcimoniosa -- menos provável -- do que a teoria da ancestralidade comum. Entretanto, era este o pensamento dos pensadores sérios à época. (Veja que não falo de religiosos.) Tanto é assim que Mayr fala, um pouco mais à frente no mesmo capítulo: "Mesmo aqueles que não acreditavam em recapitulação estrita com frequência descobriam similaridades em embriões que eram apagadas em adultos. Tais similaridades, como a corda em tunicados e vertebrados e arcos branquiais em peixes e tetrápodes terrestres, foram totalmente desconcertantes até ser interpretadas como vestígios de um passado comum".



Livro de Charles Darwin: a expressão das emoções nos homens e nos animais. Durante a leitura deste livro fica clara a confusão de Darwin com relação à origem das variedades e quanto à transmissão das características para a prole. Estes problemas só foram inicialmente resolvidos depois da redescoberta dos trabalhos de Mendel e da descoberta da estrutura do DNA por Watson e Crick, quando ficou finalmente claro como acontecia a herança biológica em nível molecular. [Veja nota 1]

Através então da teoria da ancestralidade comum, que separa as espécies no tempo, somada à teoria da especiação alopátrica, que separa as espécies no espaço, Darwin foi finalmente capaz de concluir sobre como surgia e se estabelecia a diferenciação entre as espécies viventes. Grupos da mesma espécie viajavam para locais diferentes e cada um dos grupos se adaptava particularmente às condições ambientais existentes no local. O processo da seleção natural podia ser visto entre as ilhas Galápagos com seus tentilhões. Tentilhões de uma ilha tinham bicos adaptados para comer exatamente o tipo de alimento que estava presente naquela ilha. A natureza havia de certa forma selecionado variedades adaptadas às condições locais. O próximo problema com que Darwin se deparou então foi: como será que a natureza seleciona essas variedades mais adaptadas? Darwin titubeia neste ponto em várias passagens em "A origem das espécies" e também em outras de suas obras. Por vezes, parece concordar com Lamarck, que acreditava no surgimento espontâneo das características e na transmissão dos caracteres adquiridos (durante a vida) para a prole. Ele repete este argumento incessantemente no livro "Da expressão das emoções nos homens e nos animais". Há passagens, entretanto, na Origem das espécies em que Darwin toma partido do fato, hoje tido como verdadeiro, que as variações surgem aleatoriamente na população. Aquelas que trazem benefício, entretanto, são "escolhidas" pelo processo cego de seleção natural para serem mantidas. Explico-me melhor: o que quero dizer aqui é que dentro da população de tentilhões que habitam as ilhas, haviam aqueles que apresentavam variações nas cores das penas, variações no tamanho de seus membros, no tamanho de órgãos internos, variações comportamentais e etc. Entretanto, muitas destas características variantes que não faziam os indivíduos que as apresentassem sobrevivessem mais ou melhor. Mudar o formato do bico, entretanto, fazia com que aqueles que apresentassem -- ao acaso -- um bico ligeiramente modificado, pudessem conseguir e processar melhor o alimento. E esta característica fazia com que estes reproduzissem mais e deixassem uma maior de prole. A seleção natural está sempre ligada à reprodução diferencial dos mais "aptos". Vale lembrar aqui o caso clássico das mariposas brancas e negras durante a revolução industrial na Inglaterra. Rapidamente, com o acúmulo de fumaça, as mariposas brancas ficaram mais à vista dos predadores do que as negras, tendo estas últimas reproduzido mais no novo ambiente por não serem tão predadas quanto às brancas -- as negras camuflavam-se pela sua cor nos muros ingleses e assim não eram vistas pelos predadores. O fato de existirem as variedades brancas e pretas surgiu aleatoriamente -- da mesma forma que há seres humanos brancos e negros -- antes da revolução industrial. Porém até antes da transformação ambiental do surgimento da indústria e da fumaça, não havia uma relação clara entre a cor da mariposa e o número de prole que ela produzia. Assim, é preciso notar que o variante bem sucedido ao novo ambiente já existia na população original. Só que ambas as mariposas reproduziam-se em quantidades iguais.

Adiciono mais um aspecto que pode estar associado ao caso dos tentilhões -- embora não esteja certamente associado ao caso das mariposas: talvez tenha sido justamente uma variação morfológica que tenha tornado alguns indivíduos de um grupo mais adaptados a determinado ambiente -- e que esta tenha sido antes a causa (não a consequência) da migração do grupo para uma determinada área. A seleção então não teria começado com uma modificação no ambiente, porém com um surgimento de uma nova variedade que permitiu a exploração do ambiente novo, como por exemplo, a quebra de alguma castanha ou fruto dado a uma variação ocorrida no bico. (É claro que a castanha mais facilmente aberta pelo "novo" bico já deveria existir e, assim, retorna-se ao ambiente como causa primeira.) Assim a espécie passou a ocupar um novo nicho -- no caso, um novo tipo de alimentação -- devido a uma variação morfológica que tenha se mostrado adaptativa.

De qualquer forma, embora haja controvérsias, normalmente se diz que a teoria darwiniana da evolução baseia-se, principalmente, na especiação alopátrica ou parapátrica, ou seja, na especiação que está associada a disseminação geográfica de populações de uma mesma espécie.

Mas há também as plantas, onde sempre foram conhecidos casos de espécies bastante similares vivendo em um mesmo ambiente (simpatria). Isso de alguma forma ia contra a teoria da especiação por adaptação local. Afinal: se duas espécies similares estivessem na mesma área, era de se esperar que tivessem exatamente as mesmas adaptações. Se não fosse assim, onde afinal estaria a força da seleção natural a moldar a biologia dos organismos? Tenho a impressão de que Darwin deve ter passado algumas noites sem dormir pensando no problema. Para solucionar este aparente problema de inconsistência -- quando duas espécies vivem no mesmo ambiente e apresentam diferentes adaptações --, Darwin tirou da cartola um novo conceito chamado de "princípio da divergência" ("Darwin's principle of divergence". Journal of the History of Biology, 25: 343-59, 1992), do qual voltarei a falar noutra postagem. Por ora resta saber que a teoria moderna prega que a modificação ambiental é sim importante, mas ela deve estar acoplada ao surgimento (aleatório) de uma modificação em nível genômico que culmina em uma diferença fenotípica que pode ser vantajosa a um indivíduo. Por exemplo: talvez fosse interessante para os humanos se nós pudéssemos enxergar no comprimento de onda do ultravioleta (assim como as abelhas o fazem). Entretanto nosso genoma jamais se modificou de uma certa forma que nos dotasse com órgãos para enxergar o ultravioleta (de fato, provavelmente seriam necessárias uma grande série de modificações). E assim, por mais que isso pudesse ser vantajoso, tal característica nunca aconteceu de evoluir em nossa linhagem evolutiva. Diz-se, assim, que a evolução tem um aspecto contingente (aleatório + histórico).

Mayr finaliza: "O tratamento da especiação por Darwin na obra 'A origem das espécies' revela sua confusão acerca de espécies e especiação. Isso não foi esclarecido até a síntese dos anos 1940." A conclusão epistemológica que alcanço é que é bastante difícil para o historiador e filósofo da ciência moderno, entender exatamente qual era o estágio do pensamento dos pesquisadores envolvidos em qualquer discussão científica do passado [Veja nota 2]. Com relação a esta nota, quando leio os escritos de Darwin e Lamarck e Buffon preciso educar minha mente para entender que aquilo que eles chamam pelo nome de espécie está relacionado organismos apresentando certas diferenças ou semelhanças morfológicas; e não ao conceito moderno -- este relacionado à barreira reprodutiva. Naturalistas do século XIX tinham em espécie um conceito tipológico, não biológico.

Há um enorme número de conceitos que foram apenas recentemente inventados e devidamente entendidos por pesquisadores no campo das ciências biológicas. Tais conceitos são tão evidentes para o pesquisador atual que é difícil se ver livre deles e pensar com a cabeça dos cientistas do passado quando estudando a história da ciência. É claro que a leitura de seus relatos facilita a compreensão, mas por vezes não se sabe muito bem o que pensavam sobre diversos aspectos relacionados à hereditariedade ou mesmo à fisiologia e ao desenvolvimento dos organismos. A questão da espécie foi apenas um exemplo e há toda uma enorme sorte de conceitos que eram compreendidos diferentemente por estes pesquisadores do passado, em qualquer área do conhecimento. Lembro que durante minha graduação em biologia, tanto eu quanto uma amiga estávamos lendo ao mesmo tempo o livro de Darwin "Da expressão das emoções nos homens e nos animais" que havia sido recentemente relançado por uma grande editora brasileira. Tive a sorte de perceber rapidamente um pensamento associado ao lamarckismo em Darwin, onde ele sugere que tenha acontecido mesmo a herança das características adquiridas. Minha colega não percebeu o fato até que comentássemos juntos o livro e teria tido uma má compreensão da teoria darwiniana moderna se não tivéssemos esclarecido o ponto em conjunto. Assim, é precisamos tomar cuidado e estarmos atentos quando lemos obras histórias posto que o conceito apresentado pelos estudiosos pode ser um conceito já excessivamente modificado e alterado ao longo das discussões e da evolução da linguagem e dos conceitos científicos. A leitura de relatos históricos deve ser acompanhada de textos explicativos que apresentem exatamente estes pontos ao leitor para que ele se dê conta da evolução da linguagem, evolução do pensamento científico, modificação conceitual e etc.


