<?xml version='1.0' encoding='UTF-8'?><?xml-stylesheet href="http://www.blogger.com/styles/atom.css" type="text/css"?><feed xmlns='http://www.w3.org/2005/Atom' xmlns:openSearch='http://a9.com/-/spec/opensearchrss/1.0/' xmlns:georss='http://www.georss.org/georss' xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'><id>tag:blogger.com,1999:blog-23099929</id><updated>2012-02-16T11:13:15.394-02:00</updated><category term='jornalismo científico'/><category term='holismo'/><category term='democracia'/><category term='religião'/><category term='evolução'/><category term='antropocentrismo'/><category term='sociologia da ciência'/><category term='cosmologia'/><category term='teologia'/><category term='filosofia da ciência'/><category term='linguística'/><category term='filosofia da mente'/><category term='compreensão'/><category term='limites da cognição'/><category term='divulgação científica'/><category term='multidisciplinaridade'/><category term='biotecnologia'/><category term='educação'/><category term='história da ciência'/><category term='filosofia da linguagem'/><category term='reducionismo'/><category term='lamarck'/><category term='epistemologia'/><category term='orientalismo'/><category term='neurobiologia'/><category term='intelectualidade'/><category term='política'/><category term='crítica'/><category term='origem da vida'/><category term='literatura'/><category term='humanismo'/><category term='evolução molecular'/><category term='retórica'/><category term='memética'/><category term='autobiografia'/><category term='agnosticismo'/><category term='campbell'/><category term='ocidentalismo'/><category term='biologia molecular'/><category term='futuro'/><category term='brasil'/><title type='text'>Trago de filosofia</title><subtitle type='html'>&lt;b&gt;Epistemologia, filosofia da ciência e da biologia.&lt;/b&gt; Pensamentos para serem inalados em dose única e concentrada.
Por &lt;i&gt;Chico Prosdócimi&lt;/i&gt;</subtitle><link rel='http://schemas.google.com/g/2005#feed' type='application/atom+xml' href='http://tragodefilosofia.blogspot.com/feeds/posts/default'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/23099929/posts/default?max-results=100'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://tragodefilosofia.blogspot.com/'/><link rel='hub' href='http://pubsubhubbub.appspot.com/'/><link rel='next' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/23099929/posts/default?start-index=101&amp;max-results=100'/><author><name>Prós</name><uri>http://www.blogger.com/profile/18282398415856299778</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='24' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/-OJfdox4-acU/Tm_oXf840OI/AAAAAAAAAlc/1ROS0tKzZ5k/s220/facebook_perfil_picture.jpg'/></author><generator version='7.00' uri='http://www.blogger.com'>Blogger</generator><openSearch:totalResults>264</openSearch:totalResults><openSearch:startIndex>1</openSearch:startIndex><openSearch:itemsPerPage>100</openSearch:itemsPerPage><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-23099929.post-3185685295880564074</id><published>2011-05-20T19:55:00.003-03:00</published><updated>2011-07-23T22:19:57.989-03:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='filosofia da ciência'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='sociologia da ciência'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='história da ciência'/><title type='text'>Sociologia do trabalho científico</title><content type='html'>PRÓLOGO&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Depois de ter tido a experiência de trabalhar em centros de pesquisa em todo o mundo, principalmente no Brasil, França, Inglaterra e Alemanha -- ressaltando mais especificamente a &lt;a href="http://www.pgbioinfo.icb.ufmg.br/"&gt;Universidade Federal de Minas Gerais&lt;/a&gt;, onde realizei meus estudos de graduação, mestrado e doutorado -- creio ter sido capaz de formar uma visão um razoavelmente clara sobre como se dão as relações sociológicas dentro dos laboratórios científicos. O que creio ter sido capaz de conceitualizar em classes disjuntas foram três tipos básicos de relação entre um orientador (chefe) e seus estudantes (funcionários) -- relação esta que também se estende àquela tida dos empregados entre si, em diferentes graus hierárquicos. Assim, &lt;i&gt;apresento aqui três modelos sociológicos sobre as relações humanas que acontecem dentro dos laboratórios científicos e que podem ser descritos metaforicamente como os modelos (i) &lt;b&gt;paternalista&lt;/b&gt; (exército), (ii) &lt;b&gt;fraternalista&lt;/b&gt; (família) e (iii) &lt;b&gt;individualista&lt;/b&gt; (orfanato)&lt;/i&gt;. Tendo tido esse vislumbre aglomerador há algum tempo, procurei conversar com diversos colegas das mais diferentes instituições e perguntá-los o que achavam dos modelos, sendo que muitos deles concordaram sobre sua adequação. Não obstante, muitos ponderaram que os modelos que se verificam de fato na realidade dos laboratórios científicos consistem em mesclas dos modelos-básicos propostos. Alguns chegaram a definir porcentagens a dizer que seus laboratórios eram, por exemplo, 90% paternalistas, 8% individualistas e 2% fraternalistas. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os modelos aqui propostos versam sobre a sociologia do trabalho-padrão em ciência e são baseados em observações pragmáticas das relações pessoais entre os profissionais em um ambiente acadêmico. É possível supor que tais modelos possam se aplicar também -- de formas mais abrangentes -- em quaisquer tipos de organização, sendo passíveis de generalização para uma teoria pragmática da sociologia das organizações. Limito-me entretanto a tratar do assunto que entendo por ter trabalhado em pelo menos uma dezena de laboratórios científicos em pelo menos 4 países diferentes. Não obstante, devo argumentar que minha maior experiência foi no Brasil e, principalmente, dentro da Universidade Federal de Minas Gerais, onde realizei meus estudos de iniciação científica, mestrado, doutorado e pós-doutorado. (Veja no fim desta postagem uma descrição completa dos laboratórios onde trabalhei.) Além disso, baseio também as observações em inúmeras discussões realizadas principalmente com amigos do intelectualmente profícuo Diretório Acadêmico de Ciências Biológicas da UFMG (DA-Bio), dentre observações feitas desde que entrei na universidade (em 1998) sobre a convivência de dezenas de amigos com seus orientadores e em seus laboratórios, tanto no Brasil quanto no exterior. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/-BwXaLXJqYOw/Tg4FgN_vUMI/AAAAAAAAAj8/62gYpIMpTJU/s1600/SociologiaCiencia.png" imageanchor="1" style="margin-left: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" height="266" src="http://4.bp.blogspot.com/-BwXaLXJqYOw/Tg4FgN_vUMI/AAAAAAAAAj8/62gYpIMpTJU/s400/SociologiaCiencia.png" width="390" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;blockquote&gt;&lt;i&gt;O quadro acima resume de forma esquemática os argumentos propostos neste ensaio. Dividiu-se aqui os laboratórios científicos em três tipos básicos: (i) paternalista (exército), (ii) fraternalista (família) e (iii) individualista (orfanato). No quadro acima são expostas algumas das principais características de cada um desses tipos básicos e disjuntos propostos, embora valha a pena lembrar que os laboratórios reais consistem em mesclas dos tipos-padrão apresentados.&lt;/i&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;br /&gt;SOBRE O MILITARISMO CIENTÍFICO&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Existem laboratórios científicos cuja organização do trabalho em muitos aspectos assemelha-se àquela encontrada nos quartéis do exército. Em tais ambientes há uma hierarquia bastante restrita e não ultrapassável. Há invariavelmente um único e poderoso chefe que, autoritário e controlador, exerce seu poder pela demonstração de força que passa pelo amedrontamento e pela constante realização de ameaças contra aqueles que dele dependem e que são seus pupilos. Estes estão completamente à mercê do humor do chefe e não há para eles jamais a possibilidade de atentar contra essa autoridade, que é dada por uma tradição e aceita tacitamente. O laboratório científico pode ser compreendido enquanto metáfora da sociedade. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se por um lado não há dúvidas de que vários desses “grandes chefes” tenham alcançado o enorme estatus de poder de que gozam devido a ousadas iniciativas pessoais e algum mérito factual, muitos deles não têm qualquer merecimento por estarem em seus níveis e devem-no apenas a questões políticas ou heranças científicas. Em ciência, muitos dos pupilos de grandes nomes acabam herdando seus impérios científicos sem que tenham de fato mérito para tal. De forma similar, os reis europeus tinham direito ao trono devido a uma herança de sangue e muitos não eram depostos mesmo que amedrontassem e ameaçassem constantemente seus súditos (embora em limitadas ocasiões esse tipo de tiro tenha saído pela culatra; vide &lt;a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Revolu%C3%A7%C3%A3o_Francesa"&gt;revolução francesa&lt;/a&gt;). Na maioria das vezes, entretanto, os pupilos, estudantes ou súditos do grande chefe não teem e jamais terão força suficiente ou coragem para se unirem e se rebelarem contra o autoritarismo de seus líderes, monarcas ou orientadores. Em reuniões de trabalho num laboratório deste tipo é interessante notar o sadismo do líder durante as reuniões a querer sempre evidenciar de forma extremamente arrogante sua superioridade. A humilhação dos pobres alunos que tentavam bravamente vencer suas limitações de neófitos na área e fazer um trabalho de qualidade é frequente e perversa; desumana. Indivíduos assim repetem o comportamento de primatas menos civilizados em seus bandos primitivos. Tal maneira de exercer poder através da força tem também reflexos claros nas relações entre os estudantes. Em primeiro lugar, todos respeitam e temem o chefe, admiram-no de uma forma sórdida quando no fundo parecem ter a vontade de matá-lo ou tomar seu lugar. Se não o fazem é porque sabem que, caso se submetam de certa forma a ele, teem assim muito a ganhar em benefícios sociais e políticos. As críticas ao chefe ou orientador se dão nos corredores e pelas costas e não há jamais uma discussão sadia no sentido de tentar melhorar nenhum tipo de condição. Apenas o líder é quem dá as cartas e toma todas as resoluções de alguma importância. Ele é idolatrado e odiado ao mesmo tempo. Nesses laboratórios, os alunos que se saem socialmente melhor -- conseguindo entrar em publicações e ter uma dedicação do chefe aos seus trabalhos -- são aqueles que seguem cega e perfeitamente o que lhes é passado. Aqueles que não questionam, que não discordam e que aceitam sobre si a força da autoridade transformam-se nos queridinhos do chefe e muitas vezes são promovidos e sobem rapidamente os degraus da hierarquia científica. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os grandes cientistas da história não parecem ser indivíduos que subiram rapidamente na carreira através da aceitação submissa da autoridade de um chefe. De fato, os estudantes de um laboratório do estilo militar são normalmente mal formados enquanto pesquisadores e possuem uma visão do empreendimento científico como algo mais político do que intelectual; o que em muitos aspectos é verdade. Na ausência da luz e da visão de seus orientadores, os estudantes de um laboratório do estilo paternalista muitas vezes são incapazes de se virar sozinhos, ou seja, quando precisam defender-se na ausência de seus orientadores. Muitos deles são incapazes até de compreender a motivação de seus trabalhos ou como encaixá-lo em um contexto maior dentro da ciência na qual trabalham. Orientadores-paternalistas não são absolutamente educadores, eles almejam apenas conduzir seus próprios nomes e méritos até um patamar mais elevado, uma vez que possuem ainda outros competidores de mesmo nível sob os quais precisam se mostrar superiores. A questão é produtividade e o aluno não deve pensar, ele deve apenas repetir técnicas já consagradas em seus estudos. Assim o trabalho do aluno em um laboratório paternalista consiste em um trabalho quase-escravo que de fato poderia muitas vezes ser realizado por uma máquina, sendo que estes estudantes podem ser considerados como meras extensões dos braços do orientador. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O cientista-militar jamais compreende os aspectos humanos relacionados à tarefa científica. Se a mãe o aluno tem câncer ou sua avó morre, a falta é sempre consequência de irresponsabilidade por parte do funcionário. Para o líder militarista utópico que aqui pintamos só importam os resultados e ele quer ve-los prontos o quanto antes, "para ontem", não importando se o aluno tenha que passar 24 horas por dia no laboratório ou se sacrifique toda uma vida em prol do trabalho. Algumas palavras de ordem são: disciplina, organização, foco. Há frequentemente também graus variáveis de machismo, sendo que as mulheres são vistas como fracas -- até mesmo as mulheres que trabalham nesse tipo de condições são muitas vezes machistas. Ao aluno não é permitido praticamente nenhum trabalho criativo e ele deve apenas seguir protocolarmente as indicações que lhe foram passadas pelos outros alunos de hierarquia mais alta. Para os alunos de baixa hierarquia muitas vezes lhes é mesmo vetada discussão direta com o chefe-coronel e eles apenas tratam com os tenentes, que aproveitam suas frustrações com seu superior para repassa-las aos de mais baixa hierarquia, num ciclo vicioso de maus tratos e desprezo pelos iniciantes. Aqueles da mais baixa hierarquia são frequentemente considerados sub-humanos, aos quais pode-se dar os mais sujos dos trabalhos e que devem aceita-los com completa humildade e submissão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Também a relação entre os estudantes de um reino acadêmico-militar são excessivamente conflituosas. Nestes laboratórios normalmente existe uma hierarquia rígida onde o chefe maior senta-se no trono quando se dá ao trabalho de aparecer apenas para soltar palavras de ordem. Ele é inacessível e moralista: conhece bem o certo e errado de um tempo conservador que já está ultrapassado e prega-o como se fosse a maior modernidade. Abaixo do grande líder estão seus mais velhos alunos, aqueles que o conhecem há mais tempo e que já mostraram sua lealdade ao longo dos anos através de submissões e pequenos embates que não tenham sido excessivamente desastrosos. Podem haver então outras séries hierárquicas em níveis mais baixos, onde todos criticam às escondidas e odeiam o grande chefe. Como não se pode criticar abertamente os grandes poderes e as hierarquias superiores, começa-se a formar pequenos grupos de confiança nas hierarquias inferiores. As críticas inócuas se dão dentro dos grupos, onde as pessoas se protegem umas às outras e criticam os grandes líderes de hierarquia superior assim como aqueles pertencentes a outros grupos de confiança. Forma-se então uma rede de intrigas que prejudica de forma significativa o andar das carruagens. Há grande inveja e é bastante possível que ocorra inclusive sabotagem entre membros de grupos de hierarquia inferior ou competidores do grande-chefe. O exército vive, de fato, para realizar a guerra. É claro que esses grupos são formados por pessoas que normalmente já se identificam simbólica, social ou intelectualmente. O grupo militar científico está fadado a ser um grupo que realiza sem questionar os trabalhos propostos pelos chefes e embora normalmente possa ter um grande estatus em meio a outros grupos sociais, com muito pouca chance revolucionará algo dentro da ciência -- uma vez que aceita o argumento da autoridade e foge das verdadeiras discussões sobre as grandes questões científicas. Embora seja ainda possível ver inúmeros laboratórios que seguem este tipo de formato, acredito que o mesmo esteja cada vez mais ultrapassado e que funcione principalmente quando falta ao líder um conhecimento mais firme e seguro sobre seu objeto de trabalho. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Conceitos-chave:&lt;br /&gt;* Apego à autoridade&lt;br /&gt;* Disciplina e organização quase-neurótica&lt;br /&gt;* Tecnicalismo exacerbado&lt;br /&gt;* Não há críticas ou discussões&lt;br /&gt;* Falsidade nas relações humanas&lt;br /&gt;* Desrespeito e humilhação aos mais fracos&lt;br /&gt;* Competição acirrada, preconceito, machismo&lt;br /&gt;* Alto profissionalismo, desgosto pelo local de trabalho&lt;br /&gt;* Alta produtividade, falta de criatividade&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;BREVE CRÍTICA AO MILITARISMO&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O empreendimento científico, no entanto, não é feito a partir da aceitação da autoridade ou de dogmas, muito pelo contrário. Na ciência, os grandes cientistas foram aqueles que transverteram as teorias vigentes, questionaram-nas e assim foram capazes de destruí-las e montar novas teorias que se adequassem de forma melhor aos dados e às idéias dentro daquela mesma área. Einstein e Darwin podem ser vistos como grandes rebeldes, como indivíduos que se revoltaram contra a autoridade científica de suas épocas e propuseram novas teorias que foram radicalmente contra o que os mais experientes acreditavam em seus tempos. É interessante notar que Darwin custou muito a publicar sua obra e refletiu por décadas em suas aplicações na sociedade, enquanto Einstein publicou seus trabalhos aos vinte e cinco anos, enquanto trabalhava na empresa de patentes suiça, não sendo sequer um acadêmico. Einstein com sua língua para fora foi, assim, mais rebelde do que Darwin. Talvez pelo fato de que o naturalista estivesse questionando não só a estrutura científica de sua época, mas também a mais autoritária entidade da sociedade ocidental: a igreja católica. Um dos 5 desdobramentos da teoria de Darwin era que ela levava ao ateísmo e negava os dogmas eclesiásticos e tornava deus um mero fantoche desnecessário para explicar a origem dos seres vivos. De qualquer forma. ambos foram incrivelmente brilhantes e revolucionaram a ciência e o pensamento humano em uma grande gama de aspectos, principalmente mostrando que não há apenas uma única resposta, um único caminho correto escrito em nenhum livro do conhecimento. Foi ao verificar onde davam as encruzilhadas dos pensamentos modernos de seus tempos que eles conseguiram alcançar e abrir novas estradas que foram extremamente frutíferas em termos intelectuais. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://3.bp.blogspot.com/-rjNLo9P-X80/ThOYSZp85TI/AAAAAAAAAkM/9QZqeoVMgt0/s1600/050320_einstein_darwin_combo_hmedium.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" height="260" src="http://3.bp.blogspot.com/-rjNLo9P-X80/ThOYSZp85TI/AAAAAAAAAkM/9QZqeoVMgt0/s400/050320_einstein_darwin_combo_hmedium.jpg" width="400" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;blockquote&gt;&lt;i&gt;Albert Einstein e Charles Darwin jamais teriam propostos suas teorias caso trabalhassem em laboratórios do estilo paternalista (militar). Foi justamente a crítica mordaz que fizeram ao autoritarismo dos padrões estabelecidos que os permitiu erigir novas ideologias científicas. Se tivessem orientadores autoritários é possível que jamais tivessem conseguido questionar as teorias vigentes em suas épocas.&lt;/i&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;SOBRE O FRATERNALISTO CIENTÍFICO&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Há também laboratórios científicos que apresentam estrutura social semelhante a uma estrutura familiar. Assim como nas instituições familiares há o sonho dos filhos (estudantes) se tornarem grandes pivôs e obterem papel de destaque na sociedade do porvir. Sonho este que está incrustado na ideologia do laboratório fraternal e que dá aos iniciantes maior auto-estima, maior vontade de produzir trabalhos relevantes e maior amor pelo trabalho. Há aqui também um autoritarismo do chefe que pode ser enxergado como um “autoritarismo dos pais”, que é leve e estimulante. O pai quer o melhor para o filho, quer vê-lo crescer, quer vê-lo brilhar, ele acredita e gosta quando vê que os filhos estão dando o melhor de si e se superando. Filhos não são máquinas, são pessoas de carne e osso. Neste tipo de instituição as relações pessoais são prezadas em primeiro lugar, antes mesmo dos resultados que possam vir a ser obtidos dos trabalhos. Em casos extremos, isso pode gerar preguiça, falta de estímulo e emperramento das atividades científicas. Aqui a boa relação entre os chefes e os estudantes, em diversos níveis, se dá também fora do ambiente de trabalho. As pessoas assim gostam de estar umas com as outras e -- por mais que existam também diferenças simbólicas, sociais e intelectuais -- todos discutem abertamente suas posições e aceitam a diversidade de opiniões. O respeito é diluído, indireto e não-amedrontado. O orientador não convence seus pupilos através do uso da força, mas através da &lt;i&gt;argumentação&lt;/i&gt;. Ele não é nenhum tipo de super-herói ou deus na terra, um supra-sumo máximo de inteligência ou virtude, ele é um humano que erra mas que tem certamente mais experiência e que pode explicar com educação e delicadeza seus pontos de vista, as direções do trabalho e opiniões. Os trabalhos realizados nesses laboratórios entretanto frequentemente não teem mais um fim claro, um objetivo simples e direto a ser alcançado. Eles são mais explorativos, exigem criatividade na utilização e adaptação de metodologias clássicas a novas situações. Muitas vezes tenta-se aqui também reinventar a roda ou refazer algo que já é padronizado em certa área de pesquisa desde muitas décadas. Assim, se por um lado a discussão e crítica frequente leva ao desenvolvimento de novas tecnologias mais eficazes, por vezes leva à reconstruir algo que já está pronto há décadas de forma menos eficiente, tornado o laboratório improdutivo e gastando um precioso tempo que pode levar os pesquisadores e seus alunos ao ostracismo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Neste tipo de ambiente, o trabalho científico não é levado tão a sério, o laboratório é um local de socialização e os alunos estão de fato a brincar enquanto produzem e analisam os dados a tentarem alcançar novas conclusões. Não se acredita aqui que se deva respeitar conclusões estabelecidas e as discussões passam frequentemente pelo questionamento das teorias vigentes ou da forma de trabalho de outras instituições. O auto-questionamento está presente de forma a impulsionar o avanço dos trabalhos, mas algumas vezes alcança o exagero na fórmula. Há também a busca por uma estética da beleza sob a qual se possa buscar realizar trabalhos que sejam antes belos e interessantes do que presos ou fechados a uma metodologia quadrada que se repita sem se conhecer profundamente. A crítica e as discussões são invariavelmente profundas e alcançam os fundamentos básicos da disciplina e da lógica do trabalho realizado. Há aqui a tentativa de alcançar uma melhora efetiva nos métodos e ténicas utilizadas e de sempre reiniciar todo o pensamento a partir da estaca zero, tal qual comumente se faz em filosofia. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Grupos se interligam devido a divisões simbólicas e sociais, mas formam-se aqui fraternidades, grandes amizades e, frequentemente, grandes amores. O trabalho não é visto como uma obrigação e não há hora fixa para que seja feito ou pensado, ele se mistura à vida dos indivíduos. Mesmo nas mesas de bar as idéias tidas no momento de trabalho são discutidas e elocubrações especulativas são ressaltadas ao invés de punidas pela força do autoritarismo. As brigas que porventura aconteçam nesses lares são posteriormente apaziguadas pelos chefes ou pelos próprios envolvidos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Conceitos-chave:&lt;br /&gt;* Compreensão dos aspectos humanos&lt;br /&gt;* Ambiente amigável&lt;br /&gt;* Colaboração&lt;br /&gt;* Falta de profissionalismo&lt;br /&gt;* Gosto pelo local de trabalho&lt;br /&gt;* Valorização da criatividade&lt;br /&gt;* Desorganização&lt;br /&gt;* Indisciplina&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;SOBRE O ORFANATO CIENTÍFICO&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Há ainda os laboratórios científicos que funcionam como orfanatos, onde tanto os orientadores quanto os alunos interagem muito pouco entre si e onde cada um cuida principalmente de sua vida. Tais aglomerações se fazem em torno do interesse sobre um assunto determinado, mas as pessoas normalmente não teem bons tratos verbais e são avessas à interação excessiva com outros seres humanos. Nesse tipo de laboratório impera um individualismo extremo e cada um indivíduo do grupo fica em seu próprio mundinho, realizando seu trabalho de forma independente dos demais. Diz-se algumas vezes que o orientador que não atrapalha já ajuda bastante, e o mesmo pode ser dito reversamente com relação aos alunos. O esforço individual aqui é a força-motriz do laboratório. As reuniões, quando realizadas, servem apenas para atualizar os membros sobre o que os outros veem fazendo com relação aos seus estudos. As discussões não são muito frequentes e jamais são profundas, sendo que cada indivíduo entende apenas de uma parte ínfima do programa de pesquisa com o qual trabalham. O chefe normalmente não se interessa pelo trabalho específico de nenhum aluno em particular e não pode ser compreendido também em seu papel de educador, ele é apenas um meio facilitador da ciência para o aluno. Ele fornece as condições de trabalho, mas não está à disposição para resolver dúvidas ou discutir teorias, muitas vezes ele sequer sabe ao certo sobre o que o aluno está trabalhando. Muitas vezes o orientador sequer deveria ser incluído nas publicações mas ele exige isso porque foi o responsável por conseguir a verba para a realização da mesma e teve quiçá a idéia inicial. O aluno aqui trabalha totalmente independente, ele deve ser auto-didata e deve ser capaz de buscar por si próprio os fundamentos que regem aquilo que sabe e deve fazer. Novos alunos ficam frequentemente perdidos quando adentram nesses laboratórios e precisam de ajuda, frequentemente eles não encontram ninguém para ajudá-los e assim podem cair no ostracismo e tentarem entrar em outros laboratórios onde sejam escravizados ou se integrem a uma família. É interessante notar que esta forma de trabalho é comum em centros de pesquisas altamente internacionalizados, onde estudantes entram e saem com frequência e onde o orientador não tem tempo necessário para formar seus alunos. Nenhum orientador que pense em sua carreira como cientista irá “perder seu tempo” ensinando alunos a realizar pesquisas sendo que estes sairão de seus laboratórios em um tempo bastante curto. Tais orientadores individualistas acabam portanto em atrair também alunos individualistas, com os quais se dão bem apenas por não se darem em absoluto. Há nesses casos um desdém entre os indivíduos que acabam usando uns aos outros para fins utilitaristas somente; há um vazio existencial nesses indivíduos e um clima de sobriedade no ambiente. Tais laboratórios funcionam como um jogo de simbiose onde todos ganham sem interagem diretamente. O orientador tem pouco tempo para conversar com o aluno e, quando o tem, a conversa não resolve questões posto que o chefe, além de não ter dons verbais desenvolvidos para a discussão, é também um super-especialista em determinada área do conhecimento e incapaz de ajudar o aluno em seu problema mundano, frequentemente uma super-especialização em área correlata. O orientador individualista também não está sequer disposto a perder seu tempo ajudando o aluno, posto que sabe que tem coisas “mais importantes” a fazer que lhe darão frutos mais certos e maduros nos quais precisará apostar sua carreira. Mesmo nos altos níveis, há sempre competição entre pares e os orientadores dos laboratórios-orfanatos são extremamente carreiristas e estão interessados apenas em seu próprio desenvolvimento profissional. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Conceitos-chave:&lt;br /&gt;* Falta de contato humano&lt;br /&gt;* Ambiente profissional&lt;br /&gt;* Ausência de colaboração e discussão&lt;br /&gt;* Valorização da disciplina&lt;br /&gt;* Alta dependência do indivíduo&lt;br /&gt;* Meritocracia estrita&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;CONCLUSÕES&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De fato, nenhum laboratório científico ou instituição pode ser classificada como totalmente paternal, fraternal ou individual. Mesmo na própria instituição do exército há certa compaixão e espírito de equipe em inúmeros momentos, assim como dentro das famílias mais congregadas há instantes de extremo autoritarismo e imposição irrestrita de determinado ponto de vista. Também nos orfanatos há certa discussão de idéias e amor entre os indivíduos. Entretanto, todos aqueles fazem parte de instituições acadêmicas normalmente são capazes de dizer se sua instituição tem um caráter mais próximo ao modelo militar, da família ou do orfanato. Parece desnecessário dizer, com herança provavelmente em Freud, que as relações dentro da própria família do indivíduo regem um pouco sua adequação profissional a cada um desses modelos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Enfim, não quero apenas argumentar e observar esses padrões apresentados pelas instituições e termino este texto também trazendo um &lt;b&gt;argumento moral&lt;/b&gt; a qualificar como mais adequadas e humanísticas evidentemente as instituições de caráter fraternal/familiar. De fato, as instituições de hierarquia militar, tais quais a igreja e o estado teem sido há bastante tempo já se provaram apenas capazes de causar guerras e enormes problemas sociais e psicológicos aos indivíduos. Desde a revolução francesa na Europa, os governos veem aos poucos percebendo que o estado precisa ter uma característica mais de cunho fraternalista ou até maternalista. A mãe é aquela que cuida de todos os filhos e que dá mais atenção ao filho que mais necessita, o pai possui frequentemente uma visão meritocrática estrita e acha que o melhor filho deve ganhar mais e que o pior deve sua miséria às suas próprias atitudes e limitações, sem entender o contexto geral que formou cada um dos indivíduos. É claro que há pais de características maternas e mães de características paternas, o que importa aqui é apenas uma ideologia mitológica construída em cima desses arquétipos ideais. Na Europa, quando os governos deixaram de ser tiranos e se tornaram democráticos, muito se avançou; hoje parece se ver uma volta do preconceito e do racismo. O problema é que agora eles são tiranos com os outros estados. É tempo de renovação. Alguns pensandores modernos, como Domenico de Masi, argumenta com razão sobre uma feminilização da sociedade moderna que hoje tende a ter mais compaixão do que raiva ou autoritarismo. Ainda há muito a alcançar, mas esperamos que essas idéias do sociólogo italiano avancem e que cheguem em grande medida aos estados e também aos laboratórios científicos. No Brasil, o governo Lula avançou muito na construção de um arquétipo de fraternidade entre os indivíduos e a eleição de uma mulher para o cargo mais alto de nosso executiva é, sem dúvida, uma continuidade em um modelo que vai contra o paternalismo que é observado nos Estados Unidos, por exemplo. Confessionalmente, este quem vos fala sempre se deu muito melhor em laboratórios do estilo familiar, tendo sido altamente reprimido e quase expulso de laboratórios militares e tendo se dispersado bastante de propósitos estritamente científicos quando em laboratórios excessivamente individualistas. Tudo isso entretanto valeu sem dúvida como experiência de vida e enquanto motivação última para a escrita do presente ensaio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O LABORATÓRIO IDEAL&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sem dúvida, um laboratório produtivo e criativo idealístico seria produzido por uma conjunção mesclada das plataformas sociológicas descritas. Parece-me que uma base fraternalista consiste no mais importante quesito para o trabalho imaginativo ideal que se deve conceber em um laboratório científico. A disciplina paternalista não deixa também de ter sua importância quando colocada sobre um pano de fundo de discussões sérias, profundas, honestas, duras e amigáveis sobre temas científicos de interesse. Por último, mas não com menos importância, a busca individual e a pesquisa que o indivíduo faz em suas fontes principalmente eletrônicas num mundo da super-informação -- sendo capaz de filtrar toda a literatura desinteressante e ir direto às boas fontes, assim como sua capacidade técnica de realizar trabalho adquirida ao longo dos anos através de estudos solitários -- fecha portanto o tripé que sustentará o bom cientista e as boas práticas sociais em laboratórios científicos.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/23099929-3185685295880564074?l=tragodefilosofia.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://tragodefilosofia.blogspot.com/feeds/3185685295880564074/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=23099929&amp;postID=3185685295880564074&amp;isPopup=true' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/23099929/posts/default/3185685295880564074'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/23099929/posts/default/3185685295880564074'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://tragodefilosofia.blogspot.com/2011/05/sociologia-do-trabalho-cientifico.html' title='Sociologia do trabalho científico'/><author><name>Prós</name><uri>http://www.blogger.com/profile/18282398415856299778</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='24' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/-OJfdox4-acU/Tm_oXf840OI/AAAAAAAAAlc/1ROS0tKzZ5k/s220/facebook_perfil_picture.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://4.bp.blogspot.com/-BwXaLXJqYOw/Tg4FgN_vUMI/AAAAAAAAAj8/62gYpIMpTJU/s72-c/SociologiaCiencia.png' height='72' width='72'/><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-23099929.post-2849084202186071929</id><published>2011-03-27T03:48:00.004-03:00</published><updated>2011-06-30T18:16:43.578-03:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='filosofia da ciência'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='epistemologia'/><title type='text'>A caixa de maçãs, ou uma crítica à questão da unidade</title><content type='html'>PRÓLOGO&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Há pouco estive lendo o livro &lt;i&gt;Os grandes problemas da filosofia&lt;/i&gt; de Bertrand Russell [1]. Com sua lógica precisa e sua argumentação penetrante, Russell discorre ao longo dos primeiros capítulos sobre a questão da realidade de uma mesa. Quando vemos uma mesa, pergunta-nos o filósofo, como podemos saber que ela está mesmo ali, que é real, que não se apresenta apenas através de algum tipo de fantasia sensorial? Russell assim retoma Descartes ao questionar toda a realidade e chegar à verdade última encerrada na mais clássica citação da filosofia ocidental: "penso, logo existo". O filósofo e matemático inglês retoma ainda a distinção proposta por Kant que separou o nuomeno do fenômeno, a interpretação da coisa-em-si -- neste primeiro capítulo de sua obra que se intitula exatamente "Aparência e Realidade".&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/-ju9wZ8tKDy4/Tgs8IvF6TtI/AAAAAAAAAjM/b2QQje2Bb3A/s1600/Russell-2.jpg" imageanchor="1" style="margin-left:1em; margin-right:1em"&gt;&lt;img border="0" height="326" width="261" src="http://2.bp.blogspot.com/-ju9wZ8tKDy4/Tgs8IvF6TtI/AAAAAAAAAjM/b2QQje2Bb3A/s400/Russell-2.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;blockquote&gt;&lt;i&gt;O filósofo inglês Bertrand Russell (1872-1970) inicia sua obra &lt;/i&gt;Os grandes problemas da filosofia&lt;i&gt; questionando a questão da realidade de uma mesa. Ele assim desconstrói sua suposta realidade e rememora Descartes. Nesta postagem tal pensamento desconstrutivo é utilizado como inspiração para o questionamento da utilização de unidades no estudo das ciências empíricas. Embora a unidade seja clara e evidente em um mundo imagético-platônico, as coisas se complicam quando se necessita aplicá-las a contar entidades reais. Se considerarmos uma ciência feita por seres humanos que apresentam consideráveis graus de subjetividade em suas definições de unidade e modos de contagem, podemos gerar uma enorme confusão epistêmica.&lt;/i&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;CRÍTICA À QUESTÃO DA UNIDADE&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Inspirado por Russell em suas elocubrações, venho aqui questionar algo de mais concreto em nossas medidas da realidade, tarefa comumente realizada em qualquer área das ciências empíricas, que hoje vão desde a física até a sociologia. A questão que desejo pensar, criticar, questionar e discutir é a questão do &lt;b&gt;conceito de unidade&lt;/b&gt;. O conceito de unidade ou do número 1 é extremamente antigo e pensa-se-o bastante correto, bem definido, inequívoco e perfeito. Afinal uma unidade é e será sempre uma unidade. Pensa-se por exemplo que uma maçã é e será sempre uma maçã; ponto final. A questão que desejo colocar porém consiste &lt;i&gt;na relação entre (i) a entidade abstrata unidade e (ii) a entidade empírica que é efetivamente medida e contada&lt;/i&gt; em estudos que almejem aumentar o conhecimento humano com relação a determinado assunto. É justamente a dúvida sobre o que podemos chamar &lt;i&gt;determinismo da unidade&lt;/i&gt; que me trás aqui a tratar esses assuntos. Estou convicto de que a idéia da unidade, do número 1 e do contar sucessivo de números naturais está perfeitamente moldada em nossa lógica cerebral mais básica. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A idéia da unidade enquanto número natural exibe uma correlação bastante adequada com a realidade abstrata que ocupa o que chamamos de mundo das idéias -- o terceiro mundo popperiano ou o mundo platônico. Neste ponto, estamos de acordo. O que venho criticar consiste na relação da idéia do número um, ou melhor, da idéia de uma unidade qualquer quando passamos do ideal teórico para o mundo real e desejamos realizar medições. Fato é que &lt;i&gt;inexiste uma relação precisa&lt;/i&gt; entre a unidade platônica e a realidade física sob a qual nós cientistas, filósofos e indivíduos precisamos nos relacionar e contar. É inegável que precisamos medir a realidade para que possamos definir exatamente sobre o que falamos, compramos ou vendemos; sobre o que estamos estudando ou desejamos investigar. Como nossa metodologia e definição unitária influencia nosso trabalho e nossa visão de mundo, tal como os resultados obtidos em experimentos e as conclusões às quais pretendemos chegar? Como as definições de unidades de medida realizadas por pesquisadores diferentes nas mais longínquas partes do mundo pode ter a intenção de ser universal?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Peço ao leitor neste momento que realize um experimento mental e imagine uma caixa de maçãs contendo dezenas dessas frutas dentro. Agora peço que imagine que esta mesmo caixa fosse passada de mão em mão entre 10 pessoas diferentes e que a cada uma dessas pessoas fosse dado o trabalho de contar quantas maçãs existem nessa mesma caixa. Você acredita que todas as pessoas contariam o mesmo número exato de maçãs? Se você for um cientificista ingênuo imediatamente responderá que qualquer indivíduo que pegue a caixa de maçãs contará exatamente o mesmo número de maçãs e que -- imaginando que os indivíduos sejam eficientes em seu contar -- ao final todos terão contado exatamente o mesmo número de maçãs. Ora, a unidade-maçã é considera portanto como sendo uma unidade correta, perfeita, clara, bem definida e de simples contagem. Se você respondeu que sim é possível que tenha um pensamento abstrato adequado, mas que não se dê ao trabalho de considerar que diversas nuances presentes no mundo real.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Será mesmo que diferentes indivíduos contarão as mesmas maçãs? É preciso adicionar mais realidade ao nosso exemplo. Embora eu jamais discorde de que a &lt;i&gt;idéia de uma única maçã&lt;/i&gt; seja sim uma idéia clara e precisa, precisamos entender que esta idéia está invariavelmente associada a um pensamento sobre uma maçã perfeita, inexistente no mundo físico e que possui tamanho razoável, casca avermelhada e aspecto de fruta fresca e saudável, pronta a ser ingerida deliciosamente por um ser humano. Entretanto, em contraposição a esta idéia utópica de um &lt;i&gt;avatar-maçã&lt;/i&gt;, precisamos aceitar que na realidade nem toda maçã do mundo físico é exatamente idêntica -- ou mesmo bastante parecida -- a essa idéia platônica que podemos ter da fruta em questão. Dentre as maçãs que contamos na caixa, podemos encontrar maçãs (i) podres; (ii) extremamente pequenas; (iii)  bastante verdes; (iv) grudadas noutras maçãs; (v) maçãs pela metade; ou (vi) pela terça, quarta ou décima parte; nossa caixa (vii) pode estar ainda contaminada com maçãs de outra variedade; e podemos ser capazes de imaginar diversos outros detalhes quaisquer que dificultem a identificação precisa da unidade-maçã. Você que me lê e está agora contando as maçãs da caixa, você consideraria a maçã podre e fedorenta como uma unidade de maçã na caixa ou joga-la-ia fora? Você consideraria uma mini-maçã enquanto uma maçã? E uma mega-maçã? E a meia-maçã? Você considera-la-ia como uma maçã ou esperaria outra meia maçã aparecer para contar uma inteira? Ou você desconsideraria as duas metades? E a maçã siamesa pode ser mesmo considerada duas maças? E a maçã que não é do tipo mais comum, mas sim de uma outra variedade, representada por uma minoria de maçãs comuns? &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O que você faria exatamente em cada um desses casos? &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Enfim, independente de sua resposta o que quero fazer notar neste ensaio é que diferentes pessoas contariam diferentes números de maçãs presentes em nossa caixa simplesmente pelo fato de que a idéia da unidade e a unidade como medimos no mundo físico estão separadas e não são perfeitamente sobrepostas. Precisamos notar que a contagem de unidades consiste no método mais claro e preciso que nós humanos usamos para buscar informações sobre a natureza e a sociedade. O físico perguntará: quantos átomos tem uma molécula? O biólogo perguntará: quantos genes tem uma célula? Para ser mais preciso e atual, em minha área mais específica de atuação científica, a genômica, é bastante comum ver esses erros acontecendo o tempo todo. Os biólogos moleculares ainda não chegaram a uma decisão consensual sobre o que venha a ser um gene, por exemplo. E assim, diversas diferentes versões do genoma humano conteem diferentes números de genes, que normalmente variam entre 25.000 e 35.000 -- modificações de até 30% em números absolutos. A cada nova versão do genoma humano que é liberada pelos institutos de pesquisa (como o &lt;a href="http://www.ncbi.nlm.nih.gov"&gt;NCBI&lt;/a&gt;, norte-americano), descobre-se que o humano tem ou deixa de ter dezenas de genes -- a mais ou a menos. Não há, neste caso, nenhum tipo de consenso preciso sobre o que seja um gene ou sobre quantos genes existam contidos no nosso genoma. Um renomado pesquisador da área chegou a dizer, ironicamente: se você pergunta o que é um gene, você nunca vai saber. Com isso ele sugeria que a idéia de gene é teórica, imaginativa e complexa; e que não se pode exatamente dizer se determinada sequência de DNA seja ou não um gene de forma categórica. Da mesma forma, quando estamos contando maçãs, não podemos dizer que uma meia-maçã seja uma maçã de fato. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/-Yx_9xSVN8Ig/Tgs97-JpiyI/AAAAAAAAAjU/se5rXUkhJvM/s1600/fruit_apple_apple-tree_wallpaper_Fruit008.jpg" imageanchor="1" style="margin-left:1em; margin-right:1em"&gt;&lt;img border="0" height="300" width="400" src="http://2.bp.blogspot.com/-Yx_9xSVN8Ig/Tgs97-JpiyI/AAAAAAAAAjU/se5rXUkhJvM/s400/fruit_apple_apple-tree_wallpaper_Fruit008.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;blockquote&gt;&lt;i&gt;Quantas maçãs existem em uma caixa de maçãs? Uma maçã verde pode ser contada como uma unidade? Uma meia-maçã poderá ser contada também? Uma maçã podre? Quão diferente serão os números de maças na caixa caso diferentes pessoas realizem estas contagens? Como as diferenças nas contagens de entidades do mundo físico podem permitir a obtenção de diferentes resultados e conclusões por cientistas?&lt;/i&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;br /&gt;Embora alguém possa notar que o número efetivo de maçãs na caixa seja determinada, assim como o número preciso de genes no genoma também o seja, independente do que os humanos considerem, devo atestar que esse tipo de visão é falaciosa. A idéia da unidade -- seja ela o gene no genoma ou a maçã na caixa -- não existe que senão dentro dos cérebros dos humanos. Não há verdade absoluta a ser medida, contada ou conhecida. Só importa a idéia que os humanos fazem das maçãs na caixa. Ainda que se possam criar critérios para se considerar o que seja exatamente uma maçã, um gene ou um sapato, tais critérios serão sempre &lt;i&gt;contingentes&lt;/i&gt;, jamais necessários. Quero dizer com isso que não há -- em nenhum termo absoluto -- uma quantidade precisa de maçãs na caixa, mas que esses jogos wittgensteinianos para a definição precisa de conceitos, embora inevitáveis, geram imprecisão em qualquer tipo de conhecimento que desejemos tratar. Particularmente em trabalhos científicos, tais definições imprecisas ou excessivamente precisas dificultam a compreensão de resultados e a conversa entre os pesquisadores; podendo até produzir conclusões antagônicos em casos limítrofes. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Variações conceituais na definição da unidade que se mede podem muito provavelmente variar enormemente quando pessoas diferentes, utilizando critérios diferentes, realizam determinada contagem. Um conceito suposto de verdadeira-verdade da realidade-&lt;i&gt;per-se&lt;/i&gt; já foi destruída por Kant e não convém acreditarmos que ela possa ser de alguma forma ressuscitada. De fato, herdamos aqui a dúvida sobre a realidade e questionamos ainda por cima nossa capacidade de compreendê-la de forma satisfatória e/ou consensual. A prática científica, portanto, apresenta-se também como uma maneira de tentar-se definir padrões mais precisos para a observação ou, senão precisos, ao menos consensuais. É claro que em vários casos é útil que diferentes grupos de pesquisa olhem para os dados sob padrões de entendimentos diferentes e esta diversidade de contagens pode permitir uma mais abrangente análise do objeto de estudo. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A CIÊNCIA PÓS-MODERNA&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De fato, parece que no século XIX os pesquisadores tinham uma visão da ciência como uma esfera de conhecimento bastante racional e inquestionável, solucionadora última dos mais diversos problemas da humanidade. A ciência era vista de uma forma autoritária, precisa, implacável e absolutamente correta. A inércia epistêmica desse tipo de pensamento levou filósofos do início do século XX a formarem os grupos de positivismo lógico em diversas partes do mundo. Entretanto, já nesse início do século XX, os próprios físicos começavam a questionar os princípios rígidos fornecidos por Isaac Newton desde o século XVII. Heisenberg, Bohr e Einstein foram alguns dos responsáveis por tentar mostrar que os dados podem ser também interpretados segundo outros pontos de vista e inauguraram ainda no início do século XX o que costumo chamar de ciência da era pós-moderna. Este conceito está relacionado ao fato de que hoje não mais se acredita em métodos mágicos e perfeitos para medir os fenômenos naturais e acredita-se mais frequentemente em uma abordagem ampla, multi e pluridisciplinar para a realização de análises sobre qualquer tipo de dado, onde este dado a ser analisado seja cercado metodologicamente de forma a se tentar obter uma conclusão tão abrangente quanto possível sobre o conjunto em análise.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Voltando à argumentação, a questão que se apresenta é que o conceito da unidade que se conta é um tanto quanto abstrato, mesmo em questões razoavelmente objetivas, como o número de maçãs em uma caixa. Um problema epistemológico relacionado a como montamos nosso conhecimento será mais (ou menos) preciso de acordo com a forma através da qual caracterizamos e definimos o que seja uma (única) unidade. Se concordarmos previamente que só consideraremos maçãs aquelas que forem saudáveis, tiverem um tamanho mínimo e máximo e que forem de certa variedade, teremos certamente uma menor diferença nas contagens entre diferentes indivíduos, mas ainda assim poderemos ter alguma diferença significativa -- o que é uma "maçã saudável"?. De outra forma, estaremos jogando fora dados pertinentes relacionados a meias-maçãs, maçãs pequenas e maçãs grandes que fazem parte da realidade do mundo das maçãs e assim estaremos restringindo nossas observações, hipóteses e teorias a um subconjunto limitado do "conjunto-realidade" caixa-de-maçãs.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/-1XznuZUgxj8/Tgtl_KwKfPI/AAAAAAAAAjs/fkywb-Pje9o/s1600/ciencia_pos_pre_moderna.png" imageanchor="1" style="margin-left:1em; margin-right:1em"&gt;&lt;img border="0" height="266" width="380" src="http://4.bp.blogspot.com/-1XznuZUgxj8/Tgtl_KwKfPI/AAAAAAAAAjs/fkywb-Pje9o/s400/ciencia_pos_pre_moderna.png" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;blockquote&gt;&lt;i&gt;Quadro comparativo entre as principais diferenças das ciências na época pré e pós-moderna. Muito da ciência contemporânea ainda segue padrões pré-modernos e acredita-se que a ciência do século XXI se aproximará de padrões mais pós-modernos.&lt;/i&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;br /&gt;Como exemplo, no início deste ano visitei o zoológico de San Diego, na Califórnia, local conhecido e escrito no guia por apresentar mais de 4.000 espécies a serem observadas pelos turistas em suas curiosidades naturais. À despeito do fato de que as espécies não deveriam estar presas em pequenas jaulas apenas para servirem ao deleite da observação humana; e da pena que se tem ao se ver uma fêmea de orangotango de 46 anos que nunca viveu na natureza, não se pode saber ao certo o que se diz quando se diz que há 4.000 espécies no zoológico. Como contar essas espécies? Estarão falando de espécies animais ou incluirão também nesta conta as espécies de vegetais? É possível ainda ter 4.000 espécies dos altamente diversos besouros em uma única sala. Isso sem contar, obviamente, com as bactérias. Mesmo os biólogos, em diversos casos, digladiam entre si para saber se determinados animais devem ser considerados ou não da mesma espécie. De fato, Coyne e Orr definem pelo menos uma dezena de diferentes conceitos de espécies em seu mais &lt;a href="http://www.amazon.com/Speciation-Jerry-Coyne/dp/0878930892"&gt;recente livro sobre especiação&lt;/a&gt; [2]. Qual o conceito de espécie que usará o pessoal do zoológico? De qualquer forma, o passeio pelo zoológico é bastante agradável, particularmente pela família de bonobos que avistamos a brincar graciosamente tal qual crianças humanas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Partindo para um ponto de vista mais utilitarista, poderíamos considerar que o número de casos-limites do conceito da unidade que medimos é que deve ser considerado quanto queremos compreender sua adequação. Se entre as dez pessoas que contaram as maçãs, estas tenham observado variações numéricas ínfimas [3], neste caso a questão da relativização da unidade não terá sido problemática. No entanto, caso a variação entre aquele indivíduo que contou mais e o indivíduo que contou menos maçãs seja verdadeiramente grande, ou uma fatia considerável do conjunto de dados, aí teremos problemas na nossa análise da realidade. Esses problemas estarão relacionados: (i) aos próprios experimentos realizados, (ii) aos resultados que chegaremos a partir desse experimento de contagem e (iii) às conclusões que serão obtidas dessas análises e que serão utilizadas de novo em nossa sociedade. Para isso, é sempre importante que os experimentos sejam realizados em duplicata, triplicata, etc -- ou seja, que sejam repetidos tantas vezes quantas possível. A &lt;i&gt;reproducibilidade &lt;/i&gt;deve ser considerada como um pilar para o trabalho científico e os resultados devem ser analisados de forma estatística, observando-se as variâncias e desvios-padrão entre as réplicas para que se consiga ter ao menos alguma confiabilidade no resultado apresentado. É ideal também que diferentes pessoas tentem realizar os experimentos e realizar análises sobre o mesmo tipo de dados para sabermos se chegarão a resultados similares. As pobres metodologias dos artigos científicos precisam ser melhor descritas para que outros pesquisadores possam usar parâmetros parecidos e possam comparar seus resultados com pesquisas realizadas anteriormente. E novas metodologias precisam continuar sendo apresentadas para evidenciar falhas em métodos anteriormente tidos como definitivos ou perfeitamente adequados para determinado tipo de exame e/ou medição de fenômenos naturais ou sociais. A utilização de poucos parâmetros e de medidas simples realizadas por apenas uma pessoa ou método estão ficando cada vez menos proeminentes em ciência e tais observações estão sendo consideradas extremamente ruidosas. Entretanto há também na ciência uma questão socio-política forte e assim medições ruins realizadas por pesquisadores de renome disseminam-se rapidamente através da comunidade científica enquanto medições menos ruidosas realizadas com extremo zelo científico por cientistas de menos renome podem ter suas informações negadas pelas revistas de relevante impacto científico, principalmente quando frustram expectativas da comunidade. E assim a ciência avança aos tropeços e empurrões.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;CONCLUSÕES&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O que portanto devemos buscar quando fazemos experimentos de contagem no mundo real? Se nossos conceitos e limites de abordagem forem muito frouxos, estaremos provavelmente perdendo tempo e obteremos resultados de impossível análise, totalmente ruidosos e inconclusivos. Isso é o que acontece muitas vezes com as ciências humanas e principalmente com a psicologia que, por teem frequentemente limites muito frouxos em seus experimentos, tornam as análises difíceis de serem feitas ou generalizadas; e os casos psicanalíticos são frequentemente únicos. Por outro lado, quando os conceitos são excessivamente precisos e polidos, modela-se um falso mundo que desconsidera a complexidade do mundo real. Nessa quebra-cabeças de prender ou soltar muito a análise os cientistas estão sendo pegos. A ciência do século XIX pecava por acreditar tão dogmaticamente em seus conceitos e métodos de análise. Já a ciência pós-moderna tem permitido, em diversas áreas da pesquisa, buscar abordagens multidisciplinares e provar seus pontos através de métodos diferentes e complementares que se somam e permitem uma abordagem mais ampla do objeto de estudo. E este me parece ser seu maior avanço nos últimos anos, embora esteja claro que muitos problemas ainda são observados de forma excessivamente objetiva ou subjetiva. A virtude, como seria de se esperar, está mais provavelmente no caminho do meio, na abordagem objetiva embasada em diferentes premissas e que deve ser analisada e concluída por uma análise sintética subjetiva.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/-M6gwKGLyGLQ/TgtpgqpCqWI/AAAAAAAAAj0/HkY2LI5Busk/s1600/um.png" imageanchor="1" style="margin-left:1em; margin-right:1em"&gt;&lt;img border="0" height="61" width="243" src="http://2.bp.blogspot.com/-M6gwKGLyGLQ/TgtpgqpCqWI/AAAAAAAAAj0/HkY2LI5Busk/s400/um.png" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;blockquote&gt;&lt;i&gt;O que exatamente é uma unidade? Em um estudo empírico é preciso definir o que se diz quando se trata de uma unidade. Meia-unidade não é uma unidade. Noventa por cento de uma unidade não é uma unidade. Quais são os critérios definidos para considerarmos que determinada observação conta como uma unidade (+1) ou deve simplesmente ser desconsiderada quando da realização de um determinado estudo? Cada indivíduo que conta terá seu próprio conceito de unidade e contará diferentemente de outros. É possível criar diferentes critérios para definir diferentes formas de contagens de unidades presentes em determinada amostra e é desejável fazer isso.&lt;/i&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;br /&gt;Vale notar finalmente que a aplicação de diferentes métodos sobre um determinado problema pode permitir um melhor aproveitamento dos resultados e um melhor conhecimento do mundo físico cuja realidade intrínseca nos será para sempre desconhecida. No caso das maçãs talvez pudéssemos considerar que não o número, porém o peso delas é que seria a melhor forma de assegurarmos que estaríamos falando. Dessa forma todas as pessoas do mundo versariam sobre o mesmo número -- embora seja agora preciso considerar que as balanças estão frequentemente mal calibradas. Mais provavelmente a melhor forma de caracterizar nossa caixa de maçãs seria utilizar abordagens complementares, usando número, peso, volume e diversas outros métodos de análise para caracterizar tão bem quanto possível nossas maçãs presentes nesta caixa imaginário. Se for provado entretanto que o número de maçãs seja uma medida errônea e que as diferenças contadas entre diferentes pessoas sejam significativamente diferentes, deve-se ignorar este método e usar apenas o peso ou o volume. A idéia, portanto, é tentarmos abranger ao máximo o universo do que estamos estudando sem restringirmos nossas medidas a metodologias falhas e ruidosas. A busca de novas metodologias para a contagem e a questão das unidades precisa ser levada em consideração pelo pesquisador que trabalhe em qualquer ramo científico quando ele realiza o desenho experimental de seu trabalho. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O problema não é na contagem enquanto teoria, porém enquanto prática de um mundo onde as unidades são questionáveis em algum grau. De fato, o que mais me intriga é como que num mundo onde as unidades são tão subjetivas, as balanças são tão descalibradas e os seres humanos tão diferentes possa haver consenso em um sem-número de elementos, estudos, negócios e relações. Fico assim atônito ao constatar que o homem é de certa forma capaz de (i) lidar com toda essa incerteza e subjetividade inerente a qualquer tipo de medição e (ii) produzir uma sociedade razoavelmente organizada -- associada a uma ciência capaz de produzir cada vez mais tecnologia de ponta. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;--&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;[1] Russell, B. Os Problemas da Filosofia. Tradução: Jaimir Conte. Florianópolis, setembro de 2005. Título original: The Problems of Philosophy. Home University Library, 1912. Oxford University Press paperback, 1959. Reimpresso em 1971-2. Disponível na internet no &lt;a href="http://www.cfh.ufsc.br/~conte/russell.html"&gt;site da UFSC&lt;/a&gt;.