Crítica interna da ciência
ou Os tampões das revoluções
Dentro do meio acadêmico-científico, existem certos padrões, medidas, algoritmos e normas que são definidos por alguns grupos de pesquisa e que, a partir desta definição inicial e tendo se mostrado úteis, toda a comunidade começa a utilizar. Entretanto, a utilidade de certas definições não está relacionada, absolutamente, à sua perfeição. É de se imaginar que todo e qualquer tipo de padrões e medidas possíveis de serem definidos por seres humanos conterão uma quantidade X de erros e imprecisões. Além disso, nem toda a comunidade estará de acordo com o padrão.
Assim, dentro de uma ciência ideal, seria de se esperar que os cientistas fossem abertos o suficiente para discutirem uns com os outros cientistas sobre tais práticas definidas tanto quanto fosse necessário, até que gerassem um padrão que fosse mais consensual. Entretanto, os cientistas normalmente tem um ego enorme e dificilmente aceitam críticas a seus trabalhos. Portanto, na prática, quando um pesquisador é capaz de perceber qualquer ligeira imperfeição ou mal-acabamento em determinado trabalho científico, ele se sente compelido a contactar os autores do trabalho e discutir com eles. Tais autores do trabalho, entretanto, estão teoricamente à frente do crítico pelo fato de terem inventado a medida e já possuírem trabalho publicado sobre o assunto. Politicamente falando, caso o crítico não seja alguém de "renome", normalmente os autores do trabalho ignorarão sua crítica completamente, mesmo que ela seja perfeitamente positiva e que fosse levar a uma melhoria do serviço.
== EXPERIÊNCIA PESSOAL ==
Faço parte de algumas listas de discussão na internet sobre padrões aplicados a ontologias (vocabulários comuns) que descrevem eventos relacionados à biologia molecular. Tais ontologias são invariavelmente alvo de críticas posto que o que elas fazem é relacionar conceitos da biologia num suposto mundo real com a biologia que vai dentro das cabeças dos pesquisadores. Observa-se assim um fenômeno complexo na natureza, generaliza-se esse fenômeno aplicando-lhe uma palavra e assim os pesquisadores podem contar e trabalhar com fenômenos que são discretos e quadrados, ao invés de contínuos e mal-definidos. E se por um lado está certo que a generalização e a formalização de conceitos e descrições do mundo físico/biológico é um dos pontos fortes da ciência... por outro está certo também que há inúmeras formas concorrentes de representar a realidade e que algumas podem ser melhor do que outras para determinados objetivos em especial. Enfim, o que importa é que via de regra nestas listas algum pesquisador questiona um conceito formalizado na ontologia.
Tais questionamentos, pra começar, normalmente são feitos já com um pé atrás. O cientista que o faz sabe que está do lado que sai perdendo na luta e normalmente sugere uma mudança discreta nas definições ou mesmo traveste sua mudança drástica em mudança discreta. Então os "donos do trabalho" e da lista de discussões defenderão seus pontos de vistas normalmente desviando dos pontos-chaves da discussão. Normalmente eles terão preguiça de re-avaliar todo seu trabalho e farão questão de mostrar ao crítico que o buraco é mais embaixo. No fim das contas, é difícil ver alguma modificação mesmo quando a argumentação segue densa.
==
Vale começar pelo ponto de que, bem certo, nenhuma definição será definitiva ou perfeita. A ciência e o conhecimento avançam. A crítica dos pesquisadores que estão fora do grupo de desenvolvimento do trabalho, entretanto, são muito dificilmente ouvidas. Mesmo dentro de um grupo de pesquisa há desavenças com relação ao significado e extensão das métricas e há sempre algum pesquisador que tem um estatus político superior sobre o trabalho do que os outros. Este "dono do trabalho" é normalmente o último autor nas publicações científicos onde se aplica a metodologia em questão e onde ela é descrita pela primeira vez -- algumas vezes, ele é também o primeiro autor.
A verdade é que a ciência não funciona apenas através do avanço crítico do conhecimento e muitas vezes ela precisa seguir uma tradição de pesquisa mais antiga. Os cientistas não estão assim muito abertos a reconhecer erros e limitações de suas próprias pesquisas e normalmente preferem mantê-las funcionando razoavelmente bem do que tentar melhorá-las cada vez mais. Os cientistas são excessivamente conservadores.