Thomas Kuhn, O caminho desde a estrutura. Livro do filósofo e historiador da ciência Thomas Kuhn, onde ele expande seus argumentos brilhantemente apresentados em sua obra clássica "A estrutura das revoluções científicas". Aqui ele discorre mais diretamente com relação à questões linguístas e conceituais que ocorrem durante as revoluções científicas. O conceito de que o pesquisador deve ser bilingue para entender dois sistemas conceitual é explorado com certo detalhe.


Vale notar ainda que este tipo de reforma conceitual foi excessivamente bem discutido e formulado por Thomas Kuhn em seu livro "O caminho desde a estrutura". Ao comparar principalmente Newton e Einstein, Kuhn apresenta exemplos onde os termos matéria, massa ou energia eram aplicados diferentemente por cada um desses teóricos. A energia de Einstein não é a mesma energia de Newton, assim como o conceito de espécie moderno não é o mesmo tido como certo por Darwin. Kuhn diz que o verdadeiro historiador e filósofo da ciência precisa ser de certa forma "bilíngue" para que possa realmente compreender as revoluções conceituais dentro de seu campo de pesquisa.

Enfim, torna-se também essencial que os pensadores e pesquisadores de uma determinada época escrevam textos simples e genéricos para mostrarem aos historiadores e pesquisadores do futuro qual o grau de evolução conceitual em que eles se enquadram com relação às teorias que discorrem sobre. Como se não bastasse, a fabricação destes textos ajuda também na importante tarefa do filósofo e do cientista em passar seu conhecimento por meio de textos tão simplificados quanto o possível para o grande público. Educar a população deveria ser algo tomado como dever por todo cientista. Sejamos todos divulgadores do conhecimento!

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[Nota 1] A idéia moderna da herança dos caracteres adquiridos só realmente extinta no fim do século XIX através do trabalho de um grande evolucionista muito pouco conhecido mesmo pelos biólogos. Foi August Weismann que extinguiu finalmente a teoria da herança dos caracteres adquiridos. De qualquer forma, a forma como acontecia a herança de caracteres e sobre como era transmitida a informação teleonômica para "montar" um novo organismo foi inicialmente teorizada nas décadas de 30 e 40 quando os trabalhos de Mendel foram observados e analisados em uma perspectiva darwiniana. Finalmente, o cluster conceitual da biologia evolutiva moderna só foi realmente colocado dentro de um cenário compreensível e bem estruturado alguns anos depois que o trabalho de Watson e Crick foi publicado (1953).

[Nota 2] Por sinal, lembro agora de um livro muito bom que me ajudou a percorrer este espaço científico conceitual do passado, com relação à história das ciências biológicas. O livro se "A lógica da vida" e foi escrito por Jacques Monod contando a história das revoluções conceituais no campo da biologia e, particularmente, com relação á biologia evolutiva. Altamente recomendado!

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Para saber mais:

Ernst Mayr: http://en.wikipedia.org/wiki/Ernst_Mayr
Charles Darwin: http://en.wikipedia.org/wiki/Charles_Darwin
O problema das espécies: http://en.wikipedia.org/wiki/Species_problem
Thomas Kuhn: http://en.wikipedia.org/wiki/Thomas_Kuhn
August Weismann http://en.wikipedia.org/wiki/August_Weismann

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Quinta-feira, Outubro 23, 2008

Considerações sobre as religiões


As religiões, ao que me consta, podem ser todas consideradas como oriundas de um sentimento que todo ser humano tem de maravilhamento com relação ao mundo, à natureza, ao universo, às relações humanas. Este profundo sentimento que por vezes nos assalta não é, entretanto, exclusivo dos seres humanos ditos "religiosos". É perfeitamente correto afirmar que grande parte dos cientistas, filósofos e poetas -- muitos deles, descrentes completos -- têm forte em si este sentimento de maravilhamento com relação ao mundo sem que para isso professem qualquer religião. E sem também que acreditem em qualquer entidade suprema a reger, comandar ou observar o mundo e as vidas das pessoas.

As religiões institucionalizadas consistem em clusters conceituais simples que permitem o ser humano médio encontrar um sentido em meio à complexidade sem-sentido que o mundo apresenta-se a nós. Muitos intelectuais bem educados, entretanto, não necessitam de um sistema conceitual que lhes explique o mundo porque eles sabe muito bem que:
(1) as explicações conceituas dadas por toda e qualquer religião são stricto senso falsas;
(2) há uma infinidade de explicações concorrentes (outras religiões) tão boas quanto quaisquer outras e não há critério de objetividade capaz de ajudar na escolha da "menos improvável";
(3) é possível aceitar a falta de sentido do mundo ao invés de adotar qualquer sistema explicativo sabidamente falso, ainda que internamente coerente;
(4) as religiões institucionalizadas confundem o símbolo religioso com a mensagem que este deveria passar;
(5) é possível apreciar e maravilhar-se com a beleza do mundo sem precisar necessariamente ligar esta adoração a qualquer sistema dogmático pré-definido.

EXPLORANDO OS ARGUMENTOS ENUMERADOS

(1) As explicações conceituais religiosas são falsas

Religiões não precisam de nenhum tipo de prova teórica ou factual, sendo baseadas principalmente em um sistema de conceitos arbitrários (dogmas) e na virtude da aceitação destes sistemas conceituais, apesar de sua incoerência ().

Assim, a fé consiste na aceitação explícita dos dogmas arbitrários, ainda que certo número de observações do mundo real contradigam esta aceitação. Tão mais virtuoso é o crente quanto mais o mundo vai contra o sistema conceitual dogmático e ele, não obstante, continua a aceitar sua religião justamente por ter uma fé assim-tão-grande na veracidade deste sistema de regras e premissas.

A fé pode ser comparada ao conceito de duplipensar orwelliano [1], que consiste no fato de ser capaz de aceitar e verificar fatos que contradizem uma certa teoria e continuar acreditando nesta teoria mesmo que as evidências para tal sejam ínfimas, ridículas ou falsas -- num sentido lógico e racional. É justamente por isso que (a) a fé vai contra a ciência, (b) a fé é uma ótima ferramenta de controle de massas e (c) as religiões são talvez os mais estáveis sistemas meméticos existentes (memeplexos). Ou seja, (i) se nada no mundo real pode colocar um indivíduo contra uma teoria e se (ii) a maior virtude de um indivíduo consiste na aceitação de tal teoria, apesar de toda e qualquer evidência em contrário; conclui-se que não há como derrubar tal teoria.

(A única forma que o indivíduo tem para se libertar de sua religião é questionar sua fé. Entretanto, se ele estiver mesmo envolvido no memeplexo religioso, questionar esta fé é ser menos virtuoso. Assim o indivíduo duplipensa sua dúvida e continua ligado à religião.)

Assim, a fé está além da razão. A fé consiste na negação da razão e na crença que um sistema conceitual fechado (dogmas de uma determinada religião) é mais válido do que a análise racional de casos particulares. Acredita-se mais na coerência de um sistema de explicação conceitual do que na aplicação da razão e da observação cuidadosa em todo e qualquer caso.

(2) Há uma infinidade de explicações concorrentes tão boas quanto quaisquer outras

Assim como o catolicismo tem um sistema conceitual fechado que deve ser aceito pelo crente, o mesmo vale para o judaísmo, o islamismo, o espiritismo, etc. Os sistemas conceituais religiosos, se realmente levados à sério e lidos tal como prega cada uma de suas doutrinas, são incoerentes entre si. Os judeus ainda esperam seu messias enquanto os católicos têm Jesus Cristo. Enquanto o espiritismo prega a reencarnação, o cristianismo prega uma morte única e uma vida eterna em seguida. Assim, os sistemas de crenças religiosas são incompatíveis e o crente, a rigor, não deveria poder apresentar mais de uma religião se ele fosse entendê-las e nelas acreditar exatamente de acordo com seus sistemas conceituais dogmáticos. [2]

Além disso, um agnóstico que olhe a todos os sistemas conceituais religiosos indiscriminadamente, na tentativa de achar mais coerência aqui ou ali, ou tentando escolher uma religião para si de maneira racional, não terá como julgar sobre um "melhor" sistema se utilizar critérios baseados na razão. Cada religião tem uma resposta diferente. Cada religião tem um conjunto básico de dogmas distinto e não há um critério último de objetividade que possa fazer um agnóstico decidir-se pela religião "mais provável de estar correta". E o que se vê em comum entre as religiões consiste no fato de recompensarem aqueles fiéis que aceitam seu conjunto conceitual com o título de "virtuoso".