&lt;br /&gt;[2] Coyne JA and Orr HA. Speciation. Sinauer Associates, Inc. 545 pg.&lt;br /&gt;[3] Digamos que os números tenham sido algo como 97, 101, 98, 99, 100, 99, 98, 102, 100 e 100, parece que a questão da unidade maçãzal não fará tanta diferença.&lt;br /&gt;[4] Bachelard em "Númeno e microfísica", 1931-32. "Como teríamos o direito de postular a causalidade uniforme dos fenômenos tomados por unidades se não temos garantia nem da uniformidade das unidades em seu papel aritmético".&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Primeira versão: 22/01/11&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/23099929-2849084202186071929?l=tragodefilosofia.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://tragodefilosofia.blogspot.com/feeds/2849084202186071929/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=23099929&amp;postID=2849084202186071929&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/23099929/posts/default/2849084202186071929'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/23099929/posts/default/2849084202186071929'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://tragodefilosofia.blogspot.com/2011/03/caixa-de-macas-ou-uma-critica-questao.html' title='A caixa de maçãs, ou uma crítica à questão da unidade'/><author><name>Prós</name><uri>http://www.blogger.com/profile/18282398415856299778</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='24' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/-OJfdox4-acU/Tm_oXf840OI/AAAAAAAAAlc/1ROS0tKzZ5k/s220/facebook_perfil_picture.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://2.bp.blogspot.com/-ju9wZ8tKDy4/Tgs8IvF6TtI/AAAAAAAAAjM/b2QQje2Bb3A/s72-c/Russell-2.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-23099929.post-8271101134190778263</id><published>2010-11-10T21:29:00.017-02:00</published><updated>2011-06-14T12:51:43.262-03:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='evolução molecular'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='história da ciência'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='divulgação científica'/><title type='text'>Sobre como o código genético corrobora o darwinismo</title><content type='html'>Hoje mesmo me peguei dizendo aos alunos que o &lt;span style="font-weight:bold;"&gt;código genético&lt;/span&gt; é simplesmente uma das maiores provas descobertas nos últimos cinquenta anos (ele foi descoberto na década de 1960) que corrobora, de maneira nítida e elegante, a evolução darwiniana -- principalmente quando operada em seu nível mais fundamental possível, ou seja, o nível molecular. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;O que é o código genético?&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Muitas vezes usamos a expressão código genético como expressão sinônima do "&lt;i&gt;conjunto completo de DNA de uma célula&lt;/i&gt;", ou seja, como sinonímia do que consideramos o &lt;i&gt;genoma&lt;/i&gt; de um organismo. Tecnicamente falando, entretanto, quando os geneticistas dizem &lt;span style="font-style:italic;"&gt;código genético&lt;/span&gt; eles não estão falando desse conteúdo de DNA do organismos. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De fato &lt;b&gt;o código genético consiste num código molecular para a passagem da informação contida no DNA para a informação contida nas proteínas&lt;/b&gt;. Para simplificar a história, voltemos um pouco na teoria da herança. Sabemos que nossas células conteem 46 moléculas de DNA, que consistem em grandes fitas chamadas &lt;b&gt;cromossomos&lt;/b&gt;. Cada uma de nossas células conteem 46 cromossomos, 23 heradados do nosso pai e 23 herdados da nossa mãe. Acontece que o &lt;b&gt;DNA&lt;/b&gt; é considerado hoje como um livro guardado na estante (ou como uma receita de bolo), ele &lt;i&gt;contem uma grande quantidade de informação mas ele é considerado quimicamente inerte&lt;/i&gt;, ou seja, ele não age efetivamente no ambiente intracelular. As quatro bases químicas que o formam: A, C, G e T teem uma estrutura bastante similar e não permitem a complexa realização de interações químicas que forma o metabolismo celular. (Esse argumento, inclusive, foi usado muitas vezes -- antes de Watson e Crick -- para argumentar que o DNA não poderia ser a molécula da hereditariedade.) &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Enfim, hoje sabe-se que o DNA, embora quimicamente inerte, contém informação necessária e suficiente para dirigir a síntese de outras moléculas quimicamente ativas, principalmente as proteínas. Assim, para que uma célula tenha metabolismo e seja capaz de transformar elementos químicos é preciso que a informação contida em seu DNA -- e formada por fitas cromossômicas contendo milhões de pares de base A, C, G e T dispostos em linha -- seja transformada em moléculas de proteínas. &lt;b&gt;O DNA, portanto, tem duas principais funções, a saber: (i) possuir o código da hereditariedade e (ii) conter a informação para a produção de proteínas.&lt;/b&gt; A função (i) tem a ver com a evolução e com o fato de que os filhos se parecem com os pais, ela é estudada principalmente pela disciplina de &lt;b&gt;genética&lt;/b&gt;. Já a função (ii) está relacionada a como o DNA controla o metabolismo de uma célula, e é academicamente estudada principalmente nas disciplinas de biologia molecular e bioquímica. Estímulos ambientais estimulam o DNA a realizar a &lt;span style="font-style:italic;"&gt;transcrição&lt;/span&gt; de determinados pedaços de sua molécula. A transcrição consiste no processo em que o DNA forma o que chamamos o RNA mensageiro (para mais informações, clique &lt;a href="http://www.icb.ufmg.br/prodabi/prodabi3/grupos/grupo1/index.htm"&gt;aqui&lt;/a&gt;). Esse RNA mensageiro contém a informação do gene, que agora sai do núcleo (morada segura do DNA) e vai para o citoplasma ser &lt;span style="font-style:italic;"&gt;traduzido&lt;/span&gt; em proteínas. O fluxo de informação do DNA até as proteínas é conhecido como o &lt;b&gt;dogma central da biologia molecular&lt;/b&gt;, e foi proposto por Watson e Crick algum tempo depois da descoberta da estrutura do DNA em dupla hélice (1953).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/-1NFN7W5Pdjc/TVrQqZzInOI/AAAAAAAAAeo/zZ77u4bC3sg/s1600/dogmacentral.png" imageanchor="1" style="margin-left:1em; margin-right:1em"&gt;&lt;img border="0" height="115" width="400" src="http://2.bp.blogspot.com/-1NFN7W5Pdjc/TVrQqZzInOI/AAAAAAAAAeo/zZ77u4bC3sg/s400/dogmacentral.png" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;blockquote&gt;&lt;i&gt;O dogma central da biologia molecular indica como a informação do DNA, que é quimicamente inerte, se transforma em informação protéica. As moléculas de proteínas são as principais responsáveis pelo controle do metabolismo celular e, portanto, da vida, em seu nível mais molecular. [1]&lt;/i&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;br /&gt;As proteínas são moléculas poliméricas formadas por 20 diferentes tipos de monômeros, chamados de aminoácidos. Um polímero pode ser considerado como um colar de pérolas, onde cada pérola é o monômero do polímero colar. O DNA é um polímero cujos monômeros (pérolas) são os nucleotídeos A, C, G e T. Um pequeno "colar de DNA" poderia ser formado pelo seguinte conjunto de nucleotídeos: ACTCGGACATTTTACAGACACACGGAC. Já a proteína é um polímero cujos monômeros são os 20 aminoácidos, a saber: (i) Alanina, (ii) Cisteína, (iii) Ácido Aspártico, (iv) Ácido Glutâmico, (v) Fenilalanina, (vi) Glicina, (vii) Histina, (viii) Isoleucina, (ix) Lisina, (x) Leucina, (xi) Metionina, (xii) Asparagina, (xii) Prolina, (xiv) Glutamina, (xv) Arginina, (xvi) Serina, (xvii) Treonina, (xviii) Valina, (xix) Tirosina, (xx) Triptofano. Ao contrário dos nucleotídeos, que são quimicamente inertes, cada aminoácido tem diferentes propriedades químicas diferentes, sendo que alguns são carregados positivamente, outros são carregados negativamente, outros são hidrofóbicos. A diversidade química dos aminoácidos é o que permite que as proteínas tenham diferentes papéis no metabolismo celular, algumas sendo responsáveis por ligar moléculas em meio aquoso, outras funcionando como poros de passagem pela membrana plasmática, outras viajando pelo sangue até outros tecidos e funcionando como hormônios. Enfim, a junção dessas 20 "pérolas" aminoacídicas para formar os colares protéicos permite que as proteínas tenham uma incrível diversidade química e que possam ligar diferentes moléculas que interagem com nosso organismo. E como se não bastasse a diversidade química, esses colares de proteínas também são capazes de se enrolar no espaço e formar estruturas tridimensionais altamente complexas, que influenciam de sobremaneira a forma de funcionamento de nosso metabolismo celular.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://3.bp.blogspot.com/-JUAthEjjRQs/TVrUjl8sPJI/AAAAAAAAAew/gaWgX-HaolU/s1600/AminoAcidChart.jpg" imageanchor="1" style="margin-left:1em; margin-right:1em"&gt;&lt;img border="0" height="400" width="314" src="http://3.bp.blogspot.com/-JUAthEjjRQs/TVrUjl8sPJI/AAAAAAAAAew/gaWgX-HaolU/s400/AminoAcidChart.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;blockquote&gt;&lt;i&gt;Fórmulas químicas dos 20 aminoácidos que constituem as proteínas. Divididos em classes químicas, os aminoácidos podem ser carregados positivamente ou negativamente, podem ser ainda polares sem carga ou apolares. Essa diversidade química torna as proteínas (polímeros contendo entre 30-1000 aminoácidos, normalmente) moléculas altamente reativas. Além da diversidade química, as proteínas possuem também diversidade estrutural, dada pela conformação tridimensional dos aminoácidos no espaço. Figura obtida &lt;a href="http://www.detectingdesign.com/abiogenesis.html"&gt;neste site&lt;/a&gt;.&lt;/i&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;br /&gt;Embora outras moléculas como os ácidos nucléicos, os lipídeos (gorduras) e os açúcares  (carboidratos) sejam altamente importantes para o metabolismo celular, os biólogos moleculares acreditam que as principais moléculas que controlam e comandam o funcionamento de uma célula são mesmo as proteínas. &lt;i&gt;E é o DNA que tem o código para a formação dessas proteínas. Portanto, o DNA age e controla de maneira indireta o metabolismo celular.&lt;/i&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Finalmente o código genético foi talvez a principal descoberta feita após Watson &amp; Crick terem descoberto a estrutura de dupla-hélice do DNA; a compreensão deste código permitiu compreender como um código de 4 letras (nucleotídeos) de DNA é capaz de produzir um código de 20 letras (aminoácidos) de proteínas. A comparação do DNA e da proteína com letras e palavras não é meramente feita aqui a título de simplificação ou analogia; DNA e proteínas teem, assim como as linguagens, sintáticas e semânticas que podem ser apreendidos de sua observação e análise. Vale notar que a história da descoberta do código genético é um tópico bastante interessante que prometo voltar aqui para contar. O que importa nesse caso é que, &lt;b&gt;quando falamos de código genético, estamos falando no mecanismos de transformação de uma molécula de ácido nucléico em uma molécula de proteína&lt;/b&gt;. A origem do mecanismo altamente complexo de &lt;i&gt;tradução&lt;/i&gt; ainda é um mistério (é isso mesmo, o processo é chamado de tradução e funciona de forma análoga à tradução entre idiomas), mas experimentalmente os pesquisadores foram capazes de descobrir que para cada três letras contíguas presentes na região codificante de um gene, a célula é capaz de produzir um aminoácido específico. Veja o desenho da tabela do código genético abaixo:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://3.bp.blogspot.com/-iQSNHIC_MSA/TVPtEsdHBwI/AAAAAAAAAdw/3K5VKW_rTHM/s1600/genetic_code.jpg"&gt;&lt;img style="display:block; margin:0px auto 10px; text-align:center;cursor:pointer; cursor:hand;width: 400px; height: 341px;" src="http://3.bp.blogspot.com/-iQSNHIC_MSA/TVPtEsdHBwI/AAAAAAAAAdw/3K5VKW_rTHM/s400/genetic_code.jpg" border="0" alt=""id="BLOGGER_PHOTO_ID_5572057828895950594" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;blockquote&gt;&lt;span style="font-style:italic;"&gt;A tabela do código genético. Embora a palavra código genético seja confundida normalmente com o conteúdo genético ou genoma de um organismo ou espécie, para os geneticistas o código genético consiste nesta tabela, ou seja, no código através do qual uma trinca de nucleotídeos de DNA é transformada em um aminoácido que fará parte de uma proteína.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;br /&gt;A tabela acima já foi comprovada experimentalmente em uma diversidade de organismos e ela representa a tradução codificada entre a linguagem química do DNA e a linguagem química das proteínas. A fabricação das proteínas frequentemente se inicia pela trinca (códon) ATG (ou AUG), que codifica o aminoácido Metionina (Met). E assim, as letras do DNA (transformadas no intermediário RNA mensageiro) se seguem permitindo que possamos fazer a tradução de uma informação na linguagem-do-DNA para uma informação na linguagem-das-proteínas. Uma sequência como ATG-CCT-CCA-GGT-CAG-GGA-GTC-TGA no DNA será transformada na célula -- pelo mecanismo conhecido como Tradução -- em uma proteína com os aminoácidos Metionina-Prolina-Prolina-Glicina-Glutamina-Glicina-Valina (que pode ser descrita também como Met-Pro-Pro-Gli-Gln-Gli-Val, ou ainda, mais resumidamente, como MPPGQPV). O último códon TGA (ou UGA) representa o sinal de término da síntese de proteínas, onde o DNA sinaliza à célula que ela não deve continuar traduzindo-o e que o código para aquela proteína termina ali.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;Como e por que o código genético está de acordo com o darwinismo?&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dada a enorme diversidade de organismos existentes na Terra, &lt;b&gt;seria&lt;/b&gt; possível pensar que cada organismo diferente pudesse usar um código genético diferente para produzir suas proteínas. É teoricamente possível pensar em códigos genéticos alternativos, onde a atribuição trinca-aminoácido fosse diferente desta mostrada na figura acima. (O próprio Francis Crick chegou a propor um outro código genético que faria essa atribuição entre nucleotídeos do DNA e aminoácidos nas proteínas. E embora o código não-pontuado de Crick fosse belo e elegante, ele não foi observado em nenhum organismo. E o desenvolvimento da ciência exige sempre a confirmação experimental para provar o que se deseja.) Entretanto, os biólogos moleculares já investigaram centenas de milhares de organismos vivos, desde as mais antigas bactérias, passando por bichos existentes no mar, na água doce, debaixo da terra, do alto das montanhas, investigaram os peixes, os anfíbios, os répteis, as plantas, as algas, os fungos, os primatas, os marsupiais, as cianobactérias, as arqueobactérias e, enfim, todos os organismos conhecidos. Em nenhum desses organismos o código genético era muito diferente deste que conhecemos e que está representado na tabela acima. Apenas alguns organismos teem um ou outro códon (trinca de nucleotídeos) que faz uma atribuição diferente, e esses consistem justamente na exceção que comprova a regra. [2]&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;i&gt;O fato de que todos os organismos vivos possuem o mesmo código genético -- ou pelo menos um código genético bastante parecido -- é considerada pelos cientistas uma evidência clara de dois fatos: (i) &lt;b&gt;todos os organismos viventes são descendentes de poucos organismos que viveram no passado&lt;/b&gt; e (ii) o surgimento do código genético e do mecanismo de tradução trouxe uma enorme vantagem evolutiva para os organismos que eram capaz de utilizá-lo&lt;/i&gt;. O fato (i) consiste na principal das sub-teorias de Darwin, que é a chamada &lt;span style="font-weight:bold;"&gt;ancestralidade comum&lt;/span&gt;. Charles Darwin foi o primeiro indivíduo a dizer que todos os organismos da Terra possuem um ancestral comum que viveu no passado e foi se diferenciando nas espécies viventes. Darwin não viveu o suficiente para ver a corroboração molecular de suas idéias, mas certamente teria achado brilhante perceber como toda a vida que conhecemos em nosso planeta apresenta este mesmo código básico para a fabricação de proteínas. Se os organismos não descendessem de um mesmo ancestral, eles poderiam ter códigos completamente diferentes e poderiam fazer suas proteínas de forma totalmente diversa e criativa. Eles poderiam até ter algum tipo de metabolismo que não fosse baseado principalmente na interação de proteínas com metabólitos e entre si. Mas esse tipo de organismo jamais foi visto e acreditamos que não exista, ao menos na Terra. Portanto, o fato de que todos os organismos vivos possuem o mesmo código genético é uma das mais fortes evidências da ancestralidade comum entre eles e foi uma das principais corroborações do darwinismo feita na segunda metade do século XX, pouco mais de um século depois da publicação original da obra "A origem das espécies", em 1859. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foquemos agora no ponto (ii) apresentado acima, que diz que o primeiro organismo no qual o código genético surgiu (e, por conseguinte, o mecanismo de tradução) teve uma enorme vantagem adaptativa com relação aos outros organismos que viviam em seu tempo. Não quero aqui me estender na discussão de como eram os organismos num mundo onde o código genético não existia. Caso eu fizesse isso, estaria voltando ao tema da origem da vida, tema altamente polêmico que pode gerar uma obra inteira apenas de discussões acaloradas sobre detalhes bastante interessantes. Quero aqui apenas mostrar que à época em que o código genético surgiu, deveriam existir vários tipos de proto-células que eram capazes de produzir proteínas a partir de DNA de uma forma bastante ineficiente. Embora o surgimento do complexo mecanismo de tradução (e do código genético) tenha sido sim um grande "salto evolutivo" ainda hoje inexplicável, uma vez que esse mecanismo surgiu (de forma bastante similar à que existe hoje), os organismos que eram capazes de usar esse código venceram a guerra evolutiva contra outros organismos que coexistiam consigo na mesma época. E a prova disso é a mesma que usamos em (i): não há nenhum outro organismo que seja capaz de fazer proteínas de forma diferente desta que usa o mecanismo de tradução e onde trincas de DNA são traduzidas em aminoácidos de acordo com o código genético da figura. Se houvesse outra forma eficiente de produzir proteínas por organismos vivos, seríamos capazes de ver algum bicho ou planta ou fungo qualquer que utilizasse mecanismo alternativo, o que não acontece. Assim, o primeiro indivíduo que foi capaz de fazer proteínas segundo um proto-código parecido com este que temos hoje, subjugou todos os seus concorrentes na corrida evolutiva e o que vemos hoje, em toda a diversidade da vida em nosso planeta, são os descendentes desse organismo antigo que foi capaz de usar sequências-código de três letras químicas de ácidos nucléicos para produzir uma letra química de proteína. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O genoma humano consiste no conjunto de todos os genes que o ser humano possui, e também as regiões não-gênicas. Embora apenas 1% do nosso genoma seja responsável por fazer o que chamamos de genes-codificadores-de-proteínas, essas regiões são hoje consideradas como as mais importantes do nosso genoma. Estimativas recentes falam que o ser humano tem algo em torno de 30 mil genes codificadores de proteínas e são principalmente essas interações entre essas proteínas dentro de nossas células que fazem nosso corpo funcionar coordenadamente de uma forma altamente complexa e maravilhosa. O mesmo vale para grande parte dos outros organismos vivos que, também possuindo dezenas de milhares de genes em seus genomas, são capazes de transformar esses genes em proteínas através do mecanismo de tradução que realiza a leitura do código genético e permite a existência do metabolismo celular. Este incrível e maravilhoso código que, estando presente de forma praticamente inalterada em todos os organismos vivos, consiste em uma das maiores provas de que o darwinismo realmente não é apenas suposição ou teoria: é fato consumado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;==&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;i&gt;&lt;br /&gt;[1] Outra predisposição necessária e importante da "teoria do dogma central" é que uma vez que a informação do DNA é escrita na forma de proteínas, ela não mais retorna -- nunca -- a ser DNA. Esse fato também foi interpretado como a refutação definitiva da teoria lamarckiana da herança dos caracteres adquiridos. Se o que acontece com as proteínas jamais volta a ser DNA, então não há como nada que aconteça na vida de um organismo causar impressões em seu material genético, material este que será passado para o seu filho. Vale notar que hoje em dia há evidências de que algumas características mais sutis podem ser re-impressas no DNA, na forma de modificações nas bases C, que podem estar metiladas, ou na estrutura das proteínas que envolvem o DNA (cromatina) -- ver postagem sobre &lt;a href="http://nextisnowbr.blogspot.com/2009/10/epigenomica.html"&gt;epigenética&lt;/a&gt;. &lt;br /&gt;[2] Anotações para o próprio autor, quando quiser publicar efetivamente este texto em livro: dar exemplos de códigos genéticos alternativos, como o da mitocôndria, explicando as diferenças. Explicar também sobre como evoluíram as atribuições códons-aminoácidos de acordo com a teoria do &lt;a href="http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/18493811"&gt;Sávio/Romeu&lt;/a&gt;.&lt;/i&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/23099929-8271101134190778263?l=tragodefilosofia.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://tragodefilosofia.blogspot.com/feeds/8271101134190778263/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=23099929&amp;postID=8271101134190778263&amp;isPopup=true' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/23099929/posts/default/8271101134190778263'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/23099929/posts/default/8271101134190778263'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://tragodefilosofia.blogspot.com/2010/11/sobre-como-o-codigo-genetico-corrobora.html' title='Sobre como o código genético corrobora o darwinismo'/><author><name>Prós</name><uri>http://www.blogger.com/profile/18282398415856299778</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='24' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/-OJfdox4-acU/Tm_oXf840OI/AAAAAAAAAlc/1ROS0tKzZ5k/s220/facebook_perfil_picture.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://2.bp.blogspot.com/-1NFN7W5Pdjc/TVrQqZzInOI/AAAAAAAAAeo/zZ77u4bC3sg/s72-c/dogmacentral.png' height='72' width='72'/><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-23099929.post-1270403351380795773</id><published>2010-10-10T21:33:00.002-03:00</published><updated>2010-10-20T13:31:00.597-02:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='filosofia da ciência'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='epistemologia'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='compreensão'/><title type='text'>Da gênese à aceitação de uma teoria científica</title><content type='html'>INTRODUÇÃO&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;BR&gt;Uma teoria científica é gerada quando se começa a pensar profundamente sobre determinado assunto e seguir-lhe as teias lógicas, históricas e conceituais sob as quais ele foi desenvolvido. É que normalmente temos uma visão um tanto quanto superficial de todo conhecimento e, mais do que isso, não paramos para refletir sobre nenhum problema em especial. Às falhas de nossas teorias, somos capazes de criar rapidamente artifícios &lt;span style="font-style:italic;"&gt;ad hoc&lt;/span&gt; para explicar-lhes: "Mas não deveria ser assim se a teoria estivesse correta? Deveria, mas neste caso em particular..." e assim inventamos uma desculpa que o explique sem nos determos seriamente sobre a questão incômoda. Então, por efeito do acaso, da persistência e/ou insolência de algumas almas, e também por seus brilhantismos intelectuais, certos estudiosos acabam por se interessar fortemente por algum assunto, sendo capazes de questioná-lo com honestidade, buscar suas falhas e seus limites conceituais, debruçar-se sobre a literatura para tentar entendê-lo corretamente, profundamente, sinceramente. Portanto, o primeiro a fazer é (1) definir um problema ou área de atuação, partindo (2) a conhecer o status atual do conhecimento no campo, de forma a (3) definir seus problemas e falhas, encontrar o que pode ser melhorado e como. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A ANOMALIA QUE ENGATILHA A GÊNESE VEM MASCARADA DE INCOMPREENSÃO&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se realizamos uma leitura crítica desta literatura em determinada área de pesquisa, com alguma chance encontraremos &lt;span style="font-style:italic;"&gt;algum ponto que não consigamos entender muito bem&lt;/span&gt;. O primeiro fato na construção do conhecimento é que verdadeiro pesquisador nunca pode aceitar a incompreensão em nenhuma parcela do que faz, lê ou trabalha. Ele precisa compreender tudo o que lê... mas se for mesmo a fundo, ele não compreenderá. E assim, esta falta de um correto entendimento sobre determinado &lt;span style="font-style:italic;"&gt;detalhe teórico&lt;/span&gt; será primeiramente enxergada como uma falha do próprio sistema cognitivo do leitor -- burrice mesmo -- em entender aquela determinada questão. (Na maioria das vezes, inclusive, acredito que este seja mesmo o caso.) Então, este estudioso será obrigado a ler literaturas periféricas ou reler &lt;span style="font-style:italic;"&gt;tantas vezes quantas forem necessárias&lt;/span&gt; sobre o assunto que lhe causou incompreensão até que este lhe fique de alguma forma mais claro e inteligível. A falha de compreensão do leitor, entretanto, poderá estar diretamente relacionada a um problema que &lt;span style="font-weight:bold;"&gt;Thomas Kuhn&lt;/span&gt; chamou de &lt;span style="font-weight:bold;"&gt;incomensurabilidade&lt;/span&gt; (Kuhn, 1962). &lt;span style="font-style:italic;"&gt;A falta de entendimento que podemos ter sobre um determinado problema pode estar relacionada ao fato de que a forma com a qual constituímos nosso sistema conceitual para entender aquele problema é diferente da forma conceitual normalmente aceita pela ciência paradigmática.&lt;/span&gt; Assim, a maneira segundo a qual este problema é atualmente entendido pelos especialistas na área (a) entra em conflito com (b) o que aprendemos em nossa formação intelectual geral: há uma incompatibilidade à primeira vista incompreensível de pressupostos ou conceitos entre (a) e (b). &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://2.bp.blogspot.com/_h2XRf7gRzfY/TLtIVvOGeuI/AAAAAAAAAag/_IJ59lAnw_0/s1600/gaston-bachelard.jpg"&gt;&lt;img style="display:block; margin:0px auto 10px; text-align:center;cursor:pointer; cursor:hand;width: 201px; height: 300px;" src="http://2.bp.blogspot.com/_h2XRf7gRzfY/TLtIVvOGeuI/AAAAAAAAAag/_IJ59lAnw_0/s320/gaston-bachelard.jpg" border="0" alt=""id="BLOGGER_PHOTO_ID_5529092505817479906" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;blockquote&gt;&lt;span style="font-style:italic;"&gt;Gaston Bachelard (1884-1962) foi um filósofo da ciência francês. Em sua obra "A formação do espírito científico", Bachelard realiza o que chama de uma psicanálise do conhecimento, identificando alguns pilares em que se baseou a formação do conhecimento em eras pré-científicas e científicas. Ele tenta assim generalizar e encontrar padrões nas "explicações científicas" de um determinado tempo. É adepto da idéia de ruptura epistemológica, onde teorias são substituídas ao longo do tempo, idéia que culminou no conceito kuhniano de paradigmas.&lt;/span&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vale notar que o conhecimento dos livros foi certamente produzido em tempos anteriores, em épocas anteriores. Nos dias modernos, a ciência já evoluiu, seus métodos evoluíram, os paradigmas intelectuais são outros. E aí pode estar o germe do conflito entre (a) e (b). E assim as ciências e os corpos de conhecimentos (memeplexos) precisam ser modernizados, sendo tarefa do pesquisador crítico realizar esta atualização. Gaston Bachelard, por exemplo, apresenta em sua obra "&lt;span style="font-style:italic;"&gt;A formação do espírito científico&lt;/span&gt;" (1938) diversos dos paradigmas intelectuais das ciências na chamada &lt;span style="font-style:italic;"&gt;era pré-científica&lt;/span&gt;. Ele inicia o que chama de psicanálise do conhecimento e identifica padrões recorrentes utilizados pelos intelectuais da era pré-científica para explicar o mundo, tais como a unidade, substancialismo ou o animismo. Na era científica os paradigmas intelectuais que devem ser usados como fonte de explicação foram modificados, embora certamente guarde-se a herança dos originais. Na era científica eles estão mais relacionados ao mecanicismo, o racionalismo, o reducionismo, a cibernética. Talvez pudéssemos prever que uma era pós-científica venha a estar mais preocupada com uma compreensão dos processos de forma ampla, onde as palavras de ordem seriam conceitos, relações, complexidade e, mais uma vez, unidade. Assim, as mesmas questões são tratadas de outras formas e as respostas são buscadas em novas roupagens. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A incompreensão, portanto, é muitas vezes causada por diferenças paradigmáticas da intelectualidade dos tempos: quando determinada afirmação foi aceita como verdade, os tempos eram outros e a ciência precisa então atualizar os conhecimentos dados os novos paradigmas epistemológicos. &lt;span style="font-style:italic;"&gt;A incompreensão pode sem dúvida surgir disfarçada sob o manto dessas diferenças do que hoje se dá valor e do que se deu no passado. &lt;/span&gt;O estudioso que quer montar uma nova teoria científica precisa, portanto, tentar entender todos os conceitos gerados no passado e como se fez para alcançá-los quando quer dar contribuições novas a um determinado assunto científico; (2) ele deve esforçar-se para entender todos os conceitos com os quais trabalha intelectualmente. Ele deve entender também (3) em que se basearam os pesquisadores da geração passada para considerá-los corretos. Será justamente nestas &lt;span style="font-style:italic;"&gt;falhas de compreensão&lt;/span&gt;, dada a incomensurabilidade entre o que o pesquisador moderno pensa correto e o que é de fato aceito na comunidade como correto, dada uma tradição histórica epistemológica, &lt;span style="font-style:italic;"&gt;onde estão guardadas as sementes das "revoluções científicas"&lt;/span&gt;. Uma &lt;span style="font-weight:bold;"&gt;leitura crítica e atenta&lt;/span&gt; (close reading), portanto, é extremamente relevante para a compreensão e crítica do sistema conceitual do qual desejamos explorar enquanto saber. A definição do ponto exato da incompreensão permite ao pesquisador identificar o ponto de questionamento e, a partir dele, a partir desta anomalia, o pesquisador deve agora explicá-la sob os novos paradigmas epistemológicos e intelectuais de sua época e começar, ali mesmo, uma reformulação conceitual na forma de compreender aquele conhecimento. Tal reformulação poderá ser puntual ou poderá gerar reflexos ao redor do ponto de incompreensão que vagarão a reformular, em grandes medidas, todo o sistema conceitual estabelecido.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://4.bp.blogspot.com/_h2XRf7gRzfY/THcdZRGxtPI/AAAAAAAAAZU/5eSqzmCSbdA/s1600/trago.png"&gt;&lt;img style="display:block; margin:0px auto 10px; text-align:center;cursor:pointer; cursor:hand;width: 400px; height: 113px;" src="http://4.bp.blogspot.com/_h2XRf7gRzfY/THcdZRGxtPI/AAAAAAAAAZU/5eSqzmCSbdA/s400/trago.png" border="0" alt=""id="BLOGGER_PHOTO_ID_5509904989036852466" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;blockquote&gt;&lt;span style="font-style:italic;"&gt;Para a eficiente modificação do conhecimento humano sobre determinado assunto um pensador deve primeiro (1) compreender perfeitamente o que se pensa sobre um assunto na tradição epistemológica de onde ele venha; (2) ser capaz de vislumbrar uma resposta melhor baseada em pilares conceituais razoavelmente diferentes. Na medida que o pensador compreende (1) e sua alternativa (2) de forma perfeita, ele pode se considerar bilíngue; segundo definição de Thomas Kuhn. A terceira etapa da elaboração científica consiste no (3) colocar face-a-face as teorias e evidenciar a melhor adequação da uma nova idéia com relação à idéia antiga. Essa nova adequação pode se basear em critérios mensuráveis ou completamente subjetivos.&lt;/span&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O BILÍNGUE: CIÊNCIA ENQUANTO LINGUAGEM&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Identificado, então, um local para a ação -- (3) local este onde nossa compreensão do problema diverge da compreensão tradicional -- o savante (filósofo-cientista) debruça-se sobre aquele problema de incomensurabilidade "própria X consensual" para esclarecer a questão. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vale ressaltar que é ao investigar mais sobre este fato que julgue ter pouco conhecimento ou ter compreendido mal é que o cientista torna-se finalmente capaz de compreender o que a corrente paradigmática quer dizer, quando diz o que diz. Assim, estou convicto de que, desde o início, o cientista já enxerga o mundo de forma diferente da teoria. Entretanto, para avançar o conhecimento de sua época, ele terá que explicitar exatamente sua crítica e apresentá-la de uma forma clara, simples e direta. Sendo que é de se esperar que o cientista já conheça o que ele mesmo pensa e sabe colocar em ordem seus argumentos para explicar porquê pensa assim, ele precisará aprender o que a ciência acadêmica clássica versa sobre o assunto, momento no qual ele se torna (4) bilíngue (Kuhn, 1983). Este é o &lt;span style="font-weight:bold;"&gt;principal momento&lt;/span&gt; da gênese de uma teoria científica, é quando finalmente entende-se três fatos importantes: &lt;span style="font-style:italic;"&gt;(a) o que é normalmente aceito pela academia; (b) o que o savante realmente se pensa sobre o problema; e (c) as explícitas divergências entre (a) e (b).&lt;/span&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A ciência pode ser considerada como uma &lt;span style="font-style:italic;"&gt;linguagem&lt;/span&gt;, ou melhor, como um conjunto de linguagens. Cada especialidade tem um conjunto de conceitos e palavras utilizadas como jargões para a área de pesquisa. Justamente quando alguém acostumado com um jargão de uma área, lê informações sobre outra, é que nasce muito desta incompreensão entre saberes. Ali no texto da outra área não se conhece as palavras e usa-se-as de forma diferente da nossa. É preciso algum tempo até se acostumar, é preciso que nosso cérebro preencha certas lacunas de incompreensão que se formam -- algo que não se dá quando lemos textos de nossa mais específica área de atuação. Para que aprendamos determinada linguagem, precisamos conhecer determinadas palavras e saber as regras que as ligam para permitir a representação eficiente do mundo físico. Um matemático, entretanto, tem uma visão e tenta explicar o mundo de uma forma diferente de um sociólogo, de um biólogo, de um antropólogo. As primeiras perguntas que certo profissional se faz ao tentar compreender um sistema são altamente dependentes de qual ciência ele aprendeu ante a doutrinação universitária; ou de sua própria vida pessoal. As linguagens dos cientistas são diferentes e a novidade científica chega muitas vezes da tentativa de síntese e integração de linguagens entre os diferentes campos do saber. Esta síntese parte justamente da incompreensão ante a leitura de área distinta e da tentativa honesta de compreendê-la enquanto conhecimento. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Além disso, forma segundo a qual as palavras e os conceitos são articulados depende também dos paradigmas intelectuais de uma época. Embora consigamos compreender os gregos ou mesmo os filósofos renascentistas, algumas de suas construções ou regras lógicas que seguiam para chegar em determinadas conclusões não são vistas hoje por nós como válidas. Quando o filósofo pré-socrático Tales de Mileto diz que a essência do universo é a água, não somos capazes de ver isso como correto, embora à sua época houvesse realmente indivíduos que levaram isso a sério e que o seguiram por acreditarem nisso. Da mesma forma, quando Descartes reflete sobre a corrente sanguínea ou conclui sobre a existência de deus, sabemos das falhas de suas argumentações e não aceitamos mais aquele argumentar de maneira definitiva e/ou categórica. Os paradigmas intelectuais mudam de tempos em tempos e as ciências precisam se adequar a novos &lt;span style="font-style:italic;"&gt;zeitgeists&lt;/span&gt; das épocas em que eles são formulados. Esta idéia é encerrada originalmente no Espírito da filosofia hegeliana. Bachelard discorre extensivamente sobre a influência destes &lt;span style="font-style:italic;"&gt;modismos intelectuais&lt;/span&gt; no fazer científico, seguido de forma mais específica por Kuhn. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Bem, estive falando até agora que para que ocorra a gênese de uma nova teoria, é preciso que (i) haja uma compreensão da teoria "da moda" e (ii) ocorra a criação de um novo quadro conceitual pelo cientista moderno e, finalmente, (iii) haverá o embate intelectual entre (i) e (ii) para gerar o conhecimento novo, moderno, atualizado à época em que é descrito. Preciso admitir, entretanto, que &lt;span style="font-style:italic;"&gt;muitas vezes também, o novo conhecimento é proposto sem que se saiba exatamente a relação dele com o conhecimento antigo, paradigmático.&lt;/span&gt; A física &lt;span style="font-weight:bold;"&gt;newtoniana&lt;/span&gt; e &lt;span style="font-weight:bold;"&gt;einsteiniana&lt;/span&gt;, por exemplo, nunca puderam ser plenamente integradas e para muitas aplicações utiliza-se ainda hoje uma ou outra; e não uma &lt;span style="font-style:italic;"&gt;integração sintética&lt;/span&gt; entre as ambas. Einstein parece não ter seguido o padrão disposto aqui. Ele simplesmente encontrou um ponto de crítica à teoria newtoniana -- principalmente no que tange à velocidade da luz -- e assim desenvolveu suas teorias. Nem Albert nem muitos dos que vieram depois dele parecem ter conseguido (ou mesmo se preocupado) em fazer esta contraposição clara entre teoria velha e nova. Não obstante, temos hoje ambas as teorias usadas diferentemente em nossa sociedade. É claro que em muitos pontos elas foram integradas, noutros não. Enquanto o físico moderno trabalha com Einstein e ainda com os que o seguiram na fundamentação da mecânica quântica e suas sub-divisões; o engenheiro ainda tem em Newton seu pilar teórico.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://4.bp.blogspot.com/_h2XRf7gRzfY/TCO6rZp5zYI/AAAAAAAAAWM/e-glFHDh-WE/s1600/philosophy-thomas_kuhn-02.jpg"&gt;&lt;img style="display:block; margin:0px auto 10px; text-align:center;cursor:pointer; cursor:hand;width: 150px; height: 205px;" src="http://4.bp.blogspot.com/_h2XRf7gRzfY/TCO6rZp5zYI/AAAAAAAAAWM/e-glFHDh-WE/s400/philosophy-thomas_kuhn-02.jpg" border="0" alt=""id="BLOGGER_PHOTO_ID_5486434025851178370" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;blockquote&gt;&lt;span style="font-style:italic;"&gt;Thomas Samuel Kuhn (1922–1996) foi um dos maiores epistemólogos do século XX. Ele criou o conceito de incomensurabilidade de teorias científicas -- onde não se pode dizer jamais se uma teoria é verdadeiramente melhor do que outra. Acusado de relativismo, Kuhn sugere que as teorias são incomensuráveis pois usam &lt;span style="font-weight:bold;"&gt;vocabulário&lt;/span&gt; diferente; ele sugere que os conceitos de massa e força, por exemplo, tenham sido diferentemente aplicados por Newton e Einstein. As duas teorias só poderiam ser confrontadas, segundo ele, por um indivíduo bi-língue, ou seja, capaz de compreender ambas as teorias (a despeito da semelhança sintática sob a qual se esconde diferença semântica) e verificar, para um caso em especial, qual delas se aplicaria de forma mais adequada. Nesta postagem uso a incomensurabilidade em um contexto no qual ela se apresenta enquanto poço linguístico e conceitual que deva ser atravessado através de uma ponte racional para que a gênese de novas teorias científicas seja alcançada.&lt;/span&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O CONFLITO LINGUÍSTICO ENTRE TEORIAS CIENTÍFICAS VELHAS E NOVAS&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Depois então que o bilíngue consegue compreender a teoria proposta segundo o pensamento vigente em suas mais profundas bases; ele passa diretamente a compreender também no que se apóia, conceitualmente, sua própria e nova teoria. Tendo entendido o pensamento alternativo ao seu -- e imagina que o seu próprio conhecimento já fosse há muito compreendido --, (5) o filósofo pode comparar as visões conflitantes de forma mais direta, tentando se manter imparcial e verificar tanto a adequação de uma ou outra teoria com relação às evidências empíricas existentes e quanto sua adequação a um modelo conceitual que apreenda de forma mais ampla, adequada ou bela os conhecimentos humanos adquiridos dentro de uma tradição epistemológica. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na grande maioria das vezes, &lt;span style="font-style:italic;"&gt;dado que o conhecimento humano já se encontra em nível avançado&lt;/span&gt;, perceber-se-á que a teoria recém-inventada estava simplesmente incorreta ou falhava em algum ponto. Há mais formas de se produzir uma teoria errada do que uma correta. Nestes casos, o filósofo automaticamente modificará seu pensamento de forma a incorporar em seu sistema conceitual a teoria paradigmática vigente, usando-a a partir de então como pilar e arcabouço teórico válido para resolver os problemas relacionados à área em questão. Se isso acontecer, o pensador terá provado sua burrice ou ingenuidade e precisará aceitar que o conhecimento canônico estava correto. Entretanto, se todos os indivíduos aceitassem o conhecimento já obtido como resposta válida, o conhecimento humano não evoluiria. Ainda bem, assim, que há os rebeldes a questioná-los e tentar desmoroná-los em pilhas de cacos velhos e podres. Vale aqui citar a célebre frase de Einstein: "&lt;span style="font-style:italic;"&gt;Para punir-me pelo meu desrespeito à autoridade, o destino tornou a mim mesmo uma autoridade.&lt;/span&gt;"&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-style:italic;"&gt;Entretanto, em algumas poucas vezes, o conjunto de evidências analisado pelo filósofo se mostrará mais adequado ou belo dada uma nova era, estética ou modo de pensamento da humanidade [1]. Ele será melhor e mais virtuoso do que o conhecimento antigo, provar-se-á mais adequado e explicará fenômenos ainda incompreendidos. A nova teoria, assim, terá o que o filósofo &lt;span style="font-weight:bold;"&gt;Karl Popper&lt;/span&gt; chamou de &lt;span style="font-weight:bold;"&gt;maior conteúdo empírico&lt;/span&gt; do que a teoria anteriormente vigente [2]. &lt;/span&gt; Assim, quando o pesquisador compreende ambas teorias concorrentes com precisão e é capaz de explicar porque a sua é melhor do que a vigente, ele encontra um campo fértil de trabalho. Assim, tendo uma vez compreendido racionalmente a diferença e a melhor adequação entre o seu modelo e o modelo consensual à sua época, aquele que busca o desenvolvimento do conhecimento humano sente uma angústia e até mesmo uma obrigação em escrever algo evidenciando e explicando minuciosamente as vantagens de um novo ponto de vista com relação ao ponto de vista paradigmático [3]. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A ACEITAÇÃO DE NOVAS TEORIAS CIENTÍFICAS&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É hora então de escrever uma obra. E neste momento não valem apenas os artifícios científicos e os argumentos racionais para evidenciar a superioridade de uma nova teoria sobre uma anterior. O cientista precisa usar de retórica, algo que Schopenhauer chamou de &lt;span style="font-weight:bold;"&gt;erística&lt;/span&gt;, ou seja, a capacidade de convencer as outras pessoas de um ponto de vista (Schopenhauer, 1830). É parte (6) importante do trabalho do cientista e do filósofo saber escrever, saber convencer, saber pinçar argumentos e evidenciar as falhas do modelo anterior e as vantagens do novo modelo proposto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vale notar que a quantidade de &lt;span style="font-weight:bold;"&gt;poder político&lt;/span&gt; que o cientista possui influenciará, sem dúvida, na aceitação de seus novos modelos propostos. Alguns grandes cientistas, como Gregor Mendel, foram esquecidos por mais de 3 décadas antes que suas brilhantes publicações viessem a ser re-descobertas a marcar a origem da ciência Genética. Ora, Mendel era apenas um pobre frade estudando nos confins da república Tcheca, longe da grande ciência de Darwin que despontava grandiosa na Inglaterra vitoriana da época. Ninguém lhe notaria a existência. As teorias evolutivas de Lamarck -- que revolucionavam e criticavam um modelo biológico fixista já deteriorado e claramente falso, herdado desde Aristóteles -- foram eclipsadas pela personalidade de Buffon, seu tutor e grande naturalista francês à época, que parecia apenas achar interessante suas teorias, sem dar-lhes o devido valor. Outros, como Albert Einstein, foram capazes de vingar ainda jovens. Mesmo nesse caso, três dos grandes trabalhos do físico alemão foram publicados em 1905 (em seu &lt;span style="font-style:italic;"&gt;annus mirabilis&lt;/span&gt;, quando tinha apenas 25 anos) e ele só veio a ganhar o Nobel em 1921, dezesseis anos depois.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://1.bp.blogspot.com/_h2XRf7gRzfY/TKcpMI1P0NI/AAAAAAAAAaM/0wZDpORL67E/s1600/lamarck-mendel-einstein2.png"&gt;&lt;img style="display:block; margin:0px auto 10px; text-align:center;cursor:pointer; cursor:hand;width: 320px; height: 132px;" src="http://1.bp.blogspot.com/_h2XRf7gRzfY/TKcpMI1P0NI/AAAAAAAAAaM/0wZDpORL67E/s320/lamarck-mendel-einstein2.png" border="0" alt=""id="BLOGGER_PHOTO_ID_5523428756499189970" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;blockquote&gt;&lt;span style="font-style:italic;"&gt;O francês Lamarck, o monge tcheco Gregor Mendel e o alemão Albert Einstein. Cada um dos três grandes gênios tiveram suas obras criticadas e aceitas de forma diferente. Lamarck foi ridicularizado pelo grande nome do naturalismo francês à época, Buffon. Mendel teve suas teorias completamente esquecidas por 35 anos e só foi reconhecido como grande cientista depois de sua morte. Já Einstein foi bastante reconhecido em vida, mas só veio a ganhar o Nobel depois de 16 anos da publicação de algumas de suas grandes teorias.&lt;/span&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;OS AVANÇOS CIENTÍFICOS SÃO AtAcADOS PELOS VELHOS CIENTISTAS E AcAtADOS PELOS CIENTISTAS JOVENS&lt;br /&gt;(ou AS GRANDES RENOVAÇÕES CONCEITUAIS NA CIÊNCIA OCORRERÃO MAIS PROVAVELMENTE NA SUBSTITUIÇÃO DAS GERAÇÕES)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br&gt;Então é apenas de uma forma lenta e gradual que a comunidade de especialistas na área será capaz de aceitar as mudanças, no esforço responsável por comparar a adequação de cada nova visão com os padrões de realidade aceitos em uma determinada época. Eu diria que, normalmente, as diferenças e as vantagens de uma nova teoria sobre a outra mais antiga serão razoavelmente claras de serem entendidas por pessoas &lt;span style="font-style:italic;"&gt;ainda não iniciadas&lt;/span&gt; na prática científica da área de interesse, ou seja, os iniciantes. &lt;span style="font-style:italic;"&gt;Por outro lado, grande parte dos grandes nomes da ciência de uma determinada época já estarão doutrinados na ciência paradigmática e atuarão como &lt;span style="font-weight:bold;"&gt;tampões&lt;/span&gt; das revoluções científicas.&lt;/span&gt; Assim, parece-me que uma (7) das melhores formas de testar a adequação de uma teoria nova sobre uma antiga é apresentar os argumentos de ambas para um iniciante da área (neófito) e pedir-lhe que escolha uma como sendo a melhor delas. O iniciante é certamente um ser racional que deve apresentar os conhecimentos mais básicos sobre uma área de atuação e não apresenta um apego à tradição de pesquisa vigente. É exatamente esse apego tradicional ao paradigma que &lt;span style="font-weight:bold;"&gt;trava&lt;/span&gt; por algum tempo a aceitação de novas idéias em ciência. Bachelard parece concordar com a idéia ao relatar em sua obra "A formação do espírito científico" que um epistemólogo irreverente dizia que os grandes homens eram úteis à ciência na primeira metade da vida e nocivos na outra metade. Thomas Kuhn também diz que uma geração deve ser substituída para que se modifique completamente um conhecimento paradigmático já inválido (Kuhn, 1962). Dessa forma, é de se supor que o desenvolvimento do conhecimento depende de certa forma do desenvolvimento biológico e parece haver uma limitação cognitiva que faz com que os seres humanos se apeguem a certos esquemas conceituais de forma autoritária e dogmática. Lakatos apresenta um conceito de &lt;span style="font-style:italic;"&gt;honestidade intelectual&lt;/span&gt; que está diretamente relacionado à identificação das condições precisas segundo as quais um indivíduo está disposto a mudar de opinião (Lakatos, 1978). A existência dos fundamentalistas e a grande força das religiões reforça o fato de que não somos, em geral, honestos intelectualmente. Seria estranho se os cientistas fugissem a este tipo de regra geral sobre o ser humano.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;DA INCORRETA INTERPRETAÇÃO DE DADOS NA TEORIA CLÁSSICA E DO BOICOTE AOS JOVENS CIENTISTAS PELOS CIENTISTAS VELHOS-PARADIGMÁTICOS&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br&gt;Voltando à questão da comparação entre duas teorias, é possível verificar um problema, entretanto, quando a teoria mais consistente é a teoria nova e não a paradigmática. Nesses casos, a recém-criada teoria sugere que um determinado problema seja observado através de uma &lt;span style="font-weight:bold;"&gt;óptica conceitual diferente&lt;/span&gt; daquela vigente. &lt;span style="font-style:italic;"&gt;Nestes casos valerá notar que mesmo os dados empíricos existentes à época de confrontação da nova teoria contra a teoria vigente não poderão ser interpretados com eficácia, pois que antes não se relacionava o mundo da forma com que agora se relaciona, dada a nova teoria.&lt;/span&gt; Houve uma mudança conceitual! Assim, é possível que um fator extremamente crucial -- dada a nova construção conceitual do problema -- tenha sido completamente deixado de lado em experimentos realizados segundo a teoria paradigmática! De fato, informações de &lt;span style="font-weight:bold;"&gt;relevância extrema&lt;/span&gt; dada a nova teoria poderiam ter sido completamente &lt;span style="font-weight:bold;"&gt;ignoradas&lt;/span&gt; quando da avaliação de um problema empírico para responder supostas perguntas da ciência paradigmática -- muitos dos quais agora são percebidos como completamente irrelevantes ou mal dirigidos, dada a nova teoria. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://3.bp.blogspot.com/_h2XRf7gRzfY/TKczf6jOaAI/AAAAAAAAAaU/VNRyN_lBKbE/s1600/neociencia.png"&gt;&lt;img style="display:block; margin:0px auto 10px; text-align:center;cursor:pointer; cursor:hand;width: 320px; height: 133px;" src="http://3.bp.blogspot.com/_h2XRf7gRzfY/TKczf6jOaAI/AAAAAAAAAaU/VNRyN_lBKbE/s320/neociencia.png" border="0" alt=""id="BLOGGER_PHOTO_ID_5523440091379165186" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;blockquote&gt;&lt;span style="font-style:italic;"&gt;Enquanto fica claro que a característica do pesquisador depende mais de cada indivíduo do que de sua idade, é mais provável que os jovens estejam mais atualizados aos paradigmas intelectuais de suas épocas do que os velhos, que atuarão então como defensores do &lt;span style="font-style:italic;"&gt;status quo&lt;/span&gt; do conhecimento (tampões das revoluções científicas). O próprio Einstein é um exemplo desta observação inspirada em Bachelard: ele foi um rebelde teórico em sua juventude e quando mais velho, recusou-se a aceitar os desenvolvimentos da mecânica quântica, acreditando até o fim da vida que "deus não jogava dados", em clássica disputa com Niels Bohr. Ele jamais aceitou os conceitos probabísticos da física quântica.&lt;/span&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É por isso, também, que os &lt;span style="font-weight:bold;"&gt;velhos pesquisadores muitas vezes funcionam como tampões das revoluções científicas&lt;/span&gt;. De fato, a questão &lt;span style="font-style:italic;"&gt;depende menos da idade do pesquisador do que de uma honestidade intelectual&lt;/span&gt; com relação à pesquisa científica. &lt;span style="font-style:italic;"&gt;Uma nova teoria poderá evidenciar que várias pesquisas feitas nas últimas décadas tentavam encontrar ordem no lugar errado, elas não atacavam aquilo que agora é visto como o cerne do problema.&lt;/span&gt; O jovem cientista portanto, evidencia a burrice ou incompetência do cientista paradigmático. A nova teoria desfaz como castelo de cartas toda uma carreira de décadas de pesquisa do cientista mais velho, o que causará um problema político para o jovem gênio. O pesquisador que trabalha há 30 anos com determinado problema já será, à época, sumidade sobre o assunto e será aquele a quem serão dirigidas todas as questões sociais relacionadas ao assunto. Ele atuará politicamente na cena científica de um país e sua voz será ouvida. Tendo trabalhado com empenho na ciência ao longo de décadas, é de se esperar que seja mesmo assim. E, de repente, um mero jovem chegará com &lt;span style="font-weight:bold;"&gt;uma teoria mal-montada (como são todas as novas teorias)&lt;/span&gt; a destruir ou provar inconsistentes décadas de pesquisa com financiamento do governo? O velho cientista, do alto de sua &lt;span style="font-style:italic;"&gt;soberba intelectual&lt;/span&gt;, jamais aceitará a nova teoria e fará o possível agora para boicotar o jovem cientista e todas suas pretensas idéias novas. O velho cientista usará então argumentos de autoridade e boicote explícito do jovem para mostrar que o que seu grupo fez nos últimos 30 anos e milhões de dólares é de valor sim -- ao invés de aceitar estar simplesmente buscando o que não se pode achar (segundo prega a nova teoria). Este pode ser considerado o caso de Lamarck, que era ridicularizado por Buffon, grande naturalista à época e que descreveu grande parte da fauna e flora de seu tempo -- sem absolutamente falar nada sobre a evolução ou sobre a transmutação das formas ao longo do tempo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A MINERAÇÃO E REINTERPRETAÇÃO DE DADOS COMPROBATÓRIOS DA NOVA TEORIA&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por outro lado porém seguindo a mesma linha de argumentação, apesar de terem pensado irrelevantes determinadas informações quando da realização de seus experimentos, cientistas normais da ciência paradigmática vigente poderão sim ter verificado informações importantes no contexto da nova teoria e acrescentado em seus trabalhos, mesmo que de uma forma metodologicamente incompleta ou apenas como uma observação geral ou curiosidade, dados extremamente relevantes dado o novo contexto científico. Isso faz com que, dada a nova teoria, um grande conjunto de fatos tenham que ser pescados de outros trabalhos -- onde exista a eles uma referência indireta -- e reinterpretados para serem utilizadas nas fases iniciais de corroboração da mesma, através da substituição da teoria antiga por esta nova, de acordo com a progressão lakatosiana de uma série de programas de pesquisa (Lakatos, 1978).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Este ponto acima explicitado de maneira um tanto quanto rápida identifica porque as novas teorias são normalmente tidas como bastante especulativas e porque há um &lt;span style="font-weight:bold;"&gt;lapso de tempo&lt;/span&gt; entre a sugestão de uma teoria de conteúdo empírico claramente maior do que sua predecessora -- a nova teoria é inicialmente posta de lado por um tempo até que &lt;span style="font-style:italic;"&gt;evidências mais precisas&lt;/span&gt; (e cientistas mais jovens) cheguem para corroborá-la com maior e mais adequada eficácia [4]. Certamente as novas teorias instigam a mente de pesquisadores que, ao conhecê-las e observá-las durante a execução de seus trabalhos, passam a contar para si mesmos as evidências contra e a favor de teorias então concorrentes. Logo, o cientista normal que trabalha num campo em particular terá uma opinião sobre qual das teorias ele acredita se adaptar mais perfeitamente à sua experiência sobre o assunto. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De fato, parece-me que uma nova teoria científica, quando proposta, deve apresentar um embasamento racional e uma base empírica provável um tanto quanto amplos e bem embasados, de forma que ela possa ao menos ter uma chance de tentar substituir a teoria vigente que já terá sido bastante verificada e que funcionará eficientemente, mesmo que incompleta e dada a presença de graves anomalias. Isso significa que uma nova teoria, logo de saída, deve satisfazer ao menos o &lt;span style="font-style:italic;"&gt;falseacionista metodológico&lt;/span&gt; que -- apesar de não precisar de uma base empírica já comprovada, como exige o falseacionista ingênuo (ou dogmático) -- aceita uma nova teoria como vigente caso ela (i) apresenta um conteúdo empírico maior do que a teoria paradigmática e (ii) apresente a possibilidade de ser comprovada em breve através de determinados experimentos cruciais (Lakatos, 1978). &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ainda que se possa criar artifícios &lt;span style="font-style:italic;"&gt;ad hoc&lt;/span&gt; para salvar a teoria caso ela não apresente êxito em determinados testes cruciais e ainda que a tese de Duhem-Quine venha assombrar nossa confiança nos próprios experimentos cruciais, os dados empíricos podem sim apresentar um acordo satisfatório com as predições teóricas. E este acordo pode, finalmente, corroborar em certa medida a nova teoria proposta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;CONCLUSÃO&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Finalmente, vale notar que talvez Kuhn dê muita força ao fato de que novas teorias apareçam apenas quando se percebe a existência de &lt;span style="font-weight:bold;"&gt;anomalias&lt;/span&gt; nas teorias vigentes. Tais anomalias são comumente entendidas enquanto falhas observáveis e reprodutíveis na teoria vigente. Parece-me adequado argumentar que essas anomalias não são normalmente vistas pelos cientistas paradigmáticos como excessivamente problemáticas. Sabe-se que nenhuma teoria pode explicar tudo e às falhas de uma aceita-se normalmente e usa-se artifícios &lt;span style="font-style:italic;"&gt;ad hoc&lt;/span&gt; para integrá-la ao grande corpo de conhecimento paradigmático. &lt;span style="font-style:italic;"&gt;Apenas aquele cientista que propõe uma nova teoria é que finalmente consegue explicar porque a teoria antiga falhava em determinada predição.