Neste mundo da competição científica, entretanto, por vezes o crítico entende que não será ouvido pelos organizadores do trabalho em questão e então ele tem dois rumos a tomar: o mais comum é que ele desista dos questionamentos, aceite utilizar o método com suas claras limitações e volte a seus afazeres do dia-a-dia. Caso entretanto ele perceba que trata de uma área quente e promissora da pesquisa científica, ele pode resolver tentar re-pensar e re-analisar o problema por si próprio. Assim, ele começará uma guerra científica com o primeiro grupo, sendo assim obrigado a produzir um trabalho mais arrojado e com claras melhoras sobre a idéia inicial do primeiro grupo. Depois de algum tempo (normalmente medido em anos), ele pode conseguir publicar seu trabalho concorrente. Neste caso, o pesquisador normalmente terá dificuldades em encontrar alguma revista de impacto que publique seu artigo -- posto que ele vai contra o mainstream da área. Os revisores também criticarão duramente seu trabalho e ele provavelmente só será publicado se provar muito claramente que seu produto é melhor do que aquele já existente.
Além disso, em ciência normalmente valoriza-se a criatividade do primeiro trabalho apresentado em uma determinada área. E o crítico que demorou anos para produzir uma versão melhor de determinada metodologia normalmente não conseguirá tanta visibilidade quanto a publicação original conseguiu. Ele apenas alcançará um estatus mais elevado caso as melhores sejam em escala de grandeza elevada e não simples modificações em pequenos pontos dentro do que já foi feito. Neste caso o crítico precisa mostrar que causou um salto na compreensão com sua nova proposta, e não apenas deu um mero passo.
Algumas conclusões:
1) Para ter uma carreira de pesquisador, é melhor gastar os esforços na produção de métodos e definições completamente novas do que tentar melhorar ou adaptar métodos já existentes a determinadas realidades específicas -- ainda que os métodos disponíveis sejam claramente incompletos; [1]
2) Os métodos utilizados na ciência estão longe de serem os melhores possíveis e a comunidade não se ajuda e se apóia como deveria (em um mundo ideal). A competição é dura e os cientistas têm o ego muito grande, preferindo normalmente elevar seu nome do que elevar o conhecimento;
3) A crítica dentro da comunidade é árdua; normalmente aceita-se utilizar padrões razoáveis ou obsoletos que já se mostraram de algum modo úteis do que produzir padrões supostamente melhores mas ainda não testados.
==> A ciência baseia-se em métodos tradicionais
==> A novidade só tem vez na ciência em determinados momentos sócio-históricos específicos
===
[1] E no caso em que um pesquisador desconhecido ou oriundo do terceiro mundo tem alguma idéia realmente inovadora, esta idéia normalmente não é bem aceita na comunidade também. Mesmo Darwin demorou dezenas de anos até ter coragem de publicar "A origem das espécies". A ciência acadêmica é quadrada e fechada a novas idéia. Ela consiste, em sua maior parte, no que Thomas Kuhn chamou de ciência normal, que é o desenvolvimento gradual e minucioso -- quase técnico -- de suas aplicações. Existe um tampão contra as revoluções científicas dentro da academia -- e isso provavelmente também é verdade com relação a quaisquer novas idéias que adentrem um determinado pool memético particular, mesmo que elas tenham claramente um maior conteúdo empírico e adequação teórica. Os pesquisadores também só aceitam de fato a argumentação quando ela vem de dentro da própria área de pesquisa, por pesquisadores que já tenham se mostrado renomados em suas áreas; o argumento de autoridade está sempre em questão. Muito dificilmente um jovem pesquisador conseguirá que sua teoria seja ouvida, apresentada ou publicada em jornais de ampla circulação. E isso também está relacionado ao fato de que uma nova teoria, quando criada, não encontra os dados adaptados à sua forma de pensamento e, é claro, tem um certo conteúdo especulativo. Mesmo os tratados de Newton, quando foram publicados, tinham algo que Kuhn chama de um tipo de inexperiência e uma dificuldade vocabular e conceitual de expressão de idéias. Ainda que Einstein tenha conseguido publicar seus principais trabalhos com vinte e cinco anos, aproximadamente mais duas décadas foram necessárias até que sua genialidade tenha sido reconhecida.
