Segunda-feira, Junho 01, 2009

Fundamentalismo ideológico, respeito e liberdade de expressão

Algo que atrasa de sobremaneira a evolução de todo o pensamento, conhecimento e filosofia humanos ao longo dos séculos e milênios consiste naquilo que decidi aqui chamar de fundamentalismo ideológico. Tal fundamentalismo se caracteriza pela crença cega que determinadas ideologias são melhores do que outras e num excessivo respeito-à-ideologia-alheia, onde se acredita correntemente que determinadas ideologias -- principalmente aquelas professadas pelas classes dominantes -- não possam ser atacadas através de argumentos incisivos e devam ser protegidas sob a insígnia da palavra Respeito. Meu objetivo aqui é argumentar que ideologias não podem e não devem ser respeitadas se quisermos alcançar uma posição mais virtuosa, aberta, liberal e tolerante com relação à toda humanidade. O Respeito que deve sempre existir é um respeito entre um ser humano e o outro ser humano, entre um ser humano e toda a humanidade, mas apenas o desrespeito ideológico pode nos ajudar a retirar por completo de nossa civilização aquelas ideologias que atravancam de sobremaneira nosso desenvolvimento moral e social.


Meu objetivo aqui é argumentar que ideologias não podem e não devem ser respeitadas se quisermos alcançar uma posição mais virtuosa, aberta, liberal e tolerante com relação à toda humanidade. (...) apenas o desrespeito ideológico pode nos ajudar a extirpar de nossa civilização aquelas ideologias que atravancam de sobremaneira nosso desenvolvimento moral e social.



Pontos mal definidos de toda e qualquer ideologia devem ser apresentados e discutidos, de forma que as ideologias de um tempo presente possam se transformar em ideologias mais virtuosas para toda a humanidade do futuro -- ao invés de mantermos em nosso fundo memético ideologias podres e antigas que apenas servem para proteger e manter determinados grupos dominantes no poder. Devemos gritar Fora! a qualquer ideologia baseada no dogmatismo e que se pense infalível ou absolutamente "a melhor" dentre todas as outras. O forte ataque intelectual a toda e qualquer ideologia vai hoje contra o que chamamos respeito-ideológico e, não obstante, vai também contra nossa suposta liberdade de expressão. Eis a guerra intelectual: respeito ideológico X liberdade de expressão. Como resolver este dilema? O presente relato vem sugerir que a liberdade de expressão deve ser privilegiada sobre o respeito-ideológico e vem sugerir também que o desrespeito ideológico seja útil para o desenvolvimento da humanidade. Este argumento baseia-se no fato de que a palavra não é como o punho ou a arma, a palavra não mata e a palavra de uns pode ser sempre combatida pela palavra de outros. Ao resto da humanidade restará a função de árbitro a saber se prefere-se acreditar ou escutar a argumentação que vai a-favor-de-X ou contra-X. A ofensa moral e intelectual, embora possa ser dura a aceitar, deve ser capaz de ser engolida, tragada e devem ser consideradas até saudáveis quando ambos os lados da discussão são capazes de apresentar críticas severas -- porém bem pontuadas -- sobre suas próprias ideologias ou sobre ideologias alheias. A própria humanidade deverá ser capaz de reter as boas críticas ideológicas e rejeitar as más críticas. Críticas vazias ou de conteúdo claramente falacioso serão simplesmente ignoradas pelas próximas gerações, ainda que possam causar certo rebuliço na comunidade de uma certa época. Sugiro aqui que a palavra e a discussão intelectual têm a capacidade de nos libertar de ideologias dogmáticas que têm nos prendido há anos, séculos ou milênios e só o ataque (e também a defesa) de tais ideologias que pode nos ajudar a manter o que nelas há de bom e extirpar de nossa herança cultural o que nelas há de mórbido e podre.


(...) a palavra não mata e a palavra de uns pode ser sempre combatida pela palavra de outros. Ao resto da humanidade restará a função de árbitro a saber se prefere-se pesar para lado dos que concordam com X ou dos que discordam.



De mais a mais, alguém que se sinta profundamente ofendido com algum relato ou argumentação tem a mais completa e covarde das liberdades em deixar de ler aquilo que o ofende e fechar seus olhos ao continuar acreditando que sua crença é "a melhor", indubitavelmente. Tal comportamento fundamentalista e dogmático existe em qualquer praticante de crenças ideológicas, ou seja, todos nós, seres humanos. Em alguns, esse comportamento é (muito) mais forte do que em outros. Precisamos ser capazes de entender e tolerar o desrespeito de outros às nossas crenças/ideologias e ainda sermos capazes de respeitá-los como seres humanos! Precisamos recuperar e ampliar a visão de Voltaire: "Je ne suis pas d'accord avec ce que vous dites, mais je me battrai jusqu'à la mort pour que vous ayez le droit de le dire." (Em tradução livre: "Eu não concordo com aquilo vós dizeis, mas lutarei até a morte para que tenhais o direito de dizê-lo.")