&lt;/span&gt; Por exemplo, a falha na predição do &lt;span style="font-style:italic;"&gt;periélio de Mercúrio&lt;/span&gt; pela física newtoniana não era vista como falha grave até que a teoria einsteiniana chegasse para explicá-la com detalhe e precisão mais adequados. Assim, embora as teorias apresentem anomalias e que estas acumulem-se ao longo do tempo, &lt;span style="font-style:italic;"&gt;tais anomalias são apenas notadas como &lt;span style="font-weight:bold;"&gt;graves&lt;/span&gt; dada uma nova forma de enxergar e conceitualizar as informações que consiga melhor explicar esses eventos&lt;/span&gt;. É esta nova teoria que agora sim permite uma melhor compreensão e estudo dos fatos caracterizados como falhas na antiga teoria. &lt;span style="font-style:italic;"&gt;Assim, acredito aqui inverter a questão da anomalia em Kuhn. Para Kuhn é a anomalia que puxa o desenvolvimento teórico; e algumas vezes concordo que pode ser mesmo assim. Entretanto acredito que seja mais comum (i) a criação de uma nova teoria que pode se iniciar de qualquer ponto e, apenas posteriormente, (ii) a verificação de que esta nova teoria explica de forma mais adequada algo que anteriormente não era possível de ser explicado e que agora é visto como uma anomalia resolvida, evidenciando maior conteúdo empírico da nova teoria criada.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;PÓS-ESCRITO&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Todas as questões que aqui descrevo alcancei ao estudar criticamente os trabalhos de Bachelard, Kuhn, Popper, Lakatos, etc, além de eu mesmo ter algumas novas teorias que jamais pude descrever com precisão mas que questionam conceitos biológicos de raça, espécie, evolução de genes e compatilibilidade em reprodução sexuada. Ao desenvolver meus estudos teóricos nessas disciplinas, pude perceber o quão as teorias vigentes estão incorretas e incompletas. E ao enviar meus manuscritos ou idéias a alguns grandes pesquisadores da área, só obtive deles o ostracismo e o desprezo. Algumas causas deste desprezo são (i) sou um jovem pesquisador oriundo de um país subdesenvolvido que joga ao chão décadas de suas pesquisas, (ii) minhas teorias não estão exatamente muito bem escritas, (iii) as pesquisas atuais não me fornecem exatamente os dados que quero comprovar e (iv) posso estar realmente equivocado quanto às suas relevâncias. Não me importa, de fato, que algum dia venham ou não a reconhecer tais idéias como verdadeiras ou melhores do que as atuais. De fato eu acredito que isso vai acontecer, mesmo que meu nome não esteja associado a elas, o que de fato não me importa muito. O que realmente me estimula é ser capaz de aplicar as teorias clássicas em meus próprios estudos e assim tentar compreender melhor como se desenvolve o avanço do conhecimento humano em sua esfera intelectual, política e histórica.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;Algumas referências bibliográficas&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;* Kuhn, TS (1962) A estrutura das revoluções científicas.&lt;br /&gt;* Kuhn, TS (1983) Commensurability, comparability, communicability in "The road since * Structure".&lt;br /&gt;* Lakatos, I (1970) Falsification and the methodology of scientific research programmes.&lt;br /&gt;* Schopenhauer, A (1830) The Art Of Controversy, translated 1896 by T. Bailey Saunders, M.A. London: Swan Sonnenschein &amp; Co., Lim.&lt;br /&gt;* Bachelard, G (1938). A formação do espírito científico: contribuição para uma psicanálise do conhecimento.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Primeira versão escrita em 07/Julho/2007&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-style:italic;"&gt;[1] Não devemos aqui nos esquecer que a primazia da razão é também um valor estético que já foi por muito tempo considerado incorreto ou podre em prol da aceitação de dogmas -- como ocorreu na idade média. Assim, a inversão do valor da razão em prol de valores puramente estéticos e irracionais tende a corromper o avanço de nossa epistemologia. Devemos assim, buscar sempre basear nossa epistemologia em um paradigma libertário e não-dogmático. &lt;br /&gt;[2] O fato da teoria ter mesmo maior ou menos conteúdo empírico só importa até o momento que ele consiga conseguir convencer seus pares de que esse conteúdo é verdadeiramente maior. De fato, a física newtoniana é melhor aplicada até hoje na maior parte das tecnologias e engenharias do que a quase intratável física einsteiniana. Não obstante, Einstein provou a todos que estava mais certo do que Newton e oficialmente aceita-se a física einteiniana, mesmo que se use a newtoniana. &lt;br /&gt;[3] É possível que o proponente inicial de uma teoria não tenha ele mesmo conseguido vislumbrar suas mais explícitas diferenças com relação a uma teoria previamente aceita. E de fato, este parece ser o caso mais comum. Neste caso, outros seguidores deste primeiro indivíduo serão responsáveis por explicitar exatamente o que ele quis dizer e como toda essa nova teoria entra em contradição com a antiga e a melhora em certos aspectos. A grande maioria das vezes essas diferenças não são jamais detectadas de forma explícita e a escolha de uma sobre a outra repousa em questões contingentes e possivelmente de cunho até estético, temporal, histórico.&lt;br /&gt;[4] Leituras de trechos do mais célebre trabalho científico de todos os tempos, os Principia de Newton, mostram como sua compreensão do assunto ainda é, em muitos aspectos, superficial e incompleta. Apenas com o tempo é que a assimilação dos conceitos pode ser compreendida e então utilizada de forma adequada pelos defensores de certa teoria científica. Toda nova teoria é, portanto, um desafio linguístico e intelectual que só se tornará mais adequada com o passar dos anos.&lt;br /&gt;[5] O primeiro passo a ser dado quando se deseja avançar o conhecimento é entender e compreender completamente o que se pensa sobre o assunto nos dias atuais. Durante a leitura, entretanto, o leitor esbarrará em incompreensão. Primeira hipótese: burrice. Segunda hipótese: o leitor compreende melhor o conhecimento do que os teóricos do seu tempo; se escrevê-la poderá assim pode começar a gênese de uma nova teoria científica.&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/23099929-1270403351380795773?l=tragodefilosofia.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://tragodefilosofia.blogspot.com/feeds/1270403351380795773/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=23099929&amp;postID=1270403351380795773&amp;isPopup=true' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/23099929/posts/default/1270403351380795773'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/23099929/posts/default/1270403351380795773'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://tragodefilosofia.blogspot.com/2010/10/da-genese-aceitacao-de-uma-teoria.html' title='Da gênese à aceitação de uma teoria científica'/><author><name>Prós</name><uri>http://www.blogger.com/profile/18282398415856299778</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='24' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/-OJfdox4-acU/Tm_oXf840OI/AAAAAAAAAlc/1ROS0tKzZ5k/s220/facebook_perfil_picture.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://2.bp.blogspot.com/_h2XRf7gRzfY/TLtIVvOGeuI/AAAAAAAAAag/_IJ59lAnw_0/s72-c/gaston-bachelard.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-23099929.post-7932910622054553191</id><published>2010-09-07T23:47:00.007-03:00</published><updated>2011-04-18T14:16:46.169-03:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='epistemologia'/><title type='text'>Da epistemologia em um universo caótico</title><content type='html'>PREÂMBULO&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Temo qualquer homem que acredite no conceito de uma &lt;span style="font-weight:bold;"&gt;verdade última&lt;/span&gt; e que pense conhecer forma digna e inequívoca de alcançá-la, seja este homem um fundamentalista religioso ou científico. O religioso é pior, posto que seus dogmas são ainda maiores e mais fortes, mas temo também o fundamentalista científico, ou seja, aquele que baseia sua crença na &lt;span style="font-style:italic;"&gt;infalibilidade do método científico&lt;/span&gt;. Nos tempos modernos parece que aqueles indivíduos que tinham tendências a serem fanáticos religiosos estão começando a se tornar fanáticos científicos. Muda-se a esfera, mas mantém-se a posição. É preciso cuidado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://4.bp.blogspot.com/_h2XRf7gRzfY/TIwjcDzNQ9I/AAAAAAAAAZk/SBe8X-3ibsI/s1600/Schlick-Carnap.png"&gt;&lt;img style="display:block; margin:0px auto 10px; text-align:center;cursor:pointer; cursor:hand;width: 302px; height: 225px;" src="http://4.bp.blogspot.com/_h2XRf7gRzfY/TIwjcDzNQ9I/AAAAAAAAAZk/SBe8X-3ibsI/s400/Schlick-Carnap.png" border="0" alt=""id="BLOGGER_PHOTO_ID_5515822608585409490" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;blockquote&gt;&lt;span style="font-style:italic;"&gt;Moritz Schlick (1882-1936) e Rudolf Carnap (1891-1970) foram filósofos adeptos do positivismo lógico e integrantes do Círculo de Viena, grupo de epistemólogos interessados em discutir o futuro das ciências em comunhão com fatores relacionados à filosofia e à linguagem. Embora seus objetivos fossem nobres e suas idéias fossem belas e esclarecedoras em diversos aspectos, alguns ideais como as sentenças protocolares eram excessivamente ingênuos. Suas idéias entretanto influenciaram boa parte da epistemologia do século XX e a leitura de suas obras é bastante interessante, agradável e esclarecedora.&lt;/span&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;INTRODUÇÃO HISTÓRICA: O CIENTIFICISMO VIENENSE&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No início do século XX surgiu na capital da Áustria um movimento chamado &lt;span style="font-style:italic;"&gt;positivismo lógico&lt;/span&gt;, donde os participantes reuniam-se em discussões e palestras para formar o que foi chamado de &lt;span style="font-weight:bold;"&gt;Círculo de Viena&lt;/span&gt;. Tais indivíduos pregavam um cientificismo exagerado e a crença na ciência como resolvedora última de quaisquer problemas epistemológicos. Eles, entretanto, não estavam tão satisfeitos com a ciência que se fazia em sua época e sugeriam novas formas de tornar o empreendimento científico ainda mais confiável, mais objetivo e menos sujeito às variações e às faltas de objetividade oriundas do subjetivismo intrínseco ao ser humano. Assim eles agora propunham e afirmavam a força das chamadas &lt;span style="font-style:italic;"&gt;sentenças protocolares&lt;/span&gt;, descrições precisas da natureza que -- usadas para descrever com eficácia os dados -- não deveriam conter nenhum grau de subjetividade. Altamente precisas, elas seriam responsáveis por uma renovação da forma de se fazer ciência e permitiriam definir por &lt;span style="font-style:italic;"&gt;a&lt;/span&gt; mais &lt;span style="font-style:italic;"&gt;b&lt;/span&gt; qualquer tipo de questão relacionada ao mundo físico. Imaginou-se a criação de sentenças quase-perfeitas que seriam diretas e precisas, completamente descritivas, e às quais todos os seres humanos que as observassem não pudessem delas discordar. Com herança no século XIX, pensava-se ser capaz de chegar à última e mais perfeita descrição de fatos através delas. O método científico deveria, dessa forma, avançar através da criação de um vocabulário inequívoco para a descrição de fatos oriundos de observações e experimentações sobre o mundo natural. Propunha-se, mais uma vez e de novo, a solução para todos os problemas epistemológicos já existentes, desde a antiguidade; o resultado definitivo e último através do qual um novo mundo de maravilhas científicas surgiria. Tais idéias borbulhavam dentre um grupo extremamente prolífico de brilhantes epistemólogos reunidos em Viena por volta de 1920. Seus escritos, belos e exuberantes, pensavam positivamente sobre a força e o alcance das ciências, assim como sobre sua capacidade de descrever com precisão o universo e sua capacidade de alcançar algum conhecimento último sobre as ordens e os padrões encontrados na natureza. Rudolph Carnap e Moritz Schlick estavam entre os grandes nomes desta trupe de filósofos que acreditavam na &lt;span style="font-style:italic;"&gt;eliminação de qualquer tipo de conhecimento metafísico através da análise lógica da linguagem&lt;/span&gt; -- título este de uma obra de Carnap, publicada em 1932 "&lt;span style="font-style:italic;"&gt;Überwindung der Metaphysik durch Logische Analyse der Sprache in Erkenntnis&lt;/span&gt;". Embora seus ideais e objetivos fossem precisamente definidos e suas intenções fossem as melhores possíveis, eles cometeram o amargo engano de pensarem tanto o universo quanto a linguagem de uma maneira razoavelmente ingênua e estritamente simples, quando na verdade ambos configuram-se maravilhosamente complexos. Como retirar a subjetividade dos seres humanos e de sua linguagem? Carnap argumentava, com razão, que a própria matemática era o exemplo claro de como as ciências deveriam avançar. A matemática, ele dizia em seu texto &lt;a href="http://www.ditext.com/carnap/carnap.html"&gt;Empirismo, Semântica e Ontologia&lt;/a&gt; (1950), não trata de números ou sinais de adição ou subtração, a matemática deveria ser vista como uma linguagem, onde símbolos definiriam conceitos e operações definiriam formas de se mesclar esses conceitos. A matemática, para Carnap, não é exatamente uma ciência, mas consiste na definição de uma linguagem lógica e formal que o homem vem aprendendo a manipular e desenvolver para compreender melhor o mundo. Ela seria, portanto, uma definição puramente analítica (no sentido kantiano) de regras e relações entre regras que houvera se mostrado eficiente para descrever e pensar sobre o mundo físico. Para ele, seria preciso de alguma forma matematizar as linguagens das ciências, transformá-las em linguagens precisas e analíticas, e seria assim que a ciência avançaria. Carnap é brilhante, mas peca na ingenuidade. De fato, percebeu-se que as sentenças protocolares enquanto linguagem livre de interpretação são praticamente impossíveis, a menos para experimentos e descrições bastante simples, embora não se possa aqui afirmar que o desenvolvimento de linguagens lógicas não vá fazer avançar a ciência; se for realmente possível, ele poderá (vide as modernas ontologias biomédicas). De forma mais geral, no entanto, qualquer tipo de observação encerra em si o germe da interpretação e do viés com relação ao observador, desde sua mais simples descrição; e a partir dela níveis contínuos de interpretações são adicionados para a descrição de experimentos e da interpretação dos mesmos segundo paradigmas científicos vigentes em qualquer época. As próprias palavras usadas pelos cientistas para descrever seus dados são imperfeitas, equívocas, sujeitas a jogos wittgensteinianos de símbolos e conceitos, mesclas que por vezes alcançam a incompreensão. Assim, as grandes idéias destes filósofos acabaram sendo rechaçadas, em grande medida, pelas evidências e pelas observações profundamente pertinentes de outros filósofos tais como Pierre Duhem e Willard Van Orman Quine que astutamente perceberam que nenhuma observação está totalmente isenta de um certo nível de subjetividade. Não desejo entretanto aprofundar-me ainda mais em temas filosóficos ou científicos; mais vale novamente concluir que me amedrontam aqueles que dizem conhecer alguma Verdade -- escrita com maiúsculas -- ou os meios supostamente corretos e precisos para alcançá-la. Ainda que a ciência consista, sem sombra de dúvida, em uma maneira eficiente de se investigar qualquer verdade, ela não é uma maneira 100% eficiente ou infalível, e ela não pode ser completamente matematizada ou encerrada em conceitos tão precisos que se torne fechada e muda para ambientes e organismos em constante mudança. De mais a mais, ainda estamos começando a compreender as regras que regem o mundo físico e o que hoje sabemos, embora extremamente relevante para nossa constituição enquanto indivíduos e sociedade, ainda está muito aquém da infinita avalanche do que chamamos Conhecimento.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;INTERLÚDIO&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sou cientista, é fato. Mas isso não significa que creio na ciência até o fim, não preciso defendê-la com unhas e dentes apenas para ganhar meu pão de cada dia, preciso antes seguir questionando-a com críticas pé-no-chão; se é que tenho a intenção de melhorá-la. A ciência é simplesmente o melhor e o mais genérico método de investigação da natureza criado pelo homem. Isso não quer dizer que ela seja perfeita. De fato, isso não quer sequer dizer que seja boa. [1] Toda a ciência não passa de uma tentativa do ser humano em compreender as regularidades observáveis no universo, mas ela não pode ser entendida como a mais absoluta das verdades. [2]&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;SOBRE A ORDEM EM UM UNIVERSO CAÓTICO&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Acredito entretanto que o universo possa ser entendido como caótico. Téoricos em caos, entretanto, já evidenciaram que, mesmo em sistemas inteiramente "caóticos", acontece por vezes a formação de &lt;span style="font-weight:bold;"&gt;ordem&lt;/span&gt;. A ordem pode ser vista, de fato, como uma particularidade de qualquer sistema caótico. Sorteie-se um número suficientemente extenso e aleatório de números entre 1 e 1000, digamos. Dê-se esta lista pronta de números já sorteados para um ser humano ou uma máquina e eles serão capazes de encontrar uma certa ordem neste conjunto de números, mesmo que o processo de sorteio tenha sido verdadeiramente aleatório. É dentro da &lt;span style="font-style:italic;"&gt;finitude do tempo&lt;/span&gt; e na observação de um número &lt;span style="font-style:italic;"&gt;não-infinito&lt;/span&gt; de observações quaisquer que está presente a ordem. Em teoria do caos são conhecidas determinadas regiões ordenadas do espaço caótico que são chamados, de forma interessante, de &lt;span style="font-weight:bold;"&gt;atratores estranhos&lt;/span&gt;. São regiões do espaço caótico onde parece haver certa ordem, onde os números sorteados aleatoriamente -- por exemplo -- insistem em cair ali por perto. Todo sistema caótico apresentará regiões ordenadas em seu interior. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://1.bp.blogspot.com/_h2XRf7gRzfY/SsEA2zQSSKI/AAAAAAAAAKI/53PW_Ozac2Q/s1600-h/600px-Lorenzattractoryb.svg-main_Full.jpg"&gt;&lt;img style="display:block; margin:0px auto 10px; text-align:center;cursor:pointer; cursor:hand;width: 320px; height: 320px;" src="http://1.bp.blogspot.com/_h2XRf7gRzfY/SsEA2zQSSKI/AAAAAAAAAKI/53PW_Ozac2Q/s320/600px-Lorenzattractoryb.svg-main_Full.jpg" border="0" alt=""id="BLOGGER_PHOTO_ID_5386587570783275170" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;blockquote&gt;&lt;span style="font-style:italic;"&gt;O atrator estranho de Lorentz; sistema dinâmico onde números escolhidos ao acaso foram iterativamente aplicados em certas regras matemáticas diferenciais e cujos resultados convergem em certas regularidades observáveis. O atrator estranho, com relação à teoria do caos, vem mostrar que mesmo em um universo completamente caótico determinada ordem pode surgir. De fato, toda a ordem observada pela ciência pode ser considerada com a descoberta de um atrator estranho em meio ao completo caos.&lt;/span&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ALGUMAS PARTÍCULAS DE ORDEM NOS SÃO PERCEPTÍVEIS&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não falo apenas por estilo retórico, acredito realmente que o universo seja caótico. Todas as ordens que os homens conseguem observar neste caos, devem-se ao fato de que nossa espécie desenvolveu-se biologicamente de forma a detectá-los bem e saber usá-los para garantir sua própria sobrevivência. Dentro do caos infinito que é o universo existe muita ordem, e estou convicto que apenas uma ínfima parcela destas é que somos capazes de observar e compreender. Temos sistemas sensoriais e cognitivos extremamente limitados enquanto seres humanos; insetos são capazes de ver e se guiar pela polarização da luz, vacas sentem o campo gravitacional do planeta e tubarões teem sensores elétricos razoavelmente desenvolvidos. Enfim, nossa ciência é baseada no fato de que há atratores estranhos -- partículas de ordem -- em meio ao caos universal e que desenvolvemos metodologias razoavelmente eficientes para encontra-las e, que sorte!, para poder prevê-las com alguma precisão. Nosso próprio cérebro evoluiu de forma a ser capaz de perceber atratores estranhos mais ordenados nesta parte do universo em que vivemos: Gaia. A ciência, no entanto, não é A Verdade e a verdade só existe enquanto construção social. A pressuposição dos físicos de que o universo sempre se comportou de certa forma e que sempre assim se comportará deve ser questionada como todo e qualquer tipo de pensamento indutivista deve ser questionado, com herança em Hume. Não temos a certeza de que a ordem do universo não possa se alterar ao longo do tempo ou que tenha sido a mesma desde bilhões de anos atrás. Não obstante, a teoria do Big Bang por exemplo é útil enquanto &lt;span style="font-style:italic;"&gt;mitologia secular&lt;/span&gt; e ateísta a constituir um arcabouço teórico mais sólido com relação às teorias metafísicas para a origem do universo. Ela dá alento e explicação àqueles que não desejam atribuir suas existências a seres superiores ou àqueles que não querem aceitar nossa extrema ignorância com relação às questões existenciais. E, de qualquer forma, a teoria da grande explosão não nos dá tanto alento pois não permite perguntar o que teria havido antes daquela singularidade. O tempo começou com o Big Bang, não se há o que perguntar sobre o que terá vindo antes porque o conceito de antes não existia. Excelente idéia científica que brilhantemente permite a entrada metafísica do deus das lacunas. Dirão agora: "deus criou o Big Bang". E assim esquecer-se-á de perguntar quem terá criado Deus, dando-se um passo a mais de forma não parcimônica. Não seria mais fácil aceitar nossa ignorância e abster-se de tentar responder tais perguntas? Por que o homem insiste em se pensar tão poderoso, capaz de tudo saber?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A CIÊNCIA ENQUANTO CRIAÇÃO E CONTÍNUA CONSTRUÇÃO&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A ciência, portanto, consiste num método preciso que criamos para encontrar os mais diversos padrões observados na natureza. E vou ainda mais longe, as teorias científicas não têm absolutamente nada a ver com uma suposta Realidade ou Verdade que alguém suponha conhecer ou que esteja escrita em algum "livro qualquer do conhecimento" ou que tenha sido alcançada por alguém enquanto &lt;span style="font-weight:bold;"&gt;Revelação&lt;/span&gt; -- e a revelação deve ser entendida enquanto fenômeno &lt;span style="font-style:italic;"&gt;psiquiátrico&lt;/span&gt;, não enquanto meio legítimo de alcançar qualquer tipo de verdade. Não há livro qualquer do conhecimento e um mapa preciso do universo em todas as suas regras e leis consiste simplesmente em um idéia ultrapassada e que não mais nos ajuda a compreender a imensidão epistemológica na qual hoje nos afundamos. Basta observar a maravilha dos outros organismos que habitam o mundo conosco e suas mais esdrúxulas formas de se viver para concluirmos que nem todo o conhecimento sobre o universo poderá ser captado por humanos, nem todo o conhecimento poderá ser conhecido por nós. Qualquer outro animal, por exemplo, sempre saberá algo mais sobre o mundo do que nós sabemos, uma vez que ele terá uma sensibilidade diferente para se relacionar com mundo físico (input) e uma capacidade cognitiva também diferente da nossa para o &lt;span style="font-weight:italic;"&gt;processamento&lt;/span&gt; e inter-relacionamento de informações. É preciso que aceitemos as limitações de nossos sistemas sensoriais e cognitivos e que compreendamos que não poderemos conceber a grandeza e a enormidade do universo de conhecimento no qual estamos inseridos. Da mesma forma que Nietszche destruiu a moral ao dizer que não nada de absoluto dentro dela, o mesmo pode ser dito agora para o conhecimento. Nada em nosso conhecimento é necessário e último, tudo é contingente. Desconhecemos mesmo questões básicas da ciência: haverá uma partícula para a gravidade? Além disso, as teorias científicas modificam-se ao longo dos anos, Einstein não substituiu Newton, ambas as teorias são extremamente úteis para aumentar o nosso conhecimento sobre o mundo e para nos permitir a criação de novidades tecnológicas. Newton não morreu e não morrerá. Einstein superou-o em alguns aspectos precisos onde as duas teorias concorriam diretamente, mas não em todos. Calcule a velocidade média de um carro ou construa um prédio que assim saberá do que falo. Mesmo Einstein já está razoavelmente ultrapassado e novos conhecimentos surgiram. Os conhecimentos &lt;span style="font-weight:bold;"&gt;somam-se&lt;/span&gt; em uma extensa árvore de conhecimento [3]; eles não diminuem (e ainda ajudam a construir a história de seus próprios desenvolvimentos). &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A árvore do conhecimento é bela e complexa, infinita, ela tem múltiplas possibilidades, assim não haverá livro algum a encerrar todas as questões e ordens nela presentes. &lt;span style="font-style:italic;"&gt;Precisamos compreender que o ser humano é quem &lt;span style="font-weight:bold;"&gt;constrói&lt;/span&gt; o conhecimento, ele &lt;span style="font-weight:bold;"&gt;cria&lt;/span&gt; o conhecimento a partir da busca por arcabouços teóricos ou mitologias racionais que expliquem os experimentos que ele faz e que -- ao mesmo tempo -- estejam de acordo com arcabouços teóricos tradicionais que a humanidade foi construindo ao longo de sua trajetória científica e filosófica, epistemológica&lt;/span&gt;. Não há nenhum livro do Conhecimento que a alguém tenha sido permitido encontrar ou ler, ainda que por partes. Não há Verdade absoluta, as verdades são construídas e fluidas. As verdades são também influenciadas por fatores políticos, econômicos e sociais. As teorias cibernéticas modernas influenciam de forma categórica as mitologias que criamos para o desenvolvimento de nosso conhecimento neste início de século XXI; assim como o avanço do próprio conhecimento científico reforça uma mitologia cibernética em um mundo de computação e internet. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://4.bp.blogspot.com/_h2XRf7gRzfY/TIwl_uRbbcI/AAAAAAAAAZ0/zsS9B7zzcvk/s1600/book-of-knowledge-cover.jpg"&gt;&lt;img style="display:block; margin:0px auto 10px; text-align:center;cursor:pointer; cursor:hand;width: 239px; height: 320px;" src="http://4.bp.blogspot.com/_h2XRf7gRzfY/TIwl_uRbbcI/AAAAAAAAAZ0/zsS9B7zzcvk/s320/book-of-knowledge-cover.jpg" border="0" alt=""id="BLOGGER_PHOTO_ID_5515825420305132994" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;blockquote&gt;&lt;span style="font-style:italic;"&gt;A idéia de que existe um livro que encerra todo o conhecimento sobre o universo -- e que, ao ser humano, só é dada a capacidade de ler parte deste livro -- é falha e deve ser esquecida, guardada apenas como relato histórico. O conhecimento humano é uma &lt;span style="font-weight:bold;"&gt;criação e construção&lt;/span&gt; feita por nós ao longo de nosso desenvolvimento histórico e social, onde reunimos conhecimentos empíricos e os relacionamos a uma tradição epistemológica bem embasada em determinada sub-área do nosso conhecimento. A aquisição de novo conhecimento se dá pelo maior acúmulo de fatos e por novas interpretações e rearranjos linguísticos/conceituais sobre teorias já pré-montadas. O universo apresenta muito mais regras do que somos capazes de perceber ou interpretar. A ciência consiste simplesmente em metanarrativas mitológicas que não podem ser categoricamente negadas (ou falseadas, vide Karl Popper) por evidências empíricas em uma determinada época na qual elas são descritas.&lt;/span&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;OS LIMITES DOS HUMANOS ENQUANTO ANIMAIS&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As teorias científicas consistem em modelos metafísicos que usamos para (i) descrevermos as regularidades que encontramos no universo e (ii) podermos falar sobre elas de uma maneira que nos seja inteligível. A ordem, entretanto, que podemos observar no universo, consiste apenas em uma parte da ordem nele existente e que nos é apreensível dado o sistema sensorial e cognitivo que temos enquanto indivíduos e espécie. Se víssemos em ultravioleta e se soubéssemos realmente processar esta informação UV de maneira natural em nosso cérebro, talvez encontrássemos mais regularidades operando nesta faixa. Se pudéssemos "observar" sons como fazem os morcegos, talvez também compreendêssemos mais regularidades do que fazemos dado os sistemas sensorial e cognitivo que temos. Experiências com macacos feitas por prominentes cientistas brasileiros, como Miguel Nicolelis, mostram que nosso cérebro é extremamente plástico e tem mais capacidade do que podemos imaginar. Um macaco cujas ondas cerebrais sejam dadas a movimentar um braço mecânico longe de seu corpo e que disso toma consciência, rapidamente aprende a modular suas frequências neurais para movimentar este braço com precisão. Isso significa que, muito provavelmente, se nos fosse conectado ao cérebro um sistema diferente de apreensão sensorial, provavelmente seríamos capazes de processar e utilizar esta informação para entendermos melhor o mundo físico. É claro que a era dos &lt;span style="font-style:italic;"&gt;ciborgues humanos sensoriais&lt;/span&gt; ainda está longe de chegar, mas não duvido que se torne um dia, uma realidade. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A COMPATIBILIDADE DE NOVAS TEORIAS COM UMA TRADIÇÃO EPISTEMOLÓGICA&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-style:italic;"&gt;E se a ordem que podemos observar depende de nosso falho sistema sensorial e cognitivo, ela depende também de um fator contingente sobre o que já descobrimos no passado. Qualquer nova teoria precisa se adequar aos conhecimentos que tivemos no passado; e o avanço de teorias complexas depende de termos descoberto anteriormente determinadas outras teorias mais básicas que possam funcionar como alicerce para a fundamentação de um conhecimento mais profundo e abrangente em determinado nicho epistemológico. &lt;/span&gt;A comparação de genomas não existiria hoje se Watson e Crick não tivessem produzido um modelo eficiente para explicar as regularidades observadas nas estruturas dos ácidos nucléicos (DNA), e se não tivessem sido seguidos pelo ganhador de dois nobels, Frederick Sanger, a apresentar um método para descrever a sequência do DNA em suas unidades mais discretas. Isso permitiu erigir uma ciência genômica que hoje trabalha níveis de complexidade muito àcima desses padrões descritivos criados pelos cientistas há mais de 50 anos atrás. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://1.bp.blogspot.com/_h2XRf7gRzfY/TIwpRHpyUmI/AAAAAAAAAZ8/fip4T3JvhvA/s1600/HamletAHoracio.png"&gt;&lt;img style="display:block; margin:0px auto 10px; text-align:center;cursor:pointer; cursor:hand;width: 320px; height: 261px;" src="http://1.bp.blogspot.com/_h2XRf7gRzfY/TIwpRHpyUmI/AAAAAAAAAZ8/fip4T3JvhvA/s320/HamletAHoracio.png" border="0" alt=""id="BLOGGER_PHOTO_ID_5515829017710842466" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;blockquote&gt;&lt;span style="font-style:italic;"&gt;Citação de Hamlet, Ato I, cena V. Hamlet sugere a Horácio que ele não está sabendo exatamente do que vem acontecendo na aristocracia dinamarquesa. Frase célebre citada para evidenciar a incompletude do saber científico e a arrogância do cientista.&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;CONCLUSÃO&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A ciência, portanto, consiste na formulação de metarrativas criativas e esteticamente belas que expliquem os fenômenos naturais de forma razoavelmente eficiente e que se interceptem em acordo com relação a grande parte da tradição epistemológica da época em que são propostas. Tais narrativas interceptam uma suposta Verdade sobre o mundo em uma região bastante tênue e para sempre desconhecida -- distinção kantiana entre nuomeno e fenômeno, a interpretação e a coisa-em-si. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mesmo se acreditarmos em um conceito de verdade mais explícito, devemos ter em mente que conhecimento científico de qualquer época é limitado e falho. Isso inclui, evidentemente, o saber científico contemporâneo. A história do homem nos mostra que, ao longo de nossa evolução social, muitos indivíduos em muitos contextos pensaram ter alcançado algum tipo de sabedoria Última e Inequívoca. O tempo mostrou que eles estavam errados. A arrogância dos cientistas, entretanto, tende a fazê-los pensar que possuem um grande corpo de conhecimento e que podem a tudo compreender. Mas, eis que Shakespeare vislumbrou corretamente desde o século XVII com Hamlet a Horácio: "&lt;span style="font-style:italic;"&gt;há mais coisas entre o céu e a terra, Horácio, do que supõe sua vã filosofia&lt;/span&gt;" (Hamlet, Ato I, cena V). É arrogante pensar que tudo sabemos ou que tudo podemos saber. De fato, o que me espanta na ciência e o que me estimula como cientista é a quantidade de eventos e regularidades que ainda desconhecemos! É exatamente a enormidade e a amplitude de nossa incompreensão, somada aos toscos métodos que usamos para ampliar nossos conhecimentos e o que criamos sobre estes movediços alicerces é que espanta, estimula e me faz continuar a querer trabalhar em ciência. Sinto-me um antropólogo e executivo da sociedade científica, vigilante e vigiado, sinto uma enorme curiosidade sobre o que é a ciência e como ela é feito por dentro, em seus meandros. Interesso-me também com relação à forma idealizada como se pensa que ela é feita e a forma real, bruta e injusta, como se dão verdadeiramente os processos. Acho curiosos os mitos associados à imagem da instituição Ciência e do cientista, toda esta aura de suposta intelectualidade que a envolve e que envolve quem a faz. São estas algumas das coisas que me fazem acordar bem disposto na tarefa de investigação e na tentativa ferrenha de descobrir mais desses atratores estranhos presentes em toda a parte no nosso universo. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Assim, se é que sabemos muita coisa, se é conhecemos de certa forma como prever certas regularidades universais, fato é que muito mais regularidades haverão que ainda não puderam ser previstas e, boa parte delas, que jamais poderão. Seguiremos tentando buscar essas regularidades que pudermos mesmo sabendo que a ciência e o método científico são falhos e limitados; ainda que poderosos para encontrar certas regiões onde atratores estranhos possam ser estudados e descritos com precisão [4]. É a busca por essas regularidades e por arranjos conceituais e linguísticos de descrevê-las que deve mover o cientista, sem que este jamais pense buscar qualquer tipo de conhecimento definitivo; o que ele deves ser capaz de fazer é algum tipo de uma &lt;span style="font-style:italic;"&gt;aventura de imaginação baseada em fatos&lt;/span&gt;. Assim, os criadores das novas ciências devem tentar extrapolar os fatos, ousar novas teorias encima deles e tentar ir o mais longe que puderem na interpretação e na criação de mitologias metafísicas eficientes para explicar os "fatos" do mundo físico e inter-conectá-los com toda uma tradição do conhecimento já construída desde a Grécia antiga, ou ainda antes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;NOTAS&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-style:italic;"&gt;[1] Vale notar que a medicina ortodoxa (científica) vem perdendo espaço para as terapias alternativas, provando que as pessoas querem mais do que a ciência, mais do que o conhecimento dos livros. A despeito das acusações de charlatanice e da fúria dos grandes doutores, donos do conhecimento, várias vertentes da paramedicina veem crescendo nos últimos anos -- talvez em proporção similar às dos fiéis nas igrejas protestantes. Nos séculos passados, os médicos eram muito mais psicólogos do que são hoje, com seus consultórios limpos e suas consultas rápidas e secas. Chega quase a parecer que incomodamos os médicos ao pagarmos para que ele nos examine por alguns poucos minutos; ele está sempre atrasado. No século XIX, os médicos da era vitoriana ainda recomendavam chás, descanso, banhos de ervas, imersões e caminhadas. Temos hoje uma medicina abusivamente científica que trata os seres humanos enquanto máquinas, não enquanto seres vivos, dotados de emoção e coração. Há hoje um cientificismo exagerado espalhado pelo mundo, uma falta de percepção da relação da alegria com o bem estar, temos uma segurança sem liberdade, a panacéia das drogas que curam todas as coisas, prega-se uma vida quase morta. É esta uma herança de um materialismo e um reducionismo que mostraram-se prolíficos sim enquanto técnica, mas que agora parece tender a escravizar o homem.&lt;br /&gt;[2] Há muito mais por aí do que a Verdade dentro do conhecimento científico. Os cientistas são humanos, demasiadamente humanos. E assim pode-se esperar que em seus estudos haja sempre erros que lhes tenham passado desapercebidos, no melhor dos casos. Isso sem contar com o enorme número de vigarices explícitas, tais como (i) alteração explícita de resultados, (ii) decisão de não mostrar dados que sejam contra suas teorias, (iii) explicação falsa ou confusa da metodologia usada, evitando reproducibilidade, etc. Há também a grande roda da política científica, do poder do cientista, roda de um poder que funciona de forma não muito menos podre do que noutros setores desta mesma sociedade em que vivemos, tais como na câmara ou no senado federal. Brigas de poder e boicote de uns sobre outros acontece a todo instante. Não há meritocracia, ninguém lê o que se escreve. As decisões são, em grande medida, políticas. E tende-se a premiar as pessoas conhecidas, não aquelas que teem mais mérito ou escreveram o melhor projeto. Conhece-se pouco sobre o trabalho de outros, o mérito é bastante subjetivo, não se tem tempo para ler o que se escreveu. Julga-se politicamente. E se é julgado também politicamente. Existe o mérito, mas ele não é um fator muito importante, exceto para os indivíduos que se situam em algum dos extremos da curva. Quanto mais um cientista se sente ameaçado em perder seu poder, mais ele boicota politicamente seus supostos adversários. Os brasileiros, assim, ao invés de ajudarem seus compatriotas a publicar em revista internacional -- ou serem, de fato, imparciais -- o que eles fazem é prejudicar seus colegas quando a única coisa que eles teem a ganhar com isso é o fato de estarem impedindo a outra pessoa de crescer. Isso acontece mais frequentemente do que gostaríamos no Brasil: conflito de interesses em ciência, desafetos, falta de profissionalismo do cientista, recusa a exercer uma imparcialidade e, finalmente, julgamento sentimental em projetos e bancas -- a despeito do mérito científico.&lt;br /&gt;[3] Embora memes possam competir dentro de um determinado nicho epistemológico, normalmente eles trazem novidades e criatividade mesmo quando eles são estritos adversários e versam sobre uma mesma questão particular; sendo que um deles (amelo) propõe algo que seja antitético ao que diz o segundo. Toda a epistemologia em Hegel, por exemplo, tem essa característica: há uma tese e uma antítese; e a epistemologia desenvolve-se pela síntese dos argumentos contrários e a descoberta de uma nova verdade que não está em um ou outro lado, sendo portanto uma crítica de ambos os amelos (tese e antítese) e a produção de uma nova verdade que reune o que há de melhor em ambos os argumentos. Com o passar do tempo, também esta nova verdade terá sua antítese; e uma outra síntese irá surgir.&lt;br /&gt;[4] Por seres que apresentem esta nossa constituição corporal, capacidade sensorial e cognitiva.&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/23099929-7932910622054553191?l=tragodefilosofia.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://tragodefilosofia.blogspot.com/feeds/7932910622054553191/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=23099929&amp;postID=7932910622054553191&amp;isPopup=true' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/23099929/posts/default/7932910622054553191'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/23099929/posts/default/7932910622054553191'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://tragodefilosofia.blogspot.com/2010/07/da-epistemologia-em-um-universo-caotico.html' title='Da epistemologia em um universo caótico'/><author><name>Prós</name><uri>http://www.blogger.com/profile/18282398415856299778</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='24' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/-OJfdox4-acU/Tm_oXf840OI/AAAAAAAAAlc/1ROS0tKzZ5k/s220/facebook_perfil_picture.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://4.bp.blogspot.com/_h2XRf7gRzfY/TIwjcDzNQ9I/AAAAAAAAAZk/SBe8X-3ibsI/s72-c/Schlick-Carnap.png' height='72' width='72'/><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-23099929.post-6737691884658019250</id><published>2010-08-02T07:25:00.002-03:00</published><updated>2011-06-14T12:52:00.678-03:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='teologia'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='religião'/><title type='text'>Princípios teológicos</title><content type='html'>1. INTRODUÇÃO&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A necessidade da concepção de &lt;span style="font-weight:bold;"&gt;deuses&lt;/span&gt; para o ser humano parece estar associada a um &lt;span style="font-weight:bold;"&gt;princípio teleológico&lt;/span&gt; inerente à nossa constituição enquanto indivíduos pensantes providos de mente animal [1]. A teleologia diz respeito à &lt;span style="font-style:italic;"&gt;causalidade&lt;/span&gt; e no mundo físico onde vivemos podemos claramente distinguir um sem número de acontecimentos que só veem a cabo por consequência de outros eventos que a ele serviram como causa. &lt;span style="font-style:italic;"&gt;O fato de não compreendermos as causas últimas de nossa existência tem nos levado a sugerir hipóteses através das quais possamos tentar explicar o porquê de estarmos aqui e vivermos neste mundo&lt;/span&gt;. Este ensaio tenta classificar e resumir hipóteses teísticas em grandes domínios de compreensão, assim como contrapô-las a uma hipótese não-teística, onde aceita-se a complexidade da questão existencial e escolhe-se racionalmente não aceitar respostas incompletas -- e provavelmente falsas -- para respondê-la. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;2. O CERNE DESTA ARGUMENTAÇÃO&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O vislumbre filosófico que me trouxe aqui veio da verificação de que as principais hipóteses teísticas já incorporadas em nossa sociedade podem ser classificadas em três grandes troncos teóricos comuns. Tais troncos incorporam e resumem em um contexto amplo as idéias teísticas mais frequentemente alcançadas pelo homem com relação à metafísica -- no sentido de tentar explicar quais seriam as causas de sua existência, encerrando também uma consideração de beleza (aesthetica) sobre a ordem no universo ou sobre alguma entidade que se suponha organizadora desta ordem. Divido em três esse grandes ramos teológicos e teleológicos:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;center&gt;(i) deus no homem (DNH) ou &lt;span style="font-weight:bold;"&gt;antropoteísmo&lt;/span&gt; &lt;br /&gt;(ii) deus na natureza (ou nos seres vivos) (DNN) ou &lt;span style="font-weight:bold;"&gt;bioteísmo&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;(iii) deus em todas as coisas (DTC) ou &lt;span style="font-weight:bold;"&gt;panteísmo&lt;/span&gt;&lt;/center&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vale notar em princípio que tais hipóteses teísticas aceitam frequentemente uma &lt;span style="font-weight:bold;"&gt;visão teleológica&lt;/span&gt; do mundo, ou seja, o mundo como consequência de uma energia vital senciente que funciona como causa do mesmo. Esta herança causal parece estar diretamente associada à utilização da &lt;span style="font-weight:bold;"&gt;teleologia&lt;/span&gt; -- que nossa espécie tem utilizado para compreender os fenômenos físicos do mundo natural -- quando aplicada à esfera da metafísica. As idéias de deus consistem portanto em metafísicas de base teleológica, ou &lt;span style="font-weight:bold;"&gt;teleologias metafísicas&lt;/span&gt;. De fato, nossa mente parece ter certa dificuldade em sobrepujar este instinto causal primevo, instinto este evidentemente importante durante nossa evolução e certamente incorporado fisicamente (hardwired) em nossos códigos genéticos e cérebros primatas. Tendo observado que esta lógica causal responde muitas questões com relação ao mundo físico, consideramo-la agora base epistêmica de explicação de qualquer dúvida que nos acometa: tais como (a) nossa própria existência e (b) a existência do mundo físico com o qual interagimos. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por vezes, entretanto, as idéias de deus podem não estar diretamente associadas a um princípio teleológico. Nessas ocasiões, as idéias metafísicas sobre um deus estão associadas principalmente a um princípio estético da beleza ou da maravilha do que nos é incompreensível. Tais forças emanam de algum lugar, ponto ou concentração de energia que é considerada como sendo divina e esplendorosa no mais profundo grau que se possa imaginar. As preces podem ser vistas assim enquanto rituais de agradecimento pela beleza e maravilha do mundo e de nossas vidas. Enquanto os &lt;span style="font-style:italic;"&gt;antropoteísmos&lt;/span&gt; estão mais ligados à questões causais-teleológicas, parece que boa parte dos &lt;span style="font-style:italic;"&gt;bioteísmos&lt;/span&gt; e &lt;span style="font-style:italic;"&gt;panteísmos&lt;/span&gt; estão mais ligados à esta idéia de maravilhamento ante o inexplicável -- que não necessariamente pede explicação ou causas últimas. É claro que este maravilhamento também é frequentemente associado a um deus ou vários deuses em forma humana que controla(m) tudo racionalmente, enquanto também a idéia de deus para diversos tipos de bioteísmos e panteísmos pode encerrar algum tipo de centro energético controlador cuja forma ou constituição física é irrelevante. Neste sentido o panteísmo se aproxima do bioteísmo, isolando o antropoteísmo em corrente divergente. O ateísmo aqui recusa-se a prestar qualquer depoimento teleológico, assumindo sua ignorância ante este conceito e recusa-se também em supor qualquer forma aglutinadora que encerre e resuma a beleza do mundo físico. O ateu é frequentemente um apreciador da beleza e da dúvida, mas não procura resposta para tais problemas e aceita a ignorância ante a complexidade. &lt;span style="font-style:italic;"&gt;O que importa aqui é que ao lado do sentido causal (teleológico) enquanto explicação teística, há invariavelmente o sentido estético e as visões teológicas frequentemente encerram motivações teleológicas (causa), estéticas (beleza) e epistêmicas (incompreensão).&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://1.bp.blogspot.com/_h2XRf7gRzfY/S_nau2GqKtI/AAAAAAAAAUk/Wf4zqIQ-d5o/s1600/christ2.gif"&gt;&lt;img style="display:block; margin:0px auto 10px; text-align:center;cursor:pointer; cursor:hand;width: 160px; height: 200px;" src="http://1.bp.blogspot.com/_h2XRf7gRzfY/S_nau2GqKtI/AAAAAAAAAUk/Wf4zqIQ-d5o/s200/christ2.gif" border="0" alt=""id="BLOGGER_PHOTO_ID_5474647320377830098" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;blockquote&gt;&lt;span style="font-style:italic;"&gt;A idéia teológica predominante nos últimos dois mil anos tem sido a idéia &lt;span style="font-weight:bold;"&gt;antropoteísta&lt;/span&gt; que sugere que deus possa ser melhor representado através de sua similaridade com o homem, que de fato é vista pelo fiel de forma inversa, como o homem tendo sido criado à imagem e semelhança de deus. Segundo os cristãos, um suposto homem de carne-e-osso (Jesus Cristo) teria representado a encarnação de deus na Terra ou, alternativamente, há a visão clássica de deus como um velho de barbas. Ambas idéias podem ser usadas como exemplos para representar tal visão teológica do mundo, centralizada na espécie humana (antropoteísmo).&lt;/span&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;3. ANTROPOTEÍSMO&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Embora desde a antiguidade alguns já tivessem sido acalentados por um vislumbre ateístico, parece que para (i) negarmos conclusões causais com relação à nossa própria existência precisaríamos antes (ii) tirar-mo-nos de uma visão central com relação ao nosso papel e ao motivo último da criação de todo o cosmos. Esta visão contrária à nossa destinação última na ordem do universo (antropocentrismo) foi severamente reprimida por uma cultura ocidental e cristão de herança "deus no homem" que sempre nos retratou enquanto centrais, senhores e árbitros de todos os eventos acontecidos no universo [2]. Assim o mito de um Deus pessoal do antropoteísta foi criado à nossa imagem e semelhança, espelho invertido do mito de Narciso quando aplicado ao ser humano vivendo em sociedade. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os antropoteístas justificam sua crença ao dizer que a vida não pode ser "só isso" e que é preciso que nossas vidas humanas tenham algum tipo de significado maior do que ser "apenas" nosso cotidiano, um acordar e dormir, trabalhar e criar os filhos. Negam ao homem sua natureza animal e o veem enquanto destino último da criação do universo. A motivação maior com relação a nossas vidas, causa teleológica, consiste na existência de um indivíduo super-sapiente a ter criado e regido a ordem do universo tendo em nós seu objetivo final para tal. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;blockquote&gt;É interessante notar que os antropoteístas aceitam facilmente a explicação de um deus em forma humana a ter criado todo o universo, argumentando que o universo não poderia ter surgido "sozinho" ou "ao completo acaso". Por outro lado é interessante notar o fato de que eles não questionam o fato de seu Deus ter surgido da mesma forma "sozinho" ou "ao acaso". Para os antropoteístas, o universo precisa ter uma causa, que é deus em forma de homem, senciente e consciente de sua criação e de sua obra. A causa da existência deste deus entretanto não é jamais questionada e assim a existência de Deus parece não precisar de ser explicado, enquanto a existência do universo precisa.&lt;/blockquote&gt;Esta observação consiste claramente em um paradoxo ou em uma limitação conceitual do conhecimento teológico do antropoteísta, ele segue uma lógica argumentativa até certo ponto, depois escolhe abandoná-la. Não parece ser preciso ter um super-deus a ter criado deus. O universo precisa de uma explicação para o seu começo e não pode ter sempre existido; deus precisa tê-lo criado. Por outro lado, Deus não precisa de explicação para o seu surgimento e pode ter sempre existido. A lógica aplicada a deus, portanto, é diferente da lógica aplicada ao resto do universo. Se o universo é tão complexo e incompreensível e se ele &lt;span style="font-weight:bold;"&gt;precisa&lt;/span&gt; ter sido criado por deus, o que teria criado deus que também se mostra tão complexo e incompreensível? Essa pergunta não é feita pelo antropoteísta que vê em seu Deus uma razão última da existência, assim o universo precisa de uma explicação causal para seu início, porém deus não precisa. Tal falha argumentativa não é jamais observada ou sequer admitida pelo antropoteísmo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;3.1. O SOLIPSISMO ENQUANTO EXAGERO DA ARGUMENTAÇÃO ANTROPOTEÍSTA&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A redução ao absurdo da idéia do DNH pode ser descrita como a teoria filosófica conhecida como &lt;span style="font-weight:bold;"&gt;solipsismo&lt;/span&gt;. Neste sistema filosófico, apenas o próprio ser pensante que filosofa seria o único Indivíduo Maestro do Universo e todo o mundo giraria em torno dele mesmo, tendo sua vida como propósito último da existência de todas as coisas. Acredito que o solipsismo pode ser visto como o excesso do argumento &lt;span style="font-style:italic;"&gt;narcisista&lt;/span&gt; que vê deus no homem. Isso se dá porque o solipsismo consiste, &lt;span style="font-style:italic;"&gt;de facto&lt;/span&gt;, em um caso particular dessa filosofia que tem deus no homem, sendo que ela sugere que deus esteja em um homem em especial: o indivíduo que filosofa. É como se todo o universo tivesse sido criado apenas para a vida de um indivíduo, extremo máximo de narcisismo e megalomania que, entretanto, não pode ser jamais refutado de maneira lógica ou empírica. Ainda que esteja claro que a visão metafísica baseada no solipsismo represente um exagero excessivo do argumento DNH, entende-se que &lt;span style="font-style:italic;"&gt;o solipsismo não tem a capacidade de virar um sistema teológico concreto pelo simples fato de que sistemas teológicos são sistemas sociais e envolvem muitos homens&lt;/span&gt;. Assim, não se poderia defender que apenas Descartes houvera existido, já que se imagina que qualquer indivíduo possa tão bem se colocar enquanto causa última do universo quanto o filósofo francês nascido no século XVI. Se deslocamos o centro do universo para o outro, a lógica interna solipsista se afunda e todo o solipsismo está fadado a ser um sistema teológico de membros individuais, cada um de sua própria, diferente e única auto-seita. Assim, o teísmo "deus no indivíduo" (DNI) jamais pôde ter boa aceitação na &lt;span style="font-weight:bold;"&gt;sociedade&lt;/span&gt; de filósofos ou teólogos de uma época, tendo sido visto simplesmente como algum tipo de egocentrismo ou megalomania. Se entretanto ampliamos o solipsismo &lt;span style="font-style:italic;"&gt;do individuo&lt;/span&gt; para um suposto &lt;span style="font-style:italic;"&gt;solipsismo da espécie&lt;/span&gt; chegamos à nossa primeira idéia teológica de deus: a idéia de um deus que se encontra no homem (&lt;span style="font-style:italic;"&gt;Homo sapiens&lt;/span&gt;) e em nenhum outro lugar fora dele. O antropoteísmo é, sem qualquer sombra de dúvida, um antropocentrismo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://1.bp.blogspot.com/_h2XRf7gRzfY/S_ncbI4RA4I/AAAAAAAAAUs/rsCG2seDIlw/s1600/solipsist.gif"&gt;&lt;img style="display:block; margin:0px auto 10px; text-align:center;cursor:pointer; cursor:hand;width: 123px; height: 115px;" src="http://1.bp.blogspot.com/_h2XRf7gRzfY/S_ncbI4RA4I/AAAAAAAAAUs/rsCG2seDIlw/s400/solipsist.gif" border="0" alt=""id="BLOGGER_PHOTO_ID_5474649180843606914" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-style:italic;"&gt;&lt;blockquote&gt;A idéia filosófica conhecida como solipsismo pode ser compreendida como o excesso da idéia de deus no homem (antropoteísmo) e consiste na visão de deus no próprio indivíduo que professa a crença (autoteísmo). Na visão teleológica solipsista, todo o universo e todas as coisas e pessoas ao redor de alguém foram apenas criadas apenas para justificar a vida daquele indivíduo que reflete, tudo o mais sendo falso ou despropositado. O solipsismo entretanto está logicamente fadado a ser uma filosofia de um único indivíduo e jamais poderá se tornar uma teologia social.&lt;/blockquote&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;3.2. O SOCIOTEÍSMO ENQUANTO PRAGMÁTICA ANTROPOTEÍSTA&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dentro das idéias de deus enquanto homem, temos em geral a idéia de que a nossa espécie, ou seja, o ser humano, foi feito à imagem e semelhança de um princípio gerador de causa e beleza no universo. Todos os humanos poderiam assim se considerar causas última para a criação de todo o universo. O exagero do argumento antropoteísta, como vimos há pouco, consiste em um só indivíduo (DNI) considerar-se a causa última para a existência de todo o universo. Embora o argumento antropoteísta clássico tenha toda a espécie humana enquanto centro organizador e motivação causal para a criação do universo, na prática existem diferentes tipos de antropoteísmos existentes. Devido a fatores históricos operando quando da formação da idéia teológica em diferentes locais do mundo, parece que a idéia antropoteísta surgiu independentemente em diferentes povos e culturas. Assim, existem diferentes tipos de crenças existentes em nossa sociedade que têm basicamente os mesmos preceitos em considerar um único deus onipotente que é este princípio causal e estético do mundo, ser racional com similaridades estritas com seres humanos. De fato, o antropoteísmo é o teísmo oficial mais frequentemente professado pelos povos do mundo, ressaltando o fato de que o homem se vê sim como centro do universo e que nossa espécie é altamente narcisista e antropocêntrica. O cristianismo, o judaísmo e o islamismo pensam-nos como a razão última para todo o cosmos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tais antropoteísmos poderiam teoricamente ser compatíveis uns com os outros e formarem um grande arcabouço mono-antropoteísta que considerasse que todos os deuses em forma humana são um deus só, o Grande Arquiteto do Cosmos. O que acontece na prática, entretanto, é que as culturas também criam seus deuses à imagem e semelhança delas próprias enquanto ideologias culturais -- e assim o deus cristão europeu não tem as mesmas características do deus muçulmano árabe, ainda que as teologias em si sejam bastante parecidas em seus aspectos teológicos mais amplos. O que aconteceu e tem acontecido, portanto, na prática da evolução das religiões antropoteístas é a criação de um conceito intermediário dos antropoteísmos. &lt;span style="font-style:italic;"&gt;Deus não está mais em todos os seres humanos, mas apenas naqueles que acreditam neste deus com certa forma e certas características específicas.