Considerações sobre as religiões
As religiões, ao que me consta, podem ser todas consideradas como oriundas de um sentimento que todo ser humano tem de maravilhamento com relação ao mundo, à natureza, ao universo, às relações humanas. Este profundo sentimento que por vezes nos assalta não é, entretanto, exclusivo dos seres humanos ditos "religiosos". É perfeitamente correto afirmar que grande parte dos cientistas, filósofos e poetas -- muitos deles, descrentes completos -- têm forte em si este sentimento de maravilhamento com relação ao mundo sem que para isso professem qualquer religião. E sem também que acreditem em qualquer entidade suprema a reger, comandar ou observar o mundo e as vidas das pessoas.
As religiões institucionalizadas consistem em clusters conceituais simples que permitem o ser humano médio encontrar um sentido em meio à complexidade sem-sentido que o mundo apresenta-se a nós. Muitos intelectuais bem educados, entretanto, não necessitam de um sistema conceitual que lhes explique o mundo porque eles sabe muito bem que:
(1) as explicações conceituas dadas por toda e qualquer religião são stricto senso falsas;
(2) há uma infinidade de explicações concorrentes (outras religiões) tão boas quanto quaisquer outras e não há critério de objetividade capaz de ajudar na escolha da "menos improvável";
(3) é possível aceitar a falta de sentido do mundo ao invés de adotar qualquer sistema explicativo sabidamente falso, ainda que internamente coerente;
(4) as religiões institucionalizadas confundem o símbolo religioso com a mensagem que este deveria passar;
(5) é possível apreciar e maravilhar-se com a beleza do mundo sem precisar necessariamente ligar esta adoração a qualquer sistema dogmático pré-definido.
EXPLORANDO OS ARGUMENTOS ENUMERADOS
(1) As explicações conceituais religiosas são falsas
Religiões não precisam de nenhum tipo de prova teórica ou factual, sendo baseadas principalmente em um sistema de conceitos arbitrários (dogmas) e na virtude da aceitação destes sistemas conceituais, apesar de sua incoerência (fé).
Assim, a fé consiste na aceitação explícita dos dogmas arbitrários, ainda que certo número de observações do mundo real contradigam esta aceitação. Tão mais virtuoso é o crente quanto mais o mundo vai contra o sistema conceitual dogmático e ele, não obstante, continua a aceitar sua religião justamente por ter uma fé assim-tão-grande na veracidade deste sistema de regras e premissas.
A fé pode ser comparada ao conceito de duplipensar orwelliano [1], que consiste no fato de ser capaz de aceitar e verificar fatos que contradizem uma certa teoria e continuar acreditando nesta teoria mesmo que as evidências para tal sejam ínfimas, ridículas ou falsas -- num sentido lógico e racional. É justamente por isso que (a) a fé vai contra a ciência, (b) a fé é uma ótima ferramenta de controle de massas e (c) as religiões são talvez os mais estáveis sistemas meméticos existentes (memeplexos). Ou seja, (i) se nada no mundo real pode colocar um indivíduo contra uma teoria e se (ii) a maior virtude de um indivíduo consiste na aceitação de tal teoria, apesar de toda e qualquer evidência em contrário; conclui-se que não há como derrubar tal teoria.
(A única forma que o indivíduo tem para se libertar de sua religião é questionar sua fé. Entretanto, se ele estiver mesmo envolvido no memeplexo religioso, questionar esta fé é ser menos virtuoso. Assim o indivíduo duplipensa sua dúvida e continua ligado à religião.)
Assim, a fé está além da razão. A fé consiste na negação da razão e na crença que um sistema conceitual fechado (dogmas de uma determinada religião) é mais válido do que a análise racional de casos particulares. Acredita-se mais na coerência de um sistema de explicação conceitual do que na aplicação da razão e da observação cuidadosa em todo e qualquer caso.
