Quarta-feira, Junho 11, 2008

Da irrelevância da inteligência para a genialidade

To punish me for my contempt for authority, fate made me an authority myself.
-- Albert Einstein

All of our science, measured against reality, is primitive and childlike -- and yet it is the most precious thing we have.
-- Carl Sagan


Todo o conhecimento já produzido pelo homem é extremamente simples, porém vasto -- por vezes associado a modelos conceituais relativamente extensos. Qualquer ser humano, por mais intelectualmente incapacitado que seja, pode apreender qualquer conhecimento que lhe convier caso tenha disciplina suficiente para o estudo. Um gosto e interesse pessoal pela área em questão também ajudam.

No caso da aprendizagem de modelos conceituais extensos, por vezes é necessário um período de adaptação até que o modelo conceitual do campo de pesquisa em questão possa ser apreendido com clareza. Este tempo de adaptação decorre provavelmente do fato de que todo ser humano já traz dentro de si mesmo um modelo conceitual próprio para explicar o mundo à sua volta. Este modelo conceitual pessoal e intrínseco a cada um de nós é inicialmente bastante simples e normalmente apresenta um conteúdo mágico. Assim, em grande parte das vezes, o modelo que se utiliza nas ciências nega e contradiz muitos dos conceitos pessoais que trazemos conosco desde nossa mais tenra infância -- na maioria das vezes tal contradição vem da substituição de um ponto de vista religioso ou mágico por modelos mecanicistas de maior conteúdo empírico, ou seja, que se adequam melhor aos dados observacionais formalizados em experimentos e trabalhos científicos. Assim, é preciso que o aprendiz esteja aberto a deixar sua visão de mundo própria e substituí-la por uma nova série de conceitos e inter-relações entre conceitos (cluster) que caracterizam o estado corrente da pesquisa em determinada área do conhecimento. Esta substituição de conceitos é tão dramática quanto é forte a crença do indivíduo na retidão de sua visão de mundo. Quanto mais fundamentalista o indivíduo for com relação ao seu conhecimento, mais difícil será para ele aprender novos conceitos. Assim, é uma virtude para o cientista questionar sua própria visão de mundo e também a visão de mundo de sua ciência. Duvidar do que se acredita é talvez a maior virtude do cientista e de todo aquele que admira e deseja adicionar aos modelos conceituais formados pelo conhecimento humano.

As diferentes escolas que por vezes se formam com relação a uma determinada área de conhecimento baseiam-se em considerações de modelos diferentes e estruturas conceituais diferentes para explicar determinada observação ou fato. Uma comparação precisa entre as correntes pode ser teoricamente feita, embora o pesquisador que realiza tal comparação necessite de um amplo e imparcial conhecimento de ambos os modelos conceituais, de forma que possa analisar com clareza os resultados. Entretanto, o sentimento de iluminação que o indivíduo tem quando entende finalmente uma determinada corrente de pensamento e todos seus conceitos inter-relacionados e sua capacidade explicativa, fazem frequentemente deste indivíduo um fundamentalista de uma determinada escola. Ele não tem mais porquê procurar outra fonte de conhecimento, dado que já aprendera a interpretar e entender determinado evento do universo segundo determinado ponto de vista. Ele está satisfeito com a explicação de sua escola. Penso que em filosofia e psicologia essas observações encontram exemplos claros -- infelizmente eu precisaria estudar mais profundamente tais áreas para poder argumentar com exemplos mais incidentes. Já no caso das ciências naturais, onde o empirismo tem um mais forte apelo, é difícil encontrar grandes controvérsias escolares e, portanto, a física, química e biologia apresentam conjuntos conceituais praticamente consensuais ante os estudiosos da área. O modelo newtoniano é menos completo que o einsteiniano, assim como o modelo moderno do átomo é mais adequado do que o modelo de Bohr e também a seleção natural explica mais adequadamente nossas observações do que a herança dos caracteres adquiridos.

Os modelos conceituais das ciências são por vezes vastos, embora sejam bastante simples, normalmente produzidos pelo senso comum quando aplicado à determinado conjunto de dados recolhidos da natureza segundo metodologia rígida. Os gênios são aqueles que conseguem questionar o conjunto de dados atual de forma a sugerir alguma alteração drástica nos conceitos utilizados para a representação de mundo ou na inter-relação entre conceitos já existentes. Tal alteração drástica deve provar-se mais adequada para o entendimento de determinados eventos em particular, provendo então uma mudança paradigmática dentro de uma linha de conhecimento. O gênio não precisa necessariamente ser excessivamente inteligente, ele deve entretanto saber questionar a autoridade e a tradição do conhecimento já alcançado antes de si e deve ser corajoso e astuto o suficiente para sugerir modificações nesses conceitos ou em suas inter-relações. Todo indivíduo, entretanto, pode ser considerado gênio quando ele entende alguma nova disciplina que antes não compreendia muito bem. A substituição de seus mais arraigados valores por um conjunto mais conciso de conceitos, que explica melhor o mundo, é uma enorme virtude que qualquer indivíduo é capaz de alcançar. Todos os seres humanos podem entender a física quântica e a biologia molecular se estiverem dispostos a substituir seus mitos e incompreensões por um conjunto associado de dados observados e conceitos que explicam tais dados. É o interesse e a abertura de espírito que fazem de alguém um gênio, não a inteligência -- embora ela certamente ajude, quando associada a essas outras características ainda mais essenciais.

ADENDO

Infelizmente, o modelo social e didático de hoje é montado segundo o padrão: "o professor sabe tudo e o aluno não sabe nada". É preciso uma reforma no ensino em nossas universidades brasileiras, sulamericanas, mundiais. Era isso exatamente o que queria dizer o grupo inglês Pink Floyd quando dizia "We don't need no education". Não precisamos deste tipo de educação quadrada. Esta forma rígida do ensino, tão comum em nossas universidades -- onde o professor apresenta um novo campo conceitual ao aluno como se ele fosse a verdade absoluta e inquestionável --, está ultrapassada já há muito tempo. É preciso notar que toda a ciência consiste em modelos provisórios para explicar o mundo. Toda a ciência, de qualquer época, estará incorreta em um sem número de pontos. A má e quadrada educação que aprendemos nas universidades e nos colégios deve ser reformada. E ela deve ser reformada ontem.

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