Segunda-feira, Abril 06, 2009

Notas sobre a prática linguística

Antes de aprender qualquer idioma, um adulto deve considerar e aceitar duas verdades básicas sobre o que aprender:

1. Jamais terás uma compreensão completa do que se diz
2. Jamais falarás como um nativo


== DISCUSSÃO ==


1. O vocabulário de uma língua é extremamente vasto e os verbetes dos dicionários linguísticos ultrapassam as centenas de milhares de palavras [1]. Com o avanço das técnicas e especialidades, só se pode esperar que tais vocábulos se multipliquem nos anos que se seguirão. Ken Kister estima que 25.000 palavras sejam adicionadas por ano ao idioma inglês [2]. De certa forma, entretanto, pode-se dizer que, felizmente, para que compreendamos o que acontece ao nosso redor no dia-a-dia não se faz necessário que se conheça um vocabulário assim extremamente amplo. Algo que desde algum tempo me interessa como intelectual vem do fato de como os humanos conseguem compreender o que se lhes diz, ou seja: como é formado o sentido -- e assim, a compreensão -- quando de uma comunicação verbal (parole).


Sendo oriundo de uma tradição científica dentro das ciências biológicas, sei que cada pesquisador tem um entendimento ligeiramente diferente sobre o conjunto de teorias que suportam a grande ciência com a qual trabalhamos. Mesmo quando os cientistas são especialistas na mesma área de atuação, por vezes uns têm um background mais relacionado às ciências exatas, outros dialogam melhor com as ciências humanas. E isso faz com que sua abordagem experimental de um determinado problema científico (modus tollens) seja mais direcionada para aspectos mais fenomênicos per se ou aspectos mais relacionados à forma como os humanos enxergam e/ou interpretam tais aspectos. O que importa é que há muita incompreensão em ciência quando esses dois indivíduos são colocados para conversar entre si e é preciso que eles expliquem-se muito bem um ao outro para que haja algum consenso semântico. Assim, voltemos à pergunta inicial: como entender o que os outros dizem dado que a experiência de mundo deles é diferente?


A formação de sentido em meios científicos ou quando estão envolvidos indivíduos que falam línguas diferentes [3] nunca se dá pela compreensão completa do assunto, por uns e por outros. A compreensão entre dois indivíduos é apenas 100% eficiente quando se discute assuntos extremamente básicos e simples. Discussões conceituais, ideológicas ou científicas normalmente relacionam e utilizam conceitos abstratos que são compreendidos diferentemente por cada indivíduo. Se imaginarmos pessoas a discutir se o Brasil é um país democrático, podemos encontrar aqueles que concordem com a afirmação simplesmente porque há o sufrágio universal. Outros podem discordar porque consideram que os parlamentares roubam excessivamente o dinheiro público em causa própria e que isso não caracteriza um estado democrático. Outros ainda podem discordar porque não é exatamente qualquer indivíduo que pode se candidatar -- é necessário estar filiado a um partido político. O conceito de democracia, assim, depende da compreensão de cada um e não é simplesmente possível dizer que alguns tenham conceitos mais precisos do que outros. Além disso, a forma como o conceito de democracia para um indivíduo se relaciona a outros conceitos próximos, como por exemplo: liberdade de expressão, liberdade religiosa e sexual, liberdade de imprensa; ou ainda, antiteticamente, aos conceitos de totalitarismo, tirania privada e estado laico, para citar apenas alguns, influencia diretamente a forma segundo a qual as pessoas compreendem o que vem sendo discutido ou a leitura de alguma informação.


Assim, em qualquer tipo de comunicação, é possível encontrar indivíduos que não se entendam entre si -- embora outros possam entendê-los e pode até mesmo haver uma determinada pessoa que entenda ambos razoavelmente bem. Neste caso, este intermediário pode inclusive identificar as diferenças conceituais entre os indivíduos e traduzir a "língua de um" na "língua do outro" de forma que eles venham então a se entender. E se esta falha na compreensão acontece até mesmo dentro da mesma plataforma linguística (mesmo idioma), quando diferentes idiomas estão envolvidos a situação se torna ainda mais complexa. De fato, cada indivíduo possui sua plataforma conceitual linguística associada a uma teia de correlações e estruturas rígidas segundo as quais articulam tais conceitos que lhe são próprias e únicas. Assim, cada um tem uma visão do mundo e da sociedade que lhe é particular e diferente de todos os outros indivíduos, baseada em tudo que aprendeu, na ordem em que aprendeu os conceitos, no contexto socio-histórico-cultural em que está envolvido, na capacidade biológica de funcionamento de seu cérebro e órgãos do sentido. Paul Hermann disse, já em 1880, que de fato haverão tantas línguas quanto haverão indivíduos [4].