Dentro do meio acadêmico-científico, existem certos padrões, medidas, algoritmos e normas que são definidos por alguns grupos de pesquisa e que, a partir desta definição inicial e tendo se mostrado úteis, toda a comunidade começa a utilizar. Entretanto, a utilidade de certas definições não está relacionada, absolutamente, à sua perfeição. É de se imaginar que todo e qualquer tipo de padrões e medidas possíveis de serem definidos por seres humanos conterão uma quantidade X de erros e imprecisões. Além disso, nem toda a comunidade estará de acordo com o padrão.
Assim, dentro de uma ciência ideal, seria de se esperar que os cientistas fossem abertos o suficiente para discutirem uns com os outros cientistas sobre tais práticas definidas tanto quanto fosse necessário, até que gerassem um padrão que fosse mais consensual. Entretanto, os cientistas normalmente tem um ego enorme e dificilmente aceitam críticas a seus trabalhos. Portanto, na prática, quando um pesquisador é capaz de perceber qualquer ligeira imperfeição ou mal-acabamento em determinado trabalho científico, ele se sente compelido a contactar os autores do trabalho e discutir com eles. Tais autores do trabalho, entretanto, estão teoricamente à frente do crítico pelo fato de terem inventado a medida e já possuírem trabalho publicado sobre o assunto. Politicamente falando, caso o crítico não seja alguém de "renome", normalmente os autores do trabalho ignorarão sua crítica completamente, mesmo que ela seja perfeitamente positiva e que fosse levar a uma melhoria do serviço.
== EXPERIÊNCIA PESSOAL ==
Faço parte de algumas listas de discussão na internet sobre padrões aplicados a ontologias (vocabulários comuns) que descrevem eventos relacionados à biologia molecular. Tais ontologias são invariavelmente alvo de críticas posto que o que elas fazem é relacionar conceitos da biologia num suposto mundo real com a biologia que vai dentro das cabeças dos pesquisadores. Observa-se assim um fenômeno complexo na natureza, generaliza-se esse fenômeno aplicando-lhe uma palavra e assim os pesquisadores podem contar e trabalhar com fenômenos que são discretos e quadrados, ao invés de contínuos e mal-definidos. E se por um lado está certo que a generalização e a formalização de conceitos e descrições do mundo físico/biológico é um dos pontos fortes da ciência... por outro está certo também que há inúmeras formas concorrentes de representar a realidade e que algumas podem ser melhor do que outras para determinados objetivos em especial. Enfim, o que importa é que via de regra nestas listas algum pesquisador questiona um conceito formalizado na ontologia.
Tais questionamentos, pra começar, normalmente são feitos já com um pé atrás. O cientista que o faz sabe que está do lado que sai perdendo na luta e normalmente sugere uma mudança discreta nas definições ou mesmo traveste sua mudança drástica em mudança discreta. Então os "donos do trabalho" e da lista de discussões defenderão seus pontos de vistas normalmente desviando dos pontos-chaves da discussão. Normalmente eles terão preguiça de re-avaliar todo seu trabalho e farão questão de mostrar ao crítico que o buraco é mais embaixo. No fim das contas, é difícil ver alguma modificação mesmo quando a argumentação segue densa.
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Vale começar pelo ponto de que, bem certo, nenhuma definição será definitiva ou perfeita. A ciência e o conhecimento avançam. A crítica dos pesquisadores que estão fora do grupo de desenvolvimento do trabalho, entretanto, são muito dificilmente ouvidas. Mesmo dentro de um grupo de pesquisa há desavenças com relação ao significado e extensão das métricas e há sempre algum pesquisador que tem um estatus político superior sobre o trabalho do que os outros. Este "dono do trabalho" é normalmente o último autor nas publicações científicos onde se aplica a metodologia em questão e onde ela é descrita pela primeira vez -- algumas vezes, ele é também o primeiro autor.
A verdade é que a ciência não funciona apenas através do avanço crítico do conhecimento e muitas vezes ela precisa seguir uma tradição de pesquisa mais antiga. Os cientistas não estão assim muito abertos a reconhecer erros e limitações de suas próprias pesquisas e normalmente preferem mantê-las funcionando razoavelmente bem do que tentar melhorá-las cada vez mais. Os cientistas são excessivamente conservadores.