O filósofo Francês François-Marie Arouet (Voltaire) já dizia há cerca de trezentos anos atrás: "Eu não concordo com aquilo vós dizeis, mas lutarei até a morte para que tenhais o direito de dizê-lo". Precisamos retomá-lo de forma que ampliemos as críticas ideológicas sem que sobre isso caia a insígnia de "desrespeito".



O fundamentalismo ideológico, religioso ou sócio-político é um dos maiores males que atingem a humanidade desde seu berço. E ele tem sido protegido sob a falsa insígnia do respeito a outras culturas ou modos de pensar. Um respeito falso e hipócrita que deve ser ativamente combatido. É preciso haver um diálogo aberto e crítico entre ideologias, um debate livre, crítico, mordaz. É preciso que tentemos tirar o que há de melhor e de mais humanista entre todas as ideologias criando uma ideologia de virtuose para o ser humano, ideologia baseada na liberdade, no direito comum, na igualdade e fraternidade entre os homens. E para fazer isso, é preciso criticar os pontos fracos e ressaltar os pontos fortes das ideologias e crenças humanas. Só assim poderemos erigir uma ideologia moral comum para a humanidade que ressalte nossas virtuoses e descarte ao máximo possível nossa morbidez, hipocrisia e desrespeito do homem para com o homem. Tal ideologia não estará jamais pronta e jamais será definitiva, mas ela crescerá e se espalhará e se modificará ao longo do tempo, tal qual tem crescido e espalhado o respeito aos direitos humanos por toda parte -- apesar dos infelizes excessos de ditadores ignorantes.


Enquanto isso, no Ocidente, as ideologias dominantes continuam a prevalecer e um enorme preconceito velado existe contra as culturas e ideologias orientais ou oriundas dos países em desenvolvimento. Argumento aqui que é melhor que tais preconceitos sejam expostos claramente e discutidos de forma aberta para que sejam finalmente ultrapassados e melhor compreendidos. Do contrário, o que hoje acontece é um desrespeito velado que vem se retroalimentando ao longo dos tempos. Apenas a dialética pode nos permitir vencer tais preconceitos. Quero se expressem todos aqueles que têm preconceitos contra negros, índios, brasileiros e árabes e indianos, religiosos e ateus, comunistas e capitalistas, mulheres e homossexuais e usuários de drogas. Quero que todas ideologias sejam desrespeitadas e que isso gere uma discussão aberta dentro da sociedade que nos levará em algum momento a perceber a fraqueza argumentativa que está na natureza de todo e qualquer gênero de preconceito. Quero encontrar a fraqueza dos conceitos e então fazê-los melhor e maiores; é essa a função da dialética, das discussões intelectuais legítimas e não falaciosas; quero extirpar e clarificar os preconceitos para que assim possamos matá-los em sua raiz.


Muitos dos preconceituosos, porém, continuarão sua dominação velada posto que no fundo sabem da invalidade de seus argumentos e querem apenas seu bem estar, continuando com sua dominação corpulenta contra os menos privilegiados. Balancemo-los para que deles escorra toda a falsidade e podridão.


Está claro, entretanto, que todo ser humano deve respeitar o próximo e também ser respeitado como indivíduo e ser biológico. A crítica ideológica deve estar um nível acima das críticas individuais e não importa o que pensam as pessoas, elas devem ser respeitadas e bem tratadas quando da convivência humana.

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Temas para discussão:

-- Obama tratado como islâmico na capa da New York Times
-- Obama tratado como macaco em charge
-- Preconceito dos europeus (e americanos) contra indivíduos e filosofias oriundas do oriente, do mundo árabe ou da América Latina
-- 2000 anos foram necessários até que surgisse um homem corajoso e forte suficiente (Nietzsche) para atacar mordazmente a moral cristã/católica que já ia caduca há dois mil anos. Que respeito é esse que se deve ter com relação às ideologias e que atrasa nosso desenvolvimento moral, social e ideológico?
-- Nietzsche como o Anti-Cristo só pôde surgir depois que a ideologia católica já tinha sido útil aos europeus para conquistar e catequizar, destruir e matar pessoas, culturas, línguas e modos de viver nativo-americanos. Terão os humanos sempre a ideologia daqueles que os lideram? Haverá algum dia uma ideologia realmente democrática? Conseguirá o povo subjugar os líderes algum dia?
-- Devemos aceitar a desigualdade calados?
-- Por que a apologia à utilização de drogas é crime? Isso não interferiria na nossa suposta liberdade de expressão?