&lt;/span&gt; Não importa que o princípio teológico antropoteísta seja o mesmo entre judeus e muçulmanos, certas características (físicas, morais, estéticas, ideológicas) dos deuses são diferentes e parte-se para um novo intermediário teológico que vai entre a idéia de deus no indivíduo (DNI) e deus na espécie (DNH), é a idéia do deus em determinada sociedade, ou deus nos "escolhidos". Sendo assim, sociedades diferentes terão deuses diferentes e incompatíveis. E agora elas guerrearão entre si para provarem que o deus delas é o Único Deus e que as outras religiões estarão erradas ao pensarem que o deus delas é que deve ser único e uno, criador de toda a vida e do universo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É preciso ressaltar portanto que a idéia "deus em nossa sociedade" (DNS) é o que na prática ocorre com os antropoteísmos surgidos independentemente em diversas culturas humanas diferentes. De fato, os diferentes sistemas mono-antropoteísticos existentes, tais como: (a) cristianismo, (b) judaísmo, (c) islamismo incorrem justamente nessa questão. O deus de todos está no homem -- o que os caracteriza enquanto antropoteísmos --, entretanto, ele está apenas em alguns homens, ou seja, naqueles que acreditam que o deus &lt;span style="font-style:italic;"&gt;deles&lt;/span&gt; seja o deus de todos os humanos e o senhor e árbitro de todo o cosmo. Qualquer dúvida com relação ao dogma do deus em que acreditam ser o deus correto, ou o único existente, trata-se assim de &lt;span style="font-weight:bold;"&gt;heresia&lt;/span&gt; e da própria negação de toda sua corrente filosófica. Os grandes monoteísmos surgidos em nossas sociedades preferiram antes dizer que cada deus de sua sociedade (DNS) era o deus Verdadeiro e que o deus das sociedades em volta eram deuses falsos. Talvez tivesse sido melhor para as instituições religiosas que elas tivessem admitido a possibilidade antropoteística de deus estar no homem mas que este deus único e supremo fosse o mesmo tanto para os cristãos quanto para os judeus ou muçulmanos. De fato, entre adeptos dessas religiões é razoavelmente fácil encontrar indivíduos que assim pensem. Mas devido às diferenças em livros sagrados ou diferenças culturais e morais na visão do grande deus, além do senso do deus ser responsável pela salvação de um só povo (como foi sempre o deus do judeus), os grandes líderes das religiões monoteísticas preferiram argumentar que apenas seu deus era o correto, declarando guerra aos deuses das religiões antropoteísticas concorrentes e causando as grandes desavenças religiosas que perduram até hoje e são grandes focos de tensão política no mundo contemporâneo. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;3.3. O ANTROPOTEÍSMO CRISTÃO&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Para o cristianismo e de acordo com passagens do livro sagrado, a Bíblia, o homem foi criado à imagem e semelhança de deus. O Deus para o católico portanto apresenta uma imagem humana, normalmente descrita sob a forma de um velho de barbas. Um homem de grande sabedoria teria assim produzido todo um universo de grande dimensão, complexidade e beleza apenas para que determinados indivíduos especiais -- os seres humanos -- criados à sua imagem e semelhança, habitassem-no, crescessem e multiplicassem-se ao espalhar sua palavra e seu nome pelas suas terras [3]. Um dos grandes dogmas do catolicismo consiste justamente nessa idéia de que deus deve estar no homem e ser similar a ele em pensamento, forma e ética. No dia do juízo final, deus julgará os homens baseado nas ações que estes tomaram ao longo de suas vidas e em seus &lt;span style="font-weight:bold;"&gt;pecados&lt;/span&gt;, sendo que Abraão recebeu de deus os dez mandamentos que se apresentam como um guia maior da ética judaico-cristã para que os homens possam ser levados ao paraíso quando do dia do juízo final. Também Jesus Cristo, de forma mais clara, apresentou-se e representou deus na Terra, tentando fazer prevalecer uma bela ética que pregava a união e a confraternização dos seres humanos -- mas apenas naqueles que acreditavam neste Deus. Não parece importar de fato se a própria igreja segue esta ética, o que sem dúvida não o fez ao longo da idade média, período também conhecido como &lt;span style="font-weight:bold;"&gt;idade das trevas&lt;/span&gt;, onde a igreja católica usou todo seu poder para rechaçar qualquer tipo de pensamento que fosse contra suas doutrinas mais básicas, taxando-as de heresias e forçando os indivíduos a se retratarem ou morrerem queimados ou enforcados pelo &lt;span style="font-weight:bold;"&gt;tribunal da inquisição&lt;/span&gt;. Como serão julgados os clérigos católicos que compunham estes tribunais arbitrários no dia do juízo final? Há uma antítese à filosofia cristã dentro do próprio cristianismo que se vê por vezes mais associado a um sistema político do que a um sistema teístico. Também a venda de indulgências fez com que até clérigos experimentes e conhecedores das escrituras, como Martinho Lutero, revoltassem-se e pedissem uma maior abertura religiosa, além do retorno a uma ética humanista dentro do cristianismo. Lutero foi o primeiro a traduzir a bíblia -- do latim para o alemão -- aproximando a palavra de deus do povo. Tal atitude foi vista como absurda e ultrajante para os clérigos da época que acreditavam que a palavra de deus era apenas para os escolhidos e que o povo não saberia bem interpretar os evangelhos. Assim, em grande parte do amadurecer de nossa cultura cristã ocidental, o pensamento livre foi considerado impuro e incorreto, onde houve uma extrema &lt;span style="font-weight:bold;"&gt;doutrinação intelectual&lt;/span&gt; em prol da visão de deus no homem; e essa corrente antropocentrista e antropoteísta simplesmente rechaçou muitas visões metafísicas concorrentes em um dos mais claros exemplos da história da humanidade de seleção memética [4]. O grande teólogo e antropólogo americano Joseph Campbell relata um caso em que certa vez encontrara um clérigo de alta casta da igreja católica. Nesta ocasião, ele  teria perguntado se Campbell era cristão e, ao responder que não, o clérigo rapidamente apontou que poderia realmente haver dúvida sobre um &lt;span style="font-style:italic;"&gt;deus em forma humana&lt;/span&gt;. Campbell diz que isso o iluminou em grande medida ao compreender certas questões teológicas -- e sua experiência certamente influenciou o presente ensaio. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;3.4. SIMBOLOGIAS ANTROPOTEÍSTAS&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É interessante notar que os antropoteísmos são normalmente caracterizados por &lt;span style="font-weight:bold;"&gt;ideais machistas&lt;/span&gt;, onde o deus é um homem; e não uma mulher. Na bíblia, por exemplo, sabe-se bem que o homem é criado primeiramente à imagem e semelhança do deus e só então surge a mulher, criada a partir de uma das costelas de Adão. Durante boa parte da tradição da igreja católica, os grandes nobres sempre desejaram ter primogênitos homens, que poderiam herdar seus feudos e sua fortuna. Às mulheres -- as freiras -- sempre foi delegado um lugar menor na teologia católica e o mesmo pode ser visto em outros antropoteísmos, onde a mulher ocupa um papel de submissão com relação ao homem. O menosprezo com relação à mulher dentro dos antropoteísmos ressoa até hoje na constituição de nossa sociedade, embora pareça que no último século tenhamos deixado para trás uma boa parte desse preconceito contra elas. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Outra divisão que se faz é entre os teísmos de crença única (&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;monoteísmos&lt;/span&gt;) e aqueles de crenças múltiplas (&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;politeísmos&lt;/span&gt;) com relação ao criador do universo. Com relação ao antropocentrismo, temos que o cristianismo, o judaísmo e o islamismo consistem em crenças monoteístas explícitas, cada um acreditando num deus próprio e que é em grande medida contraposto ao deus de outras religiões antropocêntricas. Em relação, portanto, à esfera social e a uma possível identidade de grupo, essas religiões foram aquelas que primeiro se separaram de acordo com contextos ideológicos e se tornaram classicamente inimigas umas das outras, embora esteja claro que judaísmo e cristianismo possam conviver em paz por terem um passado comum dividido depois do suposto aparecimento do Cristo; messias para o cristão e mero indivíduo para o judeu. Em seguida a esse pensamento veem os antropoteísmos politeístas, como foram aqueles presentes na Grécia antiga e em Roma. &lt;span style="font-style:italic;"&gt;Tais politeísmos antropocêntricos apresentaram também certa raiz monoteísta, uma vez que frequentemente há a presença de um deus maior: Zeus ou Júpiter.&lt;/span&gt; Os politeísmos tendem a aproximar a relação do homem com o divino, e normalmente muitos deuses podem se encantar por seres humanos reais e gerar semi-deuses, que são de linhagem divina, mas foram concebidos por mulheres de carne e osso. Pensa-se também frequentemente que os politeísmos tenham um conteúdo de verdade menos próximo da certeza do que os monoteísmos. Assim os politeísmos são normalmente interpretados pelos seres humanos enquanto mitológicos em grande medida; do contrário, os monoteísmos são frequentemente vistos como a verdade única e última, de impossível contestação.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;4. BIOTEÍSMOS&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ao lado dos antropoteísmos, tenho a impressão de que o grau seguinte da escala de compreensão dos teísmos humanos pode ser descrita com aquilo que chamo de bioteísmo. Os bioteísmos consideram que a essência lógica através da qual tenha havido uma razão para este mundo, está nos seres vivos ou na natureza. Ao contrário, portanto, dos antropocentrismos que prezam o homem, os bioteísmos prezam a beleza natural e, por isso mesmo, é a visão normalmente tida como verdadeira por grande parte das tribos indígenas. O índio pode ser visto aqui como a verdadeira essência do homem enquanto animal e como o estado de maior proximidade do homem com a natureza. (De fato, pode-se propor inclusive que o antropocentrismo tenha surgido justamente depois de uma certa urbanização da sociedade e que seu alvorecer se deu em grande medida devido a uma vontade -- ou até por uma ação verdadeiramente natural dos novos seres humanos urbanos -- justamente em se diferenciar dos seres humanos que viviam ainda na selva ou savana.) Os bioteísmos portanto parecem jamais terem sido diretamente formalizados enquanto sistemas de crenças, isso não faz sentido segundo suas ideologias. Para os adeptos de diversas vertentes bioteístas, a questão da magia e da luz divina estariam justamente no contato com a natureza, com a vida e com os animais e plantas. O êxtase religioso do bioteísmo está em partir para uma jornada onde haja só o indivíduo e a natureza, normalmente na ausência de outros seres humanos. De forma alternativa, êxtases religiosos bioteístas podem ser normalmente alcançados através do auxílio de drogas obtidas diretamente de plantas ou animais que elevem a consciência e permitam uma maior aproximação do ser humano com uma voz natural, com suas raízes enquanto animal e enquanto ser vivo. As religiões amazônicas do Santo Daime e a União do Vegetal (UDV) parecem ter exatamente este tipo de visão mística da natureza.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Além disso, o sucesso de bilheteria Avatar, dirigido por James Cameron, apresenta aos telespectadores o povo Navï, indígenas que apresentam uma série de ligações com o ideal bioteísta. Neste caso, o deus dos índios é Eywa, ou Gaia, um tipo de entidade que representa toda a vida do planeta. Também na mesma direção, o povo Navï apresenta um órgão específico que os permite se conectar diretamente com a essência natural de diversos animais -- que também apresentam o mesmo órgão. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-style:italic;"&gt;Outro fato frequentemente associado com a visão bioteísta é que ela encerra uma visão teológica feminista, onde o ideal de proteção da mãe é que vinga em primasia ao autoritarismo do pai.&lt;/span&gt; A mãe é aquela que doa, é de onde se nasce, é quem cuida e quem ama. É ela que representa de onde viemos, sendo ao mesmo tempo parte de nós, sendo que nós é quem somos parte dela e que devemos respeitá-la em todas as suas atribuições. Há nos bioteísmos um sentimento de unidade, amor e compaixão entre os indivíduos não só da seita, mas também com relação a todos os organismos vivos e as entidades "naturais". &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Também na Grécia antiga pode-se ver ainda traços de um bioteísmo indígena, no qual os pensadores pré-socráticos tentam individualizar os deuses na natureza. Tales de Mileto, o primeiro filósofo conhecido da época moderna sugeria ao longo dessa transição do politeísmo para o monoteísmo e do bioteísmo ao antropoteísmo, que era a água a essência de todas as coisas, provocando a primeira cisão específica entre uma teologia dos sentidos a tentar produzir uma teologia da razão. A visão de Tales foi logo questionada por Anaxímedes, também em Mileto, que se opunha à predominância da água ao supor que o elemento que reunia todas as coisas e idéias era o ar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://1.bp.blogspot.com/_h2XRf7gRzfY/S_neRMz9E9I/AAAAAAAAAU0/bypcV-tYBa0/s1600/avatarcameron.jpg"&gt;&lt;img style="display:block; margin:0px auto 10px; text-align:center;cursor:pointer; cursor:hand;width: 236px; height: 320px;" src="http://1.bp.blogspot.com/_h2XRf7gRzfY/S_neRMz9E9I/AAAAAAAAAU0/bypcV-tYBa0/s320/avatarcameron.jpg" border="0" alt=""id="BLOGGER_PHOTO_ID_5474651209123828690" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;blockquote&gt;&lt;span style="font-style:italic;"&gt;O filme de maior bilheteria da história do cinema é curiosamente uma obra onde a idéia teológica consiste no &lt;span style="font-weight:bold;"&gt;ideal bioteísta&lt;/span&gt;, onde deus está na natureza; e não apenas (ou particularmente) no homem. Para os indivíduos da espécie Navï, a essência e causa última da vida na terra é compartilhada por todos os indivíduos vivos, que podem se comunicar de uma maneira especial, através de um órgão particular. Toda a vida é vista como interações entre organismos e um sentimento ecológico de um super-ecossistema místico é observado, ressaltando uma unidade entre aquilo que é vivo.&lt;/span&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Com relação à evolução das crenças, parece-me que a primeira crença tida pelo ser humano deve ter sido algum tipo de bioteísmo de origem indígena, onde os índios veneravam as entidades naturais, os animais, as plantas, o sol, o planeta e a água. Parece-me ainda que o ponto de virada dos bioteímos para os antropoteísmos começou justamente com a idade da primasia da razão que parece ter começado com os gregos. Os filósofos pré-socráticos, ao tentarem formalizar algum tipo de bioteísmo tal como fizeram Tales e Anaxímedes, acabaram criando algum tipo de monoteísmo, transferindo a complexidade bioteísta do deus natural para elementos principais que encerravam as características do universo. O pensamento ocidental sempre teve como norte a busca pelos princípios básicos, simplificando a complexidade do mundo de maneira excessiva (capacidade analítica num sentido kantiano) e criando conhecimentos que podem ser úteis e fornecer informações de característica epistêmica legítima. O que os precursores de nossa cultura ocidental se esquecem é que o mundo real é absurdamente mais complexo e diversificado do que os conceitos que criamos para compreendê-lo. O dividir para conquistar epistemológico e a dicotomização dos conceitos e do mundo (com herança em Anaximandro) foi sem dúvida algo que fez com que os humanos conseguissem cada vez mais compreender os fenômenos naturais, sob a pena de perder uma visão mais global e integrada do todo, como aquela que provavelmente teem os animais que, embora não pareçam conseguir formalizar conceitos de forma precisa, provavelmente compreendem e interagem com o mundo de forma talvez mais rica e plena.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;5. PANTEÍSMOS&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em cadeia seguindo solipsismo, antropoteísmo e bioteísmo, chegamos ao que decidi chamar aqui de panteísmo. O panteísmo seria como considerar deus presente em todas as coisas, inclusive em objetos inanimados industrializados. O panteísmo encerra a idéia de que todas as coisas teem algum tipo de energia e que esta energia possa ser conservada não só em seres vivos ou elementos naturais, mas também em todo o tipo de objetos. Não conheço qualquer tipo de formalização do panteísmo e acredito que ele funcione mais enquanto uma metafísica do indivíduo que respeita e dá valor ético e moral a todas as coisas do que enquanto uma verdadeiro tipo qualquer de religião. O panteísta tem amor e maravilhamento com todas as coisas e acredita existir uma energia mística tanto na natureza quanto no homem ou nos equipamentos tecnológicos. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;6. ATEÍSMOS&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O ateísmo consiste na negação das correntes teológicas acima descritas. De fato, o ateísmo pode ser entendido como a rejeição à mitologização da metafísica. Vale notar que o indivíduo que escolhe seguir esta corrente filosófica não é necessariamente alguém que não compartilhe do amor à natureza ou ao ser humano. Não é também, o ateu, alguém que não se maravilha ante a complexidade do universo, da natureza, do homem ou de qualquer coisa que se pense. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O ateu pode ser mais claramente identificado como um indivíduo que reconhece a complexidade do mundo e do universo e que nega qualquer tipo de mitologia a representar aquilo que não se compreende muito bem. Normalmente aquele que professa esta &lt;span style="font-style:italic;"&gt;anti-religião&lt;/span&gt; o faz devido à percepção da falha presente em qualquer outro modelo teórico de crenças metafísicas. Considerando os problemas metafísicos insolúveis, o ateu prefere negar as veracidades dos sistemas existentes e aceitar sua ignorância com relação a tais questões. É interessante observar que a negação de qualquer sistema de crenças formais é visto normalmente como desrespeitosa por todos aqueles que professam qualquer tipo de religião e embora, por exemplo, os antropoteístas embatam entre si, eles estão normalmente unidos contra aquele que questiona os princípios e a veracidade de qualquer religião. Isso se dá pelo fato de que (i) por não prezar em especial nem o homem ou a natureza ou todas as coisas, (ii) o ateu dá a impressão de ser um indivíduo sem valores éticos ou morais qualquer, ou seja, um puro egoísta. Esta afirmação entretanto é falsa e há um sem número de exemplos de indivíduos ateístas que apresentam uma profunda ética humanista e ecológica. O ateísmo, portanto, não implica em falta de ética, nem falta de maravilhamento, ele consiste simplesmente em negar qualquer tipo de explicação metafísica explícita uma vez que nenhuma delas pode ser defendida em bases empíricas ou lógicas. De fato, o ateu poderia argumentar que seu não respeitar em primasia uma ou outra vertente provavelmente o permite melhor avaliar o equilíbrio social entre todas as coisas que o homem precisa preservar: a si, ao meio ambiente e ao cosmos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;7. CONCLUSÃO&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Esta postagem tenta ser uma introdução ao enquadramento de filosofias teísticas em arcabouços conceituais amplos. Ela não é certamente definitiva e não esgota vários pontos de discussão sobre o assunto, muito pelo contrário. Parece que ela abre e monta esses arcabouços conceituais a partir dos quais novas elocubrações teóricas podem vir a ser desvendadas -- além de estudos empíricos, semióticos e pragmáticos com relação aos diferentes grandes sistemas de crenças.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em um grande número de sentidos, acredito que os antropoteísmos teem sido muito mais prejudiciais para o desenvolvimento de nossas sociedade do que seria o mundo no caso em que privilegiássemos os bioteísmos. A crise contemporânea e a busca por um desenvolvimento imediatista que jamais será sustentado; e temos cada vez mais destruído o planeta em que vivemos, desestabilizando este equilíbrio tênue que existe no mundo natural e que pode nos levar -- muito em breve -- a catástrofes ambientais de larga escala. É certo que o ser humano ano, ao longo dos últimos séculos, já foi responsável por uma imensa destruição dos ambientes naturais e pela extinção de um número incontável de espécies. Isso sem contar com a matança dos próprios seres humanos que apresentem crenças diferenciadas, como aconteceu à época da inquisição e que acontece hoje na guerra entre os americanos conservadores cristãos e os árabes fundamentalistas islâmicos. Assim, até hoje a política de negar e guerrear contra o diferente parece estar vingando. Voltando à questão ambiental, o grande ecossistema planetário (gaia) demorará um pouco a perceber os grandes danos que causamos a ele e procurará uma nova forma de encontrar uma estabilidade homeostática característica dos elementos naturais. Para o nosso azar, entretanto, é bastante possível que este novo equilibrío não nos permita viver como temos vivido ao longo de nossa história evolutiva e social. A idéia de que homem pode controlar o meio ambiente tem nos permitido desenvolver nossa ciência e técnica, mas em algum ponto talvez esses empreendimentos não sejam suficientes para nos salvar de nossa própria ganância e do desequilíbrio que estamos produzindo no ambiente. Talvez se abríssemos os documentos do Vaticano ainda sobrariam alguns documentos preocupados com o crescimento dos teísmos naturais e o mesmo se pronunciou claramente contra diversos princípios ressaltados por Cameron na obra Avatar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;==&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-style:italic;"&gt;8. NOTAS&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;[1] Favor não confundir aqui teológico com te&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;le&lt;/span&gt;ológico. A teologia é o estudo dos deuses e da fé ou prática religiosa. A teleologia é o estudo do princípio de causalidade, do propósito ou objetivo, onde eventos acontecem porque são derivados de determinadas causas que o tiveram como consequência. O que argumento aqui é que a teologia nasce da aplicação da teleologia para fins metafísicos. O homem, ao tentar explicar a causa teleológica para sua existência neste universo criou os grandes grupos de teologias que venho aqui argumentar sobre: antropoteísmo, bioteísmo, panteísmo e (negativamente) ateísmo.&lt;br /&gt;[2] Sobre o antropocentrismo já foram publicados vários textos neste mesmo blogue que mostram como nos temos pensado centrais dentro de um suposta pré-destinação do universo e como essas visões têm sido aos poucos rechaçadas pelo avanço do conhecimento científico. Copérnico, Galileu e Darwin foram alguns dos grandes arautos de uma visão que tira o homem do centro e coloca-nos em nosso devido lugar, ou seja, enquanto uma espécie animal vivendo em um planeta que está longe de ser o centro do universo. Para saber mais acesse clique &lt;a href="http://tragodefilosofia.blogspot.com/2009/09/historia-do-antropocentrismo-nas.html"&gt;aqui&lt;/a&gt;, &lt;a href="http://tragodefilosofia.blogspot.com/2009/09/o-antropocentrismo-nas-ciencias.html"&gt;aqui&lt;/a&gt;, &lt;a href="http://tragodefilosofia.blogspot.com/2009/09/e-impossivel-fugir-totalmente-do.html"&gt;aqui&lt;/a&gt;, &lt;a href="http://tragodefilosofia.blogspot.com/2009/09/proxima-queda-cognitiva-do.html"&gt;aqui&lt;/a&gt;, &lt;a href="http://tragodefilosofia.blogspot.com/2009/09/antropocentrismo-e-epistemologia-ii.html"&gt;aqui&lt;/a&gt;, &lt;a href="http://tragodefilosofia.blogspot.com/2009/09/antropocentrismo-e-epistemologia-i.html"&gt;aqui&lt;/a&gt; ou &lt;a href="http://tragodefilosofia.blogspot.com/2009/09/antropocentrismo.html"&gt;aqui&lt;/a&gt;.&lt;br /&gt;[3] Não se estranha com isso o fato de que, tendo tanto poder como o de criar todo um universo com milhares de estrelas e sóis e organismos vivos, deus não se tenha dado ao trabalho de fazer com que todos os humanos acreditassem Nele e só Nele. A onipotência de deus é limitada em certo sentido -- ele não pode por exemplo acabar com todas as injustiças do mundo, mas julgará os indivíduos no dia do juízo final -- o que apenas sugere ao religioso mais sobre o mistério da mente de deus -- que no fundo é totalmente comparável ao mistério das vidas humanas. Nos antropoteísmos, portanto, sempre a idéia de deus pelo homem faz paralelo com a idéia do homem por ele mesmo.&lt;br /&gt;[4] Memes são os chamados replicadores culturais. O termo "meme" foi originalmente cunhado pelo biólogo evolutivo Richard Dawkins, em sua obra prima "O gene egoísta". Entendidos como idéias simples ou complexos de idéias (memeplexos), especula-se que os memes evoluam tal qual genes em genomas. Memes que são relativos a idéias diferentes podem cooperar para fazer crescer seu memeplexo, enquanto alelos meméticos  que concorrem sobre uma mesma idéia -- a resposta existencial -- concorrem entre si e o mais forte vence e sobrevive na guerra de idéias. Com relação à resposta existencial, o meme do antropoteísmo venceu por muito tempo e matou máquinas de sobrevivência -- indivíduos humanos -- que tinham uma visão diferente sobre a mesmo loco memético (ou seja, a idéia teológica). Assim, o tribunal da inquisição não permitia que indivíduos que apresentassem visões alternativas sobre a resposta existencial sobrevivessem. Eram enforcados ou queimados como pagãos, hereges ou bruxos. Ainda hoje há bastante preconceito dos religiosos para com aqueles que professam outros tipos de teologia.&lt;br /&gt;[5] A idéias de deus aqui presentes devem ser entendida como: (i) a idéia aestética da maravilha ou mistério; (ii) a idéia da causa; (iii) a idéia da incompreensibilidade do mundo e da sociedade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;===&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;Inspirações e possíveis conflitos de interesses&lt;/span&gt;: Essa postagem foi indiretamente influenciada pela canção &lt;span style="font-weight:bold;"&gt;Bioteísmo&lt;/span&gt;, composta por este blogueiro para sua banda &lt;span style="font-style:italic;"&gt;Lacuna Explicativa&lt;/span&gt;, juntamente com Renato Malcher e Thoronto. Por sua vez, a música foi indiretamente influenciada -- dentre outras coisas -- pelo filme Avatar, de James Cameron e pelas leituras da obra de Joseph Campbell. O autor do presente ensaio é biólogo e agnóstico; ele não acredita que o universo precise ter uma causa, embora não consiga entender o que seria a ausência de tempo ou causalidade.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/23099929-6737691884658019250?l=tragodefilosofia.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://tragodefilosofia.blogspot.com/feeds/6737691884658019250/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=23099929&amp;postID=6737691884658019250&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/23099929/posts/default/6737691884658019250'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/23099929/posts/default/6737691884658019250'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://tragodefilosofia.blogspot.com/2010/08/principios-teologicos.html' title='Princípios teológicos'/><author><name>Prós</name><uri>http://www.blogger.com/profile/18282398415856299778</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='24' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/-OJfdox4-acU/Tm_oXf840OI/AAAAAAAAAlc/1ROS0tKzZ5k/s220/facebook_perfil_picture.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://1.bp.blogspot.com/_h2XRf7gRzfY/S_nau2GqKtI/AAAAAAAAAUk/Wf4zqIQ-d5o/s72-c/christ2.gif' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-23099929.post-742142459207307502</id><published>2010-07-10T19:25:00.006-03:00</published><updated>2011-04-18T14:16:59.500-03:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='biologia molecular'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='epistemologia'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='história da ciência'/><title type='text'>História da ciência: A descoberta da estrutura do DNA</title><content type='html'>&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://2.bp.blogspot.com/_h2XRf7gRzfY/TExGAPorwMI/AAAAAAAAAYM/UYJm2wEekCQ/s1600/watson-crick-dna.jpg"&gt;&lt;img style="display:block; margin:0px auto 10px; text-align:center;cursor:pointer; cursor:hand;width: 361px; height: 400px;" src="http://2.bp.blogspot.com/_h2XRf7gRzfY/TExGAPorwMI/AAAAAAAAAYM/UYJm2wEekCQ/s400/watson-crick-dna.jpg" border="0" alt=""id="BLOGGER_PHOTO_ID_5497846215123648706" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;blockquote&gt;&lt;span style="font-style:italic;"&gt;James Watson e Francis Crick com seu modelo da estrutura do DNA. Tendo publicado seu artigo em 1953, eles receberam o prêmio Nobel de medicina e fisiologia em 1962. O mais influente e elegante trabalho científico do século XX foi &lt;a href="http://www.nature.com/nature/dna50/watsoncrick.pdf"&gt;publicado&lt;/a&gt; na revista Nature no dia 25 de Abril de 1953 e tem pouco mais de uma única página. &lt;/span&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando Watson e Crick começaram seus estudos sobre a estrutura do DNA, ambos já haviam lido o clássico livro de Schrodinger entitulado "&lt;span style="font-style:italic;"&gt;What's life&lt;/span&gt;" ou "&lt;span style="font-style:italic;"&gt;O que é a vida&lt;/span&gt;". Nesta obra, o físico teórico austíaco Erwin Schrodinger (1887-1961) tentava explicar, utilizando apenas conceitos oriundos da física e da química, como poderia ser transmitida e codificada a &lt;span style="font-weight:bold;"&gt;hereditariedade&lt;/span&gt; nos organismos vivos. A idéia do &lt;span style="font-weight:bold;"&gt;vitalismo&lt;/span&gt;, segundo a qual os organismos biológicos eram compostos de um tipo de força mágica, o &lt;span style="font-style:italic;"&gt;élan vital&lt;/span&gt;, já vinha há muito perdendo força e o livro de Schrodinger, publicado em 1944, consistia justamente numa tentativa de explicar a hereditariedade sem apelar para nenhum resquício desta magia animadora das forças vivas que era utilizada como modelo explicativo para a vida desde a Grécia antiga.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em sua obra, Schrodinger argumentava que o gene deveria ser compreendido como uma molécula; uma molécula tal que fosse tão grande e &lt;span style="font-weight:bold;"&gt;estável&lt;/span&gt; como um cristal. Ela, entretanto, não poderia ser exatamente tão bem organizada e rígida como um cristal por um motivo muito simples: ela precisava guardar informação; a informação biológica para a função celular e para a hereditariedade. Um cristal, bem se sabe, consiste num conjunto de moléculas &lt;span style="font-style:italic;"&gt;altamente ordenadas&lt;/span&gt; e que, por sua ordem tão precisa e repetitiva, não é capaz de guardar formas complexas de informação. Um cristal de sal, por exemplo, não tem nenhuma informação e consiste simplesmente numa organização precisamente montada de átomos de sódio e cloro. É como se o cristal clássico consistisse numa única frase química repetida milhões de vezes, como o Na-Cl. Para formar um livro químico-informacional da vida, precisaríamos ter várias frases contendo diferentes sentidos, fórmulas semânticas complexas a encerrar toda a informação necessária para a vida acontecer e ser passada adiante. O material genético de uma célula precisa ser capaz de "organizar" e manter a vida, além de passar para as próximas gerações a informação sobre a vida que ela coordenou por algum tempo. Desde muito já se sabe que os filhos se parecem com os pais e que de alguma forma essa informação é passada ao longo das gerações quando do processo evolutivo. Só não se sabia como isso acontecia e até antes dos estudos de Mendel, que revelou o gene enquanto partículo, acreditava-se no modelo de herança por mistura, onde características da prole eram simplesmente explicadas através de misturas das características dos pais. Mendel mostrou que existiam características recessivas e dominantes e que, de alguma forma, a herança funcionava em grande medida como partículas hereditárias (genes) e não como misturas completas de características, tendo refutado assim o pensamento da "herança por mistura". Mas ninguém conseguia explicar até o momento como essa característica herdável, genética, era transmitida ao longo das gerações. Schrodinger foi o primeiro a dizer que esta informação genética deveria estar codificada de forma química, em algum tipo de molécula orgânica. Não haveria assim nenhum tipo de espírito ou força mágica a reger a hereditariedade e ele buscava encontrar algo físico, uma molécula, que encerrasse toda essa informação. Para Schrodinger, a moléculas mais adequada para armazenar informação seria uma molécula polimérica e de estrutura rígida, tal qual um cristal. Não obstante, os cristais até então conhecidos tinham estrutura tão simples e rígida, que não poderiam guardar informação complexa de nenhuma forma conhecida. O gene, conclui então Schrodinger, deve ser um tipo de molécula que seja um &lt;span style="font-weight:bold;"&gt;cristal aperiódico&lt;/span&gt;; um cristal sem período -- ou formas de repetição -- precisamente definido, uma molécula regular o suficiente para armazenar informação de forma precisa, mas irregular o suficiente para conter regiões informacionais ao invés de ser uma completa repetição de padrões não-informativos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://2.bp.blogspot.com/_h2XRf7gRzfY/TE22GF4GgdI/AAAAAAAAAYU/5UesQinZHHk/s1600/Erwin_schrodinger1.jpg"&gt;&lt;img style="display:block; margin:0px auto 10px; text-align:center;cursor:pointer; cursor:hand;width: 346px; height: 400px;" src="http://2.bp.blogspot.com/_h2XRf7gRzfY/TE22GF4GgdI/AAAAAAAAAYU/5UesQinZHHk/s400/Erwin_schrodinger1.jpg" border="0" alt=""id="BLOGGER_PHOTO_ID_5498250935862198738" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;blockquote&gt;&lt;span style="font-style:italic;"&gt;O físico austríaco Erwin Schrodinger (1887-1961). Sendo conhecido principalmente por ter desenvolvido uma equação que descreve como estado quântico de sistemas físicos evoluem através do tempo, Schrodinger também auxiliou os desenvolvimentos da biologia molecular ao teorizar sobre uma molécula capaz de carregar informação genética. Esse cristal aperiódico acabou mostrando-se como sendo o DNA, após os estudos de Watson e Crick. Um dos criadores da mecânica quântica e um dos mais brilhantes teóricos do século XX, Schrodinger questionou a ciência de seu tempo e produziu idéias e paradoxos ainda mal compreendidos pela ciência, como a idéia do gato de Schrodinger que pode estar vivo e morto ao mesmo tempo.&lt;/span&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A contribuição de Schrodinger, importantíssima, montava e prepara as bases teóricas para a descoberta do DNA, mas em momento algum o físico partiu para uma observação das moléculas naturais de forma a sugerir alguma delas como mais provável para carregar tais informações. Os biólogos, entretanto, consideravam as proteínas como as mais prováveis moléculas para a transmissão de informação. Isso acontecia simplesmente porque elas eram as moléculas mais estudadas à época, mais conhecidas e ao mesmo tempo apresentando tantas características marcantes e maravilhosas -- tais como enzimas fermentadoras -- que não era um salto bastante grande imaginá-las também a guardar o código da hereditariedade. Não obstante, ninguém havia conseguido provar que seriam elas as responsáveis por conter essa informação e muitos suspeitavam de outras moléculas orgânicas como mais prováveis portadoras do código para a evolução. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Watson relata em um de seus textos: "&lt;span style="font-style:italic;"&gt;Desde o dia de nosso primeiro  encontro, Crick e eu pensamos  que seria altamente provável  que a informação genética do DNA  fosse codificada pela sequência de quatro bases&lt;/span&gt;" [1]. Portanto, o ideal dos pesquisadores já partia da idéia de que era possível produzir algum modelo da estrutura molecular do DNA onde a &lt;span style="font-weight:bold;"&gt;informação&lt;/span&gt; estivesse contida justamente na sequência das quatro bases nitrogenadas. Sabia-se que o DNA era formado por nucleotídeos que estes continham duas partes estáveis (fosfato e a ribose) e uma parte que era diferente para cada classe de nucleotídeos. Tais diferenças químicas das bases produziam os diferentes nucleotídeos (A, C, G e T) e eram as únicas variações possíveis nessas moléculas. Watson e Crick, desde o primeiro momento, sacaram brilhantemente que o código informacional para a vida deveria vir a partir da formação de "frases químicas" de DNA. Cada gene seria assim constituído de conjuntos regularmente ordenados de bases nitrogenadas, como ACGGTTCAGATCGAT, onde a ordem das bases funcionaria como a ordem das letras/caracteres em uma linguagem qualquer, como o português ou o inglês. A informação do gene estaria para a sequência de bases assim como a informação contida em uma palavra estaria em sua sequência de letras ou caracteres constituintes. A informação no DNA viria da sequência de letras e, de alguma forma, a célula seria capaz de ler, processar e passar adiante essa informação. Eles "só" precisavam saber como isso aconteceria. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É importante notar que, até este momento, a estrutura conhecida para o DNA era a estrutura proposta pelo médico russo Phoebus Levene [2] que, por volta de 1910, já descobrira que o DNA era composto por nucleotídeos que se diferenciavam principalmente pela natureza de suas bases nitrogenadas. Levene chegou mesmo a propor uma estrutura para a molécula de DNA. Para ele, no entanto, o DNA consistia numa molécula simples formada por quatro nucleotídeos ligados entre si sem a possibilidade de qualquer variação capaz de guardar informação. Se o DNA se apresentasse realmente dessa forma, ele não poderia formar longas moléculas (polímeros [3]) e não poderia guardar a informação necessária. Segundo François Jacob, em seu excelente livro, "A lógica da vida", à época o "&lt;span style="font-style:italic;"&gt;ácido nucléico aparece assim como uma espécie molecular sem variedade nem fantasia, portanto sem aptidão para desempenhar qualquer papel na hereditariedade. Sendo assim, atribui-se este papel às proteínas, ainda que suas propriedades se prestem mal a ele&lt;/span&gt;." Jacob continua: "&lt;span style="font-style:italic;"&gt;Por sua complexidade, a hereditariedade parece estar fora do alcance da química experimental&lt;/span&gt;." [4]&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://4.bp.blogspot.com/_h2XRf7gRzfY/SsKOb86cfgI/AAAAAAAAAKo/jjW-1hSiUmU/s1600-h/dnaLevene.jpg"&gt;&lt;img style="display:block; margin:0px auto 10px; text-align:center;cursor:pointer; cursor:hand;width: 300px; height: 291px;" src="http://4.bp.blogspot.com/_h2XRf7gRzfY/SsKOb86cfgI/AAAAAAAAAKo/jjW-1hSiUmU/s320/dnaLevene.jpg" border="0" alt=""id="BLOGGER_PHOTO_ID_5387024715147410946" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;span style="font-style:italic;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;blockquote&gt;&lt;span style="font-style:italic;"&gt;Diagrama molecular de um tetranucleotídeo hipotético, proposto incorretamente por Phoebus Levene, por volta de 1910. Se o DNA fosse realmente assim, não poderia formar longas moléculas (polímero) e não poderia armazenar informação hereditária. Assim, ele foi inicialmente descartado enquanto responsável por esta função.&lt;/span&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A estrutura do DNA segundo Levene (1869-1940), portanto, não possuía as características necessárias para transmitir a informação. Como a quantidade observada para cada um dos nucleotídeos do DNA era muito próxima, Levene pensou que a molécula formasse um tetrâmero simples de nucleotídeos constituído por uma qualidade de cada base (A, C, G e T), onde as bases seriam unidas entre si pelo carbono 3'OH. Embora incorreta, a estrutura de Levene é bastante inteligente e elegante. Porém, pelo fato de não formar uma &lt;span style="font-weight:bold;"&gt;molécula polimérica&lt;/span&gt; (leia-se: grande) ou aperiódica, ela não poderia carregar informação. Na primeira metade do século XX, o próprio Levene foi o primeiro a defender de que os ácidos nucléicos não poderiam carregar informação posto que apresentavam uma estrutura muito simples. Assim, a maior &lt;span style="font-style:italic;"&gt;sumidade&lt;/span&gt; em química de ácidos nucléicos, o descobridor da ribose (1909), desoxiribose (1929) e das próprias unidades dos nucleotídeos (monômeros do DNA) dizia que tais moléculas não carregavam informação. Quem seria louco o suficiente para discordar dele?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas Levene havia falecido em 1940 e Watson e Crick pareciam já ter descartado todas as outras possibilidades de moléculas como responsáveis pela transmissão da hereditariedade. Além disso, experimentos como os de Avery, McLeod e MacCarthy (em 1944), assim como os de Hershey e Chase (1952) demonstravam o papel do DNA como carregador da informação genética. O experimento de Avery e colaboradores, embora evidenciasse claramente que o DNA teria sido a molécula responsável pela transmissão genética foi colocado em dúvida por vários cientistas. Dentre eles, o principal era o americano Alfred Mirsky que sugeria que o experimento de Avery estivesse contaminado com proteínas. Posteriormente Mirsky foi contra a sugestão de Avery para ganhador do nobel, e foi somente depois de Watson e Crick que o DNA foi realmente tido pela comunidade como o verdadeiro transmissor da informação genética. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como já comentado, desde o primeiro encontro Watson e Crick, já houve a concordância sobre o fato de que a informação genética deveria decorrer de uma sequência não-aleatória de nucleotídeos contendo bases ordenadas. Agora eles necessitavam "apenas" conseguir um modelo segundo o qual ficasse clara como toda essa sequência de bases se dispunha no espaço de forma precisa; eles queriam encontrar uma estrutura que verificasse esse seu sentimento profundo de que o código seria disposto desta forma.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vale notar que a famosa figura produzida nos laboratórios de Rosalind Franklin (1920-1958) no King's College de Londres (Watson e Crick trabalhavam em Cambridge) não esclarecia lá muita coisa. Ela indicava apenas que o DNA possuiria uma estrutura helicoidal, mas não explicava nada sobre como os nucleotídeos seriam dispostos para formar a estrutura. De fato, se a referida micrografia da difração em raios-X do DNA explicasse alguma coisa de forma direta, teria sido Rosalind a descobrir a estrutura da molécula; e não Watson e Crick. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://4.bp.blogspot.com/_h2XRf7gRzfY/SsKSqS_WPdI/AAAAAAAAAKw/L8OOHF2xFO0/s1600-h/raioXdna.jpg"&gt;&lt;img style="display:block; margin:0px auto 10px; text-align:center;cursor:pointer; cursor:hand;width: 122px; height: 125px;" src="http://4.bp.blogspot.com/_h2XRf7gRzfY/SsKSqS_WPdI/AAAAAAAAAKw/L8OOHF2xFO0/s320/raioXdna.jpg" border="0" alt=""id="BLOGGER_PHOTO_ID_5387029359638232530" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;blockquote&gt;&lt;span style="font-style:italic;"&gt;A famosa auto-radiografia da molécula de DNA. Produzida pelo laboratório de Rosalind Fraklin em Londres, teria sido supostamente "roubada" por Watson. A imagem, entretanto, não resolve o problema da estrutura da molécula; ela apenas mostra que a molécula parecia ter um forma helicoidal. Mas como seria essa hélice? Como ela seria montada? Como ela transmitiria a hereditariedade?&lt;/span&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Para se ter uma idéia de como a auto-radiografia da molécula não é tão informativa sobre o modelo, Linus Pauling publicou uma estrutura do DNA em tripla hélice baseando em dados similares (ainda que de pior qualidade), no mês de fevereiro de 1953. O modelo de Pauling, publicado cerca de dois meses antes do modelo de Watson e Crick, estava simplesmente incorreto. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Watson e Crick, entretanto, vinham aos poucos acumulando novas informações que os ajudaram a montar o modelo preciso da estrutura do DNA. Eles concordavam que a molécula deveria transmitir informação a partir da sequência de bases e a partir dos dados experimentais sabiam que ela deveria ter um formato helicoidal. De mais a mais, eles ainda tinham algumas outras informações altamente relevantes [5]:&lt;br /&gt;* &lt;span style="font-style:italic;"&gt;Astbury&lt;/span&gt; havia proposto que o DNA fosse uma longa molécula linear;&lt;br /&gt;* &lt;span style="font-style:italic;"&gt;Maurice Wilkins&lt;/span&gt; tinha experimentos que diziam que, num mesmo cristal de DNA, deveriam haver duas ou três moléculas;&lt;br /&gt;* &lt;span style="font-style:italic;"&gt;Chargaff&lt;/span&gt; mostrara que a quantidade de nucleotídeos A era similar ao T; e o número de nucleotídeos G era similar ao C -- até antes disso, pensava-se, com Levene, que a proporção entre todas as bases era idêntica;&lt;br /&gt;* &lt;span style="font-style:italic;"&gt;John Griffith&lt;/span&gt; sugeria a idéia do pareamento A=T, G=C.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Com herança de Schrödinger, eles sabiam ainda que a molécula de DNA deveria ser capaz de formar algum tipo de cristal e, assim, deveria ser regular; porém não extremamente regular, de forma que não pudesse conter informação. Porém, se a molécula deveria ser regular em alguma região, ela deveria ser regular justamente nas regiões de similaridade entre os nucleotídeos. Sendo formados por fosfatos, riboses e bases nitrogenadas, os nucleotídeos que formavam as moléculas de ácidos nucléicos eram idênticos na região do &lt;span style="font-weight:bold;"&gt;fosfato&lt;/span&gt; e da &lt;span style="font-weight:bold;"&gt;(desoxi)ribose&lt;/span&gt;, diferenciando-se nas características químicas das bases nitrogenadas. Assim a molécula poderia ser bastante regular na ordem e composição consecutiva dos nucleotídeos com relação ao fosfato e à ribose. Por outro lado, a sequência de bases seria aquilo que conteria a informação e que poderia apresentar estrutura ligeiramente irregular, sendo responsável pelo armazenamento e transmissão da informação. Watson diz que este pensamento os levava a crer que o &lt;span style="font-weight:bold;"&gt;esqueleto invariável fosfato-ribose&lt;/span&gt; da molécula deveria estar contido no centro da molécula [4]. Linus Pauling também pensava assim, tanto é que sua estrutura tripla apresentava os esqueletos ribose-fosfato no centro e as bases no exterior. (No modelo correto, eram as bases que se pareavam internamente na molécula.)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Watson decidiu então desenhar e montar modelos atômicos das bases para tentar encaixá-las espacialmente seguindo as regra de Chargaff (A=T, G=C) e no dia seguinte, quando mostrou a Crick seus resultados este percebeu que o pareamento permaneceria válido mesmo se as bases fossem trocadas de lugar. Isso significava que o A poderia estar em uma fita ou outra e mesmo assim parear com o T, um de cada lado da fita. Entretanto, ainda que o A encaixasse físico-quimicamente de forma precisa com o T, o pareamento G=C não se formava de forma adequada. Em uma palestra sobre a descoberta da estrutura do DNA, Watson aconselha: "nunca seja a pessoa mais esperta de uma sala" [5]. Na dúvida sobre como ocorreria o pareamento entre G e C, Watson recorreu ao pesquisador que houvera publicado a mais recente estrutura química para o nucleotídeo de guanosina (G). Reclamou com Jerry Donahue que a estrutura descrita para a base guanina era um problema para a montagem do modelo que vinha tentando resolver. Ao mostrar então seu modelo para o pesquisador, Donahue disse que os hidrogênios estavam colocados em locais diferentes, errados, a guanina houvera sido publicada na sua forma cetônica, o que dificultava o pareamento com a citosina. Porém a forma aldólica era também provável, possível e tida por alguns como mais correta. Foi ao tentar encaixar a citosina com a nova guanina que os olhos de Watson brilharam; ele havia finalmente encontrado o pareamento de bases do DNA! "E então sabíamos que tinhamos algo grande, você sabe, porque se você coloca o A perto do T e o G perto do C, você tem um mecanismo de cópia. Assim vimos como a informação genética é codificada na forma de quatro bases, sendo portanto um tipo de informação digital", diz Watson em sua conferência TED [6].&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://2.bp.blogspot.com/_h2XRf7gRzfY/TEw-Lol5NPI/AAAAAAAAAX8/cVM9ls-eNEs/s1600/dna_struct.gif"&gt;&lt;img style="display:block; margin:0px auto 10px; text-align:center;cursor:pointer; cursor:hand;width: 266px; height: 400px;" src="http://2.bp.blogspot.com/_h2XRf7gRzfY/TEw-Lol5NPI/AAAAAAAAAX8/cVM9ls-eNEs/s400/dna_struct.gif" border="0" alt=""id="BLOGGER_PHOTO_ID_5497837614708372722" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;i&gt;&lt;blockquote&gt;A estrutura do DNA conforme sugerida por Watson e Crick. O esqueleto fosfato-ribose forma a estrutura rígida da molécula. No centro, as bases nitrogenadas se ligam de acordo com o pareamento Watson-Crick, A=T/G=C. As duas fitas das moléculas de DNA são antiparalelas, uma apresenta o fosfato na extremidade de cima, outra na de baixo. A estrutura química originalmente publicada para o nucleotídeo guanina (G) não permitia um encaixe fisico-químico perfeito na citosina (C) e foi preciso rearranjar a teoria para adequá-la à estrutura Watson-Crick.&lt;/blockquote&gt;&lt;/i&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A descoberta do pareamento de bases, associada ao esqueleto fosfato-ribose, permitia agora que o DNA pudesse ser descrito como a grande molécula polimérica que é. Consistindo de fato, de duas moléculas que se enroscam, a estrutura do DNA podia agora ser corretamente explicada. Cada uma das moléculas era formada por um esqueleto rígido de fosfatos e riboses que estavam, de fato, do lado mais externo da molécula. As bases se pareariam na parte interna da mesma, sendo o pareamento Watson-Crick sempre realizado de forma precisa entre as variedades A=T e G=C. Cada uma das fitas da molécula de DNA conteria toda a informação necessária para codificar a vida e a partir daí ficava claro que a replicação do DNA aconteceria de forma semi-conservativa. As fitas se separariam e -- uma vez que cada uma conteria toda a informação necessária -- o DNA seria duplicado ao se formarem novas fitas a partir daquelas já existentes. Mecanismos moleculares seriam responsáveis por separar as fitas de DNA e irem adicionando novos nucleotídeos às fitas recém-sintetizadas. Onde houvesse A na fita velha, adicionar-se-ia um T à nova. Com o pareamento Watson-Crick ficava claro como a replicação do DNA aconteceria e esta teria se mostrado uma idéia simples, elegante e brilhante. De fato, a maior idéia científica e o mais belo modelo teórico das ciências no século XX. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://1.bp.blogspot.com/_h2XRf7gRzfY/TExEjfEZ9FI/AAAAAAAAAYE/Bsx7hASi8LE/s1600/dna_replication.gif"&gt;&lt;img style="display:block; margin:0px auto 10px; text-align:center;cursor:pointer; cursor:hand;width: 320px; height: 385px;" src="http://1.bp.blogspot.com/_h2XRf7gRzfY/TExEjfEZ9FI/AAAAAAAAAYE/Bsx7hASi8LE/s400/dna_replication.gif" border="0" alt=""id="BLOGGER_PHOTO_ID_5497844621538620498" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-style:italic;"&gt;&lt;blockquote&gt;A replicação semi-conservativa da molécula de DNA. Uma vez definido o pareamento preciso dos pares de bases e compreendido que o esqueleto do DNA era formado por uma sequência fosfato-ribose, automaticamente explicava-se a forma de replicação da molécula. O modelo, portanto, não era apenas coerente, seu conteúdo empírico era tão bem consolidado que a mera observação do mesmo já permitia que vários outros mecanismos fossem compreendidos de forma clara e direta. As novas moléculas de DNA eram produzidas a partir das velhas, que funcionavam como molde para a síntese das novas fitas. A fita dupla se separava e cada uma das fitas simples que anteriormente a constituia era usada como molde para a fabricação de novo DNA. Onde houvesse A em uma fita velha, adicionar-se-ia um T à nova. O pareamento Watson-Crick (A=T, G=C) explicava a replicação de maneira efetiva.&lt;/blockquote&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ao longo das décadas que se seguiram, o modelo de Watson-Crick para a estrutura do DNA forneceu um forte, preciso e valioso subsídio para o desenvolvimento da ciência da &lt;span style="font-weight:bold;"&gt;biologia molecular&lt;/span&gt;. Nos anos que se seguiram foram descobertas (i) as funções do RNA, (ii) o código genético, (iii) a forma precisa como operam os ribossomos e (iv) como a informação do DNA era direcionada para a síntese de proteínas. Essas novas evidências permitiram o amadurecimento da biologia molecular enquanto modelo teórico para a coordenação das funções intracelulares e hereditariedade. Por volta de 1968, enzimas que permitem o corte e a montagem de pedaços de DNA foram também encontradas e forneceram as bases para a &lt;span style="font-weight:bold;"&gt;engenharia genética&lt;/span&gt; e a transgenia. Mas essas são histórias para outros tragos de filosofia, permitir-me-ei agora fazer uma pequena análise epistemológica desses desenvolvimentos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;== Análise epistemológica das descobertas de Watson e Crick: Duhem e anomalias &lt;span style="font-style:italic;"&gt;a posteriori&lt;/span&gt; ==&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://2.bp.blogspot.com/_h2XRf7gRzfY/TEw0GNOLV3I/AAAAAAAAAX0/SlXi2kkvcac/s1600/Pierre_Duhem.jpg"&gt;&lt;img style="display:block; margin:0px auto 10px; text-align:center;cursor:pointer; cursor:hand;width: 275px; height: 326px;" src="http://2.bp.blogspot.com/_h2XRf7gRzfY/TEw0GNOLV3I/AAAAAAAAAX0/SlXi2kkvcac/s400/Pierre_Duhem.jpg" border="0" alt=""id="BLOGGER_PHOTO_ID_5497826526345516914" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;blockquote&gt;"Pierre Duhem foi um físico e filósofo da ciência francês que viveu entre 1861 e 1916. Para Duhem, uma teoria científica é formada por um conjunto de enunciados e apresenta consequências empirícas (CE) (...) Duhem estabelece que a refutação de uma consequência empírica não refuta necessariamente a teoria. Sendo que a teoria é composta por um conjunto de enunciados, algum deles é que pode ser falso -- e assim algum artifício &lt;span style="font-style:italic;"&gt;ad hoc&lt;/span&gt; pode ser usado para explicar a falsidade local e salvar a teoria. O cerne da questão está relacionado ao fato de que, em um experimento, nunca se sabe exatamente o que se está testando e uma teoria é sempre testada em blocos, estando vinculada a um conjunto determinado de pressupostos." (Prosdocimi, 2007) [7]&lt;/blockquote&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Esta foi a introdução a Duhem que dei há dois anos. E se venho aqui novamente falar dele, é porque foi ele quem introcedeu meu caminho intelectual enquanto estudava sobre a &lt;span style="font-weight:bold;"&gt;história da biologia molecular&lt;/span&gt;. O exemplo que mostrarei a seguir esclarece de certa forma o modelo duhemiano de desenvolvimento das ciências.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É interessante observar na história acima descrita principalmente como a nova teoria de Watson e Crick permitiu uma re-acomodação de conhecimentos anteriormente já descritos sem que eles fossem completamente refutados. A própria estrutura do DNA de Levene não estava de todo incorreta. Levene acertou que os nucleotídeos se ligavam através do fosfato e da ribose, ele só não foi capaz de imaginar uma grande molécula polimérica contendo milhares ou milhões de nucleotídeos ligados entre si. Para Levene, o DNA seria uma molécula como a aspirina, ou seja, uma molécula precisa e inerte, não algo capaz de formar uma longa cadeia onde suas pequenas variações de bases nitrogenadas formariam um código químico-informacional para a hereditariedade. De fato, essa é uma idéia bastante sofisticada que precisou ser incorporada lentamente ao desenvolvimento científico e à forma de se fazer ciência pelos pesquisadores. De fato, o paper de Watson-Crick não foi imediatamente aclamado como revolucionário, foram necessários alguns anos até que o modelo fosse plenamente compreendido e tido como correto -- o nobel lhes foi conferido apenas nove anos depois da publicação original, em 1962. Só com os desenvolvimentos posteriores da linha de pesquisa em biologia molecular e a verificação de sua eficiência como modelo explicativo, além de sua fertilidade enquanto programa de pesquisa é que deram o alto estatus aos pesquisadores como tendo realizado algum dos maiores feitos da história da ciência no século XX.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É interessante notar como as teorias epistemológicas baseiam-se excessivamente na completa desconstrução dos conhecimentos do passado -- ou na refutação de teorias -- para erigir novas teorias. Creio que este exemplo demonstra que a evolução da ciência está mais relacionado a uma nova acomodação dos dados já existentes segundo uma nova perspectiva ou lógica de enxergar o mundo. Acredito que é esta acomodação de fatos antigos a novas evidências ou modelos teóricos que promove as revoluções científicas. A anomalia não existe no sentido de refutar algo que então deixa de existir, mas a anomalia consiste de fato na descrição parcial ou imprecisa de uma questão empírica -- tal como no fato da estrutura de Levene ou da descrição do modelo químico da guanina. Assentadas sob novos pressupostos teóricos, os &lt;span style="font-style:italic;"&gt;fatos&lt;/span&gt; e suposições anteriormente tidos como verdadeiros são capazes de se ajustar a uma nova teoria que já tenha sido razoavelmente bem desenvolvida, mas que esbarrava nesta anomalia. O dado anômalo quando corrigido e reinterpretado corrobora com eficácia e elegância uma teoria nova. O pareamento de bases e as consequências empíricas advindas do mesmo permitiu uma reformulação de conhecimentos antigos que agora se adaptavam de forma totalmente coerente a um novo modelo teórico. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A tarefa do cientista criativo, tal qual Watson e Crick parece ser, em primeiro lugar: formular uma teoria bem montada racionalmente e, posteriormente, buscar encontrar evidências no próprio poço científico do conhecimento que a corroborem. Normalmente tais evidências não estarão "formatadas" para este novo pensamento, mas podem ser re-interpretadas à luz da nova teoria, dando-lhe mais força enquanto modelo teórico de descrição da natureza. A anomalia, portanto, muitas vezes só é percebida &lt;span style="font-style:italic;"&gt;a posteriori&lt;/span&gt;, ou seja, quando já existe um novo modelo proposto que exige a reformulação de determinados conhecimentos antigos. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;====&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;[1] Watson, JD. Early Speculations and Facts about RNA Templates, 1993 (p. 24). In: a passion for DNA: genes, genomes and society. 