(2) Há uma infinidade de explicações concorrentes tão boas quanto quaisquer outras
Assim como o catolicismo tem um sistema conceitual fechado que deve ser aceito pelo crente, o mesmo vale para o judaísmo, o islamismo, o espiritismo, etc. Os sistemas conceituais religiosos, se realmente levados à sério e lidos tal como prega cada uma de suas doutrinas, são incoerentes entre si. Os judeus ainda esperam seu messias enquanto os católicos têm Jesus Cristo. Enquanto o espiritismo prega a reencarnação, o cristianismo prega uma morte única e uma vida eterna em seguida. Assim, os sistemas de crenças religiosas são incompatíveis e o crente, a rigor, não deveria poder apresentar mais de uma religião se ele fosse entendê-las e nelas acreditar exatamente de acordo com seus sistemas conceituais dogmáticos. [2]
Além disso, um agnóstico que olhe a todos os sistemas conceituais religiosos indiscriminadamente, na tentativa de achar mais coerência aqui ou ali, ou tentando escolher uma religião para si de maneira racional, não terá como julgar sobre um "melhor" sistema se utilizar critérios baseados na razão. Cada religião tem uma resposta diferente. Cada religião tem um conjunto básico de dogmas distinto e não há um critério último de objetividade que possa fazer um agnóstico decidir-se pela religião "mais provável de estar correta". E o que se vê em comum entre as religiões consiste no fato de recompensarem aqueles fiéis que aceitam seu conjunto conceitual com o título de "virtuoso".
Enfim, há teorias que apontam que o sentimento de desenvolvimentismo surgido talvez na Europa e que culminou no mundo moderno deveu-se de certa forma ao cristianismo. Assim, pensadores cristãos apontam para uma maior virtude do cristianismo sob as outras religiões usando este critério. Enfim, o mundo moderno não é lá muito igualitário e há diversos problemas da modernidade que decorrem justamente deste tipo de desenvolvimentismo cristão. A pergunta que coloco é: não teria sido melhor se tivéssemos nos desenvolvido baseando-nos em algum tipo de religião oriental mais filosófica e contemplativa, como o budismo? Não daríamos mais valor ao humanismo e ao ambientalismo? Provavelmente sim, às custas de outros problemas que talvez viessem de carona. E, assim, continuamos sem poder dizer explicitamente sobre virtudes ou problemas entre religiões. Por ora, todas podem ser colocadas no mesmo saco e ditas como iguais. Todas são baseadas em dogmas sabidamente falsos e enganam direta e forçosamente o crente ao fazê-lo acreditar em tais pseudo-verdades.
(3) Muitos humanos são capazes de aceitar o mundo sem explicação
Dado que todos os sistemas de crenças baseiam-se em sistemas conceituais dogmáticos evidentemente falsos e enganadores, por que aceitar qualquer um deles? Por que acreditar num Deus pessoal quando não se tem nenhuma prova ou evidência de sua existência? Por que acreditar em uma "energia controladora" quando também não se pode vê-la, a menos que se aceite a priori sua existência? Enfim, por que acreditar em um determinado sistema de articulação de conceitos quando sabemos de sua falsidade e de sua tentativa grosseira de nos enganar ao nos dar o rótulo de "virtuoso" ao acreditarmos nela? O homem precisa se ver livre da dominação de si pelos memeplexos.
Se não há sistema coerente de crenças que passe por todos os questionamentos racionais, por que acreditar em algum deles? Por que a sociedade de certa forma exige que um indivíduo tenha uma religião? Por que qualquer religião dá ao indivíduo um virtuosismo que o ateísmo não lhe dá -- ao menos na visão dos crentes? A resposta está ligada ao fato de que os crentes se identificam uns com os outros pelo fato de acreditarem em algum sistema conceitual dogmático e então se separam do resto da população -- ateus e agnósticos -- que negam ou simplesmente duvidam da existência de um sistema fechado de crenças coerente que possa explicar as absurdidades do mundo que nos cerca.
A questão que se coloca entre ateus e agnósticos é a seguinte: por que devemos acreditar em qualquer sistema de crenças que sabemos incorreto e limitado? Por que não podemos simplesmente negar ou duvidar destes sistemas? Ateus e agnósticos estão no mesmo barco posto que não aceitam os sistemas de crenças vigentes e são perfeitamente capazes de tocarem suas vidas, apesar de suas incompreensões sobre o mundo. Eles não buscam respostas fáceis para o problema existencial. Eles buscam respostas eficientes e reais. Como não acham, ficam satisfeitos com a falta destas respostas.