Enfim, há teorias que apontam que o sentimento de desenvolvimentismo surgido talvez na Europa e que culminou no mundo moderno deveu-se de certa forma ao cristianismo. Assim, pensadores cristãos apontam para uma maior virtude do cristianismo sob as outras religiões usando este critério. Enfim, o mundo moderno não é lá muito igualitário e há diversos problemas da modernidade que decorrem justamente deste tipo de desenvolvimentismo cristão. A pergunta que coloco é: não teria sido melhor se tivéssemos nos desenvolvido baseando-nos em algum tipo de religião oriental mais filosófica e contemplativa, como o budismo? Não daríamos mais valor ao humanismo e ao ambientalismo? Provavelmente sim, às custas de outros problemas que talvez viessem de carona. E, assim, continuamos sem poder dizer explicitamente sobre virtudes ou problemas entre religiões. Por ora, todas podem ser colocadas no mesmo saco e ditas como iguais. Todas são baseadas em dogmas sabidamente falsos e enganam direta e forçosamente o crente ao fazê-lo acreditar em tais pseudo-verdades.

(3) Muitos humanos são capazes de aceitar o mundo sem explicação

Dado que todos os sistemas de crenças baseiam-se em sistemas conceituais dogmáticos evidentemente falsos e enganadores, por que aceitar qualquer um deles? Por que acreditar num Deus pessoal quando não se tem nenhuma prova ou evidência de sua existência? Por que acreditar em uma "energia controladora" quando também não se pode vê-la, a menos que se aceite a priori sua existência? Enfim, por que acreditar em um determinado sistema de articulação de conceitos quando sabemos de sua falsidade e de sua tentativa grosseira de nos enganar ao nos dar o rótulo de "virtuoso" ao acreditarmos nela? O homem precisa se ver livre da dominação de si pelos memeplexos.

Se não há sistema coerente de crenças que passe por todos os questionamentos racionais, por que acreditar em algum deles? Por que a sociedade de certa forma exige que um indivíduo tenha uma religião? Por que qualquer religião dá ao indivíduo um virtuosismo que o ateísmo não lhe dá -- ao menos na visão dos crentes? A resposta está ligada ao fato de que os crentes se identificam uns com os outros pelo fato de acreditarem em algum sistema conceitual dogmático e então se separam do resto da população -- ateus e agnósticos -- que negam ou simplesmente duvidam da existência de um sistema fechado de crenças coerente que possa explicar as absurdidades do mundo que nos cerca.

A questão que se coloca entre ateus e agnósticos é a seguinte: por que devemos acreditar em qualquer sistema de crenças que sabemos incorreto e limitado? Por que não podemos simplesmente negar ou duvidar destes sistemas? Ateus e agnósticos estão no mesmo barco posto que não aceitam os sistemas de crenças vigentes e são perfeitamente capazes de tocarem suas vidas, apesar de suas incompreensões sobre o mundo. Eles não buscam respostas fáceis para o problema existencial. Eles buscam respostas eficientes e reais. Como não acham, ficam satisfeitos com a falta destas respostas.

Psicologicamente falando, talvez esta posição seja mais difícil de sustentar dentro de uma psiquê humana. Toda uma corrente existencialista oriunda dos escritos de Sartre tenta, de uma maneira assaz filosófica, criar um arcabouço teórico e prático para aqueles que compartilham de uma dúvida constante sobre suas origens e sobre o sentido de estarem vivos. Como bem define Sartre: o existencialismo é uma corrente filosófica e psicológica que tenta explicar a existência e o ser humano a partir de uma posição atéia coerente. O existencialismo não tem, entretanto, um sistema dogmático ou conceitual a ser seguido. Como uma corrente filosófica, apresenta antes perguntas e anseios que respostas ou sistemas lógicos falsos de compreensão do mundo. Ela tenta entender o ser humano e a angústia existencial na falta de um sistema lógico de crenças que guie esta existência.

Enfim, é totalmente possível a um ser humano sobreviver aceitando a dúvida e a falta de respostas ao invés de entregar-se a qualquer sistema artificial e falso de crenças dogmáticas.


(4) As religiões institucionalizadas confundem o símbolo com a mensagem

De acordo com a história das religiões, estas surgiram diretamente deste sentido humano de maravilhamento pelo mundo que parece estar presente em toda e qualquer tribo e sociedade forma por seres da espécie Homo sapiens, desde o alvorecer de nossas sociedades. Com o desenvolvimento de tais sociedades, criou-se o conceito de instituições como agregações de seres humanos com objetivos comuns. Assim, o estado e a igreja foram talvez as duas primeiras instituições criadas pelos seres humanos. Na idade média, cooperativas de profissionais (burgueses) em determinadas áreas do comércio também foram criadas; e assim por diante. O problema da institucionalização é que, com este conceito, é preciso também adquirir um sistema de formalização, onde os membros de uma determinada instituição possam seguir determinadas regras para serem considerados como membros dela. Também as religiões seguiram o desenvolvimento da sociedade humana em direção a sistemas institucionalizados. E embora inicialmente todos os membros das religiões provavelmente soubessem que a institucionalização e a produção de regras explícitas para os membros de certos grupos eram apenas formas gerais de identificação, rapidamente uma cultura de alienação massificadora adentrou os círculos religiosos. Além disso, parece que durante a idade média, mesmo os mestres dentro das religiões passaram a ter uma visão um tanto quanto autoritária e reducionista de seus empreendimentos -- ao deixarem de acreditar na mensagem maior pregada por sua doutrina para reduzirem-na a ações ou rituais bem específicos ditados nos livros de ensinamentos -- que deveriam continuar tendo uma característica apenas metafórica.

Ao invés então de fazerem da religião uma continuação da experiência do ser humano com o místico, passou-se a levar muito a sério os rituais e os dogmas religiosos. Foi nesse momento, talvez, que o homem tenha mesmo se perdido em seu propósito de se encontrar com o místico e de maravilhar-se com o mundo. Vale notar ainda que esta confusão entre a instituição, os ritos e os ideais religiosos está muito mais presente nas religiões ocidentais do que nas religiões orientais. Muitas das religiões orientais -- como o budismo e o hinduísmo -- são muito mais abertas à contemplação do mundo do que as religiões ocidentais, que apresentam uma enorme quantidade de símbolos e rituais estritos de adoração. As religiões institucionalizadas também agiram completamente contra suas raízes no momento em que colocaram medo no crente em ser banido delas. Assim, o crente que não comparece aos encontros, que não adora os símbolos e que não segue estritamente os rituais definidos, pode ser considerado dissidente e até "pecador". Religiões provém do nosso sentimento de adoração do mundo e o medo foi incutido artificialmente pelas religiões-institucionalizadas de forma a tentar manter seus fiéis ligados à instituição com todas as armas psicológicas possíveis. Assim, muitos crentes realizam constantemente os rituais mais por medo de serem banidos da ordem, do que na intenção de sentir o sentimento de adoração do mundo que foi o berço de todas as religiões. Isso é realmente uma pena e mostra como a institucionalização pode acabar com um empreendimento que, em sua origem, é completamente virtuoso e que representa as nossas mais profundas raízes como seres humanos.

Vale lembrar aqui, antes de terminar, do recente filme que trata de um assunto similar. Com o título de "Stigmata", a obra baseia-se num verso do Evangelho de São Tomás que havia sido escondido pela igreja católica. Nele, Cristo dizia exatamente que Ele era o todo, que Ele estava em todos os lugares. Assim, Ele não deveria ser adorado em lugares específicos, porém em qualquer lugar onde alguém se sentisse à vontade em encontrá-lo. A instituição igreja-católica teria escondido estes dizeres para forçar os fiéis a permanecerem institucionalizados e doarem seus dinheiros para si.

Termino esta parte citando Joseph Campbell, que me iluminou sobre esta questão do símbolo-religião: "Ninguém precisa ir realmente a Meca, mas precisa de fazer, de onde estiver, sua Meca." Esta frase resume, finalmente, a confusão frequentemente feita pelos religiosos entre a questão do símbolo e do significado. O símbolo é uma expressão do significado maior religioso que encerra um sentimento de louvação e adoração; o símbolo jamais pode ser levado ao pé-da-letra e confundido com a idéia maior de emancipação e adoração que vem diretamente das raízes do sentimento religioso.

(5) É possível ter uma capacidade de apreciar e se maravilhar com o mundo sem ligar esta adoração com qualquer sistema dogmático pré-definido

Finalmente, não creio ter muito mais a dizer. Tendo descrito todos os últimos quatro argumentos, este argumento final fica claro. Todo ser humano tem em si -- forte ou fraco -- este sentimento de adoração com relação ao mundo. Dado que (i) as religiões institucionalizadas baseiam-se em premissas falsas ou não comprováveis e que (ii) tentam enganar explicitamente seus discípulos ao promoverem a virtude na aceitação destes sistema dogmático altamente questionável. Dado que (iii) as religiões são incoerentes entre si e entre seus dogmas; e dado que (iv) nenhum critério objetivo pode ser utilizado para definir melhores e piores sistemas de crenças. Dado ainda que (v) é possível aceitar a falta de lógica da vida cotidiana e do universo sem se ater a nenhum sistema de crenças, simplesmente compreendendo a falta de sentido de forma natural e aceitando que não teremos uma resposta simples e fácil para o problema. Dado, finalmente, que (vi) as religiões confundem seus discípulos e os enganam ao dizerem que os símbolos e os rituais são autoritários e estritos ao invés de representarem de forma leve e aberta o sentimento de adoração e maravilhamento.