Para que duas pessoas possam conversar e se compreenderem bem, é preciso que haja concordância com relação a uma parte significativa de suas associações conceituais e das relações entre conceitos-padrões da prática da comunicação entre humanos. Tais padrões de certa forma dependem contextos sócio-histórico-culturais e normalmente pessoas de mesmo estado, país ou região se compreendem melhor entre si do que quando discutem com pessoas oriundas de outras posições geográficas e fundos culturais. De outra forma, quando falantes de linguagens diferentes discutem, as diferenças em seus backgrounds culturais torna seus entendimentos menos completos. Uma vez entretanto, que estes indivíduos oriundos de diferentes culturas cheguem a se compreender -- depois de muita discussão e incompreensões --, pode-se gerar um novo entendimento ainda mais completo e global, mais virtuoso, que leve em consideração aspectos antes não considerados por uma ou outra cultura, criando visões de mundo mais assentadas e sólidas, que sejam mais válidas num contexto de uma cultura geral de toda a humanidade.

O cerne desta argumentação


Enfim, para a prática linguística cotidiana a formação do sentido não depende absolutamente do entendimento completo das palavras ditas, ou das regras de gramática. A formação do sentido se dá de forma mais ampla. Quando estudamos neurologia, sabemos que nosso cérebro é moldado para observar certos padrões específicos e que ele é capaz de completá-los de certo modo, mesmo quando eles estão incompletos. As ilusões de óptica nos revelam isso com eficácia e também em música sabemos que nosso cérebro adiciona uma nota faltante à nossa "audição" quando uma escala é tocada sem ela. No campo do estudo da formação semântica, esta premeditação e esse complemento também acontece. Durante uma conversação, por exemplo, nosso cérebro entende parcialmente o que é dito e tem uma expectativa sobre o que será dito a seguir. Esta expectativa criada neurologicamente ajuda-nos a compreender um assunto mesmo quando a maioria das palavras nos é desconhecida. Quando, portanto, da incompreensão de determinadas palavras ou relações gramáticas entre elas dentro de uma conversação, acredito que nosso cérebro seja capaz de completar o sentido para formar uma sentença que, simplesmente, faça sentido para o ouvinte. Não digo que escutamos palavras que não estejam lá, ainda que considere isso possível de acontecer em alguns casos, mas argumento que dentro de nosso cérebro a compreensão do sentido provavelmente se faz por associações entre o que foi dito e diversas outras palavras e conceitos que não tenham sido empregadas em uma conversação mas que são empregadas durante o processamento cerebral para formar a compreensão. Seguindo a mesma linha de argumentação, podemos ainda afirmar que é mais fácil entendermos os falantes de uma língua estrangeira quando eles estão a discutir algo que nos é familiar, mesmo que desconheçamos o significado de uma porção significativa das palavras ditas. Dentro do assunto familiar, nosso conjunto de conceitos cerebrais opera de forma mais organizada e somos capazes de supor o que se diz, mesmo quando somos capazes de traduzir de fato apenas poucas palavras. Talvez aqui seja interessante propor estudos onde indivíduos de diferentes idiomas e com conhecimentos razoáveis de certos idiomas (iniciante, médio, avançado) sejam colocados para se comunicar. Apresenta-se uma situação a um indivíduo e verifica-se o quanto desta situação foi entendida, tanto pelo contexto quanto pela ação verbal (parole). É de se supor que discussões sobre a vida diária em uma casa ou sobre assuntos relacionados à nossa profissão sejam mais fáceis de ser entendidos pelo ouvinte posto que -- se não entendemos exatamente o que dizem -- podemos entender 'pelo contexto' e formar associações cerebrais de forma a prever o que se está sendo falado mesmo que muito da gramática ou vocabulário da língua nos sejam desconhecidos. Até quanto nosso cérebro conseguirá completar? Haverão grandes diferenças entre os indivíduos? Eu chegaria a dizer que a habilidade de um ser humano em compreender o sentido de uma discussão verbal pelo "contexto" -- relacionado é claro ao assunto que se fala -- é tão importante quanto entender as exatamente as palavras ditas. Assim, a observação atenta do que acontece ao redor do falante e a atenção ao que ocorre à nossa volta é uma parte importantíssima da compreensão e que não é absolutamente ensinada ou explicitada em escolas de línguas. Ainda sobre a questão do contexto, vale dizer que quanto mais culto for um indivíduo, maior será sua facilidade em compreender um novo idioma. A cultura geral permite a um sujeito compreender a maior parte de assuntos dos quais um ser humano genérico possa falar-sobre. Além disso, quanto mais um sujeito é capaz de reparar e estar atento à como as coisas acontecem ao seu redor -- quanto mais esperto for o sujeito -- mais ele poderá compreender sobre os acontecimentos antes mesmo que qualquer palavra seja proferida. Vale notar aqui que certos tipos de compreensão dos acontecimentos são culturais e, por exemplo, certos tipos de piadas são feitos mais por uns povos do que por outros. Assim é preciso também um certo entendimento sobre o que certos povos costumam reparar em determinadas situações para ter uma idéia do que falarão uma vez que tenham visto determinado acontecimento. Para falar bem uma língua, é preciso tentar, portanto, ter uma percepção do mundo como aquela que é tida pelo falante desta língua. Desta forma, a compreensão será mais completa. A língua talvez seja a expressão máxima de uma cultura.