Psicologicamente falando, talvez esta posição seja mais difícil de sustentar dentro de uma psiquê humana. Toda uma corrente existencialista oriunda dos escritos de Sartre tenta, de uma maneira assaz filosófica, criar um arcabouço teórico e prático para aqueles que compartilham de uma dúvida constante sobre suas origens e sobre o sentido de estarem vivos. Como bem define Sartre: o existencialismo é uma corrente filosófica e psicológica que tenta explicar a existência e o ser humano a partir de uma posição atéia coerente. O existencialismo não tem, entretanto, um sistema dogmático ou conceitual a ser seguido. Como uma corrente filosófica, apresenta antes perguntas e anseios que respostas ou sistemas lógicos falsos de compreensão do mundo. Ela tenta entender o ser humano e a angústia existencial na falta de um sistema lógico de crenças que guie esta existência.
Enfim, é totalmente possível a um ser humano sobreviver aceitando a dúvida e a falta de respostas ao invés de entregar-se a qualquer sistema artificial e falso de crenças dogmáticas.
(4) As religiões institucionalizadas confundem o símbolo com a mensagem
De acordo com a história das religiões, estas surgiram diretamente deste sentido humano de maravilhamento pelo mundo que parece estar presente em toda e qualquer tribo e sociedade forma por seres da espécie Homo sapiens, desde o alvorecer de nossas sociedades. Com o desenvolvimento de tais sociedades, criou-se o conceito de instituições como agregações de seres humanos com objetivos comuns. Assim, o estado e a igreja foram talvez as duas primeiras instituições criadas pelos seres humanos. Na idade média, cooperativas de profissionais (burgueses) em determinadas áreas do comércio também foram criadas; e assim por diante. O problema da institucionalização é que, com este conceito, é preciso também adquirir um sistema de formalização, onde os membros de uma determinada instituição possam seguir determinadas regras para serem considerados como membros dela. Também as religiões seguiram o desenvolvimento da sociedade humana em direção a sistemas institucionalizados. E embora inicialmente todos os membros das religiões provavelmente soubessem que a institucionalização e a produção de regras explícitas para os membros de certos grupos eram apenas formas gerais de identificação, rapidamente uma cultura de alienação massificadora adentrou os círculos religiosos. Além disso, parece que durante a idade média, mesmo os mestres dentro das religiões passaram a ter uma visão um tanto quanto autoritária e reducionista de seus empreendimentos -- ao deixarem de acreditar na mensagem maior pregada por sua doutrina para reduzirem-na a ações ou rituais bem específicos ditados nos livros de ensinamentos -- que deveriam continuar tendo uma característica apenas metafórica.
Ao invés então de fazerem da religião uma continuação da experiência do ser humano com o místico, passou-se a levar muito a sério os rituais e os dogmas religiosos. Foi nesse momento, talvez, que o homem tenha mesmo se perdido em seu propósito de se encontrar com o místico e de maravilhar-se com o mundo. Vale notar ainda que esta confusão entre a instituição, os ritos e os ideais religiosos está muito mais presente nas religiões ocidentais do que nas religiões orientais. Muitas das religiões orientais -- como o budismo e o hinduísmo -- são muito mais abertas à contemplação do mundo do que as religiões ocidentais, que apresentam uma enorme quantidade de símbolos e rituais estritos de adoração. As religiões institucionalizadas também agiram completamente contra suas raízes no momento em que colocaram medo no crente em ser banido delas. Assim, o crente que não comparece aos encontros, que não adora os símbolos e que não segue estritamente os rituais definidos, pode ser considerado dissidente e até "pecador". Religiões provém do nosso sentimento de adoração do mundo e o medo foi incutido artificialmente pelas religiões-institucionalizadas de forma a tentar manter seus fiéis ligados à instituição com todas as armas psicológicas possíveis. Assim, muitos crentes realizam constantemente os rituais mais por medo de serem banidos da ordem, do que na intenção de sentir o sentimento de adoração do mundo que foi o berço de todas as religiões. Isso é realmente uma pena e mostra como a institucionalização pode acabar com um empreendimento que, em sua origem, é completamente virtuoso e que representa as nossas mais profundas raízes como seres humanos.