Logo, parece mais adequado não se ligar a nenhum sistema de crenças e cada indivíduo ter sua própria religião, realizar seus próprios rituais de adoração e sentir-se conectado com o todo universo de acordo com um sentimento próprio, perene e completo. O ser consigo mesmo. O ser com o universo. Boa sorte em sua empreitada!


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[1] Leia: 1984, de Orson Wells.
[2] Isso leva também a discussão que pretendo ter posteriormente sobre o sincretismo religioso que é bastante comum no Brasil, onde uma pessoa tem -- ao mesmo tempo -- várias religiões e não vê nisso nenhum problema. O Brasil é mesmo um país de misturas e esse tipo de sincretismo é praticamente inexistente aqui na Europa, por exemplo.

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EPÍLOGO

Este documento partiu de uma anotação que fiz em meu caderno de notas aleatórias e que continha, mais ou menos, os seguintes dizeres:

Quanto mais ciência e conhecimento adquirimos, menos nos permitimos acreditar em grandes eventos chamados de milagres pela igreja. Assim a ciência torna menos numerosos os milagres do cristianismo ou de qualquer outra religião. Porém aqueles milagres que ainda restam -- não tendo sido empurrados para fora das crenças dos fiéis, pela ciência -- tornam-se assim mais fortes. Pode-se dizer assim que a ciência de certa forma, mesmo quando a ataca brutalmente, fortalece também as religiões institucionalizadas.

Ao passar isso a limpo aqui, toda esta reflexão original da postagem me veio à mente.

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Segunda-feira, Setembro 15, 2008

Ciência, academia, filosofia e retórica

Estou aqui lendo o artigo que outras pessoas escreveram e em que divido a primeira autoria com um americano. É o primeiro artigo que sou primeiro autor e não escrevi a maior parte, isso me incomoda bastante. Cheguei a pedir pra mudar de posição, mas a chefa insistiu para que eu ficasse na frente pois isso seria melhor para mim, para ela e para todos os outros autores. A academia científica não é meritocrática, ela tem um aspecto social forte. Não me sinto o primeiro autor deste paper, não teria escrito as coisas com estas palavras, desta forma, nesta ordem. Minha identidade não está neste trabalho. Ele foi escrito principalmente pelos dois últimos autores, os verdadeiros "orientadores" do projeto. Mas eles já são velhos demais para ficarem como primeiros autores, eles querem ser últimos autores, pois em biologia o estatus do último autor como "orientador" vale muito.

Enfim, este artigo está prestes a ser submetido a uma revista científica de auto-nível na nossa área de pesquisa. Estava lendo agora a metodologia do mesmo e foi isso que me trouxe aqui a fazer este relato. O paper descreve, nesta seção, uma série de passos que parecem ter sido seguidos até que alcançássemos nosso objetivo final. A racionalização dos passos para a elaboração do trabalho na parte relativa à metodologia do artigo parece simples e clara, racional e precisa, prevista racionalmente e tendo objetivos alcançados. Mas tudo isso é uma enganação, tudo o que fizemos foi realizado de uma forma bem anárquica e sem muitas regras. A retórica está presente em toda atividade humana; parece que é preciso mascarar essa anarquia procedural dos outros pesquisadores e, então, temos uma metodologia falsa que parece perfeita; se tivéssemos mesmo parado e pensado racionalmente no que faríamos antes de realmente sentarmos para fazermos. O que acontece de fato é que sentamos em meio a brainstorms e é daí que o trabalho vai nascendo: da discussão, da argumentação e das coincidências entre o que pensamos, um modelo conceitual novo para descrever o mundo ou, mais especificamente neste caso, a biologia evolutiva.

O problema -- e também a beleza -- da ciência vem justamente do fato de que se propõe um projeto e recebe-se financiamento para ele sem que os cientistas realmente saibam o que vai ser feito. A ciência se constrói no fazer. Ela muda, os objetivos mudam, os dados mostram coisas que não imaginávamos ou não mostram padrões previamente imaginados. Mesmo a articulação dos conceitos se modifica entre o que pensávamos e o que passamos a pensar. A realidade não se adapta e não tem que se adaptar aos incompletos e simplísticos modelos que os humanos têm dela. A realidade é anárquica e complexa. Não há nada senão o caos. Os padrões observados no universo e na natureza são tênues e eles não se adaptam a uma idéia fixa, a um modelo fixo e quadrado que os humanos têm do mundo que os envolve. É por isso que a ciência sempre questiona seus próprios padrões, por isso ela sempre se renova. Ela é uma busca constante de uma regularidade que não existe, que existe apenas de forma aproximada, a ciência é uma descrição de uma regularidade irregular. Todos nossos modelos são falhos em um sem-número de aspectos e muitas vezes eles não permitem que os dados experimentais sejam nele assentados. Então a teoria tem que mudar, tem que se adaptar.

Enfim, exagero na filosofia. Só queria dizer que a ciência tem muito de retórica e muito do que descrevemos neste artigo é falso, de um ponto de vista metodológico. A metodologia foi feita em retrospecto, considerando o que tínhamos no final e o que deveríamos ter feito, desde o início, se já soubéssemos o que iríamos alcançar no ponto final ao qual chegamos e onde consideramos que tínhamos uma boa história para contar. Mas não sabíamos quando ou se chegaríamos ali; tentamos anarquicamente várias estratégias até chegarmos em nosso objetivo. Ouso dizer que nenhuma metodologia de nenhum artigo científico é verdadeira! -- ou que ela pode ser verdadeira apenas para muito poucos artigos científicos de nenhuma característica inovadora, apenas descritiva. Quando realmente se cria e se descobre algo, o método para fazer isso deve ser exploratório e anárquico. Eis a beleza da ciência.

E, depois, o cientista precisa imaginar o que deveria ter feito se, desde o início, soubesse o que encontraria no final. É isso que vai para a seção de metodologia de um artigo científico. Não é o que se fez, mas sim o que se deveria ter feito. A metodologia deveria ser escrita, inclusive, com condicionais e no futuro do pretérito.

Segunda-feira, Agosto 25, 2008

Pequena nota (trílingue) sobre a democracia

Outro dia, ela me disse: "você tem mesmo sempre a razão". Não gostei da frase, senti-me insultado. Eu não tenho sempre a razão, eu estou errado muitas vezes. Muitas vezes mesmo. Coisa que faço toda hora é estar errado. Acredito que todas as coisas devem ser discutidas e que a razão de dois é quase sempre melhor do que a razão de um só, sobre tantos aspectos quantos sou capaz de imaginar. Há tantas coisas a se pensar, há tantas variáveis, tantas experiências diferentes de vida, tantas coisas que um tende a esquecer enquanto outro leva em consideração. Penso que a razão de duas pessoas é melhor que a razão de uma só; que a razão de três é melhor que a razão de dois e também que a razão de quatro, ela melhor que a de três. Eis a força do pensamento democrático. Viva a democracia!

She told me on the other day: "you are always right indeed". I didn't like the phrase, I felt insulted. I don't have always the reason; I'm wrong and mistaken many times. So many times I’ve been wrong. Whether there is something that I always do, it is: being mistaken. I believe that every single thing must be discussed and the reason of two is almost always better than the reason of one alone. And this is true for every single aspect that I can think about. There are so many things to be thought, so many variables, so many different human and life experiences, there are so much that one tends to forget and the other tends to take on account. I believe the reason of two individuals is better than the reason of a single one; the reason of three is better than the reason of two; and the reason of four: it is better than the reason of three. And here you go: the strength of the democratic thought. Glory to democracy!

Elle a me dit un jour: "tu as toujours même la raison". Je n'aimais pas ce phrase, j'ai me senti insulté. Je n'ai pas toujours la raison, je me trompe tout le temps, je fais beaucoup des erreurs de temps en temps. Petits les temps, pleine des erreurs. S'il y a quelque chose que je fais tout le temps, c'est ça: je me trompe. Je crois que tous les choses ont besoin d'être discutées et que la raison de deux est presque toujours meilleure que la raison d'un seule. Et cela vaut pour chaque aspect simple au lequel je suis capable d'imaginer. Il y a ainsi beaucoup de choses à être pensé, il y a pleine de variables dans le monde et dans la société, il y a un grand numéro de expériences de vie, il y a tellement des choses q’un oublie et l'autre considère bien. Je crois que la raison de deux personnes est meilleure que la raison d'une seule; et que la raison de trois est meilleure que la raison de deux et aussi que la raison de quatre: elle est mieux que la raison de trois. Voilà la force du pansement démocratique. Vive la democracie!

Quarta-feira, Agosto 20, 2008

O dilema do pesquisador -- uma abordagem epistemológica

Todo cientista pesquisador vive em meio a um dilema que envolve um risco profissional. Há, portanto, pesquisadores corajosos e covardes, assim como há os inovadores e os conservadores, respectivamente.

É que a pesquisa científica pode se configurar, de um lado, como um trabalho explorativo de descoberta dos padrões observados no universo. Assim, pesquisadores criam teorias e apostam suas fichas profissionais no fato de que elas devem ter uma relação direta com aquilo que se pode apreender do universo. Então os cientistas gastam seus tempos a investigar e a tentar provar e verificar a adequação de seus modelos teóricos à uma natureza desconhecida -- mas que parece seguir certas regularidades.

