Ciência, religião e as bases de qualquer conhecimento
Motivação deste post: Sendo que a ciência também se baseia num conjunto básico de axiomas e premissas inquestionáveis, será a ciência apenas mais um tipo de religião? *
Creio que não, posto que a ciência não se constitui apenas de um conjunto de valores fixos, a ciência está em evolução e tenta sempre substituir seus valores e seus axiomas por outros que se adequem mais e melhor aos dados da observação empírica. De fato, parece que todo e qualquer conhecimento humano está fundamentado em determinadas crenças dogmáticas não comprovadas, onde a partir delas -- e tendo-as como bases sólidas --, constrói-se um edifício do conhecimento. (Entretanto esse conhecimento não é tão sólido como parece à maioria de nós e é preciso entendermos e aceitarmos a característica conjectural do conhecimento humano em toda e qualquer esfera que se possa imaginar.) Essa característica conjectural do conhecimento parte da observação de que não parece ser possível qualquer conhecimento humano que não parta de determinadas premissas questionáveis, em maior ou menor grau. Só o fato de transformarmos o universo em uma representação simbólica (palavras, conceitos e teorias) já embute dentro da epistemologia um forte caráter interpretativo. Os cientistas devem sempre tentar diminuir a força de suas premissas e parece que têm sido bem sucedidos neste esforço, tanto que a busca pela simplicidade através do conhecido princípio da navalha de Occam é uma das bases do empreendimento científico.
A diferença da ciência com relação à religião é que dentro do império científico as crenças vão sendo substituídas ao longo do tempo por outras crenças axiomáticas básicas que pareçam mais adequadas, de forma a construirmos uma melhor representação do universo e da natureza. Já a religião se orgulha de manter os mesmos princípios axiomáticos desde sua origem e de acreditar piamente no conhecimento oriundo de uma única obra-chave, seja a bíblia ou qualquer outro livro de ensinamentos arbitrários. A religião só altera o status de algum de seus princípios quando a sociedade já evoluiu suficientemente de forma a não mais acreditar neles, o que acontece com muito pouca freqüência, já que os seres humanos têm uma capacidade enorme de acreditar em qualquer sistema lógico razoavelmente coerente, mesmo que desvinculado da natureza última do universo. As religiões são sistemas lógicos razoavelmente coerentes internamente e problema delas parece ser que suas premissas são muito fortes, além de que se tem essas premissas como verdades inquestionáveis. Mas é um erro pensar que o religioso é irracional, ele não é. Ele peca por acreditar em premissas muito fortes e que representam com um excesso de metafísica e imprecisão as regularidades naturais. O cientista também acredita em premissas de caráter um tanto quanto metafísico, mas ele tenta sempre questioná-las e superá-las, enquanto o religioso está satisfeito com suas premissas, sejam elas incorretas o quanto forem. A ciência, portanto, para ser um empreendimento confiável e interessante, deve sempre buscar colocar em teste seus dogmas e suas crenças mais fortemente fundamentadas. Ao colocar tais axiomas em cheque, pode-se talvez propor meios alternativos de se explicar e entender determinados fenômenos partindo de outros conjuntos axiomáticos que permitam uma derivação ampla -- a partir da razão -- de uma quantidade significativa de eventos do mundo natural.
Foi assim que, tendo como pano de fundo a mais forte de todas as teorias científicas já criadas -- a física newtoniana --, Albert Einstein colocou-a em cheque e foi capaz, com extrema genialidade, de questionar alguns de seus conceitos mais básicos -- como os conceitos força, massa e peso (segundo Thomas Kuhn) -- e propor uma teoria alternativa que não só é mais abrangente do que a teoria de Sir Isaac Newton, como explica uma quantidade ainda maior de fenômenos deixados de lado pela física newtoniana. O que precisamos, portanto, como cientistas, é aguçar nosso olhar crítico para o conjunto de axiomas de nossas teorias e tentarmos, com o auxílio de nossa criatividade, propormos conjuntos de axiomas diferentes e mais bem conectados que expliquem melhor as regularidades naturais. A criação de novos conceitos e a modificação de conceitos antigos para melhor explicar as regularidades naturais deve ser o foco do cientista-filósofo. É claro que isso não é tarefa fácil e as teorias científicas passam por uma seleção natural forte, onde as mais bem adaptadas permanecem como sendo a explicação vigente para determinado fenômeno. Já está claro, depois de Popper, Feyerabend e Lakatos que as teorias científicas atuais (paradigmáticas) são aceitas pela comunidade científica em detrimento de teorias antigas que representavam de forma menos eficiente -- segundo critérios gerais relacionados a teorias científicas -- as regularidades naturais. Os cientistas não abandonam suas teorias por elas explicarem mal a natureza; a menos que hajam outras teorias competidores que expliquem melhor as mesmas regularidades naturais. Além do mais, somos educados segundo o paradigma corrente como se ele fosse absolutamente correto e absoluto. Apenas quando estudamos a fundo uma determinada disciplina é que temos uma ampla noção de seus significados, de sua representação na natureza e de seus intricados sistemas de interação de conceitos. E só quando entendemos essa teia de interações conceituais (relações dos símbolos (palavras) entre si e com a natureza) é que podemos sugerir uma novos elementos conceituais (palavras) a serem adicionados à essa malha de conceitos de forma a explicar melhor certas regularidades.