252p. &lt;br /&gt;[2] Phoebus Aaron T Levene  (1869–1940) foi um médico russo que se erradicou nos EUA por volta de 1893. Trabalhando no Instituto Rockfeller, em NY, ele descobriu a ribose (1909) e a desoxiribose (1929). Foi ele também quem sugeriu a estrutura dos nucleotídeos como fosfato-acúcar-base.&lt;br /&gt;[3] Um polímero consiste simplesmente de uma molécula grande formada pela união de várias moléculas pequenas, chamadas de monômeros. O DNA, por exemplo, consiste num polímero de nucleotídeos, enquanto a proteína consiste num polímero de aminoácidos e o glicogênio é um polímero de glicoses. Analogamente poder-se-ia dizer que um colar de pérolas é um polímero de pérolas.&lt;br /&gt;[4] Jacob, François. &lt;a href="http://www.livrariacultura.com.br/scripts/cultura/resenha/resenha.asp?nitem=2719368&amp;sid=01992055112730588695506560&amp;k5=2E747168&amp;uid="&gt;A lógica da vida&lt;/a&gt;. 2001. GRAAL EDITORA. Edição original francesa publicada em &lt;a href="http://www.amazon.fr/Logique-du-vivant-Fran%C3%A7ois-Jacob/dp/2070293343"&gt;1976&lt;/a&gt;.&lt;br /&gt;[5] Linus Pauling and the race for DNA. Developing an Idea of the DNA Structure. (1:38) James D. Watson  &lt;a href="http://osulibrary.oregonstate.edu/specialcollections/coll/pauling/dna/video/1973v.3-irregular.html"&gt;http://osulibrary.oregonstate.edu/specialcollections/coll/pauling/dna/video/1973v.3-irregular.html&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;[6] TED talk: James Watson fala sobre a estrutura do DNA. http://www.ted.com/talks/james_watson_on_how_he_discovered_dna.html&lt;br /&gt;[7] Prosdocimi, 2007. A tese Duhem-Quine. Série: epistemologia da ciência. Blog Trago de filosofia, &lt;a href="http://tragodefilosofia.blogspot.com"&gt;http://tragodefilosofia.blogspot.com&lt;/a&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/23099929-742142459207307502?l=tragodefilosofia.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://tragodefilosofia.blogspot.com/feeds/742142459207307502/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=23099929&amp;postID=742142459207307502&amp;isPopup=true' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/23099929/posts/default/742142459207307502'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/23099929/posts/default/742142459207307502'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://tragodefilosofia.blogspot.com/2010/07/historia-da-descoberta-da-estrutura-do.html' title='História da ciência: A descoberta da estrutura do DNA'/><author><name>Prós</name><uri>http://www.blogger.com/profile/18282398415856299778</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='24' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/-OJfdox4-acU/Tm_oXf840OI/AAAAAAAAAlc/1ROS0tKzZ5k/s220/facebook_perfil_picture.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://2.bp.blogspot.com/_h2XRf7gRzfY/TExGAPorwMI/AAAAAAAAAYM/UYJm2wEekCQ/s72-c/watson-crick-dna.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-23099929.post-6793044493339446004</id><published>2010-06-15T20:22:00.002-03:00</published><updated>2010-07-01T21:17:06.655-03:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='agnosticismo'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='autobiografia'/><title type='text'>Autobiografia da minha descrença</title><content type='html'>&lt;br&gt;Comprei recentemente um livro do físico inglês e co-descobridor da dupla-hélice do DNA, Sir &lt;span style="font-style:italic;"&gt;Francis Crick&lt;/span&gt; (1916—2004). Ao ler o primeiro capítulo de seu livro "&lt;span style="font-style:italic;"&gt;What mad pursuit: a personal view of scientific discovery&lt;/span&gt;", encontrei alguns parágrafos onde reparei que Crick fazia uma pequena autobiografia de sua descrença e ceticismo perante as religiões. Foi isso me fez lembrar deste texto que segue abaixo, cujo rascunho foi originalmente escrito em 2007 e que eu jamais houvera terminado de escrever ou publicado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://4.bp.blogspot.com/_h2XRf7gRzfY/TC0sunjKZeI/AAAAAAAAAXk/F3YrVTbzVWY/s1600/0465091385.01._SX140_SY225_SCLZZZZZZZ_.jpg"&gt;&lt;img style="display:block; margin:0px auto 10px; text-align:center;cursor:pointer; cursor:hand;width: 140px; height: 224px;" src="http://4.bp.blogspot.com/_h2XRf7gRzfY/TC0sunjKZeI/AAAAAAAAAXk/F3YrVTbzVWY/s400/0465091385.01._SX140_SY225_SCLZZZZZZZ_.jpg" border="0" alt=""id="BLOGGER_PHOTO_ID_5489092700236572130" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-style:italic;"&gt;&lt;blockquote&gt;No primeiro capítulo deste livro sobre uma visão pessoal do empreendimento científico -- onde o autor dá detalhes sobre as idéias que culminaram e que se desenvolveram a partir da estrutura do DNA -- Crick faz uma digressão sobre a origem de seu ceticismo com relação às religiões. Isso me incentivou a retomar este texto escrito originalmente em 2007 e publicá-lo como uma breve história pessoal do desenvolvimento de minha descrença até meu maravilhamento com o mundo.&lt;/blockquote&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Li a autobiografia de minha descrença novamente hoje (depois de aproximadamente 3 anos) e realizei ligeiras modificações antes de terminar a versão final que agora vos apresento. Aqui tentei delinear como meus pensamentos sobre as religiões e os misticismos foram sendo moldados desde a minha infância e como determinados eventos de minha vida pessoal influenciaram na formação de tais idéias. Tendo nascido em uma família católica não-praticante e adepta de diversas crenças, na adolescência li o livro "&lt;span style="font-style:italic;"&gt;O mundo assombrado pelos demônios&lt;/span&gt;", de &lt;span style="font-style:italic;"&gt;Carl Sagan&lt;/span&gt;, que ajudou a resumir muito do que eu já pensava sobre o mundo mas não tinha sido capaz de expor ou compreender de forma clara. Assim conheci a fabulosa ciência e o método científico, armas potentes contra todos os males espirituais. Por algum tempo advoguei então contra qualquer tipo de crença, que considerava idiota, e defendi uma abordagem estritamente científica do mundo. Isso foi até eu terminar meus estudos de graduação (em ciências biológicas). Então me transformei num cientista profissional; e agora vejo claramente as fraquezas do empreendimento científico e as podres politicagens que acontecem neste mundo. Em um momento de crise percebi também o misticismo dentro de mim mesmo, e foi uma amiga italiana que me apresentou o teólogo &lt;span style="font-style:italic;"&gt;Joseph Campbell&lt;/span&gt; com seus documentários da série "&lt;span style="font-style:italic;"&gt;O poder do mito&lt;/span&gt;". Campbell me iluminou e então percebi que o senso de maravilhamento que tenho para com o mundo e as pessoas não pode ser descrito -- em absoluto -- pela ciência. Tendo me tornado um cientista profissional, passei a duvidar bastante do alcance da ciência, percebi que há muito mais que ainda não sabemos do que há o que sabemos. É isso, de fato, que alavanca o desenvolvimento da ciência. Passei a duvidar em grande medida de determinados conhecimentos científicos e vi como a ciência é podre por dentro (Thomas Kuhn também me iluminou neste ponto). Por outro lado, jamais voltei a acreditar em nada que pudesse ter a insígnia de &lt;span style="font-style:italic;"&gt;místico&lt;/span&gt;. Hoje vejo as religiões institucionalizadas como fadadas ao fracasso ou simplesmente como empresas que usam as mentes dos fiéis como cofres. O sentimento de maravilhamento ou de que há tanto mais por aí a saber me invadem todos os dias e me dão força para viver, sem que eu precise chamar nada disso de místico, chamo apenas de belo, complexo ou inexplicável. E me maravilho com tudo isso sem buscar explicações; isso me basta e pode me caracterizar como um tipo de &lt;span style="font-style:italic;"&gt;existencialista epistemológico&lt;/span&gt;. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;===&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Embora minha família jamais tenha professado de forma rígida qualquer religião, cresci em um meio católico. Poder-se-ia dizer, inclusive que, retirando uma ou outra exceções, a grande maioria dos belo-horizontinos da minha geração e meio social viviam em família católicas não praticantes. Meus pais jamais foram à missa nos dias de domingo, embora frequentássemos a igreja em ocasiões tais quais batizados, casamentos, missas de sétimo dia, etc. Minhas irmãs e eu fomos ensinados a rezarmos antes de dormir, realizando agradecimentos e pedidos a um suposto deus inteligente, em forma humana, além de anjos da guarda e santos específicos para pedidos específicos. No Brasil, entretanto, o sincretismo religioso sempre se fez presente e tanto meu pai quanto minha mãe frequentavam centros espíritas ou algum clarividente que fosse indicado por pessoa conhecida. Lembro com razoável perfeição de uma das minhas primeiras aulas de catecismo, onde as crianças de aproximadamente 10 anos de idade eram preparadas para encontrarem pela primeira vez com o cristo durante a realização da primeira comunhão. Recordo-me de ter sido obrigado a confessar meus pecados e, como não os tinha, inventei que batia em minha irmã mais nova ou brigava com meus pais. É claro que tais coisas por vezes aconteciam, como é comum em qualquer família, mas eu não as via como pecado e também não eram de todo frequentes. Assim mesmo, confessei-as mais por não saber ao certo o que seria um ato mau ou pecado e estas foram as coisas que mais me parecem erradas dentre as que fazia vez por outra. E fui então “punido” com a ida ao púlpito e a realização de uma oração do pai-nosso e duas ave-marias, que lembro ter processado com certa sofreguidão, um pouco de culpa e uma pitada de incompreensão do “para quê” de tudo aquilo. Hoje vejo que estava certamente estava sendo iniciado em uma doutrina, mas eu jamais aceitara como natural seus procedimentos. Pelo contrário, eles me pareciam artificiais e me causavam bastante estranhamento. Depois de tudo passado, lembro ter perguntado a alguns colegas qual teria sido a pena deles quando da confissão – jamais teria tido a coragem de querer saber-lhes os pecados – e lembro que a todos a quem postulei as questões terem me respondido que pagaram seus pecados com o mesmo número de aves-marias e pais-nossos, respectivamente, dois e um. Lembro que achei razoavelmente absurdo o fato de que pecados diferentes tivessem sempre a mesma pena oratória a ser professada. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://3.bp.blogspot.com/_h2XRf7gRzfY/TC0BGU0CF1I/AAAAAAAAAWs/ROo8G8eB0mM/s1600/confessionario.png"&gt;&lt;img style="display:block; margin:0px auto 10px; text-align:center;cursor:pointer; cursor:hand;width: 320px; height: 258px;" src="http://3.bp.blogspot.com/_h2XRf7gRzfY/TC0BGU0CF1I/AAAAAAAAAWs/ROo8G8eB0mM/s400/confessionario.png" border="0" alt=""id="BLOGGER_PHOTO_ID_5489044729012295506" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-style:italic;"&gt;&lt;blockquote&gt;Foi por volta de 10 anos que realizei minha primeira (e única) confissão. Vindo de uma família católica não-praticante, rezávamos todas as noites realizando agradecimentos e pedidos a um deus de inteligência humana ou a anjos-da-guarda protetores.&lt;/blockquote&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Já na minha pré-adolescência, meu pai entrou num grupo de indivíduos auto-intitulados mediúnicos. Até onde eu conseguia e consigo até hoje perceber, eles haviam reunido duas correntes mitológicas razoavelmente distintas e iniciam uma suposta seita de paramédicos responsáveis pela cura de doenças graves -- principalmente aquelas onde a medicina tradicional não era capaz de dar solução. Haviam reunido num só grupo a idéia  oriunda da medicina indiana de que (i) o corpo tinha regiões de entrada e saída de energia, a saber, os &lt;span style="font-weight:bold;"&gt;chacras&lt;/span&gt;; com a idéia da (ii) &lt;span style="font-weight:bold;"&gt;radiestia&lt;/span&gt;, onde essas energias emitidas pelos chacras poderiam ser observadas e trabalhadas com o auxílio de pêndulos formados por pequenos cristais ligados a barbantes simples. Mais uma vez unindo tradições diferentes ante a mescla cultural de caráter legitimamente brasileiro, os médiuns também criavam novas idéias. Assim, aos sete chacras principais da medicina originária da Índia, adicionaram outra centena e diziam que o organismo funcionava como um corpo fechado energético, de onde a energia poderia entrar ou sair. Ao deitarem o pêndulo parado em cima de determinado chacra e visualizarem se a rotação que se seguia do mesmo dava-se em sentido horário ou anti-horário, identificavam se o chacra era de entrada (horário) ou saída de energia (anti-horário). A prova da validade de suas teorias era dada pelo simples fato de que o pêndulo colocado sobre determinada parte do corpo onde havia um chacra, rodava sozinho. Ao médium, portanto, bastava que segurasse o cordão do pêndulo por sobre o chacra para que ele começasse a girar indicando entrada ou saída de energia. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://1.bp.blogspot.com/_h2XRf7gRzfY/TCz7ATYh3xI/AAAAAAAAAWc/jY9OTzvTSkM/s1600/chakra_img.gif"&gt;&lt;img style="display:block; margin:0px auto 10px; text-align:center;cursor:pointer; cursor:hand;width: 368px; height: 400px;" src="http://1.bp.blogspot.com/_h2XRf7gRzfY/TCz7ATYh3xI/AAAAAAAAAWc/jY9OTzvTSkM/s400/chakra_img.gif" border="0" alt=""id="BLOGGER_PHOTO_ID_5489038028479520530" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-style:italic;"&gt;&lt;blockquote&gt;De acordo com a medicina tradicional da Índia, os chacras são vórtices que existem na superfície do corpo etéreo do homem e que são a porta de entrada para a recepção/transmissão de energias. Enquanto na teologia indiana existem apenas sete chacras conhecidos, o grupo que meu pai participava supunha conhecer outras centenas deles, dispersos pelo corpo humano. Alguns funcionavam como pontos de entrada, outros de saída de energias.&lt;/blockquote&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://1.bp.blogspot.com/_h2XRf7gRzfY/TC0ADAE9MHI/AAAAAAAAAWk/lMGjzfvlblg/s1600/pendulo.jpg"&gt;&lt;img style="display:block; margin:0px auto 10px; text-align:center;cursor:pointer; cursor:hand;width: 130px; height: 100px;" src="http://1.bp.blogspot.com/_h2XRf7gRzfY/TC0ADAE9MHI/AAAAAAAAAWk/lMGjzfvlblg/s400/pendulo.jpg" border="0" alt=""id="BLOGGER_PHOTO_ID_5489043572394897522" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;blockquote&gt;&lt;span style="font-style:italic;"&gt;O pêndulo destes radiestesistas que lutavam contra os parasitas espirituais -- grupo do qual meu pai fazia parte como líder intelectual -- era formado por um belo cristal  ligado a um barbante. Quando colocado sobre o chacra a uma certa altura da pele do indivíduo (onde estaria seu corpo etéreo) ele girava automaticamente em sentido horário ou anti-horário indicando entrada ou saída de energia.&lt;/span&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quaisquer problemas físicos que um indivíduo apresentasse -- de uma simples dor de cabeça ao câncer ou à AIDS -- poderiam ser explicados por um desequilíbrio no balanço energético do indivíduo, provavelmente nos chacras relacionados por proximidade à região de dor. Tal desequilíbrio energético acontecia porque, devido à presença de parasitas energéticos, os chacras de entrada de energia estavam temporariamente funcionando como chacras de saída de energia; ou o contrário. Inicialmente o diagnóstico era feito ao se verificar a presença de chacras perto das regiões de dor e observar quais deles estavam rodando para o lado supostamente incorreto. Parece que foi meu próprio pai quem catalogou finalmente a posição e o número de todos os chacras, definindo quais seriam os de entrada ou saída de energia e sistematizou um teste diagnóstico altamente eficiente. A partir daí, o diagnóstico poderia ser feito até mesmo quando o paramédico estivesse distante do paciente. Tal método diagnóstico  era feito quase se realizavam perguntas ao pêndulo sobre quais chacras estariam com problema, perguntas essas que eram respondidas pelo balanço do cristal sobre uma meia lua com números que identificavam os chacras. Meu pai fora o responsável, portanto, por sistematizar este tipo de teste diagnóstico e montar várias outros tipos de meias-luas, inclusive com todos os caracteres do alfabeto, onde seria possível perguntar literalmente qualquer coisa ao suposto &lt;span style="font-weight:bold;"&gt;oráculo&lt;/span&gt; que guiava a mão daquele que fazia perguntas ao pêndulo. Lembro de certo dia ele ter perguntado ao pêndulo qual seria o nome de minha primeira namorado, quando eu teria talvez doze anos. Lembro de o pêndulo ter respondido mas, felizmente ou infelizmente, não me lembro da resposta para saber se procedeu ou não. Recordo-me também que, embora não fosse permitido esse tipo de brincadeira com coisa tão séria quanto a energia do universo, por vezes brincávamos de fazer perguntas ao pêndulo tal qual oráculo. Mas às crianças, não era normalmente permitido utilizar o equipamento. Vale notar também que lembro de meu pai perguntando ao pêndulo por uma ou outra vez as dezenas que sairiam na mega-sena da semana seguinte e, embora o cristal funcionasse sem dúvida para as doenças etéreas, jamais acertamos na sena lá em casa e sofremos economicamente com a recessão que o país viveu na década de 90. Enfim, uma vez que os chacras problemáticos eram identificados através desta metodologia, o paramédico podia ir diretamente ao corpo do indivíduo para testar a eficácia do mesmo, verificando que o pêndulo -- quando disposto sobre o chacra especificado -- estava realmente rodando no sentido horário, quando deveria rodar no sentido anti-horário. A forma de resolução do problema era razoavelmente simples: bastava que o pêndulo fosse rodado sobre o chacra rapidamente na direção correta do movimento. Isso faria com que a energia do chacra fosse de alguma forma re-estruturada para que ele funcionasse de forma correta. Foi também meu pai que realizou cálculos precisos sobre quantos voltas o pêndulo dava por minuto e quantos minutos seriam necessário rodar o pêndulo sobre os chacras problemáticos para consertá-los e fazê-los funcionar de forma precisa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://3.bp.blogspot.com/_h2XRf7gRzfY/TC0FhYzaYjI/AAAAAAAAAW0/kwh5tyE6hXI/s1600/pendulo_opcoes.jpg"&gt;&lt;img style="display:block; margin:0px auto 10px; text-align:center;cursor:pointer; cursor:hand;width: 400px; height: 237px;" src="http://3.bp.blogspot.com/_h2XRf7gRzfY/TC0FhYzaYjI/AAAAAAAAAW0/kwh5tyE6hXI/s400/pendulo_opcoes.jpg" border="0" alt=""id="BLOGGER_PHOTO_ID_5489049591986414130" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-style:italic;"&gt;&lt;blockquote&gt;Um mapa apresentando todos os chacras do corpo ou caracteres do alfabeto era utilizado para a realização de diagnósticos radiestésicos. Tais diagnóstico indicavam os chacras com problemas nos indivíduos e o rodopio do pêndulo sobre esses chacras fazia com que eles voltassem às suas condições normais neste tipo de terapia mística.&lt;/blockquote&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De fato, não sei mesmo se um dia -- mesmo quando pré-adolescente -- cheguei a acreditar que essa terapia radiestésica funcionava de verdade, embora achasse a idéia divertida e as reuniões do grupo razoavelmente interessantes. Ainda que meu pai estivesse envolvido de forma definitiva no grupo, eu só o via cuidar de pessoas da nossa própria família. E embora eu saiba que outros de seus companheiros mediúnicos estivessem envolvidos na cura de outras doenças, jamais os acompanhei a nenhum hospital a vê-los rodando pêndulos sobre as cabeças de pacientes terminais. Outra coisa que percebia com razoável clareza nas reuniões do grupo que cheguei a participar era uma relação da psicologia do poder entre os indivíduos. Sendo meu pai, evidentemente, meu maior herói e meu mentor em toda essa empreitada, eu me surpreendia às vezes quando outro de seus colegas -- que apresentava poder maior do que o esperado -- descobria alguma falha no diagnóstico ou era capaz de reverter o problema do chacra de alguém com menos voltas do pêndulo do que aquelas preditas pela precisa teoria de meu pai. Talvez tenha sido exatamente isso que me tenha ligado o ceticismo com relação a toda essa história. Seus amigos C e P, por serem supostamente mais poderosos do que meu pai, eram capazes de reverter a precisa teoria por ele criada... e, lá no fundo, eu pensava que meu pai era o único sujeito verdadeiramente competente e sério do grupo, enquanto os outros às vezes seriam capazes de forçar a volta do pêndulo para um determinado lado só para mostrar a falha do mecanismo diagnóstico desenvolvido por meu ídolo. Assim, entre eles meu pai era visto como alguém inteligente e preciso nos afazeres, mas sem um poder natural de cura que só eles possuíam. Poucas vezes fiquei convencido desse poder e por várias outras suspeitei de suas idoneidades.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por outro lado, minha mãe participava por vezes de sessões espíritas das quais sempre fui curioso sobre, mas onde jamais me levaram, tendo levado minhas duas irmãs algumas vezes. Creio na época já ter um instinto questionador aguçado e talvez eles tenham pensado que tal instinto fosse causar problemas nas sessões. Meu pai também frequentava essas reuniões e por vezes, ambos iam orar e tomar os benditos “passes” que eram dados a eles pelos espíritos. Confesso não conseguir sequer entender hoje em dia como ainda existem pessoas adultas com este tipo de crença e lembro que achei ridículo quando comecei a ler o livro clássico do espiritismo, "O livro dos espíritos", de Alan Kardec, onde ele provava a existência dos espíritos pelo vaguíssimo fato de que as coisas mudavam de posição sem que ninguém as tivesse movido.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É interessante notar que todas as diferentes ligações com um algo místico que meus pais professavam jamais se apresentaram para eles como incompatíveis umas com as outras. Na Europa, em especial, e também na maior parte do mundo desenvolvido, parece haver formas dialéticas e não-sobreponíveis de apreciação religiosa. Existem diferentes religiões e diferentes crenças que são vistas como auto-excludentes e até concorrentes umas com relação às outras. No Brasil, isso normalmente não acontece e definitivamente o sincretismo (religioso) em nosso país alcança níveis extremos e interessantes. O Brasil, sendo fruto de uma origem miscigenada, parece ter sido um dos únicos lugares onde as culturas, raças e tradições originalmente divergentes e teoricamente incompatíveis -- em senso estrito -- conseguiram sobreviver com razoável harmonia. No Brasil, a espiritualidade latente do indivíduo foi sempre maior do que os dogmas pregados por esta ou aquela seita. O baú de miscigenação cultural do brasileiro é talvez o mais rico e igualitário do mundo, ao menos em nível ideológico; quiçá esta igualdade se desse também nos domínios econômicos e sociais.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://3.bp.blogspot.com/_h2XRf7gRzfY/TC0NAkfprPI/AAAAAAAAAXE/NAm_1AIyjl0/s1600/sincretismo-religioso.jpg"&gt;&lt;img style="display:block; margin:0px auto 10px; text-align:center;cursor:pointer; cursor:hand;width: 400px; height: 301px;" src="http://3.bp.blogspot.com/_h2XRf7gRzfY/TC0NAkfprPI/AAAAAAAAAXE/NAm_1AIyjl0/s400/sincretismo-religioso.jpg" border="0" alt=""id="BLOGGER_PHOTO_ID_5489057824282094834" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;blockquote&gt;&lt;span style="font-style:italic;"&gt;O sincretismo religioso no Brasil demonstra que o sentido de espiritualidade do brasileiro sempre foi maior do que sua crença em dogmas estritos pregados por esta ou aquela religião. Em minha casa identificada como católica ao IBGE sempre houve a presença de estátuas de buda, idéias místicas orientais, participação em rituais espíritas, dentre outras idéias mais relacionadas à parapsicologia.&lt;/span&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lembro ainda que no início de minha adolescência, dois grandes problemas físicos acometiam minha saúde. Creio que o principal deles poderia ser considerado a ocorrência frequente de crises de dores de cabeça. Mesmo depois de ter ido ao oftamologista e ao neurologista, feito o engraçado eletroencefalograma e tomado analgésicos com razoável frequência, nada foi descoberto sobre minha doença e nada também curava certas fortes dores que eu tinha com razoável frequência. Meu pai sempre fora um exímio massagista e realizou cursos de massagens por muito tempo. Suas massagens sempre me foram absurdamente tranquilizantes e agradáveis, quanto mais se realizadas com o carinho, amor e dedicação que só um pai tem por seu filho. Entretanto, muitas vezes elas absolutamente não curavam minhas dores-de-cabeça; e embora tais massagens fossem famosas por curar diversos problemas nos familiares, muitas vezes elas não funcionavam em mim. De fato, eu tinha a impressão de que muitas pessoas mentiam falando que haviam sido curadas pela massagem sem que tivessem sido realmente, apenas como forma de agradecimento ou polidez. Por vezes eu percebia também que as massagens curavam sim minha dor de cabeça, mas apenas por alguns minutos, tendo dissipado minha atenção da dor para sentimentos agradáveis em diversas partes do corpo. No entanto, passados alguns minutos, a dor voltava a latejar como agulha na cabeça. Eu entretanto sempre fui sincero e jamais disse ao meu pai que uma dor tinha passado sem que ela realmente tivesse passado. E ele por vezes parecia sentir-se impotente pelo fato de suas massagens curarem a todos, menos a mim. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Meu outro problema foi descoberto ainda um pouco mais tarde: eu tinha (tenho ainda) um grave problema de coluna. Minha coluna vertebral é torcida para o lado duas vezes, uma escoliose dupla que fora diagnosticada, se me lembro bem, pelo meu professor de karatê que vira uma certa corcunda em um dos lados de minhas costas. O primeiro médico ortopedista ao qual consultei observou o problema e foi taxativo: eu teria que colocar duas barras de metal, uma em cada lado da coluna para acertá-la e evitar problemas no futuro; os quais eu certamente teria. A operação era de risco e meus pais ficaram excessivamente preocupados com meu bem-estar; eu já havia nascido com um problema nos pés e novamente eu voltava a ser visto como um indivíduo frágil fisicamente. Assim, de um momento para o outro eu precisaria me submeter a uma operação complicada e arriscada. Meus pais duvidaram do médico, minha própria mãe tinha um problema parecido e nunca houvera tido problemas graves nas costas, à despeito de uma ou outra dorzinha esporádica. Assim procuramos o melhor especialista da área na cidade e meu pai só queria saber se era realmente necessária a operação, torcendo para que não fosse. Não era. O doutor Sakamoto sugeriu que eu usasse um colete de polipropileno que faria com o modelo das minhas costas. Eu seria obrigado a usá-lo durante todo o dia e ele evitaria que minha coluna ficasse ainda mais torta, embora não resolvesse o problema: eu estava fadado a ter as costas podres para o resto da vida e deveria parar imediatamente com qualquer tipo de atividade física. Usei o colete por certa de seis meses até que o médico dissesse, ao verificar a densidade de meus ossos, que eu já havia parado de crescer e que minha coluna já estava definitivamente montada. Apesar de praticamente não ser acometido por dores de coluna, meu prognóstico era o de que as vértebras na parte da torção em algum tempo desgastariam os espaços intra-vertebrais e no roçar dos ossos com o nervo, eu precisaria operar de hérnia de disco. Meu pai mais uma vez procurou todas as terapias possíveis para curar-me de meu problema e encontrou um massagista experiente que me fazia deitar numa mesa e, durante um curso, servir de cobaia para que as pessoas se assentassem ao meu lado e empurrassem minhas vértebras até colocarem-na no seu "devido lugar". Segundo ele, fazendo isso com certa frequência e empenho, minha coluna viveria bem. De fato, não sei se esses pequenos minutos no dia durante os quais minha coluna ficava no lugar correto influenciavam algo, mas eu me divertia com o fato e gostava das massagens que meu pai me fazia antes de dormir. Esta última aventura, portanto, mostra mais uma vez como havia esse sincretismo religioso em minha família e como meu pai parecia estar disposto a fazer tudo que estivesse ao seu alcance para ajudar seu filho e seus familiares mais próximos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Assim, meus pais iam a médicos, tomavam águas bentas dos espíritos, frequentavam igrejas em ocasiões festivas, e por vezes visitavam até supostos médiuns. Lembro também de uma vez que fui com minha mãe a uma casa abandonada e distante, em algum subúrbio de Belo Horizonte. Iríamos ver uma determinada mãe-de-santo, que lia o futuro das pessoas em um copo de água. Ao chegarmos em sua simples casa, a mulher se encontrava num determinado transe e; dentro de um pequeno quarto iluminado à luz de velas e com apenas uma mesa simples, com duas cadeiras e um copo d’água sobre a mesa, ela leu o nome da minha mãe nas partículas de água; sabe-se lá como. Não lembro de ter-me surpreendido com isso, pensei que ela já deveria saber o nome de minha mãe e ter blefado, se me surpreendi com alguma coisa teria sido com o ambiente, as velas e a idéia da leitura da água. Não lembro absolutamente o que ela falou, mas lembro que saímos de lá razoavelmente impressionados e curiosos com relação aos assuntos expostos. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não poderia ficar completa esta autobiografia de minha discrença se eu não dissesse que desde criança eu sempre fui influenciado pelo meu pai a tomar gosto pelos estudos, e minha mãe fora por muito tempo professora do ginasial. Eu sempre fui particularmente bom aluno em disciplinas como matemática e ciências e não era de todo ruim também nas áreas humanas. Além disso, meu velho sempre me influenciou e me incentivou a gostar de jogos que desenvolvessem o raciocínio lógico e a memória, como jogos de tabuleiro dos mais diversos. Desde cedo soube jogar damas, xadrez, jogos de memória, fazer palavras cruzadas e tentar resolver problemas lógicos dos mais diversos, tais quais "a César o que é de César". Todas essas atividades sempre foram vistas por mim como algo a ser associado com a palavra &lt;span style="font-weight:bold;"&gt;diversão&lt;/span&gt;. Ainda hoje tenho pena daqueles que consideram o pensamento lógico como algo difícil ou chato; e sou um entusiasta de discussões lógicas sobre sistemas naturais. Inclusive, todo meu trabalho como cientista e pesquisador é, de fato, buscar pessoas que estejam dispostas a discutir sempre e buscar respostas conjuntas em discussões feitas com a maior das honestidades intelectuais, sem qualquer preconceito e sempre tendo como objetivo discutir os padrões vigentes e questioná-los sob todos os aspectos, tentando sempre desconstruí-los; se caírem, deixemo-los no chão; se continuarem de pé, deixemo-los erguidos em vitória. Fato: é extremamente difícil encontrar pessoas sem muitos preconceitos ou dogmas e dispostas a discutir abertamente qualquer assunto que lhes seja do interesse. Seres humanos não estão assim tão interessados em saber nada e talvez eu seja um indivíduo particularmente parasitado por memes (idéias) em busca de reprodução.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://4.bp.blogspot.com/_h2XRf7gRzfY/TC0TPOqAILI/AAAAAAAAAXM/Yo89Oe_u170/s1600/xadrez-58.jpg"&gt;&lt;img style="display:block; margin:0px auto 10px; text-align:center;cursor:pointer; cursor:hand;width: 256px; height: 256px;" src="http://4.bp.blogspot.com/_h2XRf7gRzfY/TC0TPOqAILI/AAAAAAAAAXM/Yo89Oe_u170/s400/xadrez-58.jpg" border="0" alt=""id="BLOGGER_PHOTO_ID_5489064673187733682" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;blockquote&gt;&lt;span style="font-style:italic;"&gt;Jogos de baralho, memória e tabuleiro faziam parte constante de minha diversão infantil. Meu pai diz que eu o esperava todos os dias já com a caixa de jogos à mão para passarmos mais uma noite jogando sem parar. Tenho a forte impressão de que o desenvolvimento precoce da razão e da lógica em questões práticas da jogatina foram importantes mais tarde para o amadurecimento da minha descrença.&lt;/span&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tendo assim passado grande parte da minha infância e pré-adolescência convivendo neste meio de sincretismo religioso e treinamento em lógica dos jogos, jamais de fato acreditei plenamente ou duvidei de todo sobre tais cerimônias e ritos que meus pais participavam. Meu agnosticismo parece, portanto, oriundo da aplicação da lógica com a qual me divertia ao mundo espiritual que me era apresentado; e ele parece ter nascido em mim antes mesmo que eu pudesse representá-lo através deste conceito, idéia, meme, palavra, ismo. Finalmente, posso dizer que foi físico americano e exímio divulgador de ciência, &lt;span style="font-weight:bold;"&gt;Carl Sagan&lt;/span&gt;, que me ajudou a colocar todos esses pensamentos que me assolavam dentro de um contexto lógico amplo e comum que fundamentasse minha sempre curiosa descrença. Não me lembro muito bem quando ou como cheguei ao “&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;Mundo assombrado pelos demônios: a ciência como uma vela para a escuridão&lt;/span&gt;”, publicado por Carl Sagan na década de noventa e encontrado em muitas livrarias comuns existentes dentro dos shopping centers que se multiplicavam na Belo Horizonte dos anos 90. Tendo ainda sempre vivido na bolha da classe média emergente belo-horizontina, meus colegas pseudo-ricos do colégio onde  estudei até os 13 anos eram acometidos por esta mesma síndrome do catolicismo não-praticante. Éramos praticamente todos católicos, com poucos de fato frequentando as igrejas e todos tendo uma crença firme num deus cristão, sem absolutamente nenhuma fidelidade estrita aos ritos eclesiásticos. Um grande salto intelectual em minha vida foi justamente ter passado desde meio a outro. Meu pai, sempre percebendo meu gosto pela lógica e pelos estudos, desejou um dia colocar-me em um colégio técnico para realizar o ensino médio. O CEFET era um colégio público federal que se situava do outro lado da cidade; e meu pai sugeriu que eu fizesse a prova para adentrar ali e realizar estudos técnicos de nível médio em informática. Se existe algo que definitivamente mudou meu pensamento social e intelectual, e que finalmente me fez enxergar a mágica diversidade econômica, social e humana do mundo foi ter me mudado para este colégio. Enquanto no colégio de "ricos" eu era normalmente humilhado por ser um dos mais pobres, neste outro colégio passei a ser dos mais ricos, passei em conviver com pessoas de todas as classes sociais, pessoas vindas de cidades do interior, pessoas como todo o tipo de background familiar. O CEFET-MG da década de 90 representava um conjunto razoavelmente democrático da população mineira. O choque inicial dos primeiros meses tendo que pegar ônibus para os confins da cidade e convivendo com pessoas tão estranhas foi forte, mas logo se transformou em um gosto forte pelo conhecimento e pela antropologia urbana brasileira. Em regime de semi-internato, ficávamos o dia inteiro nas aulas e, ao contrário do colégio particular com seus &lt;span style="font-style:italic;"&gt;disciplinários&lt;/span&gt; e regras estritas de conduta, no CEFET a &lt;span style="font-style:italic;"&gt;liberdade era total&lt;/span&gt;! Não foi apenas uma ou outra vez que matei aulas para jogar conversa fora com os amigos, tocar violão ou jogarmos sinuca no bar da esquina. Esta experiência de liberdade intelectual sempre me foi amplamente saudável e tais aulas que perdia na esbórnia jamais sacrificaram ou prejudicaram meu desenvolvimento científico e acadêmico. Sempre tive um enorme gosto e uma extrema responsabilidade com meus estudos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O primeiro ano em que estive no CEFET foi responsável justamente por uma mudança de visão de mundo completa. Agora eu convivia com uma enorme diversidade de pessoas com os mais diferentes perfis, quase todas elas oriundas de um meio social mais simples do que aquele que eu tinha vivido. Assim, toda aquela falsidade das roupas de marca e dos tênis importados tornaram-se, para mim, apenas balela. Minha educação ligeiramente mais refinada que a dos meus colegas, minha &lt;span style="font-style:italic;"&gt;simpatia de herança materna&lt;/span&gt;, meu respeito pelo ser humano e meu incômodo pelo mundo de faz-de-contas dos ricos tornaram-me rapidamente popular em minha turma e fui eleito, de pronto, o representante doas alunos perante os professores e o colégio. Mas, de fato, aquele era um círculo intelectual razoavelmente pobre ainda para minha alma. Naquela época, entrava-se num curso geral em Eletroeletrônica e, depois de um ano, os alunos poderiam escolher especializar-se em três diferentes áreas: Eletrônica, Eletrotécnica ou Informática industrial. O &lt;span style="font-style:italic;"&gt;boom&lt;/span&gt; da computação já havia chegado ao Brasil e computadores pessoais com o novíssimo sistema operacional em janelas -- o Windows 3.0 do Bill Gates -- começavam a estar cada vez mais presentes do dia-a-dia dos brasileiros mais abonados. De fato, creio que não seria exagero dizer que cerca de 90% dos alunos entravam ali com o desejo de se especializarem na área de Informática. Entretanto, as dez turmas de alunos que entravam no primeiro ano da eletroeletrônica eram dividias, para os dois anos posteriores em uma única turma de informática e cerca de quatro turmas de eletrônica e eletrotécnica. Para que alguém realmente fizesse informática, era preciso estudar bastante no primeiro ano e passar com uma boa média acadêmica. No ano em que passei para a informática, tive a média das disciplinas de 8,49 e o menor valor para “pegar” informática foi de 8,25. Todos os outros alunos, portanto, eram levados a fazer eletrônica ou eletrotécnica, o que inclusive foi o caso de um dos meus melhores amigos que, “caindo” para eletrotécnica, minou para sempre nossa amizade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vale notar ainda que, neste primeiro ano do CEFET lembro que minha mãe, excessivamente preocupada com seu filho de classe média atravessando a cidade em ônibus e andando sozinho pelas ruas de uma capital razoavelmente violenta de um país de terceiro mundo, deu-me um salmo chamado “&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;À sombra do altíssimo&lt;/span&gt;” que eu tinha por hábito ler todos os dias na saída de casa, tendo chegado a decorá-lo por completo de tantas vezes que o repeti. Ainda hoje lembro razoavelmente de muitas de suas partes. Então com meus 14 anos, eu ainda titubeava em minhas crenças e preces.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://4.bp.blogspot.com/_h2XRf7gRzfY/TC0ZPNfUiUI/AAAAAAAAAXU/RgOK3Kmzu-w/s1600/sagan.gif"&gt;&lt;img style="display:block; margin:0px auto 10px; text-align:center;cursor:pointer; cursor:hand;width: 387px; height: 386px;" src="http://4.bp.blogspot.com/_h2XRf7gRzfY/TC0ZPNfUiUI/AAAAAAAAAXU/RgOK3Kmzu-w/s400/sagan.gif" border="0" alt=""id="BLOGGER_PHOTO_ID_5489071269944265026" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;blockquote&gt;&lt;span style="font-style:italic;"&gt;O físico Carl Sagan, autor do livro "O mundo assombrado pelos demônios" foi um dos mais importantes cientistas a pregar pela busca honesta do conhecimento e pela defesa da ciência como forma adequada do saber. Responsável pela série televisa &lt;a href="http://pensamentosfugazes.blogspot.com/2009/11/serie-cosmos-de-carl-sagan.html"&gt;Cosmos&lt;/a&gt;, Sagan foi um dos mais influentes cientistas e pensadores da segunda metade do século XX&lt;/span&gt;.&lt;/blockquote&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No segundo ano, portanto, estavam ali selecionadas na turma apenas as “melhores mentes” do ano anterior e a diferença no nível intelectual da turma era notório. Do lado religioso, haviam ainda os extremamente católicos, haviam espíritas, católicos não-praticantes e possivelmente indivíduos com tendências razoavelmente não-religiosas, grupo dentre os quais eu provavelmente já me enquadrava. Muitos ali já escutavam o bom e velho rock and roll da década de setenta como exatamente uma forma de revolta contra a sociedade; e também com estes anárquicos eu me identificava. Foi aproximadamente nesta época em que a internet já engatinhava que de alguma forma chegou às minhas mãos o livro de Sagan. Não me lembro exatamente bem como isso aconteceu, mas lembro que muitos anos depois eu semeava as idéias de sagan dentre os alunos do curso de biologia da UFMG e fui responsável pela transformação de alguns astrólogos em céticos. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Minha história literária começa com a leitura de histórias em quadrinhos quando criança; na pré-adolescência (antes do CEFET) lembro que devorava policiais escritos por Agatha Christie e Arthur Conan Doyle com vigor, lendo-os inteiros num só dia. Meu pai sempre fora fã de ficção científica e tinha alguns livros do chamado mestre do horror e da fantasia, Isaac Asimov, também exímio divulgador de ciências. Provavelmente foi a partir de Asimov que cheguei em Sagan, cansado das historinhas e com o desejo de buscar a ciência de verdade. Lembro ainda que meu pai tinha em casa um livro de Sagan chamado “&lt;span style="font-style:italic;"&gt;Os dragões do Éden&lt;/span&gt;”, onde ele explicava de forma maravilhosa a evolução do cérebro humano. Foi assim, provavelmente, que cheguei ao “&lt;span style="font-style:italic;"&gt;mundo assombrado&lt;/span&gt;”. Uma vez tendo lido esta obra, todo um colosso de idéias que estiveram sempre incipientes no meu pensar sobre o mundo puderam agora tomar um sentido estrutural claro e lógico. &lt;span style="font-style:italic;"&gt;Sagan explicava com extrema delicadeza e brilho as diferenças entre crenças em pseudo-crenças, exaltava de forma sublime a lógica da ciência e a busca honesta pelo conhecimento&lt;/span&gt;. Pelo menos foi assim que me senti quando li o livro pela primeira vez. Embora hoje em dia discorde de Sagan em alguns pontos (como na ciência enquanto curva assintótica para a verdade, dentre outros detalhes de cunho epistemológico), ainda recomendaria “O mundo assombrado” para todas as pessoas com algum interesse pela busca sincera do conhecimento e por acender a chama da crítica científica. De fato, muitos leram “O mundo assombrado” depois de minha sugestão e lembro que, já na universidade, houve um certo momento que algumas garotas que antes professavam a astrologia e mapa astral terem se tornado descrentes convictas dos procedimentos que exaltavam até seis meses antes. Enfim, rapidamente tornei-me um advogado premente do conhecimento científico, defensor do pensamento racionalista e cético convicto, de forma que muitos dos amigos por vezes se assustavam com defesas vorazes do modo científico de ver o mundo com relação ao modo místico-religioso. Brigas em mesas de bares -- o melhor de todos os ambientes para uma conversa franca -- foram-me comuns nesta época ao início da universidade. E dada minha voracidade lógica e clareza argumentativa, eu sempre tinha aqueles que me defendiam tanto quanto aqueles que me consideravam algum tipo de radical idiota, pendendo para o outro lado. Nesta época já comecei a admitir para minha família toda minha descrença e usava frequentemente idéias oriundas do “&lt;span style="font-style:italic;"&gt;kit de detecção de mentiras&lt;/span&gt;” e o “&lt;span style="font-style:italic;"&gt;dragão da minha garagem&lt;/span&gt;” (capítulos 7 e 8 do livro de Sagan) para exprimir todo meu descontetamento com crendices ilógicas. Tive a impressão que minha mãe começou a sentir medo do que eu fosse falar em público e, por vezes, parecia ter certo medo de que eu fosse acabar parando no inferno ou coisa do gênero. À medida que o tempo passa, me mãe parece se tornar cada vez mais defensora de um catolicismo e um conservadorismo que jamais parece ter praticado à risca. Meu pai parecia de certa forma concordar com meus argumentos lógicos, embora não tenha jamais conseguido mesclar sua certa descrença com sua educação de fundo espiritual; ainda hoje vive dividido. Ambos parecem não descartar ainda a idéia de um deus pessoal que nos controla e serve de guia. Entretanto, consegui convencer outras pessoas sobre o pensamento cético e cheguei mesmo a participar de um novo sítio na internet onde os participantes, a maioria de São Paulo -- para mim apenas nomes perdidos --, escreviam sobre ceticismo e o pensamento racionalista, secularismo e etc. “&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;&lt;a href="http://str.com.br/principal.php"&gt;A sociedade da Terra Redonda&lt;/a&gt;&lt;/span&gt;” parecia-me um grupo que tinha idéias consistentes com as minhas e as de Sagan, e já tendo um sítio pessoal onde colocava alguns textos que porventura eu escrevera (este sentimento de gosto pela escrita também já se aflorava em mim), senti-me extremamente honrado quando um dos membros do sítio pediu-me para publicar um texto meu em seu sítio. &lt;span style="font-style:italic;"&gt;Talvez este tenha sido um momentos de maior orgulho na minha vida, onde eu tenha sido reconhecido pelo que eu era sem qualquer máscara&lt;/span&gt;. E assim passei a ver um ou outro de meus textos figurando entre textos de grandes ídolos intelectuais nos sítios da internet -- tendo assim me tornado um ainda mais veemente defensor do pensamento racionalista e secular. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://3.bp.blogspot.com/_h2XRf7gRzfY/TC0gacO61RI/AAAAAAAAAXc/qxG0LUrf5dU/s1600/campbell.png"&gt;&lt;img style="display:block; margin:0px auto 10px; text-align:center;cursor:pointer; cursor:hand;width: 400px; height: 347px;" src="http://3.bp.blogspot.com/_h2XRf7gRzfY/TC0gacO61RI/AAAAAAAAAXc/qxG0LUrf5dU/s400/campbell.png" border="0" alt=""id="BLOGGER_PHOTO_ID_5489079159461958930" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;blockquote&gt;&lt;span style="font-style:italic;"&gt;O último capítulo da biografia de minha descrença passa por um retorno existencialista (ou ateísta) à idéia do místico. &lt;a href="http://pensamentosfugazes.blogspot.com/2008/08/tributo-joseph-campbell.html"&gt;Campbell&lt;/a&gt; ensinou-me novamente a maravilhar-me com o mundo de uma forma bela, grande e inexplicável. Juntamente com Thomas Kuhn fez-me perceber que a ciência é extremamente limitada para explicar o mundo; e aquilo que há de mais belo no homem são seus mitos e suas paixões, seu sentimento de adoração das coisas. Sentimento este que é muitas vezes transformado em espiritualidade e religião. Campbell entretanto deixa claro que o sentimento é bonito quando feito e realizado por indivíduos, não por instituições que visam ao poder e que transformam grandes idéias mitológicas em estúpidos símbolos sem sentido e ultrapassados dogmas.&lt;/span&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Hoje, entretanto, não acredito muito em nenhum tipo de institucionalização ideológica e acho justamente que este é o problema das grandes crenças. Isso me afastou de certo modo de um ideal cético-racionalista, embora eu tenha colaborado tanto quanto possível para o desenvolvimento do projeto e ainda acredite em seu desenvolvimento sob muito aspectos. Ainda que descrente, não tenho hoje nenhum problema em aceitar que as pessoas tenham um sentimento místico e, de fato, acho este um fator belo a ser visto no ser humano, algo que nos trás compaixão e união enquanto indivíduos e sociedade. &lt;span style="font-weight:bold;"&gt;Tenho hoje uma apreciação estética do mundo natural que pode ser vista -- de certa forma -- como um sentimento místico&lt;/span&gt;. Admiro a maravilha da natureza e a absurdidade de sua complexidade; todas essas coisas me extasiam enormemente. Entretanto não me satisfaço de forma alguma em colocar um nome arbitrário a explicar o que não entendo. Considero sim, meu maravilhar ao observar e tentar compreender o mundo, como um tipo de sentimento místico, uma epifania no sentido disposto pelo teólogo americano Joseph Campbell. Reitero, entretanto, meu  existencialismo sartreano que consiste certamente em um ateísmo irrestrito.&lt;span style="font-weight:bold;"&gt; Não acredito em nada "superior", acredito sim (i) nas escolhas do homem, (ii) em nossa limitação cognitiva e epistemológica e na (iii) complexidade e (iv) maravilha do universo.&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/23099929-6793044493339446004?l=tragodefilosofia.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://tragodefilosofia.blogspot.com/feeds/6793044493339446004/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=23099929&amp;postID=6793044493339446004&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/23099929/posts/default/6793044493339446004'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/23099929/posts/default/6793044493339446004'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://tragodefilosofia.blogspot.com/2010/06/autobiografia-da-minha-descrenca.html' title='Autobiografia da minha descrença'/><author><name>Prós</name><uri>http://www.blogger.com/profile/18282398415856299778</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='24' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/-OJfdox4-acU/Tm_oXf840OI/AAAAAAAAAlc/1ROS0tKzZ5k/s220/facebook_perfil_picture.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://4.bp.blogspot.com/_h2XRf7gRzfY/TC0sunjKZeI/AAAAAAAAAXk/F3YrVTbzVWY/s72-c/0465091385.01._SX140_SY225_SCLZZZZZZZ_.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-23099929.post-4741249292881965938</id><published>2010-05-16T05:54:00.001-03:00</published><updated>2010-06-20T23:12:27.998-03:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='cosmologia'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='epistemologia'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='filosofia da linguagem'/><title type='text'>Sobre a construção natural de teorias filosóficas</title><content type='html'>Quando constrói uma nova teoria, o verdadeiro filósofo não busca outros filósofos para citar, o verdadeiro cientista jamais busca outros cientistas para citar, eles são sim direcionados automaticamente a eles ao tentar compreender mais sobre questões que o aflijam. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://3.bp.blogspot.com/_h2XRf7gRzfY/TB3TW0AQyRI/AAAAAAAAAV0/C2GHoTgNi9w/s1600/corpo_conhecimento.jpg"&gt;&lt;img style="display:block; margin:0px auto 10px; text-align:center;cursor:pointer; cursor:hand;width: 317px; height: 250px;" src="http://3.bp.blogspot.com/_h2XRf7gRzfY/TB3TW0AQyRI/AAAAAAAAAV0/C2GHoTgNi9w/s400/corpo_conhecimento.jpg" border="0" alt=""id="BLOGGER_PHOTO_ID_5484772310077458706" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;blockquote&gt;&lt;span style="font-style:italic;"&gt;É o próprio corpo do novo conhecimento gerado que guia o pesquisador para os seus desenvolvimentos. As referências e as bases para a formação de um novo conhecimento nascem da escrita livre sobre o mesmo e chegam a ele como necessidades intrínsecas à sua articulação e compreensão.&lt;/span&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando se almeja discutir uma questão em filosofia ou ciência, parece-me que o correto a se fazer consiste em primeiro compreender mais sobre determinados pontos que, segundo nosso sentimento pessoal e experiência de vida, tocam a questão que queremos nos deitar sobre. Então nos educamos. A maravilha tecnológica nos permite que mesmo em nossas casas, sentados em nossos computadores, escrevamos bem selecionadas palavras-chaves em ferramentas de busca que nos dirigem às exímias enciclopédias ou sítios presentes neste poço sem fundo de informações que é a internet. E assim vamos sendo direcionados pelas próprias informações, a buscar outras a ela  relacionadas e centrais em nossa argumentação. Tal direcionamento se dá pelo fato de que, ao lermos criticamente as informações que nos chegam, somos automaticamente direcionadas a buscar novo tópico que nos tenha ficado mal compreendido. E assim se dá o navegar pela internet, sendo que o verdadeiro interessado por assuntos é capaz então de conhecer cada vez mais sobre os mesmos e suas histórias, aplicando ali sua sensibilidade epistemológica e experiência pessoal a guiar-lhe a navegação pelas direções "corretas" da busca pelo saber. E então vai-se aprendendo a navegar, a máquina torna-se ferramenta do humano para melhor compreender, chega-se assim aos extremos de um e outro conhecimentos, vê-se as lacunas ainda não respondidas e sobre elas decide-se deitar, argumentar, resolver ou simplesmente desenvolver com maior capacidade retórica possível.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://4.bp.blogspot.com/_h2XRf7gRzfY/TB3ZA5HB-kI/AAAAAAAAAV8/fGKIpw1toK4/s1600/navegandoSobInformacao.png"&gt;&lt;img style="display:block; margin:0px auto 10px; text-align:center;cursor:pointer; cursor:hand;width: 400px; height: 300px;" src="http://4.bp.blogspot.com/_h2XRf7gRzfY/TB3ZA5HB-kI/AAAAAAAAAV8/fGKIpw1toK4/s400/navegandoSobInformacao.png" border="0" alt=""id="BLOGGER_PHOTO_ID_5484778530560670274" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;blockquote&gt;&lt;span style="font-style:italic;"&gt;Navegando sobre a informação. A navegação é sem dúvida a melhor metáfora para a busca de conhecimentos por meios tecnológicos. O cientista ou filósofo, ao construir nova informação, navega por entre os hipertextos da internet e vai se dirigindo aos poucos em busca de um conhecimento sólido e bem fundamentado sobre o assunto que estuda. A direção de sua navegação epistemológica é, de ante-mão, desconhecida ou apenas vislumbrada em um espectro mais amplo. É a própria navegação conceitual sobre as teias já construídas de conhecimento, associada à sensibilidade intelectual do autor que vai indicar-lhe o que questionar, para onde seguir, como fundamentar melhor o que se pensa ou se argumenta.&lt;/span&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estou convencido de que as teorias filosóficas vêm antes de questionamentos pessoais do filósofo, de sentimentos de inquietude natural que tenham brotado de si enquanto indivíduo questionador. Questionamentos naturais ante determinados conceitos que o indivíduo se coloque e que ainda não tenha sido capaz de incorporar com precisão em sua rede cérebro-conceitual. Em determinado momento este indivíduo sente-se então maduro para questionar a fundo determinado tópico e buscar honestamente alcançar uma compreensão mais completa sobre suas dúvidas. O trabalho do filósofo e do cientista é um trabalho que nasce de inquietudes pessoais sob as quais deseja-se investigar profunda e honestamente. E ao redor destas inquietudes pessoais de indivíduos, acaba-se vendo ser construída ao longo dos séculos uma tradição de inquietudes da humanidade, um poço de bagagem cultural, fundo epistemológico que caracteriza um &lt;span style="font-weight:bold;"&gt;pensar cultural&lt;/span&gt; -- lógica de pensamento de um povo. Ao mesclar-se então o sentimento da inquietude moderno com as inquietudes tidas no passado, produz-se nítidos retratos de épocas ou civilizações, evidenciando-se novas interseções e anotações culturais que vagam entre diferentes e alarmantes inquietudes oriundas de uma determinada tradição cultural, tanto em arte quanto em ciência. Por vezes, há também o elemento sincrético constituído, aquele que mistura tradições em busca da criação de um elemento de interseção que &lt;span style="font-weight:bold;"&gt;cria&lt;/span&gt; e que é maior do que a soma das partes que o constituíram. Tais eventos sincréticos são bastante encontrados no Brasil, onde diferentes sínteses conceituais e antropológicas são produzidas através da mescla de conhecimentos, crenças e informações das mais diversas culturas que formaram a base de nossa gente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O filósofo pode ter sim seu vislumbre enquanto lê o outro filósofo, mas tal momento-Eureka é justamente fruto do texto em questão ser capaz de tocar algum tipo de inquietude que ia adormecida na alma do leitor-questionador, sendo que &lt;span style="font-weight:bold;"&gt;os verdadeiros filósofos são -- sem sombra de dúvida -- acendedores da chama filosófica noutros indivíduos&lt;/span&gt;. Neste sentido, o epistemólogo Imre Lakatos argumenta que mais rico é um programa de pesquisa científico ou filosófico quanto mais frutos ele deixa para o mundo e para a humanidade. Em sua teoria, a fertilidade do conhecimento é que atesta para sua importância, ou seja, quanto mais pessoas estudam um assunto, mais relevante ele provavelmente será em determinado momento histórico. Se até hoje discutimos Sócrates ou Kant isso se dá porque esses filósofos apresentaram questões relevantes à filosofia e acenderam noutros humanos esta chama questionadora, que ainda não se apagou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://1.bp.blogspot.com/_h2XRf7gRzfY/TB3gVw4qRZI/AAAAAAAAAWE/ziYSZAFf4us/s1600/artista_logica.png"&gt;&lt;img style="display:block; margin:0px auto 10px; text-align:center;cursor:pointer; cursor:hand;width: 400px; height: 358px;" src="http://1.bp.blogspot.com/_h2XRf7gRzfY/TB3gVw4qRZI/AAAAAAAAAWE/ziYSZAFf4us/s400/artista_logica.png" border="0" alt=""id="BLOGGER_PHOTO_ID_5484786585711560082" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;blockquote&gt;&lt;span style="font-style:italic;"&gt;O filósofo é um artista que para criar sua obra mescla a sua paleta de dados e informações usando as técnicas conhecidas da lógica e da razão. Como todo artista, ele deve ser dotado de exímia sensibilidade de modo a saber exatamente o que se pode juntar com o quê, como tirar o melhor de determinada técnica intelectual, como misturar dados e fatos sob uma perspectiva lógica para gerar conhecimento novo e relevante, delicioso de ser apreciado. A filosofia e a ciência podem ser também entendidas enquanto formas de estéticas intelectuais.&lt;/span&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O mau filósofo ou cientista é aquele que se senta em sua cadeira e tenta forçosamente inventar alguma teoria filosófica que virá articialmente à tona apenas com o objetivo de opor-se a alguma outra teoria já existente, com o objetivo de contestá-la. A verdadeira filosofia é aquela que parte de um verdadeiro sentimento íntimo de incompreensão sobre a lógica de operação do mundo físico e da sociedade; tudo o mais é sofismo. &lt;span style="font-style:italic;"&gt;Também as boas e verdadeiras críticas são aquelas que partem de inquietações epistemologicamente sensíveis, não de embates completamente racionais sobre ínfimos detalhes de teorias.