Por outro lado, cientistas mais tradicionais e que não desejam arriscar em demasia suas carreiras podem preferir evitar pesquisas de cunho explorativo. Tais pesquisadores podem, portanto, apenas aumentar o conteúdo de conhecimento em determinado programa de pesquisa que sigam ao aplicarem técnicas já consagradas dentro do paradigma corrente em dados ainda virgens. Esse tipo de pesquisa tem bases mais sólidas e uma menor chance de incorrer em erro ou risco: é mais medíocre, mas não tem muita chance de dar errado. É que neste caso o cientista já sabe, antes de começar a pesquisar, que uma metodologia similar já foi capaz de evidenciar certos padrões em dados similares ao que ele quer analisar.

O cientista criativo é, necessariamente, um indivíduo que arrisca sua carreira profissional ao buscar novas fronteiras com relação ao programa de pesquisa com o qual trabalha. Um pesquisador explorativo parece sempre se dirigir a dois opostos com relação à comunidade com a qual trabalha: ou (1) ele descobrirá algo novo e será tido como herói, tendo evidenciado novas regularidades ou novas formas de interpretação das regularidades da natureza; ou (2) trabalhará com questões pouco ortodoxas e será tido como louco, como alguém que busca aviões em estacionamentos de automóveis.

A produção de novos conhecimentos em qualquer área de pesquisa é, necessariamente, uma atitude de risco. Pode-se chegar em novos dados, novas análises, novos paradigmas ou pode-se dar de cara com um enorme muro da ortodoxia científica. Pode-se também, evidentemente, apostar em um beco sem saída. Cientistas são seres humanos e seres humanos erram. Seres humanos erram muito. Embora acertem, algumas vezes. O mundo da ciência é um mundo onde cientistas são julgados por cientistas e alguém que esteja à frente do seu tempo e que tenha pensamentos um tanto quanto mais avançados com relação ao pensamento de sua época, pode -- e já se mostrou historicamente -- ser considerado louco e execrado pela comunidade. Por outro lado, a recusa do cientista em buscar novos pontos a se conhecer e em tentar abrir novos programas de pesquisa configura a mais clara mediocridade de espírito científico. O cientista medíocre não pensa, não quer pensar, quer apenas reproduzir técnicas altamente consagradas em novos contextos que, sem dúvida, aumentarão o já enorme poço do conhecimento humano. Estes praticantes da ciência normal kuhniana consistem na imensa maioria dos cientistas em qualquer tipo de instituição que se vá. Eles podem ser ótimos profissional, mas serão sempre repetidores de tarefas. O verdadeiro cientista deve buscar estar além do conhecimento fácil, ele deve arriscar-se, buscar novas fronteiras, testar as premissas do conhecimento em sua área de atuação, tentar propor novos modelos teóricos que se adéqüem mais intimamente à realidade do que aqueles existentes à época em que realiza sua pesquisa. Ao cientista normal, falta um conhecimento filosófico sobre a incompletude do conhecimento científico e ele normalmente acredita que o que faz tem uma correspondência direta e inequívoca com o mundo natural. Apenas o filósofo-cientista sabe reconhecer o caráter interpretativo do conhecimento e, assim, ser capaz de questionar as supostamente sólidas bases do conhecimento; podendo quiçá sugerir, com base em reinterpretações de dados já consagrados, novos lugares e pontos a se seguir.

Foi esta, exatamente, a contribuição de Einstein para as ciências. E o alemão que recriou as ciências físicas provavelmente tinha exatamente essa concepção da ciência quando destruiu a base da mais sólida das teorias científicas já propostas em todos os tempos: a física newtoniana. Einstein questionou a física newtoniana e verificou onde ela escorregava. Ele duvidou das proposições de Newton e decidiu recriar novos conceitos em física. Modificou o que se entendia por matéria, massa e energia, sugeriu a relatividade do espaço-tempo, disse que a luz tinha uma velocidade máxima e constante no vácuo, entendeu que esta mesma luz poderia fazer uma curva ao redor de corpos de grande massa, enxergou como o espaço não era assim tão fixo como as mentes humanas da época o supunham. Albert Einstein pode talvez ser entendido como a maior mente questionadora da história da humanidade pois que pôs a baixo, com extrema elegância e inteligência, um paradigma tão forte quanto a mais forte das teorias científicas já propostas. E se a teoria newtoniana caiu, outras cairão, basta que as olhemos com olhar crítico e tentemos propor novos modelos para explicar os dados empíricos que temos disponíveis. Não sejamos covardes ou conservadores, caiamos fora da ciência normal e tomemos Einstein como nosso mártir. Arrisquemo-nos, questionemos nossas teorias, avancemos nosso conhecimento e deixemos para trás estes estúpidos cientistas-normais conservadores.


Versão original escrita em 10/09/07.

Terça-feira, Agosto 12, 2008

Ciência, academia, filosofia e retórica

Segue abaixo um link para uma postagem que publiquei em outro de meus inúmeros blogues. Por discutir a forma como é feita a ciência (pragmaticamente), creio que ela pode interessar ao leitor deste blogue. Porém, como ela não consiste numa clara argumentação racional em prol de alguma idéia em especial -- tratando mais de uma reflexão pragmática da ciência, feita por meu alter ego cientista -- preferi não trazê-la diretamente para cá.

Clique abaixo para acessar:
Um pensamento fugaz sobre "Ciência, academia, filosofia e retórica"

Quarta-feira, Junho 11, 2008

Da irrelevância da inteligência para a genialidade

To punish me for my contempt for authority, fate made me an authority myself.
-- Albert Einstein

All of our science, measured against reality, is primitive and childlike -- and yet it is the most precious thing we have.
-- Carl Sagan


Todo o conhecimento já produzido pelo homem é extremamente simples, porém vasto -- por vezes associado a modelos conceituais relativamente extensos. Qualquer ser humano, por mais intelectualmente incapacitado que seja, pode apreender qualquer conhecimento que lhe convier caso tenha disciplina suficiente para o estudo. Um gosto e interesse pessoal pela área em questão também ajudam.

No caso da aprendizagem de modelos conceituais extensos, por vezes é necessário um período de adaptação até que o modelo conceitual do campo de pesquisa em questão possa ser apreendido com clareza. Este tempo de adaptação decorre provavelmente do fato de que todo ser humano já traz dentro de si mesmo um modelo conceitual próprio para explicar o mundo à sua volta. Este modelo conceitual pessoal e intrínseco a cada um de nós é inicialmente bastante simples e normalmente apresenta um conteúdo mágico. Assim, em grande parte das vezes, o modelo que se utiliza nas ciências nega e contradiz muitos dos conceitos pessoais que trazemos conosco desde nossa mais tenra infância -- na maioria das vezes tal contradição vem da substituição de um ponto de vista religioso ou mágico por modelos mecanicistas de maior conteúdo empírico, ou seja, que se adequam melhor aos dados observacionais formalizados em experimentos e trabalhos científicos. Assim, é preciso que o aprendiz esteja aberto a deixar sua visão de mundo própria e substituí-la por uma nova série de conceitos e inter-relações entre conceitos (cluster) que caracterizam o estado corrente da pesquisa em determinada área do conhecimento. Esta substituição de conceitos é tão dramática quanto é forte a crença do indivíduo na retidão de sua visão de mundo. Quanto mais fundamentalista o indivíduo for com relação ao seu conhecimento, mais difícil será para ele aprender novos conceitos. Assim, é uma virtude para o cientista questionar sua própria visão de mundo e também a visão de mundo de sua ciência. Duvidar do que se acredita é talvez a maior virtude do cientista e de todo aquele que admira e deseja adicionar aos modelos conceituais formados pelo conhecimento humano.

As diferentes escolas que por vezes se formam com relação a uma determinada área de conhecimento baseiam-se em considerações de modelos diferentes e estruturas conceituais diferentes para explicar determinada observação ou fato. Uma comparação precisa entre as correntes pode ser teoricamente feita, embora o pesquisador que realiza tal comparação necessite de um amplo e imparcial conhecimento de ambos os modelos conceituais, de forma que possa analisar com clareza os resultados. Entretanto, o sentimento de iluminação que o indivíduo tem quando entende finalmente uma determinada corrente de pensamento e todos seus conceitos inter-relacionados e sua capacidade explicativa, fazem frequentemente deste indivíduo um fundamentalista de uma determinada escola. Ele não tem mais porquê procurar outra fonte de conhecimento, dado que já aprendera a interpretar e entender determinado evento do universo segundo determinado ponto de vista. Ele está satisfeito com a explicação de sua escola. Penso que em filosofia e psicologia essas observações encontram exemplos claros -- infelizmente eu precisaria estudar mais profundamente tais áreas para poder argumentar com exemplos mais incidentes. Já no caso das ciências naturais, onde o empirismo tem um mais forte apelo, é difícil encontrar grandes controvérsias escolares e, portanto, a física, química e biologia apresentam conjuntos conceituais praticamente consensuais ante os estudiosos da área. O modelo newtoniano é menos completo que o einsteiniano, assim como o modelo moderno do átomo é mais adequado do que o modelo de Bohr e também a seleção natural explica mais adequadamente nossas observações do que a herança dos caracteres adquiridos.