2. O falante nativo normalmente pode reconhecer facilmente um indivíduo que não tenha nascido ou vivido quando criança em seu meio linguístico. É claro também que quanto mais tempo e quanto mais envolvimento alguém tem com uma cultura e uma língua, quanto mais ele tenha gastado tempo com o aprendizado e a compreensão da mesma, mais rápido ele irá entender e conseguir agilidade para falá-la com proficiência.

INTERLÚDIO: O estudo de línguas por anos a fio, entretanto, sem o contato direto com a cultura, é a meu ver um desperdício de tempo de estudo. Há um determinado tempo, diferente para cada aluno, e que provavelmente pode ser medido a partir de quando ele pode já compreender diálogos razoavelmente densos, onde o estudante deve emigrar e se embeber da cultura que deseja conhecer.
EXPERIÊNCIA PESSOAL: Muitos dos brasileiros cultos que conheço supõe que sabem falar bem o inglês. De fato, conseguem se comunicar com eficácia. Entretanto, utilizam determinadas palavras que nenhum nativo do idioma inglês utilizaria, certas sinonímias que são claras traduções do português e certas construções verbais estranhas. Mesmo eu que já morei um ano na Inglaterra e já viajei algumas vezes para os Estados Unidos continuo tendo dificuldades -- e sei que ainda as terei por muito tempo -- em comunicar-me na língua de Shakespeare. (A propósito, nem é a mesma língua de Shakespeare uma vez que o próprio inglês evoluiu desde o século XVI-XVII, processo de anagênese linguística.)

Com o passar do tempo, medido em anos, um indivíduo pode chegar a falar um determinado idioma de uma maneira cada vez mais próxima a um nativo. Entretanto, sem querer desapontar ou desanimar o leitor, creio que em raríssimas exceções se chegará a falar como um nativo e perceber-se-á em algum momento certos deslizes realizados que verdadeiros-nativos darão como certo o fato de que o falante não se nascera ou crescera ali. Tais deslizes, a meu ver, podem ser de três tipos rasos e um tipo profundo, sendo os tipos rasos: (1) fonéticos, onde o falante não produz bem um som da língua (como o "ão" do português); (2) gramaticais, onde o falante não é capaz de fazer construções verbais tidas como normais por um falante da língua ou (3) vocabulares, onde uma quantidade excessiva das palavras proferidas não fazem parte do vocabulário normal do nativo. No sentido profundo está um tipo de compreensão que envolve um encadeamento de conceitos e idéias que estão relacionadas a contextos sociais, históricos e culturais. O conceito de democracia na Europa é diferente do conceito na América do Sul que é diferente do conceito na América do Norte que é diferente do conceito na China, Japão, Irã, Venezuela, etc. Questão culturais estão envolvidas certamente em compreensões semânticas. (Além disso, eu diria que uma imersão cultural e linguística de ao menos um punhado de anos se torna necessária para alguém que não conheça bem certo idioma, até que ele possa falar com completa desenvoltura e passar como falante nativo para a maior parte das pessoas. É claro que tal experiência variará dependendo da quantidade de estudo, da distância da língua/cultura em questão de sua língua/cultura nativa ou em quão imerso o indivíduo se sujeitar a esta segunda cultura. De fato, há pessoas que jamais chegam ou chegarão a falar o idioma de forma a passar como nativos. Elas podem também não estar interessadas em fazê-lo e, antes de tudo, é preciso o interesse, posto que falar como um nativo não aprende sem vontade e luta. É um desafio intelectual.)


Além disso, é preciso compreender que a língua consiste na maior expressão de uma cultura e, poderia-se dizer que a cultura está para a língua como o ambiente está para o animal: eles co-evoluem; um modifica o outro e vice-versa.