&lt;/span&gt; Critique-me com seu coração e sua fé na busca pela verdade, não com sua estúpida lógica e razão, mas use-as sim como instrumentos de sua inquietude para desmoronar o castelo epistemológico que construo artesanalmente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As grandes teorias e os bons trabalhos científicos ou filosóficos têm seus corpos; e andam com suas próprias pernas. O cientista ou filósofo não precisa se angustiar em buscar mecanicamente novos dados ou informações precisas a adicionar em sua teoria para melhor modelá-la já que o desenvolvimento natural das mesmas será normalmente capaz de guiar o profissional aos pontos mais importantes no âmbito conciso de determinado tema. Acredito sinceramente que a pesquisa filosófica deve desenvolver-se de forma natural a partir da escrita do autor sobre o tema e suas inquietações com relação a ele; inquietações essas que chamarão à tona &lt;span style="font-style:italic;"&gt;intertextualmente&lt;/span&gt; toda a bagagem cultural da humanidade. É claro que um crítico pode perceber pontos de interseção entre uma nova teoria proposta e a visão de determinado filósofo/cientista que não tenha sido abordada originalmente pelo autor. E a partir desta crítica, o autor, dirigido à nova fonte de informação que desconhece, pode tentar incorporá-la aos seus desenvolvimentos teóricos. Neste momento corre-se o risco de que todo o castelo de conceitos e relações gerados venha a se espatifar ou desaparecer, posto que os conhecimentos podem não ser compatíveis entre si em uma rede conceitual logicamente coerente. Por outro lado, o novo conhecimento sugerido pode enriquecer, assentar e cimentar de forma ainda mais precisa as argumentações já propostas. De fato, a tradição de uma corrente filosófica ou cultural consiste justamente no sobrepor de novas idéias compatíveis umas sobre as outras a criar uma cosmologia (ou compreensão de mundo) de concisão lógica exemplar e beleza estética intelectual.&lt;br /&gt;&lt;br&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/23099929-4741249292881965938?l=tragodefilosofia.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://tragodefilosofia.blogspot.com/feeds/4741249292881965938/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=23099929&amp;postID=4741249292881965938&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/23099929/posts/default/4741249292881965938'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/23099929/posts/default/4741249292881965938'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://tragodefilosofia.blogspot.com/2010/05/sobre-construcao-natural-de-teorias.html' title='Sobre a construção natural de teorias filosóficas'/><author><name>Prós</name><uri>http://www.blogger.com/profile/18282398415856299778</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='24' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/-OJfdox4-acU/Tm_oXf840OI/AAAAAAAAAlc/1ROS0tKzZ5k/s220/facebook_perfil_picture.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://3.bp.blogspot.com/_h2XRf7gRzfY/TB3TW0AQyRI/AAAAAAAAAV0/C2GHoTgNi9w/s72-c/corpo_conhecimento.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-23099929.post-4494249923720143233</id><published>2010-04-20T14:54:00.000-03:00</published><updated>2010-06-06T18:32:06.147-03:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='neurobiologia'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='epistemologia'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='linguística'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='filosofia da mente'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='filosofia da linguagem'/><title type='text'>A experiência do jovem professor</title><content type='html'>&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;Reflexões sobre o transmitir e o alcançar da compreensão&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;INTRODUÇÃO&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O jovem professor universitário que começa a dar aulas depois de cerca de dez anos de estudos consecutivos na academia, passando por graduação, mestrado, doutorado e pós-doutorado, é frequentemente alguém que compreende bem a teoria da disciplina com a qual trabalha e que pode falar sobre ela com desenvoltura. Este profissional é um ótimo seminarista, compreende a lógica do trabalho científico com suas introduções, metodologias, resultados e discussões. Na Introdução, apresenta as origens teóricas de seu trabalho e propõe uma hipótese testável; na Metodologia ele conta como essa hipótese deve ser experimentada para corroborar ou refutar uma hipótese; os dados obtidos são então analisados em gráficos e tabelas apresentados na seção de Resultados; finalmente na Discussão, ele resume em que o seu mais novo trabalho contribui com o aumento do saber descrito na introdução. Ele é capaz de apresentar seu trabalho na frente dos pares, argumentar a seu favor, descrevê-lo e responder perguntas e críticas. Ele é um cientista, mas nunca foi educado para dar aulas. Então este indivíduo é jogado em uma sala de aula à frente de uma cinquentena de indivíduos em busca de um título, ou da verdadeira aprendizagem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://2.bp.blogspot.com/_h2XRf7gRzfY/TAupOYfzpiI/AAAAAAAAAU8/1QsJ_Xh5OUI/s1600/professor.jpg"&gt;&lt;img style="display:block; margin:0px auto 10px; text-align:center;cursor:pointer; cursor:hand;width: 253px; height: 320px;" src="http://2.bp.blogspot.com/_h2XRf7gRzfY/TAupOYfzpiI/AAAAAAAAAU8/1QsJ_Xh5OUI/s320/professor.jpg" border="0" alt=""id="BLOGGER_PHOTO_ID_5479659436185462306" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;blockquote&gt;&lt;span style="font-style:italic;"&gt;Depois de 10 anos de uma educação científica, a sociedade joga o cientista para dentro da sala de aula a tentar explicar aos alunos as bases das teorias que ele tem trabalhado há tanto tempo. O jovem professor, mesmo que tenha feito cursos de didática, não mais compreende o que o ser humano comum (leigo) conhece sobre a disciplina que ele já conhece tão bem e da qual fala e articula conceitos e tecnicalidades com exímia desenvoltura. Ele precisa agora fazer o caminho reverso, do ultra-conhecimento ao senso-comum de forma que consiga ser compreendido por seus leigos alunos. É um trabalho árduo, e o professor será incompreendido em grande medida.&lt;/span&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em teoria, esta seria e é uma grande idéia: a sociedade investe e seleciona aqueles que desejam conhecer e depois pedem de volta o troco na forma de educação. Excelente idéia. Mas ela se esquece que investiu em um treinamento científico, não didático. E o professor então se vê à frente de meia centena de alunos a passar um conhecimento que, de tão trabalhado e pensado e desenvolvido, não é capaz de alcançar o caminho de volta até o senso-comum. O jovem professor entende o que é sabido em sua área de atuação, mas &lt;span style="font-style:italic;"&gt;ele não entende muito bem o que o cidadão comum sabe sobre o assunto&lt;/span&gt;. E então ele incorre na repetição de tecnicalidades ou numa explicação que necessita de um conhecimento mais basal do qual os alunos ainda não têm familiaridade. Os conceitos que o professor desenvolve e aplica com desenvoltura não são compreendidos linguisticamente pelos jovens que ali estão; o educar científico passa pelo aprendizado de conceitos e de relações entre conceitos; ou seja passa pelo aprendizado de algo que podemos comparar a uma sub-linguagem científica que reside dentro do idioma, no caso, do português. Assim, o jovem professor será por algum tempo e em grande medida, incompreendido. Algo similar ao que acontece nas aulas de línguas, quando um professor tenta dar aulas em inglês para uma platéia que não conhece a língua, o jovem professor falará num tecnicaliquês e será assim incompreendido pelos alunos. Fato é que a incorporação do conhecimento se dá por vias escusas e depende enormemente de toda a bagagem (de vida e intelectual) que aquele indivíduo já tenha se enveredado. Parece-me que quanto mais diversos tenham sido seus interesses ao longo da vida, mais um aluno será capaz de compreender qualquer tipo de aula ou palestra. Muito do que se compreende em sala de aula deve mesclar-se ao que já se sabe e ao que já se viveu para a construção da compreensão em um indivíduo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;DA AQUISIÇÃO DA COMPREENSÃO&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em algumas experiências com alunos de iniciação científica, o jovem professor explica um projeto partindo do que crê ser senso comum e passa ao longo desta explanação por todas as cadeias lógicas necessárias à compreensão, até seu verdadeiro objeto de estudo. Neste momento, o caminho entre a linguagem do senso comum é atravessado até o tecnicaliquês, para isso são usadas figuras e textos que esclarecem melhor o que são os conceitos e qual a relação entre eles [1]. O aluno escuta atentamente cada uma das etapas, diz que segue, faz perguntas até pertinentes, outras nem tão pertinentes assim, e finalmente diz, com certa segurança, que compreendeu a questão que se deseja propor [2]. Nos dias seguintes, entretanto, quando colocado face a face com o problema, o aluno por vezes evidencia que não tem a menor idéia do que está a fazer, seja (a) através de perguntas irrelevantes à questão, (b) através da realização de trabalho não diretamente relacionado ao que se propôs ou, (c) ao completo ócio gerado pela desconexão conceitual, ou seja, por não saber o que fazer. Estes três eventos atestam para o fato de que o aluno inicialmente não compreendeu de fato a questão como se supôs. É claro que algumas vezes ele pode pensar em alguma questão divergente do proposto porém &lt;span style="font-weight:bold;"&gt;extremamente relevante&lt;/span&gt; e anteriormente inimaginada pelo cientista-orientador, dado justamente que toda sua experiência de vida e intelectual é diferente daquele que tem seu professor. Dada entretanto a maior quantidade de educação do professor e sua mais sólida compreensão do empreendimento científico e dos conceitos envolvidos na prática de uma disciplina, é mais frequente que a questão que o próprio professor coloque seja mais relevante e que, justamente pelo fato contrário, ou seja, pelo fato da experiência do aluno ser menor, esse normalmente confunde questões e conceitos, não sendo capaz de verdadeiramente compreender a profundidade ou a importância particular de um determinado estudo [3]. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://3.bp.blogspot.com/_h2XRf7gRzfY/TAurAsuLP5I/AAAAAAAAAVE/TP3ZAIXKuKI/s1600/aluno.png"&gt;&lt;img style="display:block; margin:0px auto 10px; text-align:center;cursor:pointer; cursor:hand;width: 276px; height: 241px;" src="http://3.bp.blogspot.com/_h2XRf7gRzfY/TAurAsuLP5I/AAAAAAAAAVE/TP3ZAIXKuKI/s320/aluno.png" border="0" alt=""id="BLOGGER_PHOTO_ID_5479661400119525266" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;blockquote&gt;&lt;span style="font-style:italic;"&gt;O que o aluno realmente compreende quando diz "compreendi!"? Como se dá a formação de um novo conhecimento no cérebro de um ser humano? Uma ligação conceitual e uma cadeia lógica de relações entre conceitos foi formada? Novos caminhos sinápticos foram realizados e conectados entre neurônios no cérebro? Parece que adquirimos novas idéias através da associação destas a idéias previamente conhecidas e ligamos novos conceitos através de pontes elétricas (neuro-sinápticas) que conectam conhecimentos antes não relacionados em nosso complexo grafo sináptico cerebral. E por que uma semana depois de ter compreendido um problema, o aluno o esquece? Como reforçar as novas conexões cerebrais? Certamente será preciso repetição e memória.&lt;/span&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não obstante, tenho a convicção de que quanto mais livre se deixa o aluno para trabalhar todas essas questões e incorporar tais conceitos lentamente -- porém de forma sólida, criativa e integrativa -- maior é a chance deste aluno contribuir significativamente na resolução do problema ou mesmo na descoberta de questões ainda não tratadas, porém de relevância verdadeira para a questão. Não se deve duvidar de que o aluno verdadeiramente compreendeu a questão quando esta lhe foi explanada pela primeira vez. O que aconteceu foi que ele, tendo saído do laboratório e voltado para seu cotidiano, recebeu diferentes influências neurológicas que o fizeram perder o conhecimento adquirido -- que agora se apresenta em sua compreensão tais como nuvens esparsas. A fixação do conhecimento nos cérebros humanos é sem dúvida um processo lento e &lt;span style="font-style:italic;"&gt;as teorias científicas são arcabouços teóricos complexos&lt;/span&gt;, redes de inter-relações de conceitos, idéias e questões sobre idéias (clusters conceituais) que não aparecem nas cabeças dos indivíduos que senão depois de algum tempo tendo sido gasto em seu amadurecimento, que se dá por vários fatores como: (i) capacidade de memorização; (ii) inter-conexão do novo saber com saberes antigos já assentados, (iii) aquisição de novos conhecimentos, (iv) acomodação conceitual dos novos conhecimentos entre-si, (v) fabricação de novas conexões conceituais do tipo ponte, (vi) além da aquisição de familiaridade linguística com termos, relações e idéias (fixação das pontes através de repetição da idéia e do caminho neuronal a percorrê-la). &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Acredito assim que a construção neurológica de redes conceituais no cérebro humano é um processo lento. Todas os saberes humanos consistem em redes conceituais razoavelmente complexas (as ciências sem dúvida o são) e demora certo tempo até que o cérebro de alguém se acostume com diferentes informações e idéias, sendo capaz de articulá-las com desenvoltura, até que tais conhecimentos auxiliem o indivíduo na compreensão do mundo físico com o qual interage a todo instante [4].&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;EXEMPLO: O jovem estudante das ciências biológicas logo se surpreende, por exemplo, pelo fato de ser possível classificar doenças como bacterianas ou viróticas. Aprende-se que bactérias são organismos unicelulares, alguns de vida livre, outros parasitas. Aprende-se que o vírus não tem metabolismo enquanto fora da célula hospedeira, que não tem estrutura celular, que é um parasita intracelular obrigatório. Questiona-se até se este último é vivo ou não. Tais conhecimentos, embora simples, ajudam na vida cotidiana ao se compreender melhor o que se diz por aí quando alguém adoece; a diferença de quando se pega gripe ou quando é um antibiótico que lhe vai curar uma infecção bacteriana; as bases do diagnóstico e da prática médica. São conhecimentos úteis no dia-a-dia. Entende-se em certo momento as diferenças no tratamento médico dispensado em doenças causadas por organismos procarióticos (bactérias) ou vírus: aos procarióticos podemos tomar antibióticos que vão matá-los seletivamente; aos vírus não há cura e deve-se apenas ficar de repouso e esperar o próprio corpo se recuperar [5]. Entende logo a seguir porque é mais fácil conter uma infecção bacteriana do que uma infecção por fungos, por exemplo. Fungos são organismos eucarióticos, e o que querque se tome para matá-lo também pode afetar as próprias células humanas (também eucarióticas) do doente. As bactérias já funcionam de forma diferente, elas têm ribossomos diferentes aos quais se ligam seletivamente as moléculas antibióticas a impedir seu funcionamento, sem afetar as próprias células humanas. Um antifúngico que bloqueasse os ribossomos do fungo teria muito mais chance de bloquear também os ribossomos das células humanas; e seria, para o paciente, um veneno. Compreende-se assim também as relações evolutivas entre os organismos e a ancestralidade comum que foi a grande idéia de Darwin [6].&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://4.bp.blogspot.com/_h2XRf7gRzfY/TAutzt_QRvI/AAAAAAAAAVM/xFXm8aL5bWc/s1600/mapaConceitual.jpg"&gt;&lt;img style="display:block; margin:0px auto 10px; text-align:center;cursor:pointer; cursor:hand;width: 400px; height: 324px;" src="http://4.bp.blogspot.com/_h2XRf7gRzfY/TAutzt_QRvI/AAAAAAAAAVM/xFXm8aL5bWc/s400/mapaConceitual.jpg" border="0" alt=""id="BLOGGER_PHOTO_ID_5479664475656177394" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;blockquote&gt;&lt;span style="font-style:italic;"&gt;Um exemplo de mapa conceitual, obtido &lt;a href="http://www.vanderbilt.edu/cft/programs/graduate_student/tc/osterhage_files/phpThumb.jpg"&gt;aqui&lt;/a&gt;. Os novos conceitos aprendidos precisam ser relacionados a antigos conceitos já conhecidos e inter-relacionados entre si através das características que eles têm em comum. Tanto para o aprendizado de novos idiomas quando para o aprendizado de novas cadeias conceituais (linguagem científica), essas teias de relações precisam ser formadas na busca da compreensão. Quanto mais esses conceitos forem utilizados e relacionados a eventos da vida cotidiana dos indivíduos, mais facilmente eles serão aprendidos. &lt;a href="http://en.wikipedia.org/wiki/Joseph_D._Novak"&gt;Joseph Novak&lt;/a&gt; parece ter sido um dos grandes teóricos do assunto desde os anos 70.&lt;/span&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;CONHECIMENTO, LINGUAGEM E NEUROBIOLOGIA CEREBRAL&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Assim a aquisição do conhecimento e a interiorização de conceitos ajudam na prática do cotidiano dos seres humanos, como se tem demonstrado desde o alvorecer de nossa espécie [7]. Ao mesmo tempo, a tarefa da compreensão -- que insisto em poder ser comparada ao aprendizado de novas linguagens (inter-relações de conceitos) --  é árdua e demanda tempo, além de certamente exigir uma estrutura física-cerebral bem montada. As diferenças entre as inteligências dos seres humanos pode ser melhor compreendida, acredito, sobre esta perspectiva. É claro que a inteligência é um sistema complexo que integra diferentes características e que pode ser compreendida como (i) a facilidade de apreensão de sistemas conceituais, (ii) a facilidade de integração de sistemas conceituais novos com outros sistemas conceituais já pré-existentes na mente do indivíduo, (iii) a percepção cada vez mais detalhada da realidade física como árbitro para a seleção dos conceitos aos quais se possa ou não confiar (seleção natural ideológica e descarte eficiente de teorias não verificadas no mundo físico). &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://4.bp.blogspot.com/_h2XRf7gRzfY/TAuxcEcOIQI/AAAAAAAAAVU/4hmrm1DVcWs/s1600/sobreposicaoConceitual.png"&gt;&lt;img style="display:block; margin:0px auto 10px; text-align:center;cursor:pointer; cursor:hand;width: 366px; height: 193px;" src="http://4.bp.blogspot.com/_h2XRf7gRzfY/TAuxcEcOIQI/AAAAAAAAAVU/4hmrm1DVcWs/s400/sobreposicaoConceitual.png" border="0" alt=""id="BLOGGER_PHOTO_ID_5479668467412902146" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;blockquote&gt;&lt;span style="font-style:italic;"&gt;O filósofo alemão Ludwick Wittgenstein nos mostrou com seus jogos linguísticos ou jogos de palavras que os conceitos que apreendemos são muitas vezes sobreponíveis e não facilmente traduzíveis de um idioma para outro, por exemplo. Quando se aprende um novo idioma científico ou linguístico, o que se faz é criar esse tipo de associação cerebral, onde conceitos diferentes se mesclam para a formação de conceitos mais amplos e gerais. Não existe uma classificação única e inequívoca dos conceitos e todos conceitos são mesclas de conceitos pré-existentes que se misturam de forma particular e razoavelmente diversa na mente de cada indivíduo. Deste ponto de vista, o que se torna impressionante é como conseguimos nos compreender tão bem uns com os outros.&lt;/span&gt;&lt;/blockquote&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A questão (ii) acima me parece ser de particular importância: o exemplo clássico está relacionado ao aprendizado de uma nova linguagem e ao jogo de palavras wittgensteiniano. Quando se aprende as novas palavras e conceitos de um determinado idioma, tais novos conceitos não são sobreponíveis 100% com os conceitos conhecidos da língua do falante. Num exemplo simples, a palavra "ciao" em italiano pode significar tanto "oi" como "tchau" em nosso português; enquanto o "insight" do inglês não tem uma tradução precisa para um substantivo lusitano (vislumbre?), enquanto por outro lado a nossa "saudade" não tem correspondentes (ortólogos) nominais em francês ou inglês [8]. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Arrisco-me aqui a dizer que a dificuldade da incorporação de clusters conceituais na mente de um indivíduo pode ser uma das possíveis causas de certos problemas neurológicos, como a esquizofrenia. O indivíduo esquizofrênico é aquele que, tendo nascido e sido criado sob um determinado clusters de conceitos que se integravam harmonicamente, em determinado período de sua vida pode ter sido confrontado com outros clusters conceituais razoavelmente complexos e antitéticos com relação ao que ele sempre aprendera em sua vida. O indivíduo problemático pode não ser capaz de reunir duas idéias concorrentes e contraditórias em um único universo conceitual coerente. A esquizofrenia assim pode ser entendida como um dos grandes males causados por uma sociedade repressora como a que temos, onde o indivíduo é criado para ser algum tipo de super-homem, coisa que ele nunca poderá ser. Uma garota é criada para ser uma princesa casta e um rapaz é criado para ser um grande e valoroso líder. Quando então o mundo se apresenta face a face a destruir esses ideais mitológicos das vidas individuais que normalmente incluem em grande medida a negação dos mais básicos instintos, o indivíduo consegue uma saída ao criar um outro self que vai contra as normas sociais mas a favor de seus instintos mais básicos. Nesta sua nova personalidade, o indivíduo consegue expressar desejos e idéias reprimidas em sua personalidade mais básica, ele cria um novo personagem libertário no qual se transforma, eximindo a culpa do primeiro e buscando, neste novo, o extremo do que o outro abominava.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;EVOLUÇÃO EPISTEMOLÓGICA: DA DIALÉTICA DUAL AO CONTINUISMO DAS CLASSES&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Parto deste gancho para dizer que nosso cérebro também parece adquirir o conhecimento e incorporar conceitos a partir da técnica grega da &lt;span style="font-weight:bold;"&gt;dialética&lt;/span&gt;, onde se criam estereótipos do &lt;span style="font-weight:bold;"&gt;super-certo&lt;/span&gt; e do &lt;span style="font-weight:bold;"&gt;super-errado&lt;/span&gt;, com um abismo grandioso entre esses dois conceitos. Esta capacidade em separar os extremos parece ser a forma primeira utilizada por nossos cérebros em busca do conhecimento e da incorporação conceitual: é a técnica do &lt;span style="font-style:italic;"&gt;dividir para conquistar&lt;/span&gt; intelectual. Fato é, entretanto, que o mundo físico não respeita as separações dualísticas que fazemos dele e só depois de acreditarmos piamente na separação dos extremos por -- as vezes -- anos a fio, é que passamos a conseguir enxergar com mais detalhes as nuances e as nuvens que se interpõe entre Um e Outro. O mal como faceta do bem e vice-versa. O yin e o yang que se misturam para gerar compreensão. É isto também que quero dizer com o ponto (iii) ressaltado mais acima. A percepção da realidade pelo ser humano é em princípio tosca e grosseira, ele separa tudo em dois níveis. Moralmente falando a divisão é entre Bom e Ruim, Correto e Errado. Do ponto de vista epistemológico, parece-me qualquer divisão de conceitos ocorre inicialmente desta forma, tal qual os números inteiros aos quais posteriormente foram inventados os números fracionários que interligam os conceitos de números naturais em todas as micro-nuances possíveis. A discretização do mundo em classes frequentemente ajuda a avançar o conhecimento, e só posteriormente percebemos o quanto ela é falsa e nos fornece uma visão incompleta do objeto a ser conhecido. Entretanto, apenas quando já fomos capazes de de separar inicialmente nosso conhecimento e montar esses dois primeiros clusters conceituais, Isso X Aquilo, Mal X Bem, é que podemos então observar o mundo e verificar as características do Isso e do Aquilo separadamente. Eles agora não formam um todo único, incompreensível e inseparável. E então a cada detalhe que vamos notando do Isso e do Aquilo somos capazes de caracterizá-los melhor e vamos aos poucos percebendo novas classes intermediárias que ali no meio se interagem, um entre-Isso-Aquilo que antes pensávamos inexistente. Não parece haver no mundo físico-verdadeiro esta discretização tão precisa à qual criamos em nossas mentes; e o avanço da ciência tem justamente cada vez mais esbarrado no contínuo da matéria e da energia, nas modificações epigenéticas do genoma que negam os modelos teóricos discretos inicialmente propostos. No universo, tudo que é bem conhecido parece estar de certa forma integrado em um nível mais basal e frequentemente as discretizações conceituais tendem a se tornar contínuos em questões epistemológicas. Por outro lado, isso não quer dizer que não existam coisas diferentes e excessivamente diferentes no mundo: é claro que elas existem. Mas parece-me que cada vez mais corroboramos os dizeres de Darwin sobre "Natura non facit saltum" e que como regra geral não há saltos ou revoluções ao longo da natureza, e tudo opera como uma onda que se modifica aos poucos e que tem certa inércia. Não parecem haver grandes rupturas no conhecimento e sim continuidades. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://4.bp.blogspot.com/_h2XRf7gRzfY/TAu1jzJDN_I/AAAAAAAAAVc/tPUbQGLAOF8/s1600/dialetica.png"&gt;&lt;img style="display:block; margin:0px auto 10px; text-align:center;cursor:pointer; cursor:hand;width: 394px; height: 138px;" src="http://4.bp.blogspot.com/_h2XRf7gRzfY/TAu1jzJDN_I/AAAAAAAAAVc/tPUbQGLAOF8/s400/dialetica.png" border="0" alt=""id="BLOGGER_PHOTO_ID_5479672998254557170" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;blockquote&gt;&lt;span style="font-style:italic;"&gt;A formação do conhecimento começa com a identificação de opostos, bem e mal, certo e errado. Desta forma conseguimos observar o mundo e caracterizar eventos em determinados extremos já caracterizados em nosso pensar. Posteriormente percebemos que essas dicotomizações são falsas e que há todo um contínuo entre os conceitos que nos permite finalmente compreender melhor o mundo em suas nuances.&lt;/span&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Também as linguagens não parecem se modificar jamais de uma hora para outra. As revoluções linguísticas demoram anos para acontecerem, justamente por se apresentarem como grandes massas de clusters conceituais (memeplexos) incutidos às cabeças de milhões de seres humanos que precisam modificar seus modos de pensar para que haja mudança cultural. Tais eventos acontecem de forma lenta e gradual, com diferentes acelerações dependendo de quão incutidos estão os velhos pensamentos nas mentes dos homens e quão libertadores são os novos. Muitos dos traumas da sociedade moderna vêm de eventos em nossa história social que foram modificados de uma hora para a outra e traumatizaram as sociedades: a colonização, as falsas fronteiras geográficas entre estados africanos e a criação de Israel são alguns exemplos de mudanças bruscas e traumáticas que tiveram e continuam tendo reflexos imensos em nossa sociedade. Assim as mudanças culturais, pelo fato de envolverem um número grande de pessoas, estão fadadas a acontecer gradualmente ou, ainda mais, apenas aquelas que aconteceram de fato gradualmente é que terão lastro firme e que permanecerão por mais tempo no desenvolver de nossa sociedade. É claro que será sempre preciso financiar a educação e os direitos humanos e trabalhistas, de forma que cada vez mais os humanos possam trabalhar com liberdade e criatividade. Os governos devem sempre dirigir suas sociedades para onde lhes traga mais virtude, mas devem saber que as modificações são graduais e que só serão alcançadas ao longo de décadas. A sociedade é uma esfera de memeplexos dos quais cada um tem conceitos e idéias associados, julgamentos de moral e valor sobre diversos assuntos da prática cotidiana. Nenhuma novidéia é capaz de penetrar avassaladoramente os clusters conceituais razoavelmente fixos que formam a sociedade conservadora presente em todos os estados modernos e enquanto arcabouço cultural da humanidade [10]. Todas as modificações estão fadadas ao gradualismo, e por isso que as sementes dos novos conceitos de liberdade, igualdade, humanismo, educação e tolerância precisam ser plantadas e regadas constantemente pelos governantes. Pelo bem da humanidade e pela paz mundial.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;CONCLUSÃO&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando iniciei este ensaio pensava em dizer algo sobre a experiência do jovem professor que consiste em &lt;span style="font-weight:bold;"&gt;compreender o que os alunos não compreendem&lt;/span&gt;. A tarefa do cientista que vira professor é desconstruir o conhecimento através do qual ele se especializou por cerca de dez anos e torná-lo digerível pelas mentes dos não-iniciados nas teorias científicas. É uma tarefa árdua na qual o professor é levado ao extremo de suas próprias questões com relação à disciplina com a qual trabalha: ele precisa conseguir retirar dela aquilo que de fato a faz importante e fazer a relação (ii) desta teoria com diversos outros sistemas conceituais (memeplexos) para conseguir transmití-la com eficácia aos alunos. É um estudo que dura anos para se aprimorar e segundo o qual o professor deve persistir sem jamais subestimar a capacidade de seus alunos e tentando incentivá-los na busca pela compreensão, amante do conhecimento que é todo verdadeiro educador.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://1.bp.blogspot.com/_h2XRf7gRzfY/TAwSVTl5M-I/AAAAAAAAAVk/WmQG2tlWwyg/s1600/Lyotard.jpg"&gt;&lt;img style="display:block; margin:0px auto 10px; text-align:center;cursor:pointer; cursor:hand;width: 400px; height: 159px;" src="http://1.bp.blogspot.com/_h2XRf7gRzfY/TAwSVTl5M-I/AAAAAAAAAVk/WmQG2tlWwyg/s400/Lyotard.jpg" border="0" alt=""id="BLOGGER_PHOTO_ID_5479775003848815586" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;blockquote&gt;&lt;span style="font-style:italic;"&gt;Os três cavaleiros que forneceram as bases para a compreensão da estruturação do conhecimento humano. Da esquerda para a direita: Kant (1724—1804), Wittgenstein (1889—1951) e Lyotard (1924—1998). Para que compreendamos o problema da compreensão, primeiro precisamos dissociar o conhecimento humano de uma verdade (Kant), observar as relações do conhecimento com a prática linguística (Wittgenstein) e entender os relatos científicos enquanto metanarrativas de exímia retórica (Lyotard). Daí partimos para uma abordagem sobre a lógica do aprendizado através de mapas conceituais, memória e neurobiologia.&lt;/span&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nos meandros deste escrito cheguei a uma pergunta que realmente me interessa enquanto intelectual e que consiste na questão "&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;o que é compreender?&lt;/span&gt;". Kant perguntou em suas críticas, "o que é conhecer?" posto que parecia ter uma idéia do conhecer enquanto algo objetivo e direto. Porém quando Wittgenstein chega para propor seus &lt;span style="font-weight:bold;"&gt;jogos de palavras&lt;/span&gt; e questionar a veracidade dos conhecimentos e dos conceitos, ele começa a questionar-se sobre a linguagem e a adequação do conhecimentos de base linguística a uma realidade física. O próprio Kant conhecia bem essas questões e fez a divisão entre o &lt;span style="font-style:italic;"&gt;nuomeno&lt;/span&gt; (compreensão da coisa) e o &lt;span style="font-style:italic;"&gt;fenômeno&lt;/span&gt; (a coisa em si), argumentando que nada jamais saberemos sobre os fenômenos. Wittgenstein vem ainda a dizer que os grupos de inter-relação de conceitos misturam seus significados propondo as questões sobre os jogos de palavras que Jean-Francois Lyotard resume em seu conceito de &lt;span style="font-style:italic;"&gt;metanarrativas&lt;/span&gt;, onde as representações do mundo físico não são mais vistas como corretas e sim enquanto argumentações que têm se mostrado úteis para nossa compreensão ou para o desenvolvimento de nossa sociedade. Depois desses filósofos, percebe-se uma clara desconexão entre o conhecimento e a realidade física. Porém está claro que, se conseguimos desenvolver tecnologia, se há carros e aviões que voam com precisão, há sem dúvida uma relação ainda que tênue entre o conhecimento dos homens e a realidade. Mesmo que nosso conhecimento seja retórico, ele consegue resumir e encontrar um padrão em determinados eventos do mundo físico. Compreendemos muito pouco e nossa ciência não passa de uma mitologia teórica que está razoavelmente de acordo com os dados empíricos. Mas algo sem dúvida compreendemos. Jamais saberemos a verdadeira relação entre o que pensamos que existe (nuomeno) e o que de fato existe (fenômeno), mas sabemos que tal relação existe.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Voltando à sala de aula, o que o aluno compreende quando diz que o faz são as teias lógicas e linguísticas sob as quais se baseiam as retóricas científicas utilizada pela tradição ocidental para representar o universo ou a sociedade dos homens. O filósofo francês Lyotard argumenta que tais retóricas não necessariamente têm relação com os fenômenos: "Onde, depois das metanarrativas, pode residir a legitimidade?" [11]. Não importa, &lt;span style="font-style:italic;"&gt;o que o educador deve ser capaz de fazer é guiar o estudante ao longo dos caminhos lógicos e conceituais que levaram a sociedade moderna a corroborar e sustentar determinado conhecimento sob a insignia da Verdade.&lt;/span&gt; Não obstante, deve também o educador finalmente mostrar o quanto nossos conhecimentos representam apenas uma linha tênue que trafega sobre uma suposta "Verdade" existente no universo físico. São poucos os alunos que são capazes assim de relativizar seus conceitos e duvidar do conhecimento que está nos livros, &lt;span style="font-style:italic;"&gt;infelizmente a grande maioria dos cientistas considera o nuomeno kantiano como representação fidedigna, senão perfeita, dos fenômenos naturaias&lt;/span&gt;. É também de se pensar que possivelmente muitos alunos desistiriam de se enveredar pelo complexo vocabulário das ciências caso o professor já se mostrasse um relativista de ante-mão. A questão que dá neste momento é: ante esta extrema dúvida epistemológica sobre nosso conhecimento herdada de Kant até o pós-modernismo, como podemos avançar? Qual sentido haverá no avanço das ciências? Se as teorias não passam de retórica, como se explica a tecnologia? Como somos cada vez mais capazes de controlar o ambiente ao nosso entorno se as teorias não passam de metanarrativas e os cientistas não passam de ingênuos? Como explicar o avanço da tecnologia ante a mais profunda dúvida epistemológica? &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;===========&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;NOTAS&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-style:italic;"&gt;&lt;span style="font-style:italic;"&gt;&lt;br /&gt;[1] Por exemplo: em uma aula sobre respiração celular, o professor apresenta o desenho da mitocôndria, explicando que ela é uma organela celular e então ela já dentro da célula, conectada com o DNA nuclear e com diversos tipos de metabólitos produzidos no citoplasma. O professor ensinou assim o conceito: mitocôndria; e a relação deste conceito com outros conceitos previamente conhecidos, a saber: núcleo celular, DNA, metabólitos citoplasmáticos, vias metabólicas para a degradação de açúcares, etc.&lt;br /&gt;[2] A diferença da compreensão de uma aula para um trabalho científico é que na primeira é preciso compreender o que se sabe sobre determinado assunto; no segundo o grau de complexidade é maior: agora é preciso compreender não só o que se sabe, mas também o que não se sabe, gerar pergunta pertinente sobre o assunto e imaginar alguma forma de resolvê-la empiricamente, através da proposição, realização e análise de experimentos que produzirão aumento no conhecimento da humanidade sobre determinado problema. &lt;br /&gt;[3] É possível supor, por outro lado, que o próprio professor tenha aceitado dogmaticamente uma certa etapa do argumento que perfaz. O aluno, entretanto, por não compreender bem a articulação do paradigma vigente, ou seja, por não estar doutrinado, tem a possibilidade de questionar determinados conceitos tidos como óbvios pela geração anterior. Thomas Kuhn em seu clássico "A estrutura das revoluções científicas" observa bem que um professor é útil para ajudar a proliferar a crítica à ciência enquanto jovem e que depois de velho tornar-se-á um defensor do paradigma que ajudou a construir; e que será neste momento a "ciência normal". O jovem crítico parece o melhor de todos os cientistas, é ele quem realmente faz avançar o conhecimento quando questiona as informações recebidas e constrói uma nova explicação para determinados fatos antes observados dogmaticamente. (Vale notar que o jovem crítico não precisa ser jovem em idade, mas jovem com relação àquele tipo de conhecimento, ou seja, não iniciado no paradigma.) Um bom exemplo disso são os dizeres de Einstein quando velho: "para me punir por meu desprezo à autoridade, o destino fez com que eu me tornasse, eu mesmo, uma autoridade" (em tradução livre do inglês: "To punish me for my contempt of authority, fade has made me an authority myself"). Se Einstein tivesse algum dia aceitado a explicação newtoniana sobre a gravitação e não tivesse questionado o conhecimento que chegou até ele, ele nunca teria publicado suas grandes teorias, coisa que fez ainda com 25 anos de idade. Depois, entretanto, tendo provado seu valor, Einstein passou a ser o grande cânone das pesquisas físicas e, respeitado enquanto autoridade, pôde também ter segurado o avanço da física para novas direções enquanto tentava defender suas idéias.&lt;br /&gt;[4] Em uma sociedade da informação como a nossa, o correto conhecimento e processamento de informações pelos cérebros humanos, além da mais clara conexão entre dados e idéias, auxilia de sobremaneira na compreensão do mundo pelos indivíduos e molda sem dúvida o futuro profissional de jovens. O professor tem assim uma grande responsabilidade desenvolvimento de uma nação. Quanto mais conhecimento um indivíduo tem, mais bem sucedido ele é na sociedade moderna, ou, pelo menos em alguma medida o salário do indivíduo tem relação com seu nível educacional. O indivíduo que conecta melhor idéias é também um melhor cidadão, melhor pai, melhor indivíduo. O melhor professor é aquele que ensina os alunos a aprender a compreender. Quem aprende a compreender é então capaz de compreender qualquer coisa que a ele se ensine.&lt;br /&gt;[5] É claro que há também inibidores de proteases e de transcriptases reversas virais que podem ser utilizados em infecções mais graves e crônicas, tais como no tratamento de AIDS e outras imunodeficiências.&lt;br /&gt;[6] Sobre este assunto já escrevi extensamente, particularmente &lt;a href="http://tragodefilosofia.blogspot.com/2009/05/entrevista-sobre-teoria-da-evolucao.html"&gt;aqui&lt;/a&gt; e &lt;a href="http://tragodefilosofia.blogspot.com/2009/11/uma-breve-historia-do-pensamento.html"&gt;aqui&lt;/a&gt;.&lt;br /&gt;[7] Esta é talvez a tão buscada diferença entre o homem e os outros animais. Foi a linguagem, associada ao conhecimento adquirido e dividido entre os humanos que nos tornou sábios, sapiens. O que nos salva também é nosso algoz, esta mesma característica tem sido utilizada contra os humanos ou pela supremacia de uns sobre outros. Por outro lado, é &lt;span style="font-weight:bold;"&gt;absurdo&lt;/span&gt; pensar que apenas nós humanos temos uma linguagem desenvolvida. Apenas pelo fato de não compreendermos as linguagens dos animais, acreditamos que elas são simples ou inexistentes. Entretanto os animais trocam informações através de sons a todo momento e talvez zombem-se de nós que não os compreendemos. Quão ridícula não é nossa busca saganiana em trocar informações com seres doutros planetas em naves espaciais: não compreendemos sequer nossos parentes animais que, sem qualquer sombra de dúvida, têm muito a nos ensinar sobre a vida em nosso planeta! Não compreendemos nossos irmãos evolutivos e almejamos compreender o tão distante, inimaginável? Oh, homem sonhador.&lt;br /&gt;[8] Ortologia é um conceito derivado da biologia molecular. Imagine um gene que tenha uma função já conhecida em alguma determinada espécie. Digamos o gene humano para a proteína insulina. Também na mosca, no macaco e na baleia, existe o mesmo gene que é parecido em letras do DNA com o gene da insulina do homem, mas é um pouco diferente... há certos nucleotídeos As onde deveriam ser Ts e outros pequenas diferenças informacionais. Nesses organismos, entretanto, todas as evidências acumuladas apontam para o fato de que o gene que parece com o da insulina humana tem mesmo a função biológica da insulina nesses outros animais. Então eles são chamados de genes da insulina e diz-se que os diferentes genes da insulina: o do humano, o do boi e o da girafa são genes ortólogos. Aqui transmito a utilização da ortologia para o trabalho linguístico: palavras ortólogas são ditas normalmente como palavras que têm a mesma função num e noutro idioma. [9]&lt;br /&gt;[9] De fato, a teoria prega os genes ortólogos são uma sub-classe dos genes homólogos, que são definidos como aqueles que têm uma &lt;span style="font-weight:bold;"&gt;ancestralidade comum&lt;/span&gt; no passado. Os genes podem ser parecidos sem que tenham sido originados de um mesmo gene duplicado no passado, no evento que chamados de convergência adaptativa. Nestes casos, a realidade física dirigiu o processo através de seleção natural, para que determinada função específica -- linguística ou molecular -- do darwiniano (gene ou palavra) fosse alcançada a partir de diferentes pontos de partida. Na convergência adaptativa, a similaridade função não provém de ancestralidade comum e é como se dois caminhos tivessem convergido tendo começado separada e independentemente. Os afluentes do rio que desembocam no mar. Esse não é o caso dos homólogos, que chegam no mar a partir de vias confluentes, que começaram num mesmo ponto e só então se divergiram.&lt;br /&gt;[10] Por outro lado, as idéias tecnológicas como os computadores, os telefones celulares e diversas outras modernidades tecnológicas têm chegado com velocidade a modificar as vidas dos humanos e parecem ter sido adaptadas bem pelo conjunto memético (ou ideológico) da humanidade. Neste caso, o problema estará nos graves problemas que estes tipos de tecnologia trazem do ponto de vista ambiental, gerando mais lixo de difícil degradação e poluição.&lt;br /&gt;[11] Trecho completo sobre o assunto em "A condição pós-moderna" de Jean-François Lyotard. "&lt;span style="font-style:italic;"&gt;Simplificando ao extremo, eu defino o pós-moderno como a incredulidade de metanarrativas. Esta incredulidade é sem dúvida um produto do progresso das ciências: mas este progresso por sua vez pressupõe ele mesmo. A crise da filosofia metafísica e das instituições universitárias que no passado a confiavam e suportavam levou, mais notavelmente, em fazer com que os métodos metanarrativos de legitimação se tornassem obsoletos. A função da narrativa está perdendo sua fundamentação, seus grandes heróis, seus grandes perigos, suas grandes viagens e suas grandes objetivos. Ela está sendo dispersada em nuvens de elementos narrativos linguísticos -- narrativos, mas também denotativos, prescritivos, descritivos e assim por diante (...) Onde, depois das metanarrativas, pode residir a legitimidade?&lt;/span&gt;". Texto original de Lyotard arduamente traduzido da obra "The Postmodern Condition: Introduction": "Simplifying to the extreme, I define postmodern as incredulity toward metanarratives. This incredulity is undoubtedly a product of progress in the sciences: but that progress in turn presupposes it. To the obsolescence of the metanarrative apparatus of legitimation corresponds, most notably, the crisis of metaphysical philosophy and of the university institution which in the past relied on it. The narrative function is losing its functors, its great hero, its great dangers, its great voyages, its great goal. It is being dispersed in clouds of narrative language elements--narrative, but also denotative, prescriptive, descriptive, and so on [...] Where, after the metanarratives, can legitimacy reside?"&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/23099929-4494249923720143233?l=tragodefilosofia.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://tragodefilosofia.blogspot.com/feeds/4494249923720143233/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=23099929&amp;postID=4494249923720143233&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/23099929/posts/default/4494249923720143233'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/23099929/posts/default/4494249923720143233'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://tragodefilosofia.blogspot.com/2010/04/experiencia-do-jovem-professor.html' title='A experiência do jovem professor'/><author><name>Prós</name><uri>http://www.blogger.com/profile/18282398415856299778</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='24' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/-OJfdox4-acU/Tm_oXf840OI/AAAAAAAAAlc/1ROS0tKzZ5k/s220/facebook_perfil_picture.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://2.bp.blogspot.com/_h2XRf7gRzfY/TAupOYfzpiI/AAAAAAAAAU8/1QsJ_Xh5OUI/s72-c/professor.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-23099929.post-2309455709843015487</id><published>2010-03-20T10:41:00.004-03:00</published><updated>2011-04-18T14:16:31.664-03:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='epistemologia'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='evolução'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='origem da vida'/><title type='text'>Meeting Report: 12th Evolutionary Biology in Marseilles</title><content type='html'>O encontro científico &lt;span style="font-style:italic;"&gt;Evolutionary Biology in Marseilles&lt;/span&gt; (EBM) consiste no maior encontro sobre biologia evolutiva da França e acontece há 14 anos organizado pelo pesquisador francês &lt;span style="font-weight:bold;"&gt;Pierre Pontarotti&lt;/span&gt;. Em 2008, enquanto realizava meu pós-doutorado em Strasbourg -- numa colaboração com o grupo de Pierre em Marseilles -- enviamos um resumo para apresentação oral neste congresso e, assim como todos que assim desejaram, fui aprovado e falei sobre a &lt;a href="http://www.evolutionaryontology.org"&gt;ontologia CDAO&lt;/a&gt; para uma plateia de centenas de cientistas de todo o mundo. Pierre, sem sequer me conhecer, gentilmente ofereceu para que eu ficasse hospedado com sua família em sua própria casa e assim passei cerca de três semanas nesta bela, caótica e interessante cidade ao sul da França, onde trabalhei com seus alunos e ajudei numa coisa e outra quando da organização do congresso. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://1.bp.blogspot.com/_h2XRf7gRzfY/S6sxVGs76OI/AAAAAAAAATE/rUmwP4BMY-0/s1600/ebm.jpg"&gt;&lt;img style="display:block; margin:0px auto 10px; text-align:center;cursor:pointer; cursor:hand;width: 172px; height: 175px;" src="http://1.bp.blogspot.com/_h2XRf7gRzfY/S6sxVGs76OI/AAAAAAAAATE/rUmwP4BMY-0/s400/ebm.jpg" border="0" alt=""id="BLOGGER_PHOTO_ID_5452506012508219618" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;blockquote&gt;&lt;span style="font-style:italic;"&gt;EBM (Evolutionary Biology in Marseilles) parece ser o principal congresso de biologia evolutiva francês. Todo ano, no mês de setembro, pesquisadores do mundo inteiro se reúnem. A idéia do congresso é permitir que todos os interessados apresentem seminários de até 20 minutos (dentre pesquisadores renomados, estudantes e neófitos da área) e que aconteçam discussões abertas e instigantes. A conferência é bastante interessante e sem dúvida alguma vale a pena conferir.&lt;/span&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O congresso foi tão interessante, aberto e simples que não parei de fazer anotações a cada palestra que acontecia. Ao fim do mesmo, tinha um caderno de anotações sobre a conferência que decidi transformar em texto e apresentar a Pontarotti. Ele ficou satisfeito com o resultado e, depois de algumas modificações, aceitou publicá-lo como "relatório do encontro" (&lt;span style="font-style:italic;"&gt;meeting report&lt;/span&gt;) na abertura ao livro da editora &lt;span style="font-style:italic;"&gt;Springer&lt;/span&gt; -- onde determinados trabalhos apresentados na conferência saíram oficialmente enquanto publicações científicas. Neste blogue, inclusive, já publiquei a tradução de uma pequena parte do texto publicado por meu grupo de pesquisa no referido livro (clique &lt;a href="http://tragodefilosofia.blogspot.com/2009/02/revolucoes-conceituais-kuhnianas-em.html"&gt;aqui&lt;/a&gt; para ler).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://4.bp.blogspot.com/_h2XRf7gRzfY/S6sxM6639OI/AAAAAAAAAS8/JO6AqXTTgTA/s1600/LivroPontarottiCapa.jpg"&gt;&lt;img style="display:block; margin:0px auto 10px; text-align:center;cursor:pointer; cursor:hand;width: 263px; height: 400px;" src="http://4.bp.blogspot.com/_h2XRf7gRzfY/S6sxM6639OI/AAAAAAAAAS8/JO6AqXTTgTA/s400/LivroPontarottiCapa.jpg" border="0" alt=""id="BLOGGER_PHOTO_ID_5452505871906501858" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;blockquote&gt;&lt;span style="font-style:italic;"&gt;Capa do livro editado pela editora Springer, onde foram publicados os melhores trabalhos apresentados neste congresso de 2008. A presente postagem é uma tradução livre das páginas &lt;span style="font-weight:bold;"&gt;vi&lt;/span&gt; a &lt;span style="font-weight:bold;"&gt;x&lt;/span&gt; do mesmo, escrita por mim e por Pontarotti, originalmente em inglês. O livro pode ser comprado pelo site da &lt;a href="http://www.amazon.com/Evolutionary-Biology-Concept-Modeling-Application/dp/3642009514/ref=sr_1_2?ie=UTF8&amp;s=books&amp;qid=1269511517&amp;sr=8-2"&gt;amazon&lt;/a&gt; pelo amargo preço de U$159,00. Neste livro, sai publicado em nome deste blogueiro este "Meeting report" abaixo e também o capítulo 12, escrito em colaboração com pesquisadores ingleses, italianos e americanos.*&lt;/span&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;=== &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;Sobre o décimo segundo encontro de biologia evolutiva em Marseilles&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;-- &lt;span style="font-style:italic;"&gt;Meeting Report: 12th Evolutionary Biology&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;Por &lt;span style="font-weight:bold;"&gt;Francisco Prosdocimi&lt;/span&gt; e Pierre Pontarotti&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O décimo segundo &lt;a href="http://sites.univ-provence.fr/evol-cgr/"&gt;encontro de Biologia Evolutiva em Marseilles&lt;/a&gt; (EBM) havia sido previsto para começar no dia 24 de Setembro de 2008, tendo entretanto começado de fato em uma mesa de jantar na noite anterior à sua abertura oficial. Pessoas de todo o mundo que chegavam um dia antes do ínicio oficial da conferência reuniram-se nesta atividade social informal. E é claro que não poderia ter sido diferente: um grupo de cientistas -- apaixonados por seus objetos de estudo -- sentados numa mesa de jantar só poderia resultar em uma coisa: um &lt;span style="font-weight:bold;"&gt;debate científico&lt;/span&gt;. Foi Daniel John Lawson, um pós-doutorando do Imperial College de Londres, quem colocou a questão central: "&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;Será que ainda existiriam controvérsias básicas na biologia evolutiva que não teriam sido resolvidas?&lt;/span&gt;" A resposta geral ao longo da mesa enquanto garrafas de diferentes vinhos tintos e brancos circulavam entre copos que se esvaziavam quiçá rapidamente foi um claro e efusivo "&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;Não&lt;/span&gt;". Todos aqueles vinte a trinta cientistas que se deliciavam com um tradicional &lt;span style="font-style:italic;"&gt;repas français&lt;/span&gt; pareciam estar razoavelmente satisfeitos com a visão moderna do paradigma darwiniano. Todos concordavam que Darwin havia apresentado a chave e o ponto de convergência do maior programa de pesquisa em ciências biológicas. Alguém relembrou Dobzhansky: "&lt;span style="font-style:italic;"&gt;Nada faz sentido na biologia exceto à luz da evolução&lt;/span&gt;". Naquele momento parecia que os biólogos evolutivos ao redor da grande mesa de um restaurante no "Vieux Port" (o velho porto) de Marseilles estariam subestimando a riqueza e profundidade dos debates -- muitos deles envolvendo controvérsias de longa data na biologia evolutiva -- em que estariam envolvidos nos dias que se seguiram...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Logo na primeira manhã do congresso, um modelo computacional para mudanças evolutivas foi apresentado e suscitou um debate entre a força da seleção natural em oposição aos modelos quase-neutros baseados nas idéias de Kimura: &lt;span style="font-weight:bold;"&gt;selecionismo e neutralismo&lt;/span&gt; foram postos em debate. À tarde, Guy Hoelzer da Universidade de Nevada nos Estados Unidos trouxe à pauta uma discussão sobre a &lt;span style="font-style:italic;"&gt;relevância da alopatria para a especiação&lt;/span&gt;, discutindo como os genomas de populações passam a se tornar incompatíveis depois de mutações acontecendo especificamente aqui ou ali. A confirmação deste cenário era dada através de simulações computacionais, onde um grupo de Londres mostrava a presença de polimorfismos em vírus da Hepatite B que estavam geograficamente restritos a certas cepas do vírus encontradas em regiões particulares do planeta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No dia seguinte, a relação entre parentesco e fertilidade era também modelada computacionalmente apontando que a maior fecundidade em humanos deveria ser observadas em casais relacionados segundo parentesco de terceiro ou quarto graus. Stanislaw Cebrat e colaboradores produziram um modelo que argumentavam explicar e provar a ocorrência de &lt;span style="font-style:italic;"&gt;especiação simpátrica&lt;/span&gt; baseada na morte de zigotos quando associados a algum tipo de depressão de exogamia intrapopulacional. Além disso, o polêmico assunto sobre &lt;span style="font-weight:bold;"&gt;origem da vida&lt;/span&gt; foi discutido por pesquisadores trabalhando na Itália, Rússia e Japão. Di Mauro utilizou informações físicas sobre as moléculas orgânicas mais comumente encontradas nos sistemas interestelares para discutir uma provável origem dos sistemas vivos baseada em moléculas de &lt;span style="font-weight:bold;"&gt;formamida&lt;/span&gt; (CH3NO). Victor Ostrovskii concordava com Di Mauro no sentido em que achava que a vida não deveria ter surgido a partir de eventos excessivamente pouco prováveis, surgindo a partir de condições termodinamicamente favoráveis. O ponto-chave em suas argumentações parecia poder ser resumido através da citação de Victor Stenger em "The Comprehensive Cosmos", que dizia "algo surge do nada porque é mais estável do que o nada" ("&lt;span style="font-style:italic;"&gt;something came from nothing because it is more stable than nothing&lt;/span&gt;"). Tadashi Sugawara abordou a questão sobre a &lt;span style="font-weight:bold;"&gt;origem das células&lt;/span&gt; mostrando que vesículas lipídicas gigantes poderiam dividir em possivelmente se reproduzir sem que precisassem de informações teleonômicas (como informações codificadas por DNA) a guiar suas duplicações. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://3.bp.blogspot.com/_h2XRf7gRzfY/S7EwyhnBn5I/AAAAAAAAATc/bDLVwwVZTYY/s1600/Stenger_ComprehensiveCosmos.jpg"&gt;&lt;img style="display:block; margin:0px auto 10px; text-align:center;cursor:pointer; cursor:hand;width: 400px; height: 400px;" src="http://3.bp.blogspot.com/_h2XRf7gRzfY/S7EwyhnBn5I/AAAAAAAAATc/bDLVwwVZTYY/s400/Stenger_ComprehensiveCosmos.jpg" border="0" alt=""id="BLOGGER_PHOTO_ID_5454194268296028050" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;blockquote&gt;&lt;span style="font-style:italic;"&gt;O livro "The comprehensive cosmos" de Victor Stenger (cujo subtítulo é: "de onde veem as leis da física") foi citado por pesquisadores em &lt;span style="font-weight:bold;"&gt;origem da vida&lt;/span&gt; ao argumentarem que a vida provavelmente não surgiu de condições absurdamente improváveis: "algo surge do nada porque é mais estável que o nada".&lt;/span&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Também a &lt;span style="font-weight:bold;"&gt;evolução do sexo&lt;/span&gt; foi simplisticamente abordada, explicada e teorizada através de modelos computacionais que descreviam o comportamento de presas escapando de predadores. Robert French da Universidade de Burgundy apresentou um interessante modelo para descrever o que ele chamou da "&lt;span style="font-style:italic;"&gt;Hipótese do dente vermelho&lt;/span&gt;" no qual teorizava sobre estratégias combinadas que deveriam ser utilizadas por presas para escaparem de predadores durante uma fuga. Usando portanto um modelo computacional para descrever o comportamento de caça/fuga em populações com reprodução sexuada e assexuada, ele abordou a questão sobre como a reprodução sexual poderia produzir vantagens no comportamento de fuga da presa e permitir que ela sobreviva ao ataque de predadores famintos. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Finalmente, ainda no primeiro dia a evolução das funções gênicas através de &lt;span style="font-weight:bold;"&gt;neofuncionalização&lt;/span&gt; e &lt;span style="font-weight:bold;"&gt;subfuncionalização&lt;/span&gt; foram discutidas por Ashley Byun McKay da Universidade de Fairfield no Canadá. A pesquisadora mostrava exemplos de genes duplicados nos quais uma única mutação na sequência do peptídeo sinal seria responsável para modificar o compartimento celular no qual um gene deveria ser expresso e, posteriormente, modificar a própria função gênica. Os debates foram então desviados para a relevância de &lt;span style="font-weight:bold;"&gt;teorias saltacionistas&lt;/span&gt; acontecendo durante a evolução. &lt;span style="font-style:italic;"&gt;Quão frequentemente mutações de ponto como estas poderiam produzir modificações drásticas na função gênica e no comportamento de organismos?&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Além destas discussões de longa data na história da biologia evolutiva, novas tecnologias para a análise evolutiva foram apresentadas durante a conferência francesa. Representadas por uma palestra e três apresentações de posters, um grupo da Croácia liderado por &lt;span style="font-style:italic;"&gt;Tomislav Domazet-Lozo&lt;/span&gt; consistia provavelmente no maior time de pesquisa presente na conferência, à exceção dos grupos oriundos de Marseilles. Sua linha de pesquisa havia sido batizada de &lt;span style="font-weight:bold;"&gt;filoestratigrafia&lt;/span&gt; e consistia em (i) na identificação de genes espécie-específicos e (ii) na verificação da expressão desses genes em diferentes tecidos em organismos. Dessa forma, o grupo foi capaz de identificar a relevância de genes novos expressos em tecidos e abordar questões relacionadas à modificação de tecidos e órgãos ao longo do tempo em diversas espécies-modelo. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Outra nova tecnologia apresentada durante o congresso era trazida por um consórcio formado por pesquisadores franceses e americanos. Eles traziam a descrição de um modelo conceitual (ontologia) que, segundo argumentam, permitirá aos pesquisadores representar informações evolutivas de uma maneira que englobe caracteres morfológicos e moleculares entre organismos e genes. Eles argumentavam que a descrição de experimentos de acordo com conceitos básicos na biologia evolutiva -- relacionados através de entidades semânticas, como verbos e conceitos -- irá facilitar a inferência funcional baseada em dados filogenéticos, ajudando na interpretação das enormes quantidades de dados disponíveis em biologia na era do petabyte*. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://2.bp.blogspot.com/_h2XRf7gRzfY/S7EvIYmZM1I/AAAAAAAAATU/0YgDtt-Dy8g/s1600/coreConcepts2.jpg"&gt;&lt;img style="display:block; margin:0px auto 10px; text-align:center;cursor:pointer; cursor:hand;width: 400px; height: 310px;" src="http://2.bp.blogspot.com/_h2XRf7gRzfY/S7EvIYmZM1I/AAAAAAAAATU/0YgDtt-Dy8g/s400/coreConcepts2.jpg" border="0" alt=""id="BLOGGER_PHOTO_ID_5454192444811326290" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;blockquote&gt;&lt;span style="font-style:italic;"&gt;Num trabalho apresentado oralmente (em inglês) por este blogueiro, nosso grupo de pesquisa descreve a ontologia CDAO. A idéia herdada do Círculo de Viena consiste em definir conceitos-chave a partir dos quais se pode representar todo e qualquer estudo em evolução biológica. Baseado em um modelo linguístico, uma vez que dados brutos tenham sido representados ali, programas raciocinadores (reasoners) podem ser capazes de buscar por conhecimento novo de forma totalmente automática. Dada a enorme quantidade de dados das novas técnicas de sequenciamento, abordagens semânticas devem ter cada vez mais espaço na biologia moderna.*&lt;/span&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Com relação à &lt;span style="font-weight:bold;"&gt;evolução de famílias gênicas&lt;/span&gt;, um grupo irlandês mostrou que genes relacionados à resposta imune estão localizados em locos próximos e que provavelmente são expressos em conjunto nos genomas de vertebrados. A &lt;span style="font-weight:bold;"&gt;seleção natural molecular&lt;/span&gt; foi estudada através das substituições em sítios sinonímios por não-sinonímios (dS/dN) por vários grupos espalhados pelo mundo: no Japão verificaram seleção em galactinas de peixes; na Irlanda, correlacionaram esses valores com a estrutura tridimensional de proteínas; e na Alemanha a seleção molecular foi estudada em genes da família Asr em tomates enquanto um grupo francês e americano verificava taxas enviesadas de substituição relacionadas a fatores de virulência em nematódeos. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Com relação ao &lt;span style="font-weight:bold;"&gt;estudo de fósseis&lt;/span&gt;, novas pesquisas feitas nos EUA mostravam que o desenvolvimento das técnicas de datação por &lt;span style="font-style:italic;"&gt;carbono 14&lt;/span&gt; ocorrido na última década tem ajudado a revelar que grande parte das mudanças moleculares observadas no genoma humano aconteceram durante o período &lt;span style="font-style:italic;"&gt;Holoceno&lt;/span&gt; (ou seja, nos últimos 10.000 anos da história de nosso planeta). Além disso, &lt;span style="font-weight:bold;"&gt;paleobotânicos&lt;/span&gt; chineses mostravam a existência de um novo grupo fóssil de Angiospermas. Enquanto isso, outras pesquisas botânicas na Bélgica e Alemanha usavam tanto dados morfológicos quanto moleculares para estudar a evolução de grupos basais de Angiospermas da família Piperales. Pegando agora o rumo em direção à botânica, pesquisadores franceses e italianos também evidenciaram que populações densas de plantas produzem sementes mais viáveis, pesquisa esta que está de acordo com o trabalho apresentado anteriormente onde geneticistas humanos provavam que a maior fertilidade em nossa espécie se dá entre grupos cujos ancestrais não estão muito afastados no passado. Um grupo de Israel mostrava evidência de eventos de &lt;span style="font-weight:bold;"&gt;alotetraploidia&lt;/span&gt; acontecendo durante a evolução molecular de carpas (Cyprinidae), talvez única evidência deste evento -- tão comum em plantas -- acontecendo em espécies de vertebrados. Brian Kennedy apresentou um estudo interessante sobre envelhecimento, onde mostrava evidências de que este processo não parecia ser programado molecularmente, uma vez que as pressões seletivas diminuíam com a idade. Junto com seus colaboradores, mostraram que as &lt;span style="font-weight:bold;"&gt;restrições calóricas&lt;/span&gt; feitas tardiamente nas vidas de moscas, vermes e lêvedos podem ajudar esses organismos a estender a duração de suas vidas. Talvez portanto o melhor conselho a ser dado a idosos que desejam viver mais, seja: &lt;span style="font-weight:bold;"&gt;comam menos&lt;/span&gt;!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Além disso, uma considerável quantidade de discussões livres tiveram foco em campos de pesquisa &lt;span style="font-weight:bold;"&gt;interdisciplinares&lt;/span&gt;. A &lt;span style="font-weight:bold;"&gt;aplicação de métodos cladísticos para reconstruir a história das galáxias&lt;/span&gt; foi abordada por Didier Fraix-Brunet do Laboratório de Astrofísica de Grenoble. Sua abordagem &lt;span style="font-weight:bold;"&gt;astrocladística&lt;/span&gt; foi utilizada para identificar e mapear numerosos caracteres provavelmente importantes para a evolução de galáxias, permitindo a classificação das mesmas em árvores filogenéticas. Como esperado, devido à tradição conservadora da academia científica, o pesquisador reclamou de dificuldades em publicar essas novas e interessantes idéias em revistas científicas de renome. "&lt;span style="font-style:italic;"&gt;Galáxias não são organismos vivos&lt;/span&gt;", argumentavam os revisores ao recusar os trabalhos de seu grupo. Algúem trabalhando com origem da vida fez a ressalva: "&lt;span style="font-style:italic;"&gt;se as galáxias se modificam ao longo do tempo; se elas podem nascer e morrer; se derivam de um suposto ancestral originado no Big Bang e se podem interagir umas com as outras... por que não deveriam ser consideradas vivas?&lt;/span&gt;" Devemos aqui nos lembrar que a discussão sobre as características de um sistema vivo foi um dos mais importantes pontos que levaram o físico &lt;span style="font-style:italic;"&gt;Erwin Schrodinger&lt;/span&gt; a teorizar sobre "&lt;span style="font-style:italic;"&gt;um cristal aperiódico&lt;/span&gt;" a armazenar a informação genética em 1944. Lido com interesse por Watson e Crick, Schrodinger pode ser também considerado um dos arquitetos da biologia molecular moderna.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://1.bp.blogspot.com/_h2XRf7gRzfY/S7EuGmJLF0I/AAAAAAAAATM/xUBc3jUkhDk/s1600/astrocladistic.jpg"&gt;&lt;img style="display:block; margin:0px auto 10px; text-align:center;cursor:pointer; cursor:hand;width: 386px; height: 400px;" src="http://1.bp.blogspot.com/_h2XRf7gRzfY/S7EuGmJLF0I/AAAAAAAAATM/xUBc3jUkhDk/s400/astrocladistic.jpg" border="0" alt=""id="BLOGGER_PHOTO_ID_5454191314575497026" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;blockquote&gt;&lt;span style="font-style:italic;"&gt;O francês Didier Fraix-Burne do Laboratório de Astrofísica de Grenoble, na Suiça, mostrava que as galáxias podem ser compreendidas, estudadas e classificadas através de análises cladísticas. Seu trabalho pioneiro era criticado por revisores de afamadas revistas científicas, mas tem sido publicado com sucesso em revistas menos estritas.&lt;/span&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Abordagens interdisciplinares foram também discutidas sob a óptica da economia. Michael Turk, representando o Fitchbrug State College (USA) falou à audiência sobre como as principais tentativas de cientificizar a economia haviam sido inicialmente baseadas em modelos herdados da física. Entretanto, percebe o pesquisador, várias características do modelo econômico o aproximam mais dos modelos em biologia, tais como: (1) ênfase na complexidade; (2) característica dinâmica; (3) foco na mudança cumulativa; (4) natureza competitiva; e assim por diante. Seguindo essa mesma linha argumentativa introduziu alguns filósofos da economia (Brian Arthur, Paul David e Paul Krugman) que teriam sido influenciados por biólogos como Jacques Monod e trazido idéias originadas nas ciências biológicas tais quais a idéia do "acaso e necessidade" à pesquisa em economia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Finalmente, outros tópicos interdisplinares foram discutidos ao longo da conferência como as relações entre a biologia evolutiva e a teoria do conhecimento (epistemologia). Questões específicas feitas pela audiência geraram tais discussões, uma vez que alguns pesquisadores argumentaram que uma determinada teoria científica havia sido "&lt;span style="font-style:italic;"&gt;provada falsa&lt;/span&gt;" há muito tempo, sugerindo sem qualquer cortesia que o estudo apresentado devesse ser considerado totalmente infrutífero e inconclusivo. A discussão então se voltou para a seguinte questão: será que a ciência realmente pode dar alguma &lt;span style="font-weight:bold;"&gt;resposta definitiva&lt;/span&gt; quanto ao estudo da natureza? A física newtoniana foi lembrada como a mais indubitavelmente correta das teorias científicas tendo sido posteriormente provada -- ao menos em parte -- como falsa ou incompleta. Deverão os cientistas dogmatizar suas buscas pelo conhecimento? A concordância geral era que discussões abertas sempre tendo como base fatos observados em pesquisas experimentais deveriam nortear e carregar o desenvolvimento científico. O &lt;span style="font-style:italic;"&gt;dogmatismo&lt;/span&gt; quando à aceitação de hipóteses não deveria ser mantido dentro dos domínios da ciência e, em particular, fora do campo da biologia evolutiva -- ciência que já sofreu tanto nas mãos de dogmas religiosos desde Darwin vivendo na conservadora Inglaterra vitoriana até os fanáticos criacionistas americanos. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por último -- mas não menos importante -- vale salientar a grande variedade de abordagens computacionais, biológicas e filosóficas apresentadas durante este encontro. Pesquisadores das mais diferentes áreas, iluminados pela mais fértil de todas as teorias biológicas, o darwinismo, teem até hoje sido capazes de investigar os mais diversos fenômenos naturais sob sua óptica, que agora já se estende à física e à economia (isso sem falar na linguística, ausente neste congresso mas cuja metodologia de estudo tem também moldes darwinianos). As controvérsias evolutivas e as discussões mais recentes dentro da área são ricas e teem permitido uma maturação cada mais precisa da teoria geral exposta por Darwin há mais de 150 anos, teoria esta que continua sendo o programa de pesquisa mais generalista e integrador de todas as ciências biológicas, incluindo as ciências médicas, em todo o mundo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;===&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;* Mais informações sobre a ontologia evolutiva podem ser encontradas em:&lt;br /&gt;&lt;ul&gt;&lt;li&gt;Prosdocimi F, Chisham B, Pontelli E, Thompson JD, Stoltzfus A. &lt;span style="font-weight:bold;"&gt;Initial Implementation of a comparative Data Analysis Ontology.&lt;/span&gt; &lt;span style="font-style:italic;"&gt;Evolutionary Bioinformatics &lt;/span&gt;2009:5 47-66. Download &lt;a href="http://www.la-press.com/redirect_file.php?fileId=2088&amp;filename=EBO-5-Stoltzfus-et-al&amp;fileType=pdf"&gt;PDF&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;li&gt;Sítio &lt;a href="http://www.evolutionaryontology.org"&gt;EvolutionaryOntology.org&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;li&gt;Prosdocimi F, Chisham B, Pontelli E, Stoltzfus A and Thompson JD.&lt;span style="font-weight:bold;"&gt; Knowledge Standardization in Evolutionary Biology: The Comparative Data Analysis Ontology.&lt;/span&gt; &lt;span style="font-style:italic;"&gt;Evolutionary Biology: Concept, Modeling, and Application.&lt;/span&gt; doi://10.1007/978-3-642-00952-5_12. Download &lt;a href="http://www.springerlink.com/content/u617820244047382/fulltext.pdf"&gt;PDF&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;/ul&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/23099929-2309455709843015487?l=tragodefilosofia.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://tragodefilosofia.blogspot.com/feeds/2309455709843015487/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=23099929&amp;postID=2309455709843015487&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/23099929/posts/default/2309455709843015487'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/23099929/posts/default/2309455709843015487'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://tragodefilosofia.blogspot.com/2010/03/meeting-report-12th-evolutionary.html' title='Meeting Report: 12th Evolutionary Biology in Marseilles'/><author><name>Prós</name><uri>http://www.blogger.com/profile/18282398415856299778</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='24' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/-OJfdox4-acU/Tm_oXf840OI/AAAAAAAAAlc/1ROS0tKzZ5k/s220/facebook_perfil_picture.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://1.bp.blogspot.com/_h2XRf7gRzfY/S6sxVGs76OI/AAAAAAAAATE/rUmwP4BMY-0/s72-c/ebm.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-23099929.post-7789364046359274875</id><published>2010-02-25T20:50:00.000-03:00</published><updated>2010-03-15T11:04:33.993-03:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='filosofia da ciência'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='multidisciplinaridade'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='história da ciência'/><title type='text'>Porque a multidisciplinaridade favorece a ocorrência de anomalias e a melhor articulação de paradigmas</title><content type='html'>&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;Um estudo de caso em BioInformática&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br&gt;Desde o surgimento da ciência moderna nos séculos XVII e XVIII, as atividades de pesquisa científica e a importância social dada a elas têm crescido assustadoramente. O que se nota, entretanto, é que até bem pouco tempo atrás era possível observar uma grande lacuna entre as ciências. A matemática tratava de problemas matemáticos. A física tratava de problemas sobre estrutura e origem do universo. A química, sobre propriedades intrínsecas às moléculas; e a biologia tratava de problemas essenciais aos organismos ditos vivos. Essas grandes ciências começaram a perseguir e buscar conhecimentos partindo de pontos diferentes sobre a observação da natureza e expandiram seus conhecimentos de &lt;span style="font-weight:bold;"&gt;ciência normal&lt;/span&gt; até os limites concebíveis dentro dos sistemas paradigmáticos vigentes, tornando-se áreas bastante tradicionais da pesquisa científica moderna.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entretanto, parece que durante o século XX, as ciências básicas expandiram-se até esbarrarem em um &lt;span style="font-style:italic;"&gt;muro conceitual paradigmático&lt;/span&gt; que tem se mostrado cada vez mais resistente em ser destruído. Assim, tendo observado dificuldades em seguir para frente no avanço do conhecimento específico &lt;span style="font-style:italic;"&gt;intra-disciplinar&lt;/span&gt; -- e dada a pequena proporção de Einsteins entre a população humana --, as ciências começaram a caminhar lateralmente, produzindo &lt;span style="font-style:italic;"&gt;ciências intermediárias&lt;/span&gt; como a físico-química, a biofísica e a bioquímica. Assim, o conhecimento científico desde as últimas décadas do século XX continua a avançar, mas desta vez ultrapassando os arbitrários limites que definem determinado conhecimento como sendo alvo do escrutínio de uma ou outra disciplina básica do conhecimento humano. Essa &lt;span style="font-weight:bold;"&gt;interdisciplinaridade&lt;/span&gt; tem permitido, portanto, que pesquisadores adeptos de uma determinada escola científica passem a tratar de problemas originalmente lotados a outra disciplina. E isso parece &lt;span style="font-style:italic;"&gt;enriquecer&lt;/span&gt; a busca pelo saber ao cruzar permitir que cientistas educados diferentemente apliquem seus conhecimentos em dados empíricos não normalmente analisados segundo determinado ponto-de-vista (paradigma).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://3.bp.blogspot.com/_h2XRf7gRzfY/S5413BrKBiI/AAAAAAAAAS0/qSzY7nt893M/s1600-h/kuhn.jpg"&gt;&lt;img style="display:block; margin:0px auto 10px; text-align:center;cursor:pointer; cursor:hand;width: 224px; height: 328px;" src="http://3.bp.blogspot.com/_h2XRf7gRzfY/S5413BrKBiI/AAAAAAAAAS0/qSzY7nt893M/s400/kuhn.jpg" border="0" alt=""id="BLOGGER_PHOTO_ID_5448851818623403554" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;blockquote&gt;&lt;span style="font-style:italic;"&gt;Thomas Kuhn parece ter sido, ao lado de Karl Popper, um dos mais influentes filósofos da ciência do século XX. Segundo Kuhn cada disciplina científica educa seus discípulos de forma a fazê-los compreender e saber aplicar um determinado conjunto de idéias e metodologias já tradicionais naquela área de pesquisa. A educação paradigmática faz parte dos currículos dos cursos superiores nas mais diversas disciplinas. Aqui argumento sobre os benefícios da interação entre cientistas de diferentes áreas para a construção de um conhecimento mais amplo e robusto. A multidisciplinaridade e a interdisciplinaridade têm contribuído para que pesquisadores educados das mais diversas formas possam utilizar seu arsenal metodológico e de investigação em dados d'outras disciplinas. A avaliação portanto de tais dados segundo novas metodologias e pontos-de-vistas (paradigmas) embora pareçam resultar em conclusões anômalas num primeiro momento, podem ser posteriormente re-interpretadas e re-integrados ao corpo de conhecimentos das disciplinas, favorecendo melhor articulação da teoria ao permitir a explicação de novos dados empíricos.&lt;/span&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A educação científica continua sendo realizada através da apresentação dos manuais e dos paradigmas kuhnianos correntes para cada área segmentada dos estudos científicos. Além disso, pesquisadores lotados a outras áreas de pesquisa – como a matemática, estatística e computação – também têm passado a tratar de problemas gerais dispostos pelas ciências naturais. Portanto, cientistas “&lt;span style="font-style:italic;"&gt;catequizados&lt;/span&gt;” em determinada área do conhecimento têm cada vez mais tratado de problemas relacionados a áreas diferentes. E, ao abordar esses problemas “&lt;span style="font-style:italic;"&gt;dos outros&lt;/span&gt;”, os pesquisadores de uma área o enxergam, naturalmente, de acordo com os paradigmas de sua própria ciência; o que por si só já permite uma forma diferente de abordagem e entendimento dos mesmos. Forma esta que aos acadêmicos da disciplina padrão podem parecer absurdos, sem sentido, falhos ou despropositados. É o que acontece muitas vezes quando biólogos interpretam dados moleculares de sequências de DNA analisados por pesquisadores das ciências exatas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;Estudo de caso&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Para exemplificar tal observação, devo comentar um pouco sobre o processo de evolução de genes. Parece-me que qualquer biólogo catequizado segundo o paradigma darwiniano sabe que novos genes surgem através de modificações em genes ancestrais, dos quais são copiados do pai para a prole e que nela podem acumular mutações ao longo do tempo e com a passagem das gerações. O estudo da evolução dos genes não é feito, portanto, ao analisar um único gene, porém ao analisarmos a história da evolução de um gene em diversas linhagens verticais (pai-filho) de organismos. De forma geral, entretanto, matemáticos e estatísticos não têm um conhecimento preciso sobre o assunto e não possuem idéia clara do que seja um gene ou de como ele surja ou evolua através de mutações em seqüências de DNA ocorrendo ao longo das gerações. Apesar disso, esses teóricos sabem perfeitamente como abordar determinados problemas genéricos segundo seus próprios princípios paradigmáticos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em um trabalho apresentado no instituto de ciências biológicas da UFMG, uma pesquisadora em bioinformática oriunda da área de &lt;span style="font-style:italic;"&gt;ciências exatas&lt;/span&gt; tentava criar um modelo que explicasse a chance da presença de uma determinada base nitrogenada [1] em determinada posição dentro de um gene. “Qual seria, portanto,” ela se perguntava, “a chance de um gene apresentar uma base 'A' em sua décima posição nucleotídica, dado que as nove bases anteriores fossem, por exemplo, ATGCCCTGT?” Generalizando o problema: qual a chance de uma base na posição X de um gene ser A, C, G ou T, dado que as bases anteriores eram determinadas precisamente?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ora, um biólogo evolutivo molecular diria que para conhecer esta chance, a pesquisadora deveria conhecer o &lt;span style="font-style:italic;"&gt;gene ancestral&lt;/span&gt; que teria dado origem àquele, assim como a taxa de substituição entre as bases nitrogenadas e o tempo passado desde que o novo gene se divergiu do ancestral. A forma como o biólogo olha para o problema está no tempo, não dentro daquele molécula &lt;span style="font-style:italic;"&gt;per se&lt;/span&gt;. Calculando-se as chances ditas, chegar-se-ia a uma previsão probabilística da presença de cada base naquela posição em especial -- mas olhando sempre outras sequências de outros indivíduos que estariam na mesma linhagem do indivíduo analisado. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas a pesquisadora era formada em matemática e enxergava as bases nitrogenadas simplesmente como letras consecutivas de um alfabeto -- e não levava absolutamente em consideração o fato de que aquela sequência deveria ser derivada de uma duplicação da sequência ancestral. Assim, a pesquisadora utilizou um artifício matemático-estatístico conhecido como “&lt;span style="font-style:italic;"&gt;cadeias de Markov&lt;/span&gt;” para tentar solucionar o problema. Em sua pesquisa, ela analisava diversos genes reais e tentava obter regras de transição entre estados que a levassem a saber qual seria a base posterior, dadas certas bases nitrogenadas anteriores (veja figura). Mas seu estudo era apenas longitudinal, feito apenas em uma sequência e desconsiderava toda a evolução das sequências de DNA que a houveram originado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na visão de um biólogo esta pesquisadora cometia blasfêmias biológicas e evolutivas ao considerar: (i) que a disposição das bases em uma cadeia de DNA era um evento dado por consecutividade, onde a base seguinte deveria depender das bases precedentes dentro da mesma sequência; e (ii) que a probabilidade de ocorrência de uma base não dependia das possíveis mutações ocorrendo desde a separação daquele gene a partir de seu ancestral, mas sim de uma chance ligada à disposição das bases que estavam mais próximas ao início daquele gene em especial.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://4.bp.blogspot.com/_h2XRf7gRzfY/SurCLh0ldSI/AAAAAAAAAMY/zJUDiJpJOFY/s1600-h/GeneseGenica.jpg"&gt;&lt;img style="display:block; margin:0px auto 10px; text-align:center;cursor:pointer; cursor:hand;width: 298px; height: 286px;" src="http://4.bp.blogspot.com/_h2XRf7gRzfY/SurCLh0ldSI/AAAAAAAAAMY/zJUDiJpJOFY/s320/GeneseGenica.jpg" border="0" alt=""id="BLOGGER_PHOTO_ID_5398340606670239010" /&gt;&lt;/a&gt; &lt;br /&gt;&lt;blockquote&gt;&lt;span style="font-style:italic;"&gt;Aparecimento de novos genes segundo teoria proposta por pesquisadores de ciências exatas e paradigma biológico vigente.&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não obstante, seus resultados mostravam certas regularidades evidentes: eles demonstravam que em determinados conjuntos particulares de genes era possível predizer &lt;span style="font-style:italic;"&gt;com alta precisão&lt;/span&gt; qual seria a próxima base de um gene, quando consideradas suas 20 bases precedentes; algo que a princípio poderia ter parecido uma &lt;span style="font-style:italic;"&gt;anomalia&lt;/span&gt; à teoria da evolução darwiniana. Assim, ao estudar os genes que apresentavam esta regularidade, a pesquisadora percebeu que eles tinham em comum o fato de pertencerem à mesma família gênica. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ora, é comum classificar genes dentro de uma mesma família quando esses apresentam um &lt;span style="font-style:italic;"&gt;ancestral gênico comum recente&lt;/span&gt;. E como “sabem” os biólogos que a evolução opera através de mutações em genes ancestrais, seria de se supor que a composição de bases nitrogenadas dentro de representantes de uma mesma família gênica apresentasse uma ordem de bases dentro de um certo padrão; padrão este que foi re-descoberto por esta pesquisadora da área de exatas que jamais havia direcionado sua pesquisa à forma segundo a qual os genes evoluem a partir de um ancestral. Portanto, o que esta pesquisadora produziu poderia ser descrito agora pelos biólogos como uma nova técnica para a descoberta de famílias gênicas e estava apto a ser incorporado sem problemas à teoria da evolução, tendo permitido uma &lt;span style="font-weight:bold;"&gt;melhor articulação&lt;/span&gt; da mesma. Assim, embora os resultados da pesquisadora mostrassem padrões inesperados aos olhos do biólogo, e apesar de que ela mesma não saberia explicar corretamente a motivação para suas observações, reinterpretações das regularidades por ela descritas permite que seus resultados e conclusões sejam aplicados seguramente à área da biologia. Nenhum biólogo teria pensado em fazer estudos como estes posto que ele sabe que a evolução opera verticalmente ao longo das gerações e não lateralmente dentro de um mesmo organismo. Entretanto a observação de um padrão conservado para este gene permitiu que uma nova técnica de definição de famílias gênicas fosse encontrado e pudesse ser utilizado posteriormente pela disciplina de evolução molecular.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;Conclusões&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ao adequar problemas das ciências naturais segundo modelos conceituais e abordagens alternativas para a resolução de problemas de áreas de conhecimento diferentes, a multidisciplinaridade, sob um ponto de vista kuhniano, deve ter um papel fundamental tanto na &lt;span style="font-weight:bold;"&gt;descrição de anomalias&lt;/span&gt; quanto na &lt;span style="font-weight:bold;"&gt;melhor articulação&lt;/span&gt; de teorias paradigmáticas ao longo do século XXI.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;=== &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-style:italic;"&gt;[1] O DNA consiste num polímero enorme formado por nucleotídeos ligados entre si. Os nucleotídeos são os monômeros do polímero DNA. Existem quatro tipos diferentes de nucleotídeos que, formados por um radical fosfato, um açúcar (desoxiribose) e uma base nitrogenada, diferenciam-se entre si pelas qualidades dessas bases nitrogenadas. Bases cuja estrutura química é em duplo anel são a Adenina e a Guanina, enquanto Citosina e Timina são bases de anel simples. Segundo o paradigma vigente, o DNA consiste num código informacional formado por conjuntos de A, G, C e T cuja ordem dessas bases produzem informação para a sobrevivência e reprodução dos organismos. A ordem das bases gera informação de uma maneira similar à qual a ordem das letras no português produz também informação, sendo o DNA visto como um código informacional químico formado por entidades discretas (as letras A, G, C e T).&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/23099929-7789364046359274875?l=tragodefilosofia.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://tragodefilosofia.blogspot.com/feeds/7789364046359274875/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=23099929&amp;postID=7789364046359274875&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/23099929/posts/default/7789364046359274875'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/23099929/posts/default/7789364046359274875'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://tragodefilosofia.blogspot.com/2010/02/porque-multidisciplinaridade-favorece.html' title='Porque a multidisciplinaridade favorece a ocorrência de anomalias e a melhor articulação de paradigmas'/><author><name>Prós</name><uri>http://www.blogger.com/profile/18282398415856299778</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='24' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/-OJfdox4-acU/Tm_oXf840OI/AAAAAAAAAlc/1ROS0tKzZ5k/s220/facebook_perfil_picture.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://3.bp.blogspot.com/_h2XRf7gRzfY/S5413BrKBiI/AAAAAAAAAS0/qSzY7nt893M/s72-c/kuhn.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-23099929.post-7445761964297529471</id><published>2010-01-18T20:56:00.000-02:00</published><updated>2010-02-26T14:06:48.874-03:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='literatura'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='limites da cognição'/><title type='text'>A ciência da literatura</title><content type='html'>Em que sentido é a literatura uma ciência? Podemos chamar os estudos literários de científicos? Até que ponto podemos dizer que os métodos de estudo dos literatos sejam verdadeiramente "científicos"?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;O estudo das grandes ciências&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Todo estudo que o ser humano faz sobre determinado assunto parte de uma curiosidade intrínseca sobre o mundo que o cerca. As duas áreas tidas como &lt;span style="font-style:italic;"&gt;grandes&lt;/span&gt; nos estudos das ciências hoje parecem ser: as ciências exatas e as ciências biológicas. Embora não haja dúvidas com relação ao fato de que ambas áreas sejam científicas, talvez alguém pudesse dizer que as ciências exatas são de fato o lugar onde o homem consegue mais fielmente tratar e objetivar seu conhecimento. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As ciências físicas já nos mostraram em grandes medidas como todo o universo visível (ou compreensível) funciona em um sentido geral e amplo. As quatro forças da física e as interações entre elas explicam uma considerável parcela dos eventos que acontecem não só na terra como também nas mais distantes galáxias observáveis pelo mais eficiente telescópio já construído. A descoberta das força da (i) gravidade, (ii) eletromagnetismo e as forças nucleares (iii) fortes e (iv) fracas -- as que mantém os prótons ou elétrons aglomerados no núcleo atômico, respectivamente e a despeito de suas cargas elétricas -- permitem-nos compreender e sermos capazes de prever uma parte considerável dos fenômenos físicos que observamos, algumas vezes de uma maneira absurdamente precisa. O movimento dos corpos celestes pode ser previsto com séculos de antecedência e com erros que podem hoje ser quase considerados infinitamente pequenos. O desenvolvimento da física einsteiniana e posteriormente da física de partículas tem permitido ainda um ajuste mais fino ao pedestal sagrado da ciência herdada de Newton, tido &lt;span style="font-style:italic;"&gt;classicamente&lt;/span&gt; como o maior cientista de todos os tempos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://planetquest.jpl.nasa.gov/images/hurt_Milky_Way_2005-590.jpg"&gt;&lt;img style="display:block; margin:0px auto 10px; text-align:center;cursor:pointer; cursor:hand;width: 350px; height: 350px;" src="http://planetquest.jpl.nasa.gov/images/hurt_Milky_Way_2005-590.jpg" border="0" alt="" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;blockquote&gt;&lt;span style="font-style:italic;"&gt;A via láctea, foto da NASA. Da mesma forma que o físico está interessado na natureza última do universo e o biólogo interessa-se pelo estudo da vida, o cientista literário interessa-se pela análise de textos modernos ou históricos. Embora as metodologias utilizadas e a objetividade do trabalho produzido sejam diferentes, todos os estudos são sérios e bem delineados, merecendo assim o título de &lt;span style="font-weight:bold;"&gt;científicos&lt;/span&gt;.&lt;/blockquote&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Já quando lidamos com as chamadas &lt;span style="font-style:italic;"&gt;ciências biológicas&lt;/span&gt; não conseguimos prever com tão exímia precisão as regularidades facilmente previsíveis sob as leis da física. O surgimento da vida está diretamente relacionado ao surgimento da &lt;span style="font-style:italic;"&gt;complexidade&lt;/span&gt; e dos chamados &lt;span style="font-style:italic;"&gt;sistemas complexos&lt;/span&gt;, onde há uma inter-relação tão grande de variáveis e informações que a predição de eventos torna-se extremamente difícil, muitas vezes &lt;span style="font-style:italic;"&gt;impossível&lt;/span&gt;. Não obstante, também na biologia temos uma teoria geral que explica de forma satisfatória a grande abundância de vida e que é sim capaz de gerar predições de caráter genérico que vão tanto para o passado quanto para o futuro, navegando na flecha do tempo. O &lt;span style="font-weight:bold;"&gt;darwinismo&lt;/span&gt; é o pilar das ciências biológicas e permite a montagem de teorias tão firmes quanto possíveis para explicar a origem e dispersão da diversidade biológica. Também o advento da &lt;span style="font-style:italic;"&gt;biologia molecular&lt;/span&gt; e do conceito de informação hereditária em biologia permitiu e tem permitido que predições precisas sejam feitas sobre organismos biológicos com notável correção. Apenas observando a sequência de DNA de um feto hoje pode-se saber se ele apresenta determinadas doenças genéticas de forma clara e precisa. Diz-se que desde Watson e Crick, quando o DNA foi compreendido como informação digital codificada quimicamente, a biologia tem sido capaz de utilizar o rigor das ciências exatas em sua metodologia de trabalho -- embora tal rigor aconteça apenas em determinados tipos de estudo onde a análise molecular pode ser aplicada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Navegando nesses pontos entre as duas ciências torna-se claro que: (i) o objeto de estudo das ciências exatas e biológicas é diferente (universo versus vida), o que faz portanto que (ii) a metodologia de trabalho aplicada seja diferente e que, concluindo logicamente, (iii) a interpretação dos resultados seja feita de forma particular em cada caso. E ainda: (iv) o grau de rigor aceito num trabalho desta ou daquela área é invariavelmente diferente. Se podemos confirmar a afirmação (iv) isso não significa simplesmente aceitar que os trabalhos em biologia sejam "&lt;span style="font-style:italic;"&gt;menos confiáveis&lt;/span&gt;" do que os trabalhos em física. Isso significa apenas que &lt;span style="font-style:italic;"&gt;a biologia é uma ciência onde as regularidades são mais difíceis de serem encontradas&lt;/span&gt;, o estudo da vida admite muito mais exceções à regras gerais do que o estudo do universo o admite -- o que torna o estudo da biologia de certa forma mais complexo e talvez mais belo, ainda que menos preciso. Além disso, novas metodologias de análise de dados precisam ser desenvolvidas para o estudo de tais sistemas chamados complexos, como é o sistema vida, onde tantas variáveis devem ser consideradas para formar um só resultado, e ainda outras variáveis desconhecidas também participam da interação e devem de certa forma ser preditas em um modelo geral e ideal. Tais predições são hoje realizadas a partir simplesmente de observações empíricas associadas a algoritmos de inteligência artificial que tentam encontrar uma ordem invisível ao olho e à astúcia humanas. A teoria do caos, que admite e tenta buscar padrões em sistemas pensados inicialmente caóticos também tem sido utilizada no arsenal das ciências biológicas para tentar melhor entender os fenômenos. E também na física quântica tais metodologias têm permitido encontrar regularidades do universo anteriormente invisíveis às metodologias científicas adotadas pelos humanos em sua ânsia e curiosidade em compreender o que vai à sua volta. Vale notar que essas novas metodologias científicas para tratar de sistemas complexos se desenvolveram em grande parte na segunda metade do século XX e ainda estão em amadurecimento, sendo que podemos esperar que nos próximos anos novos padrões e conhecimentos continuem sendo descobertos e que tais metodologias venham a amadurecer ainda mais.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;A ciência da literatura&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Da mesma forma que o foco de análise da física é o universo e o foco de análise da biologia é a vida, &lt;span style="font-style:italic;"&gt;o foco de análise da literatura consiste nos textos que foram escritos pelos seres humanos &lt;/span&gt;desde que se pode verificar símbolos atribuídos a significados claros moldados por antigos artistas em paredes de cavernas. A escrita cuneiforme é tida como a primeira forma de escrita surgida verdadeiramente no mundo, e estima-se datar por volta de 3000 AC. De lá pra cá a civilização ocidental vem acumulando um cada vez maior repertório de símbolos que predispostos em pedras, papéis ou mídias eletrônicas têm contado a história de nossa civilização e das vidas de seres humanos vivendo aqui e ali ao longo dos tempos. &lt;span style="font-style:italic;"&gt;A escrita é sem dúvida o principal método de transmissão cultural&lt;/span&gt; e de valores de nossa sociedade e a própria Bíblia é um dos principais textos estudados em literatura, justamente por guardar em si um conjunto de valores morais que vêm sendo (bem ou mal) aplicados em nossa sociedade ao longo dos últimos 2 milênios. Textos da Grécia antiga e os dramas de Shakespeare também estão entre as obras mais estudadas pelos literatos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://www.coisasgratis.com/wp-content/uploads/2008/09/biblia.gif"&gt;&lt;img style="display:block; margin:0px auto 10px; text-align:center;cursor:pointer; cursor:hand;width: 300px; height: 278px;" src="http://www.coisasgratis.com/wp-content/uploads/2008/09/biblia.gif" border="0" alt="" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;blockquote&gt;&lt;span style="font-style:italic;"&gt;A bíblia sagrada, um dos textos mais estudados e re-estudados, interpretados e re-interpretados pelos críticos literários. A ciência literária vai, ao longo do tempo, adicionando cada vez mais e mais anotações culturais aos textos clássicos. Novas interpretações das mais inusitadas surgem e permitem uma compreensão cada vez mais abrangente da cultura humana em suas glórias e podridões.&lt;/blockquote&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-style:italic;"&gt;Da mesma forma, portanto, que o físico está interessado no universo e que o biólogo se interessa pela vida, o literato interessa-se pelos escritos.&lt;/span&gt; Da mesma forma que o físico procura regularidades que possam ser observadas no universo, o biólogo procura regularidades presentes na vida e o literato procura regularidades em textos históricos. O objeto de estudo das três ciências é diferente, assim como são as metodologias de trabalho. Também a literatura, como a biologia, é um sistema complexo derivado diretamente da forma como os seres humanos com seus cérebros símios conseguem conceitualizar o mundo e o representar em forma de símbolos encadeados em busca de significado. A ciência da literatura, entretanto, não pode e não deve se separar de outras ciências que a rodeiam, como a linguística, a filosofia e até mesmo a psicologia. O literato utiliza regularidades observadas por outros artífices das ciências humanas e emprega tais regularidades pré-dispostas à análise textual.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os seres humanos, desde o surgimento dos alfabetos, têm escrito de forma livre, ou da forma que lhes parecesse mais natural. Com o tempo surgiram esses curiosos por regularidades dos textos escritos, cientistas cuja curiosidade não está na natureza ou no universo, porém &lt;span style="font-style:italic;"&gt;no homem e em suas representações simbólicas&lt;/span&gt;. Estes curiosos quiseram então estudar como as pessoas escreviam e têm escrito ao longo dos séculos, desde que a escrita foi inventada, eles tentaram e conseguiram descobrir alguns padrões conservados em textos que vão desde o aparecimento do alfabeto até os dias de hoje. Esses padrões se repetem e podem ser caracterizados se estudados com detalhes e dedicação. O estudo de tais padrões existentes em textos é normalmente chamado de "&lt;span style="font-style:italic;"&gt;crítica literária&lt;/span&gt;" mas acredito que deva ser preferencialmente chamado de &lt;span style="font-weight:bold;"&gt;ciência literária&lt;/span&gt;, tal como o estudo das leis no universo é chamado de ciência exata e o estudo da vida na Terra é chamado de ciência biológica. A metodologia de grande parte dos literatos é sim científica, mas como já argumentamos o objeto de estudo é diferente e exige, portanto, métodos diferentes de estudo. E da mesma forma que a biologia se dividiu em genética, bioquímica, ecologia, zoologia, botânica... também a crítica literária dividiu-se em modernista, pós-modernista, estruturalista, crítica feminina, marxista, gay, pós-colonial, psicoanalítica, etc. Vários escritos clássicos e modernos de nossa história literária podem ser caracterizados e relidos tendo tais regularidades como fio condutor, esses padrões regulares observados nos textos permitem aos cientistas classificá-los e entendê-los de forma genérica e tão precisa quanto possível.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-style:italic;"&gt;A crítica literária é tão ciência quanto ela pode ser: ela é curiosa e séria, ela busca, estuda, encontra padrões e os descreve com precisão e rigor. É entretanto incrível perceber como os cientistas das ciências duras têm menosprezado a ciência da literatura.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Além disso, os mesmos programas de computador que são hoje utilizados nos estudos de biologia podem também ser aplicados ao estudo da literatura, sendo ambas ciências onde a complexidade é eminente e jamais pode ser discartada. Programas de inteligência artificial têm sido produzidos e podem ser treinados para reconhecer padrões em textos de determinados autores. Tais padrões podem ser utilizados, por exemplo, para verificar se um determinado texto não assinado deve ser mesmo de um autor clássico que se imagine. Também aspectos &lt;a href="http://pensamentosfugazes.blogspot.com/2009/03/helene-cixous-e-critica-literaria.html"&gt;machistas&lt;/a&gt; de nossa sociedade podem ser verificados em textos clássicos, homofobia, aspectos dominatórios da sociedade, imposição moral, crítica ao diferente, ao índio, ao latino, desvios de conduta de autores associados à sua história de vida e traumas que tenham ou não vivido enquanto sujeito. Tudo isso vai impregnado nas páginas dos textos históricos, em Shakespeare, na Bíblia, nas peças de Nelson Rodrigues. A ciência da literatura é também a ciência do estudo das culturas, de suas bases morais e racionais, de suas mitologias e de suas histórias de dominação e submissão. Toda a história cultural do homem pode ser hoje reconstruída através da ciência literária, tentando também fazer viajar o leitor no tempo e compreender as situações da forma como as pessoas da época as entendiam. A literatura, já dizia Carl Sagan em sua maravilhoso série televisiva &lt;a href="http://pensamentosfugazes.blogspot.com/2009/11/serie-cosmos-de-carl-sagan.html"&gt;Cosmos&lt;/a&gt;, nos permite viajar ao passado e tentar compreender como os seres humanos pensavam à uma época hoje já morta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;Crítica relativista à ciência literária&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Uma frequente crítica feita à ciência da literatura é que seus principais arautos defenderiam um relativismo epistemológico que viria impregnado à base de sua própria ciência. Isso parece ter-se dado principalmente com o desenvolvimento do pós-estruturalismo e do desconstrutivismo que, à visão do leigo, parecem indicar que os textos não têm um valor &lt;span style="font-style:italic;"&gt;per se&lt;/span&gt; e que podem ser sempre desconstruídos e reconstruídos ao bel prazer do interpretador e do leitor. Esta crítica é verdadeira apenas num sentido parcial e ao contrário de diminuir a crítica literária, ele apenas a torna ainda mais complexa, mais bela e infinita, sendo que todo e qualquer texto pode ser reinterpretado um sem-número de vezes, embora esteja claro que haverão interpretações que possam ser julgadas como melhores ou piores por especialistas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://4.bp.blogspot.com/_h2XRf7gRzfY/S4fzNfrB2OI/AAAAAAAAASs/N6b9Gkq5n2A/s1600-h/eco%2Bbarthes%2Bderrida.jpg"&gt;&lt;img style="display:block; margin:0px auto 10px; text-align:center;cursor:pointer; cursor:hand;width: 500px; height: 165px;" src="http://4.bp.blogspot.com/_h2XRf7gRzfY/S4fzNfrB2OI/AAAAAAAAASs/N6b9Gkq5n2A/s400/eco%2Bbarthes%2Bderrida.jpg" border="0" alt=""id="BLOGGER_PHOTO_ID_5442586087866357986" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;blockquote&gt;&lt;span style="font-style:italic;"&gt;Três grandes heróis da ciência literária. Da esquerda para a direita: &lt;span style="font-weight:bold;"&gt;Umberto Eco&lt;/span&gt; em seus limites da interpretação, &lt;span style="font-weight:bold;"&gt;Roland Barthes&lt;/span&gt; com sua morte do autor, e &lt;span style="font-weight:bold;"&gt;Jacques Derrida&lt;/span&gt;, pai do desconstrutivismo, aqui rebatizado como reconstrutivismo.&lt;/span&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O intelectual italiano &lt;span style="font-weight:bold;"&gt;Umberto Eco&lt;/span&gt; publicou um livro chamado &lt;span style="font-style:italic;"&gt;Os limites da interpretação&lt;/span&gt; e começa o mesmo com um bom exemplo que, por me falhar agora a memória, apenas invento outro de conteúdo similar. O exemplo poderia ser uma carta de um combatente de guerra à sua esposa que em terras natais cuida dos filhos. Eco sugere que esta carta não pode significar, em absoluto, que (i) os marcianos estariam a invadir à terra, ou que (ii) o sol teria explodido, que (iii) as moscas desapareciam do planeta ou outras sortes de absurdidades. Entretanto, pode-se ler e interpretar a mesma carta de diferentes formas, pode-se focar no afeto de um marido pela esposa, ou na forma patriarcal em que se baseia nossa sociedade; pode-se focar na educação do mesmo ao verificar seus erros sintáticos e gramaticais, etc. A obra tem o nome de "limites da interpretação" posto que são justamente esses limites, daquilo que pode ser interpretado a partir de um texto, que Eco estuda e aprofunda ao longo de sua obra.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Também &lt;span style="font-weight:bold;"&gt;Roland Barthes&lt;/span&gt; em seu ensaio "&lt;span style="font-style:italic;"&gt;A morte do autor&lt;/span&gt;", apresenta o argumento geral de que, em grande medida, é o leitor que cria um sentido para o texto lido, principalmente em textos de cunho mais literários -- ou seja, de temática menos objetiva. A biografia do leitor e tudo aquilo que ele já tenha passado em sua vida, fazem com que o mesmo interprete determinado texto ao ver ali escancarados alguns aspectos que não seriam vistos por outros seres humanos vivendo noutros contextos. Um combatente de guerra ao ler a carta que acima exemplificamos terá quiçá uma emoção diferente do que um funcionário de um cartório que realiza a mesma leitura. &lt;span style="font-style:italic;"&gt;Assim, parecem ser poucos os textos assim tão objetivos a ponto de que possam ter apenas uma única interpretação.&lt;/span&gt; Muitas vezes o próprio autor não se dá conta de determinado aspecto do texto que tenha ficado assim tão claro e escancarado. É possível entretanto que ele seja capaz de perceber isso anos depois, ao reler-se. Assim, mesmo certas teorias psicanalíticas auxiliam na interpretação de textos que sob determinados aspectos podem apresentar-se diferentes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A ciência da literatura vai aos poucos construindo &lt;span style="font-style:italic;"&gt;anotações culturais&lt;/span&gt; sobre textos clássicos, onde críticos vão interpretando e re-interpretando os textos de acordo com novos pontos de vistas e ideias, sempre marcados pelo contexto socio-histórico do interpretador. Os textos dos grandes filósofos europeus e mesmo a bíblia já foram tantas vezes interpretados -- e estarão sendo sempre adicionados a tais textos novas interpretações mais modernas sobre o que de fato eles queriam dizer ou que tipo de moral ou conhecimento pretendiam demonstrar. À época das cruzadas, por exemplo, as aventuras daqueles que catequizavam os indígenas era vista como atos de heroísmo e coragem enquanto hoje muitos percebem diferentemente como atos de covardia -- dada a matança indiscriminada de indígenas -- e imposição ideológica de um monoteísmo que seguramente não é a única ou melhor forma de compreender o mundo. E por tais deslizes históricos de interpretadores é que o verdadeiro literato deve muitas vezes se esquecer de todo o castelo de interpretações já construído sob um texto e se voltar diretamente ao texto original em busca de novas formas e meios de leitura de uma mesma obra. &lt;span style="font-style:italic;"&gt;O desconstrutivismo de Derrida sugere exatamente essa abordagem. &lt;/span&gt;Sua ideia é reinterpretar os textos clássicos buscando ali um fio condutor que guie a leitura de uma forma inovadora e interessante, fio este que teria passado desapercebido pela grande maioria dos estudiosos da obra. &lt;span style="font-style:italic;"&gt;A desconstrução é, de fato, uma nova construção e talvez tivesse sido mais prudente e inteligente do autor nomear assim sua teoria: reconstrução&lt;/span&gt;, pois é exatamente isto que ela é, ou seja, uma nova leitura e uma nova construção simbólica, lógica e semântica dos textos clássicos, buscando verificar regularidades que iam subliminares aos olhos do leitor comum.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Outro conceito importantíssimo para a ciência da literatura é o chamado "&lt;span style="font-style:italic;"&gt;close reading&lt;/span&gt;" e que poderia ser traduzido como "leitura atenta" ou "leitura próxima". O literato não aceita simplesmente ler um texto como se lesse as páginas do jornal da manhã. A leitura do cientista literário é sempre atenta aos detalhes sintáticos e semânticos, principalmente àqueles tipos de sentido que só se dão depois de uma leitura verdadeiramente atenta, repetida e reflexiva sobre um texto que se estuda. As releitura devem ainda proporcionar uma nova visão sobre o texto, uma visão mais clara sobre as regularidades inicialmente verificadas apenas de forma nebulosa, que então se concretizam quando é finalmente encontrado o fio condutor da reconstrução derrideana.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Bela, interessante e útil é a ciência literária para nos ensinar nossos próprios preconceitos e limitações, para que entendamos a evolução das ideias e conceitos ao longo do desenvolvimento da humanidade, para que possamos nos reconstruir a partir de uma mesma base. Elogiemos, portanto, a ciência literária.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;===&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Para saber mais:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;* &lt;a href="http://pensamentosfugazes.blogspot.com/2009/03/helene-cixous-e-critica-literaria.html"&gt;Um pensamento fugaz sobre a crítica literária feminina&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;* Na Wikipedia&lt;br /&gt;** &lt;a href="http://en.wikipedia.org/wiki/Umberto_Eco"&gt;Umberto Eco&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;** &lt;a href="http://en.wikipedia.org/wiki/Jacques_Derrida"&gt;Jacques Derrida&lt;/a&gt; &lt;br /&gt;** &lt;a href="http://en.wikipedia.org/wiki/Roland_Barthes"&gt;Roland Barthes&lt;/a&gt; &lt;br /&gt;** &lt;a href="http://en.wikipedia.org/wiki/Writing#History_of_writing"&gt;História da escrita&lt;/a&gt; &lt;br /&gt;** &lt;a href="http://en.wikipedia.org/wiki/Cuneiform"&gt;Escrita cuneiforme&lt;/a&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/23099929-7445761964297529471?l=tragodefilosofia.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://tragodefilosofia.blogspot.com/feeds/7445761964297529471/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=23099929&amp;postID=7445761964297529471&amp;isPopup=true' title='9 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/23099929/posts/default/7445761964297529471'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/23099929/posts/default/7445761964297529471'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://tragodefilosofia.blogspot.com/2010/01/ciencia-da-literatura.html' title='A ciência da literatura'/><author><name>Prós</name><uri>http://www.blogger.com/profile/18282398415856299778</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='24' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/-OJfdox4-acU/Tm_oXf840OI/AAAAAAAAAlc/1ROS0tKzZ5k/s220/facebook_perfil_picture.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://4.bp.blogspot.com/_h2XRf7gRzfY/S4fzNfrB2OI/AAAAAAAAASs/N6b9Gkq5n2A/s72-c/eco%2Bbarthes%2Bderrida.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>9</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-23099929.post-3434666553675836024</id><published>2009-12-22T08:34:00.001-02:00</published><updated>2009-12-22T08:35:22.983-02:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='filosofia da ciência'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='epistemologia'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='filosofia da linguagem'/><title type='text'>De nossa compreensão ontológica</title><content type='html'>A compreensão molda-se através da super-posição entre conceitos e relações-entre-conceitos como, por exemplo, os números e as regras matemáticas. O número 2 é um conceito abstrato e o símbolo mais (+) é também um conceito abstrato que define e caracteriza uma regra semântica para a adição de determinados conceitos aos quais chamamos números. É através desse tipo de relação que grande parte de nosso conhecimento e compreensão do mundo é formada. Conceitos são definidos e, junto com eles, regras para a relação deste conceito com outros conceitos frequentemente similares. A matemática é uma linguagem, assim como a lógica. Toda a ciência consiste num esforço de conceitualizar um universo amplo e aparentemente ilógico ou inconceitualizável em determinadas "caixas conceituais" e encontrar regras de inter-relação entre tais caixas que expliquem dados experimentais.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://3.bp.blogspot.com/_h2XRf7gRzfY/SzCeK0oV82I/AAAAAAAAAR0/6kG73eB4uQU/s1600-h/sunset-beach.jpg"&gt;&lt;img style="display:block; margin:0px auto 10px; text-align:center;cursor:pointer; cursor:hand;width: 400px; height: 320px;" src="http://3.bp.blogspot.com/_h2XRf7gRzfY/SzCeK0oV82I/AAAAAAAAAR0/6kG73eB4uQU/s400/sunset-beach.jpg" border="0" alt=""id="BLOGGER_PHOTO_ID_5418004260490441570" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;blockquote&gt;&lt;span style="font-style:italic;"&gt;Será que um camundongo é capaz de perceber a relação entre claro-escuro e a presença do Sol no céu? Certamente um camundongo de laboratório não é capaz de tal façanha. Para isso ele precisaria primeiramente verificar e identificar o sol, separá-lo de todas as outras entidades do universo e &lt;span style="font-weight:bold;"&gt;conceitualizar&lt;/span&gt; o astro em sua visão de mundo. Depois ele precisaria perceber a &lt;span style="font-weight:bold;"&gt;relação&lt;/span&gt; do claro com a presença do astro no céu. Como jamais falamos com um camundongo, não sabemos se ele é capaz de fazer tal distinção. É esse tipo de conceitualização e aplicação de regras a conceitos pré-identificados que molda toda o desenvolvimento de nosso conhecimento.&lt;/span&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nosso cérebro funciona portanto semanticamente; e também assim funciona nossa linguagem. Primeiro precisamos conceitualizar algo no mundo, precisamos transformar algum "feeling" que tenhamos em, no primeiro passo, uma palavra (neologismo). Se compreendo bem, muitas vezes esse primeiro passo consiste na separação entre dois eventos antagônicos, tais como dia e noite, sol e lua, homem e mulher. Ou então pela descoberta de algum evento que se precise caracterizar: um novo animal, uma célula, um átomo. Assim, depois que os seres humanos têm um repertório de palavras e idéias, eles podem agora observá-la na natureza e perceberem-na com mais distinção. Antes deste processo de conceitualização, a "coisa" que observamos simplemente é vista como indistinguível de quaisquer outras coisas e de difícil observação; ela está mesclada à complexidade incogniscível do universo. Nosso primeiro passo portanto, é identificá-la, associá-la a um conceito cerebral e, finalmente, a uma determinada palavra. Agora conseguimos distinguir isso que observamos do resto do universo, conseguimos observar esta coisa em separado. O próximo passo é tentar verificar determinadas regularidades no comportamento deste nosso novo conceito recém-criado. O que procuramos neste segundo momento, portanto, são regras simples que possam quiçá definir o comportamento desta nova entidade em grande medida. É possível imaginar, por exemplo, que muitos animais não entendam o conceito de Sol; eles "sabem" simplesmente por experiência diária que seu ciclo diário se divide em: uma parte onde é possível enxergar e outra parte onde não é possível. Mas talvez um camundongo não tenha sido capaz de associar a possibilidade de enxergar com a presença de uma bola amarelo-avermelhada no céu. Os seres humanos foram capazes de perceber essa regularidade e, em primeiro lugar, pensaram-se inclusive capazes de controlá-la através da batida de tambores. Ao longo de nossa trilha epistemológica, chegamos daí à hoje complexa ciência da astronomia, onde somos capazes de observar eventos astronômicos noutras galáxias e associá-los a outras regularidades e padrões. Associamos tais observações a palavras e associamos esses conceitos a regras lógicas e causais de formação dos mesmo, definimos regras que definem relações entre esses símbolos e que podem ser verificadas no mundo real de forma razoavelmente eficaz. Tais relações não foram por nós inventadas, mas foram percebidas pela observação atenta do mundo físico. Este universo altamente complexo apresentará ainda milhares de relações causais lógicas eficientes que um dia alcançaremos; outras estarão além de nossas capacidades cognitivas e jamais poderão ser compreendidas por nós.