Os modelos conceituais das ciências são por vezes vastos, embora sejam bastante simples, normalmente produzidos pelo senso comum quando aplicado à determinado conjunto de dados recolhidos da natureza segundo metodologia rígida. Os gênios são aqueles que conseguem questionar o conjunto de dados atual de forma a sugerir alguma alteração drástica nos conceitos utilizados para a representação de mundo ou na inter-relação entre conceitos já existentes. Tal alteração drástica deve provar-se mais adequada para o entendimento de determinados eventos em particular, provendo então uma mudança paradigmática dentro de uma linha de conhecimento. O gênio não precisa necessariamente ser excessivamente inteligente, ele deve entretanto saber questionar a autoridade e a tradição do conhecimento já alcançado antes de si e deve ser corajoso e astuto o suficiente para sugerir modificações nesses conceitos ou em suas inter-relações. Todo indivíduo, entretanto, pode ser considerado gênio quando ele entende alguma nova disciplina que antes não compreendia muito bem. A substituição de seus mais arraigados valores por um conjunto mais conciso de conceitos, que explica melhor o mundo, é uma enorme virtude que qualquer indivíduo é capaz de alcançar. Todos os seres humanos podem entender a física quântica e a biologia molecular se estiverem dispostos a substituir seus mitos e incompreensões por um conjunto associado de dados observados e conceitos que explicam tais dados. É o interesse e a abertura de espírito que fazem de alguém um gênio, não a inteligência -- embora ela certamente ajude, quando associada a essas outras características ainda mais essenciais.

ADENDO

Infelizmente, o modelo social e didático de hoje é montado segundo o padrão: "o professor sabe tudo e o aluno não sabe nada". É preciso uma reforma no ensino em nossas universidades brasileiras, sulamericanas, mundiais. Era isso exatamente o que queria dizer o grupo inglês Pink Floyd quando dizia "We don't need no education". Não precisamos deste tipo de educação quadrada. Esta forma rígida do ensino, tão comum em nossas universidades -- onde o professor apresenta um novo campo conceitual ao aluno como se ele fosse a verdade absoluta e inquestionável --, está ultrapassada já há muito tempo. É preciso notar que toda a ciência consiste em modelos provisórios para explicar o mundo. Toda a ciência, de qualquer época, estará incorreta em um sem número de pontos. A má e quadrada educação que aprendemos nas universidades e nos colégios deve ser reformada. E ela deve ser reformada ontem.

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Sábado, Outubro 20, 2007

Equilíbrio pontuado memético

A aceleração da quantidade de avanço da tecnologia -- ou de uma área qualquer de pesquisa -- pode ser prevista por mecanismos darwinianos. Da mesma forma em que organismos vivos evoluem e modificam seus genomas e fenótipos ao longo do tempo de forma diferente, também assim é a evolução cultural. Podemos observar, por exemplo, se um determinado meme (digamos, relacionado a uma certa área de pesquisa) tem mutado rapidamente. Para verificarmos isso, deveremos usar como indicadores de aceleração de avanço a gênese ou modificação de palavras e conceitos relacionados semanticamente com este meme mais genérico.

Um meme é formado de símbolos representativos (fonemas ou palavras) e conceitos associados a esses símbolos. Fonemas ou palavras são representações simbólicas do mundo que apreendemos através de nossos mais exímios sentidos -- audição e visão -- e que podem ser imaginadas dentro do mundo físico. Elas representam conceitos que já estão formalizados pela comunidade de falantes de uma determinada língua ou dialeto. Ao acessar uma determinada palavra ou fonema, o falante tem uma idéia clara, ainda que abstrata (pense no sentimento de ameaça: é claro, porém abstrato), sobre aquilo a que o símbolo que lhe foi exposto se refere. Já o conceito consiste na formulação, abstrata e individualmente variável, que um símbolo fonético ou uma palavra trás à mente de cada indivíduo. Por exemplo, quando falamos de "mesa", podemos nos referir ao seus símbolos ou ao seu conceito. A descrição simbólica que vem à mente é a palavra ou o som referidas por este símbolo. Já o que cada um de nós imagina ao identificarmos estes símbolos é diferente do que imaginamos ao pensarmos no conceito. E, mais do que isso, não se pode imaginar o conceito dentro do mundo material. Ele está apenas em nosso complexo computador cerebral.

Por ora, entendamos sons e palavras como representações simbólicas do mundo e foquemos mais diretamente na importância da gênese de palavras e/ou fonemas*. É interessante notar que os símbolos ajudam-nos a moldar melhor os conceitos. As mesas podem ser de vários tipos: podem variar segundo sua composição, forma, número de pernas, dentre outros aspectos. E foram necessárias que novas palavras e novos fonemas fossem criados para definir e representar melhor, os diversos conceitos existentes para cada tipo de mesa. O número de símbolos associados a um conceito parece estar intimamente relacionado a uma melhor compreensão daquele conceito. Para conceitos mais precisos, teremos um maior número de símbolos (fonéticos e literários) que podem se inter-relacionar com o conceito de forma descrevê-lo melhor. O conceito de mesa-verde-redonda-com-três-pés é um conceito mais preciso -- e mais verboso! -- do que o simples conceito de "mesa". Assim, a variabilidade memética de um táxon superior memético como "mesa" é evidentemente muito maior que a variabilidade presente em taxons inferiores "mesa-verde-redonda-com-três-pés" -- pensar-se-á em mais exemplos de mesa do que em exemplos de mesa-verde-redonda-com-três-pés. Assim, está claro que o número de palavras que cerca um conceito permite uma melhor descrição (especificação) do mesmo deste e facilita a comunicação entre os falantes.

Haverão, entretanto, conceitos que não se permitirão ser cercados de palavras. E isso se deve ao fato de que, dado nosso aparato cognitivo, não os conseguimos compreender de forma a verificar suas regularidades e conseguir trazê-las à luz da razão. Primeiro é preciso ser capaz de reconhecer um padrão, dado o aparato sensorial de uma espécie e, em seguida, é necessário que o mecanismo cerebral de interpretação das sensações seja capaz de gastar tempo de processamento nessas informações de forma a observar e reconhecer seus padrões de regularidades. É bastante possível, e até muito provável, que a maior parte dos padrões que nos chegam aos receptores sensoriais não possam ser decodificados pelos nossos limitados -- porém incríveis! -- mecanismos cerebrais de interpretação e compreensão de padrões. Assim, apenas aqueles padrões que conseguimos interpretar muito bem (humanamente falando) é que associamos a palavras. Da mesma forma, já foi mostrado que um número maior de palavras, quando associadas a um conceito, é capaz de representar de forma mais elaborada este conceito e facilitar a comunicação. Assim, se medirmos o número de novos termos produzidos em diferentes áreas do conhecimento humano, poderemos assim obter uma métrica eficiente para identificarmos ritmos de aceleração de produção de nosso conhecimento -- um tipo de pesquisa interessante e com uma clara aplicação social da epistemologia darwiniana. Como exemplo, vale ressaltar o quanto a "revolução da informática" nos último 20 anos aumentou o vocabulário do cidadão comum, em número de palavras que antes eram totalmente desconhecidas ou mesmo inexistentes.

Infelizmente os periódicos de memética estão quase todos descontinuados. Será que ainda podemos ressuscitar a memética?

* Uma questão que cabe aqui é se o que surge primeiro é uma palavra ou um fonema, sendo que ambos têm -- em quase todos os casos que consigo imaginar -- uma relação de um para um com relação a conceitos. É claro que um conceito pode ser representado por mais de uma palavra (raiva, ira), assim como uma palavra pode representar vários conceitos (amor = confiança, carinho, companheirismo). Pode-se supor que conceitos mais gerais provavelmente tenham surgido primeiro na sucessão temporal de seres da filogenia memética. Derivações desses conceitos gerais, ou seja, suas derivações, nuances e um maior grau de entendimento do mesmo levaram necessariamente ao nosso desejo de descrevê-los com mais precisão. Acredito que esse conceito reducionista da criação de conceitos seja a regra. Exceções, entretanto, provavelmente abundam. É claro que vários conceitos, como alguns conceitos de ligação em ciências -- como o surgimento da bioquímica, digamos -- são conceitos holistas que, entretanto, só puderem ser concluídos a partir de investigações reducionistas em determinadas linhas de pesquisa -- no caso, a biologia e a química. Holismo e reducionismo não são rivais em epistemologia e têm, portanto, uma relação de mutualismo para a virtude desta linha de pesquisa.

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Terça-feira, Outubro 16, 2007

Metaestudo sobre filosofia da biologia

(ou Sobre a importância pedagógica dos estudos em história)

É estranho para mim estudar filosofia da biologia, pois é um tipo de área onde tenho um conhecimento forte, porém impreciso. Às vezes passo por um expert, noutras faço apreciações tais quais um leigo. Explico-me: creio que posso dizer que tenho conceitos bem firmes em biologia e sou capaz de entender em grande medida como funcionam os seres vivos -- uma vez que sempre fui um bom aluno e procurei entender bem todas as disciplinas (ou seja, compreendo bem o conjunto conceitual de idéias que forma a ciência moderna da biologia, em geral, e da biologia evolutiva, em particular)*. Entretanto desconheço completamente a história dos conceitos em biologia e isso faz muito falta quando se quer entender o que se pensava antes e o que se deveria pensar a partir de agora. Em suma, é normalmente preciso -- ou antes, altamente desejável -- saber a história do conhecimento em uma área de atuação para que se possa aumentar o conhecimento na área em questão. Assim, o principal argumento desta postagem é que: para sermos bons cientistas (ou pesquisadores, em qualquer área de atuação) precisamos ser, antes de tudo, bons historiadores (com relação à nossa área de conhecimento, em particular).