Vale notar que a estrutura conceitual de um conhecimento paradigmática é normalmente fortemente fundamentada, uma vez que consiste de todo o status daquele rede de conhecimento desde que o homem começou a realizar seu empreendimento epistemológico. Assim, apenas mentes geniais como a de Einstein são capazes de por abaixo toda uma rede conceitual ampla e bem fundamentada de uma ciência paradigmática e sugerir novas teorias baseadas em outros pressupostos e outra interação entre estes e certos símbolos/fonemas (conceitos, palavras) que usamos para representar a natureza. Essa diferença de pressupostos é que gera a famosa incomensurabilidade proposta por Kuhn para explicar as revoluções científicas. Quando há uma revolução científica, segundo Kuhn, as teorias antiga e a nova não podem ser comparadas tete-a-tete, posto que se baseiam em premissas e conceitos diferentes. É difícil dizermos com certeza que a física einsteiniana é melhor que a física newtoniana. A física einsteiniana explica mais regularidades naturais e contém a física newtoniana, de certa forma, como caso particular. Entretanto, pragmaticamente falando, ainda usamos e abusamos das leis de Newton para predizer uma infinidade de fenômenos do mundo real. Por ser mais simples e menos geral do que a teoria einsteiniana, a teoria de Newton é mais aplicável à realidade que nos cerca, ao menos dentro de nosso planeta. Todo rede conceitual que forma uma explicação da realidade física tem seus pontos fortes e fracos, mas deve buscar a predição de regularidades dentro desta realidade.
Sugiro, portanto, que nenhum conhecimento humano estará livre de um sistema de básico questionável de premissas. Ciência e religião baseiam-se em premissas questionáveis e disso não podemos fugir. A questão é tentarmos aos poucos substituir nossos sistemas conceituais por outros que expliquem outras regularidades do universo. A física newtoniana e einsteiniana existem e existirão para sempre, funcionando de modo complementar para a experiência do homem com relação ao universo. A física newtoniana não deixa de existir quando do surgimento da física einsteiniana e é pouco provável que os currículos de ensino médio um dia passem a não mais ensinar as leis de Newton. Os dois sistemas são, entretanto, mutuamente excludentes: ou seja, as duas físicas não podem estar ao mesmo tempo corretas. Mas o que se quer dizer com uma teoria científica estar ou não estar correta? Não se pode dizer nada com relação à certidão de uma teoria científica, posto que nunca seremos capazes de compreender a natureza última do universo. Todo conhecimento humano é interpretativo e conjectural. A natureza não se apresenta como um conjunto de enunciados e correlações entre enunciados que se possa apreender. Não há epistemologia sem um sujeito conhecedor. Não existe um conhecimento absoluto do universo ao qual devamos alcançar! Assim como não há moral absoluta, não há conhecimento absoluto e é inútil tentar encontrar o conhecimento absoluto, posto que mesmo que se fossêmos capazes de encontrá-lo, não saberíamos disso. O que os epistemólogos devem então entender, a meu ver, é que o realismo está morto, não devemos achar que o conhecimento tem uma relação direta com a realidade. Ele não tem e nem deve ter. O conhecimento humano deve ser apenas um meio que utilizamos para entendermos melhor as regularidades naturais já que, damos esta sorte, o universo se comporta de maneira regular com relação a um número amplo de aspectos.
* Há cerca de um ano escrevi esta pergunta (em 19/09/2006) e não fui capaz de vislumbrar uma resposta. Agora, depois de ler bastante epistemologia tenho uma teoria melhor sobre o conhecimento humano que está aí disposta. Esta nova teoria parece tecer melhor uma rede de argumentações e representar de forma mais adequada as diferenças entre ciência e religião, dado que ambas se baseiam em axiomas questionáveis, em última instância. Estou satisfeito com esta resposta e espero ter tempo para desenvolvê-la melhor em um futuro próximo.