Neste mundo da competição científica, entretanto, por vezes o crítico entende que não será ouvido pelos organizadores do trabalho em questão e então ele tem dois rumos a tomar: o mais comum é que ele desista dos questionamentos, aceite utilizar o método com suas claras limitações e volte a seus afazeres do dia-a-dia. Caso entretanto ele perceba que trata de uma área quente e promissora da pesquisa científica, ele pode resolver tentar re-pensar e re-analisar o problema por si próprio. Assim, ele começará uma guerra científica com o primeiro grupo, sendo assim obrigado a produzir um trabalho mais arrojado e com claras melhoras sobre a idéia inicial do primeiro grupo. Depois de algum tempo (normalmente medido em anos), ele pode conseguir publicar seu trabalho concorrente. Neste caso, o pesquisador normalmente terá dificuldades em encontrar alguma revista de impacto que publique seu artigo -- posto que ele vai contra o mainstream da área. Os revisores também criticarão duramente seu trabalho e ele provavelmente só será publicado se provar muito claramente que seu produto é melhor do que aquele já existente.
Além disso, em ciência normalmente valoriza-se a criatividade do primeiro trabalho apresentado em uma determinada área. E o crítico que demorou anos para produzir uma versão melhor de determinada metodologia normalmente não conseguirá tanta visibilidade quanto a publicação original conseguiu. Ele apenas alcançará um estatus mais elevado caso as melhores sejam em escala de grandeza elevada e não simples modificações em pequenos pontos dentro do que já foi feito. Neste caso o crítico precisa mostrar que causou um salto na compreensão com sua nova proposta, e não apenas deu um mero passo.
Algumas conclusões:
1) Para ter uma carreira de pesquisador, é melhor gastar os esforços na produção de métodos e definições completamente novas do que tentar melhorar ou adaptar métodos já existentes a determinadas realidades específicas -- ainda que os métodos disponíveis sejam claramente incompletos; [1]
2) Os métodos utilizados na ciência estão longe de serem os melhores possíveis e a comunidade não se ajuda e se apóia como deveria (em um mundo ideal). A competição é dura e os cientistas têm o ego muito grande, preferindo normalmente elevar seu nome do que elevar o conhecimento;
3) A crítica dentro da comunidade é árdua; normalmente aceita-se utilizar padrões razoáveis ou obsoletos que já se mostraram de algum modo úteis do que produzir padrões supostamente melhores mas ainda não testados.
==> A ciência baseia-se em métodos tradicionais
==> A novidade só tem vez na ciência em determinados momentos sócio-históricos específicos
===
[1] E no caso em que um pesquisador desconhecido ou oriundo do terceiro mundo tem alguma idéia realmente inovadora, esta idéia normalmente não é bem aceita na comunidade também. Mesmo Darwin demorou dezenas de anos até ter coragem de publicar "A origem das espécies". A ciência acadêmica é quadrada e fechada a novas idéia. Ela consiste, em sua maior parte, no que Thomas Kuhn chamou de ciência normal, que é o desenvolvimento gradual e minucioso -- quase técnico -- de suas aplicações. Existe um tampão contra as revoluções científicas dentro da academia -- e isso provavelmente também é verdade com relação a quaisquer novas idéias que adentrem um determinado pool memético particular, mesmo que elas tenham claramente um maior conteúdo empírico e adequação teórica. Os pesquisadores também só aceitam de fato a argumentação quando ela vem de dentro da própria área de pesquisa, por pesquisadores que já tenham se mostrado renomados em suas áreas; o argumento de autoridade está sempre em questão. Muito dificilmente um jovem pesquisador conseguirá que sua teoria seja ouvida, apresentada ou publicada em jornais de ampla circulação. E isso também está relacionado ao fato de que uma nova teoria, quando criada, não encontra os dados adaptados à sua forma de pensamento e, é claro, tem um certo conteúdo especulativo. Mesmo os tratados de Newton, quando foram publicados, tinham algo que Kuhn chama de um tipo de inexperiência e uma dificuldade vocabular e conceitual de expressão de idéias. Ainda que Einstein tenha conseguido publicar seus principais trabalhos com vinte e cinco anos, aproximadamente mais duas décadas foram necessárias até que sua genialidade tenha sido reconhecida.
Marcadores: filosofia da ciência

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