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2 Comments:

Blogger IcaroReverso said...

Falta uma pedagogia para a dialética à sociedade em geral. Então facilmente há expressão, ou livre expressão, expressão únivoca de sentido daquele que o expressa. O problema é que a fala envolve valores, e as pessoas defendem os seus como se estivessem defendendo seus individuais mundos. Nos Estados Unidos, a pragmática vem toda ligeira e faz-nos pensar que o multiculturalismo co-existe ao fundamentalismo norte-americano. Essa é das maiores falácias.

Mas pra vc que entende de biologia, vc acha que, além do exercício da dialética, falta-nos à sociedade uma concepção de ação mais densa que a de comportamento? Tudo em nossas vidas está anteposto no lado do trabalho, usufruto dos bens obtidos dos trabalho e do consumo, enquanto a política e espetáculo dos valores ocorre acolá, enquanto assistimos. Em que meio pode haver o exercício dialético de modo que ele ocorra naquilo que chamamos de massa?

Como proto-romântico que sou, horrozima-me pensar que as falas não se cruzam e que a política não faça mais parte de nossas vidas...

bem, como era pra beber em dose única, então li teu post e escrevi rapidinho tb.

com admiração, ícaro.

7:44 AM  
Blogger Daniela said...

Concordo plenamente. Falta-nos como sociedade uma ideologia que deixe de tentar impor e convencer, mas que busque o respeito e a harmonia entre seres humanos, isto é básico.

O único fato que lamento (não me referindo ao texto acima) é que como mundo, como seres humanos JÁ possuímos esta ideologia que se adapta e beneficia todo ser, em qualquer cultura e raça, mas a negamos com toda nossa força e resistência. A sociedade clama por LIBERDADE, liberdade de expressão, mas até onde o excesso de liberdade, é benéfico? Diferença de pensamento é uma coisa, mas a aceitação de atitudes claramente contra a moral e a integridade é outra bastante antagônica.

Parece que existe um pensamento uma impressão de que aquilo que vem sendo ensinado há séculos, ou até mesmo milênios atrasa e regride nossa sociedade. Evoluímos, progredimos, mudamos, mas isto também implica mudanças de valores?

Não me surpreenderia se em pouco tempo, o assassinato não pudesse ser crime, pois deve-se respeitar a liberdade do "outro" de se expressar desta forma. Extremista? espero que sim. Mas existem atualmente várias ideologias que pregam a liberdade de atos não muito distantes a este exemplo, assim como existem aqueles que se opõem as "ideologias", por defender uma tal liberdade que nos faz regredir como seres humanos capazes e íntegros, ao invés de progredir-mos em respeito, (veja que respeito não implica em aceitar tudo, mas permitir a diferença do outro), e amadurecimento como humanos.

Não concordo com o costume tão habitual de se conformar com as ideologias pregadas, é necessário sim refletir antes de engolir qualquer coisa, no livro de Romanos 12:2 diz assim: Não se conformem com o padrão deste mundo (sistema), mas transformem-se pela renovação da sua mente, para que sejam capazes de experimentar e comprovar a boa, agradável e perfeita vontade de Deus.
E o que mais envergonhou e envergonha o evangelho são os cristãos que ao longo dos séculos reverteram as verdades bíblicas de sociedade harmoniosa para um sistema fechado e arcaico que distanciou a sociedade desta vivência.
O que é isto? uma ideologia sendo pregada num discurso contra-ideologias? Depende. Dentro dos padrões atuais as verdades bíblicas se tornaram um sistema arcaico e que "atrasa" nosso crescimento, (sendo consideradas como uma das ideologias mais repudiadas)Dentro da percepção de quem conhece e questiona, sem engolir qualquer coisa como sendo verdade, elas possuem tudo o que se deseja para uma sociedade próspera, ascendente, harmoniosa e que respeita ao próximo.
Continua sendo uma ideologia? Depende. A partir do momento que for encarada como o que realmente é e não generalizada como o fizemos por séculos, ela será a ideologia eficaz, sem lacunas, sem omissões, sem preconceitos, sem desrespeito que a sociedade tanto clama.

A questão é: não queremos nada ultrapassado, queremos "encontrar" esta ideologia, que é na verdade uma contra-ideologia, perfeita.
Então continuaremos a observar uma sociedade, um mundo que nega com toda sua resistência as verdades que lhe oferecem a tão sonhada LIBERDADE.

Ops! me esqueci. Não existem mais verdades. Que progresso!

9:41 PM  

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