Creio que não, posto que a ciência não se constitui apenas de um conjunto de valores fixos, a ciência está em evolução e tenta sempre substituir seus valores e seus axiomas por outros que se adequem mais e melhor aos dados da observação empírica. De fato, parece que todo e qualquer conhecimento humano está fundamentado em determinadas crenças dogmáticas não comprovadas, onde a partir delas -- e tendo-as como bases sólidas --, constrói-se um edifício do conhecimento. (Entretanto esse conhecimento não é tão sólido como parece à maioria de nós e é preciso entendermos e aceitarmos a característica conjectural do conhecimento humano em toda e qualquer esfera que se possa imaginar.) Essa característica conjectural do conhecimento parte da observação de que não parece ser possível qualquer conhecimento humano que não parta de determinadas premissas questionáveis, em maior ou menor grau. Só o fato de transformarmos o universo em uma representação simbólica (palavras, conceitos e teorias) já embute dentro da epistemologia um forte caráter interpretativo. Os cientistas devem sempre tentar diminuir a força de suas premissas e parece que têm sido bem sucedidos neste esforço, tanto que a busca pela simplicidade através do conhecido princípio da navalha de Occam é uma das bases do empreendimento científico.
A diferença da ciência com relação à religião é que dentro do império científico as crenças vão sendo substituídas ao longo do tempo por outras crenças axiomáticas básicas que pareçam mais adequadas, de forma a construirmos uma melhor representação do universo e da natureza. Já a religião se orgulha de manter os mesmos princípios axiomáticos desde sua origem e de acreditar piamente no conhecimento oriundo de uma única obra-chave, seja a bíblia ou qualquer outro livro de ensinamentos arbitrários. A religião só altera o status de algum de seus princípios quando a sociedade já evoluiu suficientemente de forma a não mais acreditar neles, o que acontece com muito pouca freqüência, já que os seres humanos têm uma capacidade enorme de acreditar em qualquer sistema lógico razoavelmente coerente, mesmo que desvinculado da natureza última do universo. As religiões são sistemas lógicos razoavelmente coerentes internamente e problema delas parece ser que suas premissas são muito fortes, além de que se tem essas premissas como verdades inquestionáveis. Mas é um erro pensar que o religioso é irracional, ele não é. Ele peca por acreditar em premissas muito fortes e que representam com um excesso de metafísica e imprecisão as regularidades naturais. O cientista também acredita em premissas de caráter um tanto quanto metafísico, mas ele tenta sempre questioná-las e superá-las, enquanto o religioso está satisfeito com suas premissas, sejam elas incorretas o quanto forem. A ciência, portanto, para ser um empreendimento confiável e interessante, deve sempre buscar colocar em teste seus dogmas e suas crenças mais fortemente fundamentadas. Ao colocar tais axiomas em cheque, pode-se talvez propor meios alternativos de se explicar e entender determinados fenômenos partindo de outros conjuntos axiomáticos que permitam uma derivação ampla -- a partir da razão -- de uma quantidade significativa de eventos do mundo natural.
Foi assim que, tendo como pano de fundo a mais forte de todas as teorias científicas já criadas -- a física newtoniana --, Albert Einstein colocou-a em cheque e foi capaz, com extrema genialidade, de questionar alguns de seus conceitos mais básicos -- como os conceitos força, massa e peso (segundo Thomas Kuhn) -- e propor uma teoria alternativa que não só é mais abrangente do que a teoria de Sir Isaac Newton, como explica uma quantidade ainda maior de fenômenos deixados de lado pela física newtoniana. O que precisamos, portanto, como cientistas, é aguçar nosso olhar crítico para o conjunto de axiomas de nossas teorias e tentarmos, com o auxílio de nossa criatividade, propormos conjuntos de axiomas diferentes e mais bem conectados que expliquem melhor as regularidades naturais. A criação de novos conceitos e a modificação de conceitos antigos para melhor explicar as regularidades naturais deve ser o foco do cientista-filósofo. É claro que isso não é tarefa fácil e as teorias científicas passam por uma seleção natural forte, onde as mais bem adaptadas permanecem como sendo a explicação vigente para determinado fenômeno. Já está claro, depois de Popper, Feyerabend e Lakatos que as teorias científicas atuais (paradigmáticas) são aceitas pela comunidade científica em detrimento de teorias antigas que representavam de forma menos eficiente -- segundo critérios gerais relacionados a teorias científicas -- as regularidades naturais. Os cientistas não abandonam suas teorias por elas explicarem mal a natureza; a menos que hajam outras teorias competidores que expliquem melhor as mesmas regularidades naturais. Além do mais, somos educados segundo o paradigma corrente como se ele fosse absolutamente correto e absoluto. Apenas quando estudamos a fundo uma determinada disciplina é que temos uma ampla noção de seus significados, de sua representação na natureza e de seus intricados sistemas de interação de conceitos. E só quando entendemos essa teia de interações conceituais (relações dos símbolos (palavras) entre si e com a natureza) é que podemos sugerir uma novos elementos conceituais (palavras) a serem adicionados à essa malha de conceitos de forma a explicar melhor certas regularidades.