EXPERIÊNCIA PESSOAL: Certa vez fiz uma viagem com mais seis franceses e grande parte dos assuntos colocados em pauta consistia em lembranças culturais sobre assuntos relacionadas à música, arte, cultura televisiva, histórias em quadrinhos, política, etc. Tais assuntos não podem jamais ser bem compreendidos por pessoas oriundas de outras culturas. Também se estivéssemos em meio a brasileiros falando sobre o Lula, o Monteiro Lobato, o castelo Ratimbum ou sobre o Gilberto Gil e a tropicália, também não nos entenderiam. Neste tipo de assunto falta ao ouvinte a questão do contexto, sendo que normalmente ele está completamente por fora da cadeia de conceitos e inter-relação entre eles que se dá nessas manifestações culturais. Desta forma o cérebro não pode funcionar muito bem ao prever o que será dito, uma vez que ele não foi apresentado a este conjunto de conceitos culturais que caracterizam um estado ou região ou povo. Assim, acredito que entender uma língua é também entender uma cultura, uma história de manifestações culturais relacionadas à contemporaneidade histórica da vida dos humanos com quem se dialoga. E nas escolas de línguas também não se estuda muito sobre a cultura dos países. Vamos e venhamos: só temos uma vida e não temos tempo de simplesmente estudar ou compreender todas as manifestações culturais de uma ou duas décadas em determinado país onde se fale a língua que desejemos aprender. E assim, precisamos admitir que jamais compreenderemos os assuntos como um indivíduo que sempre viveu em sua própria cultura. Também eles não compreenderão, de outro modo, o que falamos com nossos conterrâneos. E assim, talvez, fosse melhor que cada ciência fosse desenvolvida em seu país de origem no idioma nativo. Certamente a articulação de conceitos realizada pelos pesquisadores seria melhor formulada. Já encontrei um sem-número de artigos escritos por brasileiros, em inglês, que de tão mal escritos chegam a ser praticamente incompreensíveis. Acredito que as ciências devam ser feitas pelos pesquisadores em sua língua nativa e apenas traduzidas para outros idiomas por razões de troca informacional. É uma pena que a ciência mundial seja dominada pelos falantes do inglês.


Para finalizar, gostaria de citar PH Mattews [5], em tradução livre: "(...) o que sabemos com certeza é como maravilhosamente variadas as linguagens podem ser, com relação às categorias que eles deixam explícitas, quanto aos tipos de palavras diferentes que usam, quanto à forma segundo a qual seus falantes discutem em geral sobre o mundo. Isso, apenas em si mesmo, é uma forma grande de abrir nossos olhos e liberar nossa mente." Também a crítica literária Hélène Cixous nos diz em seu texto "Conversations"[6] questiona a Bíblia ao dizer que a suposta maldição mitológica da Torre de Babel tenha nos trazido algum mal, ela crê ser uma benção e um enriquecimento estar em meio há tantos idiomas e formas diferentes de representação e formalização do mundo externo a nós. A compreensão de outros idiomas, assim, mostra-nos como nossa visão é parcial e enviesada com relação ao que aprendemos e é sempre bom verificarmos que há outras formas -- piores em determinados aspectos, melhores em outros -- de se enxergar e representar o mundo através de conceitos, símbolos ou fonemas.


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[1] Este link da wikipedia informa que o Oxford English Dictionary (2ed) inclui mais do que 600.000 palavras (entre termos correntes, antigos e técnicos), enquanto o dicionário Webster tem 475.000.
[2] Kister, Ken. "Dictionaries defined." Library Journal, 6/15/92, Vol. 117 Issue 11, p43, 4p, 2bw cited in wikipedia.
[3] A ciência aqui pode ser também entendida como uma linguagem, ou seja, um conjunto de conceitos que se associam a realidades físicas prováveis (da forma como os humanos a vêm ou interpretam) e relações ou regras pré-definidas sobre a forma segundo a qual tais conceitos se articulam.
[4] Cited on Mattews, PH. Linguistics, a very short introduction. pg 77.
[5] Mattews, PH. Linguistics, a very short introduction. pg 75.
[6] Cixous, Hélène. Conversations. In: Newton, KM (1997). Reprinted from Writing Differences: readings from the seminar of Hélène Cixous, ed Susan Sellers (milton Keynes, 1988), pp. 142-54.

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1 Comments:

Blogger IcaroReverso said...

Olá, acompanharei tuas tragadas por aqui agora. Por causa da superposição de linguagens no cotidiano, estou impossibilitado de comentar algo com decência agora, mas gostei muito de tuas notas. abraço.

11:01 AM  

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