Sábado, Outubro 20, 2007

Equilíbrio pontuado memético

A aceleração da quantidade de avanço da tecnologia -- ou de uma área qualquer de pesquisa -- pode ser prevista por mecanismos darwinianos. Da mesma forma em que organismos vivos evoluem e modificam seus genomas e fenótipos ao longo do tempo de forma diferente, também assim é a evolução cultural. Podemos observar, por exemplo, se um determinado meme (digamos, relacionado a uma certa área de pesquisa) tem mutado rapidamente. Para verificarmos isso, deveremos usar como indicadores de aceleração de avanço a gênese ou modificação de palavras e conceitos relacionados semanticamente com este meme mais genérico.

Um meme é formado de símbolos representativos (fonemas ou palavras) e conceitos associados a esses símbolos. Fonemas ou palavras são representações simbólicas do mundo que apreendemos através de nossos mais exímios sentidos -- audição e visão -- e que podem ser imaginadas dentro do mundo físico. Elas representam conceitos que já estão formalizados pela comunidade de falantes de uma determinada língua ou dialeto. Ao acessar uma determinada palavra ou fonema, o falante tem uma idéia clara, ainda que abstrata (pense no sentimento de ameaça: é claro, porém abstrato), sobre aquilo a que o símbolo que lhe foi exposto se refere. Já o conceito consiste na formulação, abstrata e individualmente variável, que um símbolo fonético ou uma palavra trás à mente de cada indivíduo. Por exemplo, quando falamos de "mesa", podemos nos referir ao seus símbolos ou ao seu conceito. A descrição simbólica que vem à mente é a palavra ou o som referidas por este símbolo. Já o que cada um de nós imagina ao identificarmos estes símbolos é diferente do que imaginamos ao pensarmos no conceito. E, mais do que isso, não se pode imaginar o conceito dentro do mundo material. Ele está apenas em nosso complexo computador cerebral.

Por ora, entendamos sons e palavras como representações simbólicas do mundo e foquemos mais diretamente na importância da gênese de palavras e/ou fonemas*. É interessante notar que os símbolos ajudam-nos a moldar melhor os conceitos. As mesas podem ser de vários tipos: podem variar segundo sua composição, forma, número de pernas, dentre outros aspectos. E foram necessárias que novas palavras e novos fonemas fossem criados para definir e representar melhor, os diversos conceitos existentes para cada tipo de mesa. O número de símbolos associados a um conceito parece estar intimamente relacionado a uma melhor compreensão daquele conceito. Para conceitos mais precisos, teremos um maior número de símbolos (fonéticos e literários) que podem se inter-relacionar com o conceito de forma descrevê-lo melhor. O conceito de mesa-verde-redonda-com-três-pés é um conceito mais preciso -- e mais verboso! -- do que o simples conceito de "mesa". Assim, a variabilidade memética de um táxon superior memético como "mesa" é evidentemente muito maior que a variabilidade presente em taxons inferiores "mesa-verde-redonda-com-três-pés" -- pensar-se-á em mais exemplos de mesa do que em exemplos de mesa-verde-redonda-com-três-pés. Assim, está claro que o número de palavras que cerca um conceito permite uma melhor descrição (especificação) do mesmo deste e facilita a comunicação entre os falantes.

Haverão, entretanto, conceitos que não se permitirão ser cercados de palavras. E isso se deve ao fato de que, dado nosso aparato cognitivo, não os conseguimos compreender de forma a verificar suas regularidades e conseguir trazê-las à luz da razão. Primeiro é preciso ser capaz de reconhecer um padrão, dado o aparato sensorial de uma espécie e, em seguida, é necessário que o mecanismo cerebral de interpretação das sensações seja capaz de gastar tempo de processamento nessas informações de forma a observar e reconhecer seus padrões de regularidades. É bastante possível, e até muito provável, que a maior parte dos padrões que nos chegam aos receptores sensoriais não possam ser decodificados pelos nossos limitados -- porém incríveis! -- mecanismos cerebrais de interpretação e compreensão de padrões. Assim, apenas aqueles padrões que conseguimos interpretar muito bem (humanamente falando) é que associamos a palavras. Da mesma forma, já foi mostrado que um número maior de palavras, quando associadas a um conceito, é capaz de representar de forma mais elaborada este conceito e facilitar a comunicação. Assim, se medirmos o número de novos termos produzidos em diferentes áreas do conhecimento humano, poderemos assim obter uma métrica eficiente para identificarmos ritmos de aceleração de produção de nosso conhecimento -- um tipo de pesquisa interessante e com uma clara aplicação social da epistemologia darwiniana. Como exemplo, vale ressaltar o quanto a "revolução da informática" nos último 20 anos aumentou o vocabulário do cidadão comum, em número de palavras que antes eram totalmente desconhecidas ou mesmo inexistentes.

Infelizmente os periódicos de memética estão quase todos descontinuados. Será que ainda podemos ressuscitar a memética?

* Uma questão que cabe aqui é se o que surge primeiro é uma palavra ou um fonema, sendo que ambos têm -- em quase todos os casos que consigo imaginar -- uma relação de um para um com relação a conceitos. É claro que um conceito pode ser representado por mais de uma palavra (raiva, ira), assim como uma palavra pode representar vários conceitos (amor = confiança, carinho, companheirismo). Pode-se supor que conceitos mais gerais provavelmente tenham surgido primeiro na sucessão temporal de seres da filogenia memética. Derivações desses conceitos gerais, ou seja, suas derivações, nuances e um maior grau de entendimento do mesmo levaram necessariamente ao nosso desejo de descrevê-los com mais precisão. Acredito que esse conceito reducionista da criação de conceitos seja a regra. Exceções, entretanto, provavelmente abundam. É claro que vários conceitos, como alguns conceitos de ligação em ciências -- como o surgimento da bioquímica, digamos -- são conceitos holistas que, entretanto, só puderem ser concluídos a partir de investigações reducionistas em determinadas linhas de pesquisa -- no caso, a biologia e a química. Holismo e reducionismo não são rivais em epistemologia e têm, portanto, uma relação de mutualismo para a virtude desta linha de pesquisa.

Marcadores: , ,

1 Comments:

Blogger Rafa Pros said...

Muito foda...super Betrand Russel, aquele texto da cadeira, se ela existe ou não..
O que me incomoda é esse carater meio inovador que tem algo que é feito a muito tempo por linguistas e o pessoal de outras áreas...

"Como exemplo, vale ressaltar o quanto a "revolução da informática" nos último 20 anos aumentou o vocabulário do cidadão comum, em número de palavras que antes eram totalmente desconhecidas ou mesmo inexistentes. "
Um trabalho pioneiro em Psicologia Social, foi o que trabalhou com o conceito de Representação Social, e que consistiu basicamente no q vc diz aqui em cima, só que com a psicanálise. Ou seja, fizeram uma pesqusia sobre como a psicanálise se apresentação nas palavras dos cidadãos franceses e tal...

11:04 PM  

Postar um comentário

<< Home