Ao pensar sobre esses aspectos, me dá a impressão que fui mal educado, academicamente falando. Lembro de Thomas Kuhn ter me iluminado com relação à importância da história da ciência para a filosofia da ciência e generalizo sua observação, creio que ele concordaria, com relação a ressaltar fortemente a importância da história para o entendimento de qualquer processo!** Falo mais especificamente com relação à história do conhecimento em uma área específica de atuação. O que quero dizer, para ficar bem claro, é que os engenheiros se beneficiariam ao estudar a história da engenharia. É claro que eles não precisariam disso para construir prédios, mas certamente precisariam deste conhecimento se quisessem estudar sobre novas formas (melhores do que as atuais) de calcular prédios. Se a universidade pretende produzir estudiosos, ela deve ter a educação histórica como carro-chefe de seu ensino. Assim, ao invés de sermos educados através de apresentações formais de conceitos, como parece ser realizado em boa parte das disciplinas nos cursos de graduação e pós-graduação das universidades brasileiras, deveríamos ter um tipo de aprendizado histórico sobre toda e qualquer disciplina. Parece-me hoje que a melhor forma de entender processos e conjuntos conceituais quaisquer seja através da demonstração da evolução dos conceitos nesta determinada área. Ao entender o que se pensava e o que se fez para que se deixasse de pensar assim, entende-se historicamente um determinado processo e a evolução dos pensamentos que culminaram no conhecimento moderno.

Fosse a educação da forma histórica que proponho, não precisaria vir aqui fazer este metaestudo e, se o faço, é porque houveram deficiências na minha formação. A questão que me fez refletir sobre este ponto é a de que eu acredito saber -- ao menos em linhas gerais -- o que um bom biólogo pensaria hoje sobre uma determinada quantidade de eventos. Além disso, acredito saber também, aproximadamente, o que se poderia pensar num passado X onde o conhecimento Y ainda não existisse. Entretanto, não inter-relacionar outros conhecimentos do passado X com relação a uma infinidade de questões. Assim, sei o que se poderia pensar sobre como o DNA codificava a proteína antes que se conhecesse o código genético, embora não saiba quais técnicas estavam disponíveis à época ou como era a estrutura geral do conhecimento biológico (de uma forma mais genérica e holista) neste tempo passado. Antes que eu me perca: ao estudar história e filosofia da biologia, percebo o quanto meu conhecimento é fragmentado. Sei várias coisas sobre biologia mas não sei situá-las num contexto histórico. Mais um exemplo da biologia molecular: embora eu entenda razoavelmente bem **** como evoluiram e hoje funcionam os mecanismos de transcrição (produção do RNA) e tradução (produção das proteínas), não sei se a descoberta deles ocorreu concomitantemente ou se um foi descoberto muito antes (ou depois) do outro. Poderia chutar que ambos ocorreram praticamente ao mesmo tempo, quando Francis Crick propôs o dogma central e chutaria também que a descoberta do mecanismo molecular de transcrição ocorreu antes do de tradução, dada sua maior simplicidade. Entretanto o que importa é: preciso chutar. Eu não sabia. Eu não pensava sobre isso antes, não tenho nem um relatório aproximado em minha mente sobre quais descobertas aconteceram antes de quais no estudo de quase toda a biologia. Assim, entendo como funciona o mecanismo de transcrição, entendo como poderia se pensar antes dele existir, consigo imaginar relativamente o que pensaria um cientista da era pré-conhecimento da transcrição. Entretanto, sei apenas de maneira pobre datar a aquisição deste conhecimento em relação a outros conhecimentos em biologia. Se as disciplinas fosse ensinadas historicamente, toda essa cronologia de eventos já estaria na cabeça e eu entenderia melhor como todo o conhecimento de biologia foi produzido e fundamentado.

De fato, parece-me que mesmo a ordem das disciplinas no curso deveria ser pensada assim. Primeiramente começar-se-ia com as abordagens primárias, a biologia dos naturalistas. Depois iríamos descendo para as abordagens experimentais, tais como dispostas inicialmente por Claude Bernard. O entendimento da evolução do conhecimento em determinada área de pesquisa tem, seguindo esta linha de argumentação, uma importância pedagógica enorme. Assim, se entendermos qual é a história de formação de conceitos dentro de um conjunto conceitual amplo (como uma ciência, ou uma disciplina), entenderemos mais a fundo todas as áreas do conhecimento humano. E até onde me tenha chegado a saber, a educação só trás o bem à sociedade. Não conheço um só exemplo onde a educação tenha tornado o mundo pior. Assim, pelo bem da humanidade, poderíamos tentar convencer os governantes a transformar o ensino -- público e particular -- em um ensino histórico. *****

Volta-me agora mais uma vez a lembrança de Kuhn e é quase certo que haja uma incomensurabilidade entre o pensamento do passado e o pensamento moderno na maioria das áreas do conhecimento. Algumas vezes nas ciências, diria Kuhn, acontecem revoluções conceituais, onde há um aumento no entendimento (conteúdo empírico) sobre universo e que é associada também a uma revolução de cunho linguístico. Tais mudanças paradigmáticas envolvem, inevitavelmente, uma das duas seguintes coisas: (1) a formação de novos conceitos a partir de conceitos similares usados anteriormente (cladogênese conceitual) ou (2) a mudança no significado de um conceito similar também pré-existente (anagênese conceitual). (Esta teoria desconsidera a possibilidade de criação de um conceito puramente novo, a partir do zero. Considero que todo o conceito tem uma inevitável relação com todo o mapa conceitual (cluster) já pré-existente ******). Dessa forma, conceitos originados em cladogênese permitiriam que os conceitos anteriores continuassem a existir, *** enquanto conceitos originados em anagênese substituiriam os conceitos anteriores; que, por sua vez, deixam de existir. No primeiro caso, há normalmente a invenção de uma nova palavra ou expressão para representar o fenômeno. No segundo caso, apenas as idéias relacionadas ao fenômeno é que se modificam.

Posso exemplificar esse ponto de vista ao dizer que Thomas Kuhn achava que as teorias de Newton e Einstein eram incompatíveis devido a três principais problemas de anagênese conceitual, a saber: força, massa e peso (FMP). Com isso quero dizer que Kuhn acreditava que FMP eram uns para Newton e outros para Einstein e que, mesmo se numa utópica discussão os dois monstros da física confrontasse suas teorias usando as mesmas palavras, eles não se entenderiam. Um diria alhos, outro bugalhos. A partir dessa concepção de diferença conceitual, Kuhn diz que duas teorias científica são incomensuráveis, ou seja, não se pode compará-las de forma a medir qual delas é melhor ou pior, já que elas se baseiam em pressupostos conceituais diferentes. E se não haveria melhor ou pior, dizem os que não leram Kuhn o suficiente, então chegaríamos a um relativismo completo onde nenhuma teoria é melhor do que nenhuma outra. Já os que leram o suficiente de Kuhn, percebem que ele diz isso apenas de uma forma superficial. É possível, sim, comparar duas teorias, desde que aqueles que o fazem sejam bilíngues, ou seja, saibam conversar newtonianamente ou einsteinianamente. E então nesta conversa, diriam sobre "a massa de Einstein" ou "a força de Newton". E se essa conversa fosse travada entre dois indivíduos bilíngues, dessa forma seria possível entender e comparar, finalmente, as duas teorias. No que, muito provavelmente, se confirmaria a maior abrangência de uma, ainda que se preferisse utilizar a outra para facilitar a realização de cálculos não tão precisos (porém mais simples) com relação a alguma observação do mundo físico.

Enfim, essas coisas me vieram à cabeça enquanto estudava filosofia da biologia e não sabia muito a relação da teoria neutra da seleção natural com relação aos dados provavelmente incipientes sobre biologia molecular que estavam disponíveis à época. É o caso da filosofia da biologia, entendo a teoria neutralista perfeitamente, concordo com ela em parte, mas não sei de onde veio o que pensam seus adeptos à época que foi originada. Mas estou estudando a história da evolução molecular e outro dia volto aqui pra explicar esse ponto com mais detalhes. Enquanto isso, estudemos a história de nossa área de pesquisa se quisermos avançar o nosso conhecimento. Certamente será proveitosa esta aventura intelectual.