Vale notar que a estrutura conceitual de um conhecimento paradigmática é normalmente fortemente fundamentada, uma vez que consiste de todo o status daquele rede de conhecimento desde que o homem começou a realizar seu empreendimento epistemológico. Assim, apenas mentes geniais como a de Einstein são capazes de por abaixo toda uma rede conceitual ampla e bem fundamentada de uma ciência paradigmática e sugerir novas teorias baseadas em outros pressupostos e outra interação entre estes e certos símbolos/fonemas (conceitos, palavras) que usamos para representar a natureza. Essa diferença de pressupostos é que gera a famosa incomensurabilidade proposta por Kuhn para explicar as revoluções científicas. Quando há uma revolução científica, segundo Kuhn, as teorias antiga e a nova não podem ser comparadas tete-a-tete, posto que se baseiam em premissas e conceitos diferentes. É difícil dizermos com certeza que a física einsteiniana é melhor que a física newtoniana. A física einsteiniana explica mais regularidades naturais e contém a física newtoniana, de certa forma, como caso particular. Entretanto, pragmaticamente falando, ainda usamos e abusamos das leis de Newton para predizer uma infinidade de fenômenos do mundo real. Por ser mais simples e menos geral do que a teoria einsteiniana, a teoria de Newton é mais aplicável à realidade que nos cerca, ao menos dentro de nosso planeta. Todo rede conceitual que forma uma explicação da realidade física tem seus pontos fortes e fracos, mas deve buscar a predição de regularidades dentro desta realidade.
Sugiro, portanto, que nenhum conhecimento humano estará livre de um sistema de básico questionável de premissas. Ciência e religião baseiam-se em premissas questionáveis e disso não podemos fugir. A questão é tentarmos aos poucos substituir nossos sistemas conceituais por outros que expliquem outras regularidades do universo. A física newtoniana e einsteiniana existem e existirão para sempre, funcionando de modo complementar para a experiência do homem com relação ao universo. A física newtoniana não deixa de existir quando do surgimento da física einsteiniana e é pouco provável que os currículos de ensino médio um dia passem a não mais ensinar as leis de Newton. Os dois sistemas são, entretanto, mutuamente excludentes: ou seja, as duas físicas não podem estar ao mesmo tempo corretas. Mas o que se quer dizer com uma teoria científica estar ou não estar correta? Não se pode dizer nada com relação à certidão de uma teoria científica, posto que nunca seremos capazes de compreender a natureza última do universo. Todo conhecimento humano é interpretativo e conjectural. A natureza não se apresenta como um conjunto de enunciados e correlações entre enunciados que se possa apreender. Não há epistemologia sem um sujeito conhecedor. Não existe um conhecimento absoluto do universo ao qual devamos alcançar! Assim como não há moral absoluta, não há conhecimento absoluto e é inútil tentar encontrar o conhecimento absoluto, posto que mesmo que se fossêmos capazes de encontrá-lo, não saberíamos disso. O que os epistemólogos devem então entender, a meu ver, é que o realismo está morto, não devemos achar que o conhecimento tem uma relação direta com a realidade. Ele não tem e nem deve ter. O conhecimento humano deve ser apenas um meio que utilizamos para entendermos melhor as regularidades naturais já que, damos esta sorte, o universo se comporta de maneira regular com relação a um número amplo de aspectos.
* Há cerca de um ano escrevi esta pergunta (em 19/09/2006) e não fui capaz de vislumbrar uma resposta. Agora, depois de ler bastante epistemologia tenho uma teoria melhor sobre o conhecimento humano que está aí disposta. Esta nova teoria parece tecer melhor uma rede de argumentações e representar de forma mais adequada as diferenças entre ciência e religião, dado que ambas se baseiam em axiomas questionáveis, em última instância. Estou satisfeito com esta resposta e espero ter tempo para desenvolvê-la melhor em um futuro próximo.

1 Comments:
eu queria sabeer o seguinte
"as leis ou teorias cientificas são verdades absolutas ou sao questionaveis?"
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