Vale lembrar aqui, antes de terminar, do recente filme que trata de um assunto similar. Com o título de "Stigmata", a obra baseia-se num verso do Evangelho de São Tomás que havia sido escondido pela igreja católica. Nele, Cristo dizia exatamente que Ele era o todo, que Ele estava em todos os lugares. Assim, Ele não deveria ser adorado em lugares específicos, porém em qualquer lugar onde alguém se sentisse à vontade em encontrá-lo. A instituição igreja-católica teria escondido estes dizeres para forçar os fiéis a permanecerem institucionalizados e doarem seus dinheiros para si.
Termino esta parte citando Joseph Campbell, que me iluminou sobre esta questão do símbolo-religião: "Ninguém precisa ir realmente a Meca, mas precisa de fazer, de onde estiver, sua Meca." Esta frase resume, finalmente, a confusão frequentemente feita pelos religiosos entre a questão do símbolo e do significado. O símbolo é uma expressão do significado maior religioso que encerra um sentimento de louvação e adoração; o símbolo jamais pode ser levado ao pé-da-letra e confundido com a idéia maior de emancipação e adoração que vem diretamente das raízes do sentimento religioso.
(5) É possível ter uma capacidade de apreciar e se maravilhar com o mundo sem ligar esta adoração com qualquer sistema dogmático pré-definido
Finalmente, não creio ter muito mais a dizer. Tendo descrito todos os últimos quatro argumentos, este argumento final fica claro. Todo ser humano tem em si -- forte ou fraco -- este sentimento de adoração com relação ao mundo. Dado que (i) as religiões institucionalizadas baseiam-se em premissas falsas ou não comprováveis e que (ii) tentam enganar explicitamente seus discípulos ao promoverem a virtude na aceitação destes sistema dogmático altamente questionável. Dado que (iii) as religiões são incoerentes entre si e entre seus dogmas; e dado que (iv) nenhum critério objetivo pode ser utilizado para definir melhores e piores sistemas de crenças. Dado ainda que (v) é possível aceitar a falta de lógica da vida cotidiana e do universo sem se ater a nenhum sistema de crenças, simplesmente compreendendo a falta de sentido de forma natural e aceitando que não teremos uma resposta simples e fácil para o problema. Dado, finalmente, que (vi) as religiões confundem seus discípulos e os enganam ao dizerem que os símbolos e os rituais são autoritários e estritos ao invés de representarem de forma leve e aberta o sentimento de adoração e maravilhamento.
Logo, parece mais adequado não se ligar a nenhum sistema de crenças e cada indivíduo ter sua própria religião, realizar seus próprios rituais de adoração e sentir-se conectado com o todo universo de acordo com um sentimento próprio, perene e completo. O ser consigo mesmo. O ser com o universo. Boa sorte em sua empreitada!
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[1] Leia: 1984, de Orson Wells.
[2] Isso leva também a discussão que pretendo ter posteriormente sobre o sincretismo religioso que é bastante comum no Brasil, onde uma pessoa tem -- ao mesmo tempo -- várias religiões e não vê nisso nenhum problema. O Brasil é mesmo um país de misturas e esse tipo de sincretismo é praticamente inexistente aqui na Europa, por exemplo.
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EPÍLOGO
Este documento partiu de uma anotação que fiz em meu caderno de notas aleatórias e que continha, mais ou menos, os seguintes dizeres:
Quanto mais ciência e conhecimento adquirimos, menos nos permitimos acreditar em grandes eventos chamados de milagres pela igreja. Assim a ciência torna menos numerosos os milagres do cristianismo ou de qualquer outra religião. Porém aqueles milagres que ainda restam -- não tendo sido empurrados para fora das crenças dos fiéis, pela ciência -- tornam-se assim mais fortes. Pode-se dizer assim que a ciência de certa forma, mesmo quando a ataca brutalmente, fortalece também as religiões institucionalizadas.
Ao passar isso a limpo aqui, toda esta reflexão original da postagem me veio à mente.
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Marcadores: campbell, epistemologia, religião

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