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* É claro que isso não quer dizer que eu conheça bem a vida per se. De fato, há evidentemente uma diferença epistemológica entre o objeto do meu conhecimento e a objeto real. Essa observação, porém, não importa com relação a este metaestudo e fica registrada, portanto, apenas nesta nota de roda pé -- ainda que reflexões profundas nesta área sejam bastante interessantes (ver Sellars e Putnam).
** Em seu "caminho desde a estrutura", Kuhn diz que iniciou sua carreira como um físico com interesse por filosofia da ciência, mas completamente desinteressado de fatores históricos. O mesmo acontece comigo. Até antes de ler Kuhn fui um biólogo interessado por filosofia e sem qualquer conhecimento ou tentativa de dar relevância à história. Kuhn, porém, convenceu-se da importância da história ao tentar avançar sobre filosofia da ciência. Convencendo-se, convenceu a mim também; haja vista este ensaio.
*** Embora deve-se considerar que mesmo os conceitos antigos irão se modificar ao longo do tempo para acomodar o novo conceito na rede.
**** Já me vejo no futuro rindo desta frase.
***** É claro que, antes de chegar aos livros textos das crianças, é preciso incentivar os cientistas das mais diversas áreas do conhecimento, a produzirem ou compilarem trabalhos históricos sobre suas áreas de atuação. Uma filogenia conceitual das áreas de conhecimento humano teria claros e diretos impactos pedagógicos e poderia incentivar uma geração de cientistas ou, no mínimo, de pessoas altamente educadas e que compreenderiam melhor o mundo a seu redor.
****** Neste caso poder-se-ia considerar um mapa conceitual específico ou amplo. O mapa específico estaria relacionado a uma esfera mais particular de conhecimento em uma área de pesquisa. O mapa amplo estaria ligado aos conceitos que tornam um idioma, em particular, internamente coerente.

Quarta-feira, Setembro 19, 2007

Natura non facit saltum

Fiquei estarrecido quando, em minha última aula de filosofia, a professora exemplificava um juízo sintético a priori como "a natureza não dá saltos". Não que o juízo não seja sintético, nem a priori, não é essa a discussão que pretendo me entreter nesta postagem. O que importa é que ela dava como evidentemente incorreta a frase "a natureza não dá saltos", ou seja, ela acreditava com bastante intensidade que a natureza dá saltos. O exemplo óbvio que lhe veio à cabeça foi a física quântica. Com isso me parece que ela quis dizer que, pelo fato dos estados quânticos serem discretos -- ao invés de contínuos -- a natureza dava saltos. Esse exemplo aceitei meio a contra-gosto, achei que ela tinha uma certa razão. Logo em seguida ela então deu outro exemplo que lhe parecia também tão óbvio quanto o primeiro com relação ao fato da natureza dar saltos: o darwinismo. Ora, este argumento já não posso aceitar, uma vez que o darwinismo, levantei a mão e falei, é certamente uma teoria gradualista. Embora haja contra-exemplos de saltos evolutivos, como a especiação por poliploidia ou a existência de "monstros", como sapos com olhos dentro de suas bocas -- esses definitivamente não são os casos mais comuns, são exceções claras à regra do gradualismo biológico darwiniano! Natura non facit saltum, dizia Darwin 7 vezes ao longo de sua grande obra prima: "A Origem das espécies" (Fishburn, 2004).

Infelizmente no momento da discussão só pude argumentar que o gradualismo era característicamente darwiniano em contraposição ao mutacionismo de Cuvier. Errei quando disse isso, mas com relação à Cuvier. Quando fui analisar melhor, descobri que Cuvier não era mutacionista. Cuvier na verdade acreditava -- e diz isso em sua "Elegia a Lamarck" -- que existiam evidências de criações sucessivas ocorrendo depois de eventos catastróficos (http://www.victorianweb.org/science/cuvier.html). Ele observava alguns supostos fósseis e, por achar que eram idênticos aos animais reais, não acreditava em evolução -- parece que não aceitava as mudanças sendo assim tão lentas. Eis que os defensores do mutacionismo, deveria tê-los citados com mais propriedade, foram muitos dos redescobridores do mendelismo no início do século XX, a saber: Thomas Hunt Morgan, Wilhelm Johannsen, Hugo de Vries, William Bateson e Reginald Punnett (http://en.wikipedia.org/wiki/Mutationism).

Voltando à argumentação. De qualquer forma o darwinismo era, sem qualquer sombra de dúvida, gradualista. Ou seja, ele tinha como princípio que a natureza não dava saltos. Dessa vez, foi ela que aceitou a contra-gosto meu argumento.

Essa discussão não me saiu da cabeça e retorno aqui agora, quase uma semana depois, já tendo discutido isso também com a Gabriela, namorada do Rafael e que também já havia sido aluna da mesma professora. Pensei melhor e cheguei à conclusão de que, se analisarmos também a fundo a natureza do dado biológico, temos também atomismo e descontinuidade tal qual na física. Viajemos à biologia molecular: o DNA é formado por um conjunto de nucleotídeos, apresentando bases nitrogenadas que só podem ser de quatro tipos básicos: adenina, timina, citosina e guanina. Embora outras bases existam, elas também são exceções à regra -- mas isso não importa posto que em biologia só podemos buscar regularidades gerais porém não necessárias. Pois bem: uma mutação no DNA acontece também de forma discreta, não há uma continuidade evidente entre as bases nitrogenadas.* Sabemos as diferenças químicas entre elas, conhecemos as pirimidinas, que são bases apresentando um único anel (C e T) e as purinas, que apresentam dois aneis (A e G). Sabemos que a mutação de um A para G é mais frequente do que de um A para uma pirimidina (donde veio o conceito de modelos evolutivos de dois parâmetros proposto por Kimura), embora existam também exceções bem demonstradas em determinados organismos -- assim é a biologia.

Revitalizando então a discussão principal: assim como na física quântica, há na biologia molecular um quê de descontinuidade. Caso uma adenina não se torne exatamente algum dos outros nucleotídeos devido à mutação, o mecanismo de reparo de DNA chega ao lugar, observa a fita complementar e parece reconstruir a base correta na maior parte dos casos **. Se considerarmos, como parece ter feito a professora usando analogamente a física quântica, que a mutação de uma base em outra é um salto, podemos dizer que a biologia pode ser darwiniana e saltacionista ao mesmo tempo ***. A questão é justamente o que entendemos com a palavra "salto".

Será um salto quântico um "salto" legítimo, uma vez que o mundo observável acontece de acordo com um número estatisticamente tão grande desses elementos que podemos enxergá-los como quase certezas? É uma discussão de fato e jamais ouvi um argumento verdadeiramente convincente para corroborar que a natureza dê saltos. Será que o fato de que não há intermediários entre as bases nitrogenadas também deve nos levar a crer que a natureza dá saltos? Uma vez que sabemos que as teorias científicas são meras representações de uma verdade inalcançável, faz sentido discutir sobre esta descontinuidade em nível molecular? Talvez baste apenas que, ao modelar as mais minúsculas partículas -- que de alguma forma se relacionem com o mundo material --, essas partículas sejam capazes de ajudar-nos a predizer com precisão um fenômeno qualquer do mundo em que vivemos. "Descobriremos" mais quanto mais fundo formos, acharemos mais regularidades que explicam desvios em nossas observações, adquiriremos métricas mais eficientes de "enxergar" (mensurar) a natureza. Mas será que podemos dizer que, devido a existência dos quanta e à descontinuidade de bases, a natureza dê saltos?! Deste argumento não estou convencido, definitivamente... embora acredite que a natureza dê saltos sim, mas bem esporadicamente.

Observações:
* A utilização de A, C, T, G parece ter sido um acontecimento contingente, ou seja, parece que outras composições químicas de bases similares às existentes -- porém não idênticas -- poderiam ter sido utilizadas como padrão ao DNA.
** Tendo inclusive considerado este ponto, pode-se supor que provavelmente as principais modificações geradas em moléculas de DNA sejam resultados de problemas da polimerase no instante de realizar a replicação. Talvez os danos gerados pelo ambiente na molécula de DNA não sejam exatamente capazes de modificar uma base na outra, embora seja possível também supor que sim. É mais parcimonioso, entretanto, pensar que uma mutação modifica a base em algo que não é exatamente uma outra base e que mais provavelmente será corrigido pelo mecanismo de detecção de erro (mais provavelmente pelo sistema de reparo por excisão de base; algumas vezes pelo sistema de reparo de nucleotídeos). Dessa forma, o mecanismo principal de mutação em DNA seria a fidelidade da polimerase, ao invés dos danos causados pelo ambiente. Essa teoria é bastante passível de teste, bastando para isso submeter bactérias de mesma resistência a um determinado agente mutagênico (porém com sistemas de reparo molecular diferentes) e verificar se a diferença de dano ao DNA entre as variantes resistente e sensível à mutação é maior do que entre a sensível e o ancestral não mutado. Caso se observe 30 mutações na resistente e 90 na sensível, pode-se dar um peso às polimerases e ao agente mutagênico em questão. A existência de doenças somáticas (como o câncer), entretanto, é uma clara evidência de que o DNA de uma célula sofre modificação devido a estresses. Resta saber a força relativa na evolução biológica com relação aos erros das polimerases versus o poder do agente mutagênico.
*** Uma biologia darwiniana saltacionista madura só poderia ser enxergada dessa forma, uma vez que os saltos fenotípicos classicamente associados aos estudos dos saltacionistas já foram demonstrados como fortes exceções à regra.



Referências:
Geoffrey Fishburn. Natura non facit saltum in Alfred Marshall (and Charles
Darwin). History of Economics Review 40: 60-68 (2004).
http://hetsa.fec.anu.edu.au/review/ejournal/pdf/40-A-10.pdf
http://www.victorianweb.org/science/cuvier.html
http://www.victorianweb.org/science/cuvier.html