O dilema do pesquisador -- uma abordagem epistemológica
Todo cientista pesquisador vive em meio a um dilema que envolve um risco profissional. Há, portanto, pesquisadores corajosos e covardes, assim como há os inovadores e os conservadores, respectivamente.
É que a pesquisa científica pode se configurar, de um lado, como um trabalho explorativo de descoberta dos padrões observados no universo. Assim, pesquisadores criam teorias e apostam suas fichas profissionais no fato de que elas devem ter uma relação direta com aquilo que se pode apreender do universo. Então os cientistas gastam seus tempos a investigar e a tentar provar e verificar a adequação de seus modelos teóricos à uma natureza desconhecida -- mas que parece seguir certas regularidades.
Por outro lado, cientistas mais tradicionais e que não desejam arriscar em demasia suas carreiras podem preferir evitar pesquisas de cunho explorativo. Tais pesquisadores podem, portanto, apenas aumentar o conteúdo de conhecimento em determinado programa de pesquisa que sigam ao aplicarem técnicas já consagradas dentro do paradigma corrente em dados ainda virgens. Esse tipo de pesquisa tem bases mais sólidas e uma menor chance de incorrer em erro ou risco: é mais medíocre, mas não tem muita chance de dar errado. É que neste caso o cientista já sabe, antes de começar a pesquisar, que uma metodologia similar já foi capaz de evidenciar certos padrões em dados similares ao que ele quer analisar.
O cientista criativo é, necessariamente, um indivíduo que arrisca sua carreira profissional ao buscar novas fronteiras com relação ao programa de pesquisa com o qual trabalha. Um pesquisador explorativo parece sempre se dirigir a dois opostos com relação à comunidade com a qual trabalha: ou (1) ele descobrirá algo novo e será tido como herói, tendo evidenciado novas regularidades ou novas formas de interpretação das regularidades da natureza; ou (2) trabalhará com questões pouco ortodoxas e será tido como louco, como alguém que busca aviões em estacionamentos de automóveis.
A produção de novos conhecimentos em qualquer área de pesquisa é, necessariamente, uma atitude de risco. Pode-se chegar em novos dados, novas análises, novos paradigmas ou pode-se dar de cara com um enorme muro da ortodoxia científica. Pode-se também, evidentemente, apostar em um beco sem saída. Cientistas são seres humanos e seres humanos erram. Seres humanos erram muito. Embora acertem, algumas vezes. O mundo da ciência é um mundo onde cientistas são julgados por cientistas e alguém que esteja à frente do seu tempo e que tenha pensamentos um tanto quanto mais avançados com relação ao pensamento de sua época, pode -- e já se mostrou historicamente -- ser considerado louco e execrado pela comunidade. Por outro lado, a recusa do cientista em buscar novos pontos a se conhecer e em tentar abrir novos programas de pesquisa configura a mais clara mediocridade de espírito científico. O cientista medíocre não pensa, não quer pensar, quer apenas reproduzir técnicas altamente consagradas em novos contextos que, sem dúvida, aumentarão o já enorme poço do conhecimento humano. Estes praticantes da ciência normal kuhniana consistem na imensa maioria dos cientistas em qualquer tipo de instituição que se vá. Eles podem ser ótimos profissional, mas serão sempre repetidores de tarefas. O verdadeiro cientista deve buscar estar além do conhecimento fácil, ele deve arriscar-se, buscar novas fronteiras, testar as premissas do conhecimento em sua área de atuação, tentar propor novos modelos teóricos que se adéqüem mais intimamente à realidade do que aqueles existentes à época em que realiza sua pesquisa. Ao cientista normal, falta um conhecimento filosófico sobre a incompletude do conhecimento científico e ele normalmente acredita que o que faz tem uma correspondência direta e inequívoca com o mundo natural. Apenas o filósofo-cientista sabe reconhecer o caráter interpretativo do conhecimento e, assim, ser capaz de questionar as supostamente sólidas bases do conhecimento; podendo quiçá sugerir, com base em reinterpretações de dados já consagrados, novos lugares e pontos a se seguir.
Foi esta, exatamente, a contribuição de Einstein para as ciências. E o alemão que recriou as ciências físicas provavelmente tinha exatamente essa concepção da ciência quando destruiu a base da mais sólida das teorias científicas já propostas em todos os tempos: a física newtoniana. Einstein questionou a física newtoniana e verificou onde ela escorregava. Ele duvidou das proposições de Newton e decidiu recriar novos conceitos em física. Modificou o que se entendia por matéria, massa e energia, sugeriu a relatividade do espaço-tempo, disse que a luz tinha uma velocidade máxima e constante no vácuo, entendeu que esta mesma luz poderia fazer uma curva ao redor de corpos de grande massa, enxergou como o espaço não era assim tão fixo como as mentes humanas da época o supunham. Albert Einstein pode talvez ser entendido como a maior mente questionadora da história da humanidade pois que pôs a baixo, com extrema elegância e inteligência, um paradigma tão forte quanto a mais forte das teorias científicas já propostas. E se a teoria newtoniana caiu, outras cairão, basta que as olhemos com olhar crítico e tentemos propor novos modelos para explicar os dados empíricos que temos disponíveis. Não sejamos covardes ou conservadores, caiamos fora da ciência normal e tomemos Einstein como nosso mártir. Arrisquemo-nos, questionemos nossas teorias, avancemos nosso conhecimento e deixemos para trás estes estúpidos cientistas-normais conservadores.
