Quarta-feira, Setembro 12, 2007

Prelúdio a uma genealogia do conhecimento

[E]verything intuited or perceived in space and time, and therefore all objects of a possible experience, are nothing but phenomenal appearances, that is, mere representations, which in the way in which they are represented to us, as extended beings, or as series of changes, have no independent, self-subsistent existence apart from our thoughts.
Immanuel Kant – Critique of Pure Reason, A491



A representação simbólica do mundo através de caracteres (linguagem) e/ou teorias científicas está desvinculada da natureza do universo, que não tem qualquer representação. Assim como a moral está apenas no homem, também este é o status do conhecimento. Embora esta teoria possa a princípio parecer um tipo de relativismo, definitivamente ela está longe do relativismo no sentido que considera o conhecimento como tanto válido quanto justificável. A existência de um conhecimento do homem sobre o mundo baseia-se em uma interpretação do homem sobre certas regularidades da natureza. Isso também não quer dizer que não existam outras formas de representações possíveis de tais regularidades, provavelmente elas existem e podem ser encontradas. Quero dizer, assim, que para determinados eventos observáveis há um número razoável de teorias internamente coerentes que podemos criar e que podem ser usadas para explicar e prever futuras regularidades, com maior ou menor eficiência. As teorias físicas de Newton e Einstein são dessa natureza, ou seja, explicam as mesmas regularidades de forma diferente, baseadas em conceitos alternativos de certas grandezas físicas. Não se pode dizer com correção que a teoria newtoniana seja um caso particular da teoria newtoniana, posto que a rede conceitual com a qual Newton descreve o universo é diferente da rede conceitual einsteiniana -- há uma incomensurabilidade quanto da comparação entre essas duas teorias.

Por outro lado, a tentativa de ligar nosso conhecimento a uma realidade é justificável e deve ser buscada para que melhor compreendamos as informações que nos rodeiam. Entretanto, a tentativa em sugerir que este conhecimento pode ser absoluto e representativo da natureza última do universo é falso. Tanto as linguagens quanto as teorias científicas são apenas meios segundo os quais o homem tenta apreender informações e regularidades da natureza. Esses meios serão sempre, no entanto, interpretativos e não podem ser imaginados como estando incrustados naquilo que chamamos "a natureza do universo". Todo o conhecimento que acumulamos deve ser entendido apenas como "tentativas de entender as regularidades naturais e prevê-las com certa eficácia". Dessa forma, não importa se o modelo atômico dos físicos esteja ou não correto, desde que seja possível aos humanos entender mais sobre regularidades do universo ao utilizarmos este modelo ao invés de outros modelos alternativos (que tratem sobre o mesmo nicho explicativo). As teorias científicas -- e também a linguagem -- são modelos de representação desse universo e que, possivelmente, refletem certa parcela de sua realidade. É possível supor, entretanto, a existência de inúmeros modelos (conjuntos conceituais internamente coerentes) alternativos que expliquem regularidades universais semelhantes de forma também satisfatória. É este o caso de Newton e Einstein. Newton estava errado. Einstein também se provará errado. Assim como aquele que teorizar uma teoria pós-einsteiniana. Deve-se aceitar que nossas teorias serão sempre conjecturais e que são formas que utilizamos para interpretar essas ditas regularidades. Assim nossas teorias e nossa linguagem podem ser entendidas como interpretações fortemente tendenciosas (embora boas, dada nossa capacidade cognitiva) de uma realidade aepistêmica -- entenda-se aqui a relação entre episteme e aepisteme da mesma forma como correntemente se relacionam os conceitos de moral e amoral.

Conhecimentos de cunho claramente interpretativos sobre a natureza do universo podem, entretanto, ser classificados em algum tipo de ordem hierárquica de virtude, tendo como critério de virtuosismo o fato de representarem de forma mais fiel as regularidades observáveis e de algum modo mensuráveis de nosso universo. Nenhum conhecimento será jamais, entretanto, um conhecimento absoluto e, portanto, supõe-se que nosso conhecimento irá sempre em frente, no sentido de buscar as melhores representações possíveis das regularidades naturais. Ao considerarmos diferentes nichos explicativos de conhecimento, criamos diferentes áreas da pesquisa em ciências naturais, como a física, a química, a biologia e todas as suas inúmeras subdivisões. (Também o conhecimento com relação às ciências humanas será interpretativo, embora sobre este pareça haver consenso nesse aspecto.) Em cada campo do conhecimento humano, idéias que representem melhor (ou pior) as observações que fazemos neste referido campo devem competir darwinianamente de forma a ocuparem o lugar paradigmático do conhecimento nesta área. Uma vez considerado o caráter interpretativo do conhecimento, não faz mais sentido discutir a relação entre o conhecimento e a natureza do universo. Esta natureza é irrelevante, inalcançável e provavelmente não é formalizável em linguagem humana. Buscar regularidades e conjuntos conceituais internamente coerentes (teorias científicas) que expliquem e permitam predizer futuras regularidades não é conhecer a natureza última do universo, mas é conseguir modelá-lo em certo aspecto restrito e que não leva em consideração uma ampla gama de fatores provavelmente envolvidos no fenômeno real.


A justificação de teorias científicas, entretanto, pode e deve ser entendida da forma tradicional de abordagem como descritas por Popper e Lakatos -- e como de fato parece ocorrer na abordagem pragmática da ciência. Experimentos cruciais, embora não atestem jamais sobre a perfeita adequação de uma teoria com relação à natureza última do universo, podem ser utilizados para realizar o teste entre duas teorias concorrentes e verificar qual delas é capaz de explicar melhor as regularidades do universo a que se dispõem mutuamente explicar (ou seja, seu nicho explicativo ou nicho epistêmico). É claro que mesmo as mais diretas das sentenças protocolares possíveis que tenham relação com o universo natural envolvem um conteúdo interpretativo. De fato, toda nossa linguagem é interpretativa e não se deve pensar que a matemática ou a lógica estão ligadas à natureza última do universo. Matemática, lógica e algoritmica são apenas formas criadas pelo ser humano -- dada sua capacidade cognitiva -- e que calharam em serem capazes de interpretar e modelar o universo de uma maneira que explique e preveja com certa eficácia determinados eventos do mundo em que vivemos. Não há, entretanto, um mundo das idéias platônico onde todo o conhecimento do universo esteja acumulado e não há como saber quão próximas de representar a natureza última do universo são nossas teorias científicas e nossa linguagem simbólico-conceitual. De fato, este é um falso-problema. O que importa é que somos capazes de construir um sistema auto-coerente de símbolos que nos permite interpretar de alguma forma o universo e permite também a nossa comunicação com outros seres de nossa espécie. Não há, continuando, como Popper sugere, uma epistemologia sem sujeito conhecedor. O conhecimento é como a moral, é algo que só existe e só deve existir dentro do homem.