Versão original escrita em 10/09/07.
É que a pesquisa científica pode se configurar, de um lado, como um trabalho explorativo de descoberta dos padrões observados no universo. Assim, pesquisadores criam teorias e apostam suas fichas profissionais no fato de que elas devem ter uma relação direta com aquilo que se pode apreender do universo. Então os cientistas gastam seus tempos a investigar e a tentar provar e verificar a adequação de seus modelos teóricos à uma natureza desconhecida -- mas que parece seguir certas regularidades.
Por outro lado, cientistas mais tradicionais e que não desejam arriscar em demasia suas carreiras podem preferir evitar pesquisas de cunho explorativo. Tais pesquisadores podem, portanto, apenas aumentar o conteúdo de conhecimento em determinado programa de pesquisa que sigam ao aplicarem técnicas já consagradas dentro do paradigma corrente em dados ainda virgens. Esse tipo de pesquisa tem bases mais sólidas e uma menor chance de incorrer em erro ou risco: é mais medíocre, mas não tem muita chance de dar errado. É que neste caso o cientista já sabe, antes de começar a pesquisar, que uma metodologia similar já foi capaz de evidenciar certos padrões em dados similares ao que ele quer analisar.
O cientista criativo é, necessariamente, um indivíduo que arrisca sua carreira profissional ao buscar novas fronteiras com relação ao programa de pesquisa com o qual trabalha. Um pesquisador explorativo parece sempre se dirigir a dois opostos com relação à comunidade com a qual trabalha: ou (1) ele descobrirá algo novo e será tido como herói, tendo evidenciado novas regularidades ou novas formas de interpretação das regularidades da natureza; ou (2) trabalhará com questões pouco ortodoxas e será tido como louco, como alguém que busca aviões em estacionamentos de automóveis.
A produção de novos conhecimentos em qualquer área de pesquisa é, necessariamente, uma atitude de risco. Pode-se chegar em novos dados, novas análises, novos paradigmas ou pode-se dar de cara com um enorme muro da ortodoxia científica. Pode-se também, evidentemente, apostar em um beco sem saída. Cientistas são seres humanos e seres humanos erram. Seres humanos erram muito. Embora acertem, algumas vezes. O mundo da ciência é um mundo onde cientistas são julgados por cientistas e alguém que esteja à frente do seu tempo e que tenha pensamentos um tanto quanto mais avançados com relação ao pensamento de sua época, pode -- e já se mostrou historicamente -- ser considerado louco e execrado pela comunidade. Por outro lado, a recusa do cientista em buscar novos pontos a se conhecer e em tentar abrir novos programas de pesquisa configura a mais clara mediocridade de espírito científico. O cientista medíocre não pensa, não quer pensar, quer apenas reproduzir técnicas altamente consagradas em novos contextos que, sem dúvida, aumentarão o já enorme poço do conhecimento humano. Estes praticantes da ciência normal kuhniana consistem na imensa maioria dos cientistas em qualquer tipo de instituição que se vá. Eles podem ser ótimos profissional, mas serão sempre repetidores de tarefas. O verdadeiro cientista deve buscar estar além do conhecimento fácil, ele deve arriscar-se, buscar novas fronteiras, testar as premissas do conhecimento em sua área de atuação, tentar propor novos modelos teóricos que se adéqüem mais intimamente à realidade do que aqueles existentes à época em que realiza sua pesquisa. Ao cientista normal, falta um conhecimento filosófico sobre a incompletude do conhecimento científico e ele normalmente acredita que o que faz tem uma correspondência direta e inequívoca com o mundo natural. Apenas o filósofo-cientista sabe reconhecer o caráter interpretativo do conhecimento e, assim, ser capaz de questionar as supostamente sólidas bases do conhecimento; podendo quiçá sugerir, com base em reinterpretações de dados já consagrados, novos lugares e pontos a se seguir.
Foi esta, exatamente, a contribuição de Einstein para as ciências. E o alemão que recriou as ciências físicas provavelmente tinha exatamente essa concepção da ciência quando destruiu a base da mais sólida das teorias científicas já propostas em todos os tempos: a física newtoniana. Einstein questionou a física newtoniana e verificou onde ela escorregava. Ele duvidou das proposições de Newton e decidiu recriar novos conceitos em física. Modificou o que se entendia por matéria, massa e energia, sugeriu a relatividade do espaço-tempo, disse que a luz tinha uma velocidade máxima e constante no vácuo, entendeu que esta mesma luz poderia fazer uma curva ao redor de corpos de grande massa, enxergou como o espaço não era assim tão fixo como as mentes humanas da época o supunham. Albert Einstein pode talvez ser entendido como a maior mente questionadora da história da humanidade pois que pôs a baixo, com extrema elegância e inteligência, um paradigma tão forte quanto a mais forte das teorias científicas já propostas. E se a teoria newtoniana caiu, outras cairão, basta que as olhemos com olhar crítico e tentemos propor novos modelos para explicar os dados empíricos que temos disponíveis. Não sejamos covardes ou conservadores, caiamos fora da ciência normal e tomemos Einstein como nosso mártir. Arrisquemo-nos, questionemos nossas teorias, avancemos nosso conhecimento e deixemos para trás estes estúpidos cientistas-normais conservadores.
Versão original escrita em 10/09/07.

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