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;====&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Uma palavra é forma mais frequente que usamos para enquadrar algo que descreva certa regularidade que se encontra no mundo: medo, fome, frio, tesão. Algumas vezes tal conceitualização pode vir como um primeiro insight na identificação de uma dicotomia: claro-escuro, cheio-vazio, grande-pequeno. Pela primeira vez em que se cria a dicotomia claro-escuro, compreende-se muito do mundo, posto que se classifica certas regularidades como acontecendo no dia ou à noite. Presença do sol: dia. Estrelas visíveis no céu: noite. Estou convencido de que há muito mais regularidades no universo do que aquelas que somos capazes de verificar hoje [1] e percebo que também essas regularidades dicotômicas guiam o desenvolvimento das ciências [2].&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Depois precisamos criar relações entre as palavras de nosso repertório-de-palavras formando uma rede entre esses conceitos e relações possíveis entre eles. Certamente temos em nosso cérebro um repertório de relações causais enormes que jamais nos daremos conta delas. Algo do tipo: "se o carro à frente parar abruptamente, pise no freio" ou "se o carro vier em nossa direção, desvie", outras pessoas que jamais tenham pensado sobre o assunto (realizado o evento da conceitualização da idéia) poderão entrar em pânico quando o carro vier em sua direção e não saberão o que fazer. Tanto as forças das dicotomias quanto a validade e interpretação de muitos conceitos são diferentes de pessoa para pessoa; quanto também são diferentes as relações entre eles. Mesmo uma vaca pode significar coisas diferentes para pessoas diferentes. Um sujeito que nasceu na cidade e viu uma vaca duas ou três vezes na vida não terá uma compreensão tão completa do que seja uma vaca quanto um vaqueiro, que com elas convive todos os dias; mas que não sabe muito sobre informática, por exemplo. De fato, é tão complexa a inter-relação entre o que vemos, a forma como conceitualizamos e como nos expressamos em palavras e comunicação, que chega a ser surpreendente que consigamos nos comunicar de forma "satisfatória" [4].&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O conjunto de conceitos e relações que fazemos é por vezes chamado, em filosofia da linguagem, de cluster-conceitual ou conjunto-conceitual. A formação deste conjunto ou rede de conceitos depende tanto de um aprendizado formal -- tido pelo indivíduo em escolas e universidades -- quanto por sua experiência direta com o conceito. Provavelmente o garoto da cidade aprendeu o que era uma vaca antes de tê-la visto. Mas talvez ele não seja capaz de visualizá-la pastando ou ruminando. O conceito de perigo nas grandes cidades também depende da experiência do indivíduo em andar por essas cidades, ainda mais do que aquilo que lhe tem sido dito. Muita informação que adquirimos é falsa ou exagerada, uma máscara social falsa para esconder a realidade de determinadas situações. Há muita confusão conceitual na sociedade e por isso é sempre melhor definir do que se trata antes de começar determinado assunto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Principalmente com relação a conceitos filosoficamente mais amplos ou complexos, como o conceito de democracia, igualdade e liberdade são frequemente utilizados de forma incorreta e falaciosa por políticos e manipuladores da opinião pública. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;===&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mesmo na ciência, dentro da mesma área de conhecimentos científicos, pesquisadores muitas vezes não são capazes de conversar em uma mesma linguagem. Em muitas discussões científicas as duas partes não se entendem por utilizar vocabulários diferentes ou por terem backgrounds diferentes -- muitas vindos de diferentes escolas científicas; químicos x biólogos, físicos x químicos, bioquímicos x biólogos moleculares, etc. &lt;span style="font-weight:bold;"&gt;Não acho que seja exagerado dizer que existe uma ciência para cada cientista&lt;/span&gt; e estou certo de que muitos dos conceitos discutidos não são entendidos da mesma forma. Quando dois cientistas de diferentes tradições ou épocas discutem, provavelmente um deles será mais convincente que o outro em seus argumentos ou terá compreendido de forma mais completa a ciência de sua época; talvez este se dê melhor profissionalmente do que o segundo. Por outro lado, o cluster-conceitual formado pelo segundo cientista possa permitir que ele avance cientificamente em direção à solução para uma questão em particular que pode se tornar importante algum tempo depois. &lt;span style="font-weight:bold;"&gt;Essa diversidade de visões é uma das coisas que dá força à ciência e qualquer tentativa de reduzí-la ao tentar produzir pesquisadores enquadrados num sistema produtivo é perigosa intelectualmente [5].&lt;/span&gt; Thomas Kuhn diz entretanto que uma ciência sem graça, repetitiva e inopinativa consiste na maior parte do empreendimento científico de uma época e lhe dá o nome: ciência normal.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://2.bp.blogspot.com/_h2XRf7gRzfY/SzCfkQCCNiI/AAAAAAAAAR8/FTPiR1qonOI/s1600-h/albert-einstein-1.jpg"&gt;&lt;img style="display:block; margin:0px auto 10px; text-align:center;cursor:pointer; cursor:hand;width: 307px; height: 400px;" src="http://2.bp.blogspot.com/_h2XRf7gRzfY/SzCfkQCCNiI/AAAAAAAAAR8/FTPiR1qonOI/s400/albert-einstein-1.jpg" border="0" alt=""id="BLOGGER_PHOTO_ID_5418005796854314530" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;blockquote&gt;&lt;span style="font-style:italic;"&gt;Cada cientista tem uma visão da ciência que pratica que lhe é própria e diferente das visões de outros cientistas. É claro que há muito acordo também, mas essa diversidade de visões é uma das forças do empreendimento científico -- que está sempre a se renovar e se auto-reconstruir. A revolução einsteiniana foi uma revolução científica conceitual, onde (segundo Thomas Kuhn) determinados conceitos básicos da física newtoniana foram subvertidos. A articulação de novos conceitos proposta por este que é talvez um dos maiores gênios da humanidade mostrou-se capaz de explicar regularidades universais antes incompreendidas.&lt;/span&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Toda ciência bem-estabelecida possui um núcleo conceitual forte, como teoriza o epistemólogo húngaro Imre Lakatos. Dentro deste núcleo conceitual, os cientistas de uma mesma área normalmente concordam sobre a articulação de conceitos e relações-entre-conceitos. O conhecimento científico não está entretanto tão bem assentado e na periferia desse cluster-conceitual há sempre questões que estão mal formuladas e ainda precisam ser melhor esclarecidas. Nessas regiões da periferia do conhecimento onde os cientistas muitas vezes discordam, eles fazem conexões diferentes entre conceitos e suas relações, não sendo capazes de discutir ou de concordarem sobre determinados casos em particular [6]. Por vezes, algum indivíduo excessivamente criativo é capaz de adentrar o núcleo conceitual de uma disciplina científica e mostrar através de argumentos e previsões, que ele está incorreto, incompleto ou mal-descrito. Segundo Thomas Kuhn, Einstein foi capaz de questionar os conceitos de massa e força em Newton, transformando-os de certa forma que modificou toda a ciência física, na mais clássica das revoluções científicas dentro da história da humanidade. &lt;span style="font-weight:bold;"&gt;A revolução einsteiniana foi uma revolução conceitual.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Para finalizar esta idéia creio ser ainda possível generalizar um pouco mais essas considerações e dizer que toda a visão de mundo é diferente para cada inteligência diferente em nosso planeta. Cada ser humano teve um contato formal com o conhecimento e um contato prático com ele. Cada ser humano verificou por si mesmo a veracidade de afirmações como "o sol nasce todo o dia" ou "o ônibus passa as 8h30" ou "é possível ser assaltado em Belo Horizonte" e sabe se comportar com relação a elas: talvez o ônibus não seja assim tão pontual; ou seja pontual apenas às terças e quintas-feiras. Cada ser humano apresenta uma cosmogonia própria, e terá ao longo de sua vida aprendido sobre regras naturais e provavelmente terá uma idéia própria de como o universo foi criado e saberá explicar isso a quenquer que lhe questione sobre o assunto. Existem tantas ciências quanto existem cientistas e tantos mundos quanto existem seres vivos. Cada cluster-conceitual de cada indivíduo é único e embora muitas causas últimas possam ser comuns àqueles que vivem num mesmo universo, numa mesma sociedade de herança cristã-ocidental, muita diversidade há também dentro deste e de outros grupos culturais de seres humanos. Essa diversidade de visões de mundo apenas enriquece a experiência humana. E se a globalização de certa forma diminui a diversidade, infelizmente fazendo todos enxergarem segundo o paradigma dos novos tempos -- é possível afirmar também que ela "rouba" das culturas originais idéias e visões de mundo das mais diversas e que contribuem para formar um conjunto conceitual (memético) da humanidade mais rico. Se preservássemos mais as culturas diferentes ao invés de arrebatá-las e destrui-las certamente seríamos capazes de construir um conjunto de visões de mundo ainda mais eficiente e abrangente para explicarmos a surrealidade da experiência de estarmos vivos e discutindo sobre todas esses assuntos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;===&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-style:italic;"&gt;[1] Realmente acredito -- um chute -- de que o universo tem muito mais ordem nele do que seremos qualquer dia capazes de conceber. Ressalto neste ponto ainda mais nossos problemas de limitação cognitiva e computacional do que a infinitude das regras do universo. &lt;br /&gt;[2] Em minha área de especialidade acadêmica -- a evolução molecular --, por exemplo, há a eterna briga dos chamados selecionistas contra os neutralistas. Os primeiros acreditam que a maior parte das variações em sequências de DNA observadas nos organismos sejam adaptativas e estejam ali por conferir ao organismo que a tem, uma maior adaptação ao meio ambiente. Já os neutralistas sugerem que a maior parte das mutações no DNA seja neutra e não cause nenhum efeito macro no organismo [3]. Outras dicotomias em biologia evolutiva podem ser citadas: gradualismo x saltacionismo. Outros conceitos, como o de espécie biológica, são tão complexos e já foram tão pensados desta ou daquela forma, que hoje consistem em múltiplos conceitos não-necessariamente consistentes entre si. A definição de espécie para bactéria é completamente diferente da definição de espécie em organismos sexuados de grande porte, por exemplo. Talvez seja hora justamente de quebrar esta dicotomia; e inventar outros termos para definir um ou outro evento. Assim, a conceitualização está na base do avanço do conhecimento científico. O cientista conceitualiza, define dicotomias, testa-as contra a natureza e; se forem razoavelmente satisfatórias a divisão em classes, vai-se especializando no conhecimento descritivo de uma e outra classe. O mundo natural ainda nos é completamente desconhecido e é por isso que há espaço para tantos cientistas quantos forem os que realmente quiserem e se esforçarem para descobrir e catalogar a maravilha da natureza.&lt;br /&gt;[3] Os neutralistas baseam seu argumento no fato bastante conhecido de que o código genético é degenerado. Diferentes sequências de DNA dão origem às mesmas proteínas; são as proteínas as moléculas "mais importantes" para a caracterização de fenótipos. &lt;br /&gt;[4] Policamente falando, tal é a desinformação gerada pela mídia para esconder escândalos dos grandes políticos e dos grandes nomes e das guerras; que a manipulação de informação que acontece no mundo torna vários conceitos difusos para muitos indivíduos que deixam de compreender regularidades devido à exclusão e manipulação falsa de conceitos feitas pelos meios de comunicação das elites.&lt;br /&gt;[5] Vide o exemplo da genética na Rússia no tempo de Lysenko.&lt;br /&gt;[6] Hoje em dia, no estudo da evolução de genes há determinados conceitos conhecidos como paralogia ou ortologia que são classicamente difíceis de serem conceituados e há bastante discussão dentro da ciência sobre o que de fato eles significam. Acredito que esta dificuldade está diretamente relacionada a um problema teórico na compreensão da evolução dos genes.&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/23099929-3434666553675836024?l=tragodefilosofia.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://tragodefilosofia.blogspot.com/feeds/3434666553675836024/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=23099929&amp;postID=3434666553675836024&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/23099929/posts/default/3434666553675836024'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/23099929/posts/default/3434666553675836024'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://tragodefilosofia.blogspot.com/2009/12/de-nossa-compreensao-ontologica.html' title='De nossa compreensão ontológica'/><author><name>Prós</name><uri>http://www.blogger.com/profile/18282398415856299778</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='24' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/-OJfdox4-acU/Tm_oXf840OI/AAAAAAAAAlc/1ROS0tKzZ5k/s220/facebook_perfil_picture.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://3.bp.blogspot.com/_h2XRf7gRzfY/SzCeK0oV82I/AAAAAAAAAR0/6kG73eB4uQU/s72-c/sunset-beach.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-23099929.post-4977393713397893284</id><published>2009-12-03T18:43:00.002-02:00</published><updated>2009-12-06T00:51:53.131-02:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='epistemologia'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='retórica'/><title type='text'>Defesa eterna de todos os meus argumentos</title><content type='html'>Nunca disse que estava certo. Sou um ser humano e sou limitado, não pretendo estar certo sempre, ou mesmo algumas vezes. O que pretendo é suscitar noutros seres humanos alguma inquietação com relação a um determinado assunto em particular que me tenha despertado o interesse e que eu creia ter encontrado -- ao passá-lo livremente dentre as redes elétricas de meu intelecto -- alguma questão importante, interessante ou curiosa sobre o mesmo. Não se pode escrever sobre todas as coisas do mundo e se escolho algumas matérias em particular para escrever-sobre são porque elas me tocam de alguma forma. Ainda: no momento em que as escrevo, parece-me urgente discutir tais questões com outra alma de espírito livre. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://1.bp.blogspot.com/_h2XRf7gRzfY/SxsOFrP5XOI/AAAAAAAAAQ4/5esHoWBQRis/s1600-h/Defense_boxing.jpg"&gt;&lt;img style="display:block; margin:0px auto 10px; text-align:center;cursor:pointer; cursor:hand;width: 400px; height: 380px;" src="http://1.bp.blogspot.com/_h2XRf7gRzfY/SxsOFrP5XOI/AAAAAAAAAQ4/5esHoWBQRis/s400/Defense_boxing.jpg" border="0" alt=""id="BLOGGER_PHOTO_ID_5411934867887316194" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando se trata de uma discussão mais científica ou filosófica, escrevo e argumento não para estar certo, mas para ressaltar um determinado ponto que tenha achado importante na discussão e ver este argumento sendo escrutinado por outros. Escrevo para ser questionado, não escrevo e jamais escrevi para que concordassem comigo. Minha principal tarefa na escrita é brincar com o leitor, dançar com ele, mostrar-lhe a maravilha de se encontrar este pensamento ou a aesthetica racional de determinada linha argumentativa. Mas minha tarefa é também testar o leitor, verificar se acompanha o que argumento; verificar se assim pode construir idéias que se somem nos degraus multidimensionais de nossa compreensão [1].&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tanto melhor me sentirei quanto melhor um crítico puder me mostrar uma falha cabal em minha linha argumentativa e apresentar-me a luz em que se dirige o pensamento lógico naquela área do saber. Não sou um receptáculo infinito de conhecimento e há um sem-número de questões que ignoro solenemente -- e outras onde meu saber só toca superficialmente. Entretanto, o leitor pode estar convicto de que, quando escrevo, dou minha mais sincera opinião sobre determinado assunto. Fujo tanto quanto posso do dogmatismo ou das tentativas ininterruptas de ter minha opinião manipulada ou enviesada de alguma forma. Muitas vezes falho, entretanto, nesta fuga; e assim peço ajuda aos meus companheiros para salvarem-me e apontarem minhas falhas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Minha visão lógica sobre o mundo e sobre a sociedade, considerando as regularidades ali observáveis estende-se da minha cotidiana, passando por meu pensamento político até minha atividade enquanto cientista e pesquisador. [2]&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://1.bp.blogspot.com/_h2XRf7gRzfY/SxsbO4pMNgI/AAAAAAAAARI/hP85WCHNy58/s1600-h/logic.gif"&gt;&lt;img style="display:block; margin:0px auto 10px; text-align:center;cursor:pointer; cursor:hand;width: 400px; height: 247px;" src="http://1.bp.blogspot.com/_h2XRf7gRzfY/SxsbO4pMNgI/AAAAAAAAARI/hP85WCHNy58/s400/logic.gif" border="0" alt=""id="BLOGGER_PHOTO_ID_5411949319753053698" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na minha opinião, uma teoria científica consiste simplesmente numa aventura intelectual onde o pesquisador tenta descrever como todo o universo funciona, no seu ponto de vista, para todos as outras pessoas da sociedade. É o que venho fazendo e é o que estimulo todo cientista a fazer. Entenda-se aqui a ciência como um estudo intelectual qualquer em que se deseja buscar certa regularidade no mundo de forma honesta intelectualmente, sem dogmas ou enviesamento de conduta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Há uma frase atribuída normalmente a Albert Einstein que diz o seguinte: "&lt;span style="font-style:italic;"&gt;O único homem que está isento de erros, é aquele que não arrisca acertar&lt;/span&gt;". Independentemente do fato se foi o alemão ou não que a cunhou, concordo plenamente com a mesma, arriscando-me sempre acertar e estando coberto de erros na mesma proporção. Peço ao leitor que mostre-me aqueles que for capaz. Agradecerei humildemente... &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(Mas esteja certo também que defenderei minhas idéias e suas lógicas inerentes até seus limites de quebra, onde alguma parte delas tenha se desmantelado por completo [3]; e só então sucumbirei e aceitarei visões concorrentes sobre o mesmo tema. E talvez, muito cuidado, seja você a ser convencido de seu próprio erro ao vir questionar o meu. Lutemos com lealdade e mútua admiração: tenho uma certa convicção de que toda busca honesta [4] pela compreensão é bela e deve ser louvada!)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;=== &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-style:italic;"&gt;[1]  Um dia pensei que seria bem compreendido, hoje vejo que me distanciei do conhecimento ordinário e tenho dificuldades em falar a mesma língua dos meus alunos.&lt;br /&gt;[2] Em um dos primeiros textos de conteúdo intelectual que escrevi: "&lt;a href="http://biotec.icb.ufmg.br/chicopros/ensino/divulgacao/CeticoBoemio.pdf"&gt;um guia para o cético boêmio&lt;/a&gt;" já identificava a diferença entre o cientista de porta-de-laboratório para o verdadeiro cientista. O primeiro é um bom profissional e o segundo, além disso, é um bom cidadão; sempre coerente em seus pontos de vista. Hoje mesmo assisti também uma palestra interessantíssima do polêmico ganhador do prêmio Nobel de química de 1993 pela descoberta da reação em cadeia da polimerase (PCR). &lt;a href="http://www.ted.com/talks/lang/eng/kary_mullis_on_what_scientists_do.html"&gt;Nesta conferência TED&lt;/a&gt;, Kary Mullis diferencia os indivíduos que são cientistas durante a semana e não o são nos fins de semana.&lt;br /&gt;[3] Aqui, cito-me noutra &lt;a href="http://tragodefilosofia.blogspot.com/2007/06/tese-duhem-quine.html"&gt;postagem clássica deste blogue&lt;/a&gt;: "Pierre Duhem era um físico e filósofo da ciência francês que viveu entre 1861 e 1916. Para Duhem, uma teoria científica é formada por um conjunto de enunciados e apresenta consequências empirícas (CE). Ao contrário, entretanto, do que pensa Popper -- ou seja, que a refutação de uma CE refuta a teoria -- Duhem estabelece que a refutação de uma consequência empírica não refuta necessariamente a teoria. Sendo que a teoria é composta por um conjunto de enunciados, algum deles é que pode ser falso e algum artifício ad hoc pode ser usado para salvar a teoria. O cerne da questão está relacionado ao fato de que, em um experimento, nunca se sabe exatamente o que se está testando e uma teoria é sempre testada em blocos, estando vinculada a um conjunto determinado de pressupostos." É este bloco duhemiano que o argumentador precisa tentar refutar em minha teoria para que eu passe a concordar com sua versão sobre um mesmo evento.&lt;br /&gt;[4] O conceito de honestidade intelectual roubo de Imre Lakatos e consiste na busca honesta e não-dogmática pelo conhecimento. Esta honestidade está tanto na conversa do dia-a-dia [5] quanto na busca científica [6]. &lt;br /&gt;[5] No primeiro caso: quantas pessoas já não encontrei na mesa de bar que simplesmente falam por falar e que não parecem saber tecer argumentações que sejam sequer lógicas, quanto mais não-dogmáticas... O indivíduo normal não parece compreender muita coisa sobre lógica e parece ser altamente influenciado pela mídia a repetir falsidades como verdades necessárias. Argumentos de autoridade e falácias escandalosas são repetidas dogmaticamente dia após dia por indivíduos que não são capazes de perceberem-se como simples máquinas meméticas operando para a manutenção do status quo. Não creio, absolutamente, que seria melhor deixá-los assim ignorantes, para o bem de toda a sociedade. Não creio também que não entendam a lógica da discussão por dificuldades cognitivas ou prejuízos intelectuais. Creio, doutro modo, que a educação epistemológica, sobre o conhecimento das bases do pensamento científico é incrivelmente importante para melhorarmos nossa sociedade. Eu já fui ignorante epistemologicamente e sei a diferença que fez para minha visão de mundo compreender melhor tanto as forças quanto os limites do conhecimento, além da cadeia lógica de pressupostos e consequências necessárias dos mesmos.&lt;br /&gt;[6] Neste último caso ela é ditada tanto pela (i) observação e análises de dados empíricos quanto pela (ii) construção de uma teoria metafísica que explique todas as observações logicamente. Tal teoria deve ser ainda capaz de explicar eventos passados e prever eventos futuros, demonstrando ter podido compreender determinada lógica inerente à natureza do universo. Esta teoria, de fato, não precisa estar "correta" e pode ser apenas uma simplificação tosca porém eficiente (em termos da vida humana) do que acontece numa realidade inalcançável e absurdamente complexa.&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/23099929-4977393713397893284?l=tragodefilosofia.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://tragodefilosofia.blogspot.com/feeds/4977393713397893284/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=23099929&amp;postID=4977393713397893284&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/23099929/posts/default/4977393713397893284'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/23099929/posts/default/4977393713397893284'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://tragodefilosofia.blogspot.com/2009/12/defesa-eterna-de-todos-os-meus.html' title='Defesa eterna de todos os meus argumentos'/><author><name>Prós</name><uri>http://www.blogger.com/profile/18282398415856299778</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='24' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/-OJfdox4-acU/Tm_oXf840OI/AAAAAAAAAlc/1ROS0tKzZ5k/s220/facebook_perfil_picture.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://1.bp.blogspot.com/_h2XRf7gRzfY/SxsOFrP5XOI/AAAAAAAAAQ4/5esHoWBQRis/s72-c/Defense_boxing.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-23099929.post-7268737696694577031</id><published>2009-11-24T00:01:00.000-02:00</published><updated>2009-11-24T00:01:00.415-02:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='evolução'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='história da ciência'/><title type='text'>Uma breve história do pensamento evolutivo: de Aristóteles a Charles Darwin</title><content type='html'>Venho aqui hoje prestar minha homenagem à mais ampla teoria, ao cerne dos estudos do campo das ciências biológicas que é a teoria evolutiva. No dia 24 de Novembro de 1859, há exatamente 150 anos atrás, Charles Darwin publicava a primeira edição de uma obra que mudaria para sempre a humanidade. Negando um deus criador para todas as espécies e apresentando uma visão coerente sobre a ancestralidade comum, a "Origem das Espécies" foi sem dúvida um marco na história recente da humanidade e, estou certo, ainda será lembrada por muitos anos no futuro. Darwin foi atacado pela grande massa de conservadores da Inglaterra vitoriana e saiu intacto, nobre, honrado. Foi também defendido pelos melhores e mais claros intelectos da época e deixou seu legado de busca honesta pelo conhecimento para todos os cientistas ao longo desses últimos 150 anos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://3.bp.blogspot.com/_h2XRf7gRzfY/Swae7BfKF9I/AAAAAAAAAPo/917pCzuUWQ8/s1600/darwin.gif"&gt;&lt;img style="display:block; margin:0px auto 10px; text-align:center;cursor:pointer; cursor:hand;width: 289px; height: 400px;" src="http://3.bp.blogspot.com/_h2XRf7gRzfY/Swae7BfKF9I/AAAAAAAAAPo/917pCzuUWQ8/s400/darwin.gif" border="0" alt=""id="BLOGGER_PHOTO_ID_5406183139553449938" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;blockquote&gt;&lt;span style="font-style:italic;"&gt;Charles Darwin é autor da teoria científica mais criticada de todos os tempos. Mas, na ciência, é a crítica e a dúvida que fazem a força das teorias. Tendo sido hoje confirmada e reconfirmada várias vezes, não há mais lugar para quem diz que a evolução não tenha acontecido ou que os organismos viventes hoje não tenham ancestrais comuns. Os que negam a teoria são simplesmente ignorantes (no sentido de não terem ido buscar para saber, ou seja, pessoas que ignoram fatos) ou religiosos fundamentalistas que ainda acreditam na interpretação literal de textos religiosos. Embora detalhes ainda sejam amplamente discutidos em meios técnicos e acadêmicos, a grande teoria de Darwin é hoje corroborada em milhares de instâncias e existem centenas de periódicos científicos com enfoque em biologia evolutiva -- onde pesquisadores de todo o mundo publicam seus trabalhos sobre estudos em espécies naturais todas as semanas.&lt;/span&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;Comemorações desta postagem&lt;/span&gt;:&lt;ul&gt;&lt;br /&gt;&lt;li&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;150 anos exatos&lt;/span&gt; da publicação da &lt;span style="font-weight:bold;"&gt;Origem das Espécies&lt;/span&gt; (24 de Novembro de 1859)&lt;br /&gt;&lt;li&gt;200 anos do nascimento de Charles Robert Darwin (1809)&lt;br /&gt;&lt;li&gt;200 anos da publicação do livro Filosofia Zoológica, de Lamarck (1809)&lt;br /&gt;&lt;li&gt;180 anos da morte de Lamarck (1829)&lt;br /&gt;&lt;/ul&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;===&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Este texto foi originalmente desenvolvido como um trabalho de conclusão de curso para a disciplina: &lt;span style="font-weight:bold;"&gt;Thomas Kuhn e a historiografia da ciência&lt;/span&gt;, do &lt;a href="http://www.fafich.ufmg.br/ppghis/index.htm"&gt;mestrado em história da UFMG&lt;/a&gt;. Disciplina esta ministrada pelo excelente professor Mauro Condé; único indivíduo que conheço capaz de iniciar uma aula com uma visão objetiva do conhecimento científico, discutir toda a política científica nacional e regional buscando citar o pensamento de diversos autores da cultura ocidental e terminar a aula à beira do relativismo epistemológico. Sendo que, no fim das contas, aprendemos enormemente e tivemos a impressão de estarmos apenas conversando descompromissadamente. Quiçá outros professores pudessem guardar tanto conhecimento, capacidade de síntese e aplicabilidade filosófica para o mundo real.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Críticas ou sugestões sobre este texto são bem-vindas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;===&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;Resumo&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Neste trabalho apresento brevemente a gênese do pensamento evolutivo, abordando rapidamente a visão biológica aristotélica, passando na Roma antiga por Galeno e discutindo com mais enfoque a visão difundida na Europa a partir do século XVI. Discuto mais extensamente as contribuições de Buffon, Lamarck e Darwin para a história do pensamento evolutivo, apresentando partes de textos originais destes autores. Embora descreva trabalhos de outros naturalistas da época, certamente a extensão deste trabalho deixa muitos importantes pesquisadores de fora desta análise. Após um breve relato histórico sobre a evolução do pensamento evolutivo, discuto também com brevidade algumas questões epistemológicas relevantes a aspectos sociológicos, históricos e científicos importantes para a aceitação ou não das teorias apresentadas à época que forma originalmente expostas. Argumento basicamente que a teoria da evolução já havia alcançado uma profunda extensão em Lamarck e que possivelmente seu trabalho tenha sido ofuscado pelo enorme trabalho de Buffon, um filósofo natural de grande renome em sua época. A importância de Darwin, entretanto, não deve ser diminuída, considerando que ele apresentou avanços significativos na forma como entendemos e observamos o processo evolutivo; principalmente através do conceito iluminador sobre a ancestralidade comum dos organismos. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;===&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;A gênese do pensamento sobre os seres vivos&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Antes de iniciarmos a história da evolução, é interessante observarmos brevemente a gênese do pensamento biológico &lt;span style="font-style:italic;"&gt;per se&lt;/span&gt;. Costuma-se considerar Aristóteles (384-322 AC) como o pai das ciências biológicas modernas. Embora antes dele outros filósofos gregos tenham pensado de alguma forma sobre as ciências biológicas, tanto Hipócrates quanto Platão (Timaeus) haviam entendido e especulado sobre a biologia segundo um aspecto mais médico, ligado ao corpo humano, à sua anatomia e a problemas fisiológicos ou patológicos. Parece ter sido de fato Aristóteles quem primeiro considerou a investigação da natureza e dos seres vivos de forma mais extensa e com um nível de sofisticação tal que só foi suplantado no século XVI [1]. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://1.bp.blogspot.com/_h2XRf7gRzfY/SvGnRJ4xDnI/AAAAAAAAANI/Ygto-T3TXKY/s1600-h/Aristotle_Altemps_Inv8575.jpg"&gt;&lt;img style="display:block; margin:0px auto 10px; text-align:center;cursor:pointer; cursor:hand;width: 299px; height: 400px;" src="http://1.bp.blogspot.com/_h2XRf7gRzfY/SvGnRJ4xDnI/AAAAAAAAANI/Ygto-T3TXKY/s400/Aristotle_Altemps_Inv8575.jpg" border="0" alt=""id="BLOGGER_PHOTO_ID_5400281341347565170" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-style:italic;"&gt;&lt;blockquote&gt;O filósofo grego Aristóteles (384–322 AC), um dos primeiros grandes pensadores da história natural. Publicou os livros "&lt;a href="http://books.google.com/books?id=rtXJmpDv1pIC&amp;printsec=frontcover"&gt;A história dos animais&lt;/a&gt;", "&lt;a href="http://etext.library.adelaide.edu.au/a/a8ga/"&gt;Geração dos animais"&lt;/a&gt; e "P&lt;a href="http://etext.virginia.edu/etcbin/toccer-new2?id=AriPaan.xml&amp;images=images/modeng&amp;data=/texts/english/modeng/parsed&amp;tag=public&amp;part=3&amp;division=div2"&gt;artes dos animais&lt;/a&gt;". Aristóteles classificadas os animais em níveis de complexidade crescente e tinha uma visão finalista (teleológica) do processo evolutivo; tais visões são hoje consideradas incorretas.&lt;/blockquote&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O método de pesquisa em biologia de Aristóteles consistia em duas partes: uma supostamente &lt;span style="font-style:italic;"&gt;descritiva&lt;/span&gt; e outra de cunho claramente &lt;span style="font-style:italic;"&gt;interpretativo&lt;/span&gt;. Possivelmente acreditando em um ideal que seria levado a cabo com mais vigor na primeira metade do século XX pelos filósofos do Círculo de Viena, que como Carnap acreditavam na possibilidade de produção de uma linguagem científica puramente descritiva [2], Aristóteles parecia separar suas obras descritivas de suas obras interpretativas com um certo zelo, diferenciando explicitamente o “&lt;span style="font-style:italic;"&gt;conhecimento do fato&lt;/span&gt;” do “&lt;span style="font-style:italic;"&gt;conhecimento da razão do fato&lt;/span&gt;”. Hoje em dia, entretanto, já pudemos entender que mesmo um conhecimento que se pense essencialmente descritivo carrega, inevitavelmente, uma grande dose interpretativa derivada tanto de nossa linguagem quanto de nossa crença enraizada em determinados paradigmas tidos como corretos no instante de nossa descrição dos fatos. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nos primeiros capítulos de sua obra “&lt;span style="font-style:italic;"&gt;História dos animais&lt;/span&gt;”, o pensador grego aborda as similaridades e diferenças entre os animais para posteriormente poder se questionar sobre as causas dos padrões observados. De uma forma um tanto quanto latente, já é entretanto possível encontrar o pensamento evolutivo na biologia de Aristóteles. &lt;span style="font-style:italic;"&gt;Ele sabia que nem todo o grupo de organismos que definisse através de determinadas características poderia ser considerado um tipo teórico significativo &lt;/span&gt;e ele sabia que a definição de grupos permitia identificar quais predicações poderiam ser consideradas como “&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;básicas&lt;/span&gt;” ou “&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;derivadas&lt;/span&gt;”. Assim, aquele que foi aluno de Platão até a morte de seu tutor, percebia que a observação de um &lt;span style="font-style:italic;"&gt;conjunto particular de caracteres compartilhados&lt;/span&gt; era mais importante para o agrupamento de animais em determinados tipos do que a utilização de apenas um ou outro caracter: como a presença de asas, por exemplo. Além disso, ele percebia que determinados tipos naturais, tais como os peixes ou pássaros, podiam ser entendidos por apresentarem algo que ele chama de uma &lt;span style="font-style:italic;"&gt;natureza comum&lt;/span&gt;. O principal objetivo de Aristóteles, em seus livros de cunho interpretativo, parece ser relacionar a presença de determinados órgãos observados em certos animais com suas funções biológicas: onde ele conclui que &lt;span style="font-style:italic;"&gt;animais que apresentam nariz, também apresentam faringe e pulmão&lt;/span&gt; e que tais órgãos estão relacionados ao processo da respiração. Assim, o filósofo grego apresenta explicações de cunho finalista (teleológico) para a presença de determinados órgãos internos e externos de animais.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aristóteles, portanto, está mais interessado na chamada &lt;span style="font-weight:bold;"&gt;biologia geral&lt;/span&gt; do que na biologia comparativa. Ele tenta explicar a locomoção animal, a respiração, o desenvolvimento embrionário, o dormir e o acordar, a vida e a morte; e esses são todos temas da chamada biologia geral. A biologia comparativa tenta encontrar diferenças entre os animais e explicar a razão dessas diferenças. O que o pai da biologia faz em suas obras é basicamente tentar explicar mecanismos relacionados com a vida utilizando a biologia comparativa, mas sem ter a diferença entre os organismos como foco de seu trabalho. Seu foco principal parece ser o entendimento sobre os processos da vida, não exatamente sobre a diferença entre os organismos. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A classificação dos animais feita por Aristóteles, entretanto, era tida como correta até meados do século XIX. O grego separou os animais entre aqueles que tinham ou não tinham sangue, o que corresponderia aproximadamente hoje à distinção entre vertebrados e invertebrados. Os animais com sangue ainda foram separados entre os que abrigam a vida em seu interior contra aqueles que produziam ovos. Sua classificação dos invertebrados em insetos, crustáceos e moluscos é dita ainda mais moderna do que a classificação feita por Lineu mais de um milênio depois dele. (Lineu dividiu os invertebrados apenas em insetos e vermes.)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;A era pré-Lamarckiana&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Além de Aristóteles, o médico romano Claudius Galeno (129-200 DC) também foi um pioneiro na área da medicina e da anatomia e seus escritos influenciaram o currículo médico até o século XVI [4,5]. Foi apenas por volta de 1530 que o também médico e anatomista Andreas Vesalius (1514-1564) retomou os trabalhos de Galeno em seus estudos na Universidade de Paris. Apenas quando se mudou para a Universidade de Pádua foi que Vesalius pôde dissecar corpos por si mesmo para mostrar a seus estudantes detalhes finos da anatomia humana. E assim ele foi capaz de identificar uma grande quantidade de erros nos trabalhos de Galeno, erros estes que vinham provavelmente do fato de que, na Roma antiga, Galeno não tinha a permissão para estudar cadáveres humanos. De fato, os trabalhos de Galeno eram realizados principalmente com bios e macacos; seus estudos em humanos eram provavelmente inferidos a partir de operações que realizava, onde era capaz de observar sem muito detalhe a estrutura interna dos corpos de seres humanos [5].&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://2.bp.blogspot.com/_h2XRf7gRzfY/SvGs07L3rxI/AAAAAAAAANQ/pYp3eOzQHNo/s1600-h/441px-Vesalius_Portrait_pg_xii_-_c.png"&gt;&lt;img style="display:block; margin:0px auto 10px; text-align:center;cursor:pointer; cursor:hand;width: 294px; height: 400px;" src="http://2.bp.blogspot.com/_h2XRf7gRzfY/SvGs07L3rxI/AAAAAAAAANQ/pYp3eOzQHNo/s400/441px-Vesalius_Portrait_pg_xii_-_c.png" border="0" alt=""id="BLOGGER_PHOTO_ID_5400287453434588946" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;blockquote&gt;&lt;span style="font-style:italic;"&gt;Ardreas Vesalius (1514-1564) foi um médico e anatomista belga, autor de um dos livros mais clássicos sobre anatomia humana, "De humani corporis fabrica". Suportava o estudo das dissecações em paralelo, onde um corpo humano era dissecado ao lado de corpos de animais para observar as diferenças e semelhanças; fundou assim também a anatomia comparativa.&lt;/span&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vesalius publicou sete volumes do livro &lt;span style="font-style:italic;"&gt;De humani corporis fabrica&lt;/span&gt; (A fábrica do corpo humano), comumente conhecido como &lt;span style="font-weight:bold;"&gt;a Fábrica&lt;/span&gt;, inaugurando uma nova tradição anatômica na Europa, onde os anatomistas eram incitados a realizar suas próprias observações e a explorar com mais detalhes o corpo humano. Com relação ao pensamento evolutivo, os trabalhos realizados por Vesalius com animais e humanos, ou seja, seus estudos de anatomia comparativa, inevitavelmente sugeriam que os humanos deveriam ser, de fato, apenas mais uma espécie dentre várias outras espécies de animais, apresentando, como qualquer outra, particularidades anatômicas a serem estudadas e entendidas [5,6].&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Negando a autoridade de Aristóteles e Galeno, cada vez mais europeus começaram a estudar os animais e o homem a partir do século XVII. O médico inglês William Harvey (1578-1657) descobriu no início deste século que o coração bombeava sangue para o corpo através de um circuito fechado [7], desenvolvendo as idéias iniciais de Descartes (1596-1650) que dizia que as artérias e veias carregam substâncias nutritivas pelo corpo [8]. Trabalhando na metade do século XVII, o inglês Robert Hooke (1635-1703) publicou um livro chamado &lt;span style="font-style:italic;"&gt;Micrographia&lt;/span&gt;, apresentando observações microscópicas e foi o primeiro a cunhar o termo célula [9]. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A esta época, os religiosos começaram a se amedrontar com o fato de que uma &lt;span style="font-weight:bold;"&gt;visão mecanicista&lt;/span&gt; da natureza e do homem – que começava a ser visto como uma máquina formada de partes que funcionavam em um conjunto organizado – pudesse incitar o pensamento ateísta e foi então que surgiu o movimento conhecido como &lt;span style="font-weight:bold;"&gt;teologia natural&lt;/span&gt;. Muitos naturalistas da época eram também teólogos e eles passaram a acreditar que deus havia criado o mundo de forma que ele pudesse ser entendido por criaturas racionais. Assim, ao estudar os organismos, os naturalistas estariam estudando a obra divina e essa era a essência do pensamento dos teólogos naturais que, ao estudarem a natureza, estariam ao mesmo tempo estudando os desígnios divinos [7]. Diz-se que a teologia natural foi precocemente descrita por Santo Agostinho (354-430), embora tenha sido retomada no contexto europeu moderno por John Ray (1627-1705) e desenvolvida posteriormente por William Paley (1743-1805) [10]. Diz-se que a teologia natural ajudou o avanço das ciências biológicas no sentido em que permitia aos clérigos estudar a biologia sem que isso entrasse em contradição com suas crenças [7,10]. Embora isso seja provavelmente verdade, é de se imaginar que a busca por explicações não metafísicas e a total independência da pesquisa com relação à religião teria acelerado ainda mais o entendimento dos processos biológicos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É interessante notar que também como a paleontologia nascia na Europa do século XVII. Conta-se a história de dois pescadores que encontraram um tubarão gigante na costa da Itália; este tubarão foi então levado para ser avaliado pelo anatomista dinamarquês &lt;span style="font-style:italic;"&gt;Nicolas Steno&lt;/span&gt; (1638-1686) que, ao realizar seus estudos, percebeu que os dentes do animal eram idênticos a um tipo de pedra conhecido desde tempos remotos: as pedras-língua (tongue stones) [11]. Steno, ao contrário de outras autoridades que, como Plínio, diziam que as pedras-língua haviam caído do céu ou da Lua, sugeriu que as pedras eram provenientes de dentes de tubarões que haviam vivido no passado. Assim, através da utilização de uma teoria corpuscular da matéria existente à época (um tipo de atomismo), Steno supôs que o tempo havia transformado os dentes dos tubarões em pedras através de substituições do conteúdo corpuscular (molecular) do dente, passo a passo [12]. O pesquisador começou então a avaliar os sedimentos rochosos e sugeriu que as rochas e minerais haviam sido um dia líquidos e que iam se depositando aos poucos na forma de pedra, de forma que os sedimentos mais antigos ficavam em rochas mais fundas e os sedimentos superiores representavam deposições mais recentes. Assim, Steno criou sua “lei da superposição” de rochas através de camadas horizontais e sugeriu, como outros de seus contemporâneos já citados (Hooke e Ray), que os fósseis eram oriundos de organismos que haviam vivido no passado [11, 12]. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://2.bp.blogspot.com/_h2XRf7gRzfY/SvGvB4evGiI/AAAAAAAAANY/bd3OOGE9dfs/s1600-h/Stenoshark.jpg"&gt;&lt;img style="display:block; margin:0px auto 10px; text-align:center;cursor:pointer; cursor:hand;width: 265px; height: 400px;" src="http://2.bp.blogspot.com/_h2XRf7gRzfY/SvGvB4evGiI/AAAAAAAAANY/bd3OOGE9dfs/s400/Stenoshark.jpg" border="0" alt=""id="BLOGGER_PHOTO_ID_5400289875069966882" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;blockquote&gt;&lt;span style="font-style:italic;"&gt;&lt;br /&gt;As chamadas pedra-língua eram encontradas no litoral da Itália no século XVII e tidas como caídas dos céus. O dinamarquês Nicolas Steno foi o primeiro a cogitar que elas seriam resultados da calcificação de dentes de tubarões vivendo no passado. Ele é considerado como o pai da geologia e da estratigrafia.&lt;/span&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Outro importante desenvolvimento da biologia no século XVII, foi a apresentação de um sistema natural de classificação hierárquica dos seres vivos, realizada pelo sueco &lt;span style="font-weight:bold;"&gt;Carolus Linnaeus&lt;/span&gt; (1707-1778) [13]. Linnaeus sempre fora interessado por botânica e quando foi trabalhar na Universidade de Uppsala, por volta de 1729, quis estabelecer um sistema artificial de classificação de plantas. Em 1935, ele se mudou para a Holanda, onde mostrou a um botânico local um rascunho de seu trabalho sobre taxonomia e neste mesmo ano um trabalho de &lt;span style="font-style:italic;"&gt;11 páginas&lt;/span&gt; foi publicado com o nome de &lt;span style="font-weight:bold;"&gt;Systemae Naturae&lt;/span&gt; [14]. Neste trabalho, Linnaeus dividia o mundo natural em três reinos: o reino animal, vegetal e mineral, e classificava os elementos que teriam sido colocados na Terra pela criação divina. O trabalho de sistematização taxonômica de Linnaeus foi se tornando mais complexo à medida que novas edições eram publicadas e a última e décima terceira edição de seu Systemae Naturae, publicado em 1770, possuía cerca de 300 páginas. A décima edição desta obra (1758) foi particularmente interessante, pois foi onde Linnaeus percebeu que &lt;span style="font-style:italic;"&gt;as baleias haviam sido incorretamente classificadas como peixes&lt;/span&gt; – agora elas passavam para o grupo dos mamíferos – e foi onde também ele sugeriu a &lt;span style="font-style:italic;"&gt;classificação binomial&lt;/span&gt; também para os animais, coisa que havia sugerido inicialmente apenas para as plantas [15]. Este trabalho foi extremamente importante pois antes dele eram realizados trabalhos com uma &lt;span style="font-style:italic;"&gt;nomenclatura irregular&lt;/span&gt; e, além de nomear os organismos de forma adequada, Linnaeus também os dividiu em grandes grupos, como os gêneros, ordens, classes e reinos – colocando nos mesmos grupos aqueles animais que apresentam características em comum [13,15]. E embora Linnaeus não tivesse percebido as implicações evolutivas de sua classificação, uma vez que os organismos estavam classificados em grupos por similaridade, era mais fácil perceber que as características comuns apresentadas por certos grupos provavelmente deveriam estar relacionadas à ancestralidade comum entre eles.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://4.bp.blogspot.com/_h2XRf7gRzfY/SvGwRxdBEFI/AAAAAAAAANg/ZioERYMa3sM/s1600-h/364px-Systema_Naturae_cover.jpg"&gt;&lt;img style="display:block; margin:0px auto 10px; text-align:center;cursor:pointer; cursor:hand;width: 243px; height: 400px;" src="http://4.bp.blogspot.com/_h2XRf7gRzfY/SvGwRxdBEFI/AAAAAAAAANg/ZioERYMa3sM/s400/364px-Systema_Naturae_cover.jpg" border="0" alt=""id="BLOGGER_PHOTO_ID_5400291247573241938" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;blockquote&gt;&lt;span style="font-style:italic;"&gt;A grande obra precursora da classificação moderna dos seres biológicos. Publicada pela primeira vez em 1735 em 11 páginas por Carolus Linnaaeus, a obra dividia a história natural em 3 reinos: plantas, animais e minerais. A classificação incorreta de Lineu ainda é ensinada em muitas escolas. Lineu jamais percebeu a clara noção evolutiva de seu sistema classificatório, mas foi ele quem iniciou o sistema hierárquico de classificação zoológica utilizado até os dias de hoje.&lt;/span&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Diz-se que o pensamento evolutivo propriamente dito teria se iniciado com o filósofo naturalista francês &lt;span style="font-weight:bold;"&gt;Georges-Louis Leclerc&lt;/span&gt;, o conde de Buffon (1707-1788). Buffon de fato escreveu uma enorme enciclopédia do mundo natural "&lt;span style="font-style:italic;"&gt;Histoire naturelle, générale et particulière"&lt;/span&gt; (História natural, geral e particular), onde ele pretendia incluir todo o conhecimento sobre o mundo natural até a data de publicação de sua obra [16]. A obra apresentou 36 volumes até a morte de Buffon, além de 8 volumes extras publicados postumamente e, enquanto o primeiro volume tratava da origem da Terra, dos mares e dos lagos, os volumes posteriores tratavam extensivamente da história natural dos diversos grupos de animais [17]. No volume 3 de seu livro, "&lt;span style="font-style:italic;"&gt;A História Natural do Homem&lt;/span&gt;", Buffon compara extensivamente comportamentos e propriedades biológicas do ser humano com relação a atitudes realizadas por animais, falando claramente do homem como um animal. Em uma passagem, Buffon chega a comentar [18]:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;blockquote&gt;&lt;span style="font-style:italic;"&gt;Mas como o homem não é um simples animal e sua natureza é superior à dos outros animais, devemos tentar investigar a causa desta superioridade de forma que possamos ser capazes de distinguir o que é peculiar a ele [o homem] e o que ele posssui em comum com os outros seres animados.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Buffon, Natural History: General and Particular, Book 3, The Natural History of Man (pag. 208) (obtido em http://faculty.njcu.edu/fmoran/vol3dissertation1.htm)&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em outra passagem do livro 2 “A história natural dos animais”, Buffon escreve:&lt;br /&gt;&lt;blockquote&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“(…) ainda que todas as realizações do Onipotente sejam em si mesmas igualmente perfeitas, os seres animados, de acordo com nosso modo de percepção, são os mais completos; e o homem é o mais bem finalizado e perfeito animal. (…) Mas tão admirável quanto este trabalho possa parecer, o grande milagre não é exibido no indivíduo. Ele é percebido na renovação sucessiva, e na continua duração das espécies, que a Natureza assume como um aspecto ao mesmo tempo inconcebível e impressionante. Esta faculdade de reprodução, que é particular a animais e vegetais; esta espécie de unidade que sempre persiste e parece ser eterna; este poder gerador que é perpetuado em ação, deve, com relação a nós, continuar sendo um mistério tão profundo que provavelmente jamais alcançaremos seu fim.” [19]&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Buffon, Natural History: General and Particular, Book 2, The Natural History of Animals (Pags. 1-2) (obtido em http://faculty.njcu.edu/fmoran/vol2art1.htm)&lt;/span&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aqui Leclerc apresenta um pensamento evolutivo inicial, embora a “renovação sucessiva” a que ele se refere possa apenas estar relacionada ao fato da reprodução e da manutenção das espécies, não estando relacionado à origem de novos organismos. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Continuando sua história dos animais, Buffon define quatro níveis hierárquicos de organização natural: (1) o homem, animal perfeito; (2) os animais “brutos”; (3) os vegetais e (4) os minerais e discute as inter-relações entre todos os níveis de organização, identificando os caracteres compartilhados entre os níveis e fazendo uma caracterização geral, principalmente dos grupos animais e vegetais. O conde de Buffon ainda recupera a visão de Aristóteles, Hipócrates e Galeno sobre a &lt;span style="font-style:italic;"&gt;reprodução como sendo resultante de uma mistura de fluidos&lt;/span&gt; e discute sobre a presença de fluidos internos nas fêmeas com relação ao processo de reprodução ou se apenas os machos possuíam o que ele chama de &lt;span style="font-style:italic;"&gt;princípio prolífico&lt;/span&gt; (Natural History: General and Particular, Book 2, The Natural History of Animals, pags. 70-85).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Outras leituras da história natural dos animais de Buffon deixam claro que o naturalista francês não tinha uma visão muito clara do processo evolutivo. Entretanto, alguns aspectos do processo evolutivo pareciam claros para Buffon, como se pode perceber a seguir:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;blockquote&gt;&lt;span style="font-style:italic;"&gt;&lt;br /&gt;“Ainda que as espécies de animais sejam separadas umas das outras por um intervalo que a Natureza não pode sobrepor; ainda assim algumas espécies parecem tão próximas às outras e suas relações mútuas são tão numerosas que um espaço é apenas deixado como uma linha estreita de distinção.” [20]&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Buffon, Natural History: General and Particular, Book 3, The Natural History of Man, The Natural History of Goat (Pag. 484) (obtido em http://faculty.njcu.edu/fmoran/vol3goat.htm)&lt;/span&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como todo bom naturalista, Buffon havia percebido que em muitos grupos animais a variação que diferencia as espécie podia ser mais bem entendida como um contínuo do que como uma série de eventos um tanto quanto afastados uns dos outros. Isso está de acordo com o que se diz sobre ele acreditar na lei da continuidade de Gottfried Leibniz (1646-1716), que dizia que a natureza não dá saltos: &lt;span style="font-weight:bold;"&gt;natura non facit saltus&lt;/span&gt;, embora o alemão acreditasse que devido à ausência de saltos, os animais não poderiam ser arbitrariamente classificados em determinadas categorias. (Como veremos a seguir, Lamarck também era adepto desta visão.)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Embora tivesse gastado boa parte de sua vida escrevendo sua &lt;span style="font-style:italic;"&gt;História Natural&lt;/span&gt;, percebe-se claramente que Buffon pode ser classificado mais como um &lt;span style="font-style:italic;"&gt;filósofo natural&lt;/span&gt; do que como um naturalista. Suas opiniões e idéias tratam sempre de princípios gerais – como a reprodução, o crescimento, a nutrição, os sentidos, a infância, a puberdade, etc. – sobre os animais e ele não parece ter conduzido experimentos com a extrema cautela característica do trabalho científico durante a produção de uma obra de cunho excessivamente holístico. Suas idéias, embora sempre argumentadas, às vezes parecem um tanto quanto vagas, pouco informativas e distantes da realidade. Alguns trechos abaixo exemplificam essa característica de seus trabalhos:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://2.bp.blogspot.com/_h2XRf7gRzfY/SvGzfssI_bI/AAAAAAAAANo/ewUr5GylCqw/s1600-h/404px-Buffon_1707-1788.jpg"&gt;&lt;img style="display:block; margin:0px auto 10px; text-align:center;cursor:pointer; cursor:hand;width: 270px; height: 400px;" src="http://2.bp.blogspot.com/_h2XRf7gRzfY/SvGzfssI_bI/AAAAAAAAANo/ewUr5GylCqw/s400/404px-Buffon_1707-1788.jpg" border="0" alt=""id="BLOGGER_PHOTO_ID_5400294785347550642" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;blockquote&gt;&lt;span style="font-style:italic;"&gt;&lt;br /&gt;Georges-Louis Leclerc, o conde de Buffon (1707–1788) foi o maior naturalista francês do século XVIII. Tendo publicado 36 volumes da obra "História Natural", Buffon gozou de grande renome na sociedade de intelectuais franceses de sua época e publicou informações sobre praticamente todos os grupos animais conhecidos à época. Suas obras eram tão difundidas quanto as de Voltaire e Rousseau.&lt;/span&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;blockquote&gt;&lt;span style="font-style:italic;"&gt;&lt;br /&gt;“O cão, independentemente da beleza de sua figura, sua força, vivacidade e agilidade, possui toda excelência interna que atraia a consideração do homem. Um temperamento apaixonado ou mesmo um temperamento feroz e sanguinário, torna o cão selvagem formidável com relação a todos os animais.” [21]&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Buffon, Natural History: General and Particular, Book 4, The Natural History of Dog (Pag. 1) (obtido em http://faculty.njcu.edu/fmoran/subjects4a.htm)&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-style:italic;"&gt;&lt;br /&gt;“O lobo, tanto externamente e internamente, tem uma semelhança tão grande com o cachorro que parece ter sido formado a partir do mesmo modelo. Mas ele exibe as mesmas características sob uma mascara. A figura é parecida, mas o resultado é diretamente revertido.” [22]&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Buffon, Natural History: General and Particular, Book 4, The Natural History of Wolf (Pag. 196-7) (obtido em http://faculty.njcu.edu/fmoran/subjects4a.htm)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“A girafa é um dos maiores e mais bonitos quadrúpedes: sem ser nocivo, ele é ao mesmo tempo extremamente inútil. A enorme desproporção de suas pernas, as quais as anteriores são o dobro em tamanho das posteriores, inibem-no de exercer seus poderes. Seu corpo não tem estabilidade, ele tem um tem um jeito desconcertado e seus movimentos são lentos e confinados.” [23]&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Buffon, Natural History: General and Particular, Book 7, The Natural History of the Giraffe, or Camelopard (Pag. 109) (obtido em http://faculty.njcu.edu/fmoran/subjects7a.htm)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“O sentido da visão não nos permite ter idéia das distâncias. Sem a ajuda do tato, todos os objetos pareceriam estar dentro do olho, porque é lá apenas onde as imagens existem. E um feto animal, que não tenha nenhuma experiência de tato, deve considerar todos os corpos externos como existindo dentro dela. Eles aparecerão apenas maiores ou menores conforme se aproximem ou afastem do olho.” [24]&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Buffon, Natural History: General and Particular, Book 3, The Natural History of Man, On The Sense of Seeing (Pag. 5-6) (obtido em http://faculty.njcu.edu/fmoran/subjects3.htm)&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Apesar disso, ainda que em uma escala menor, Buffon acreditava nas mudanças das espécies de acordo com características ambientais, como demonstrado pelo seguinte trecho: &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;blockquote&gt;&lt;span style="font-style:italic;"&gt;&lt;br /&gt;“Onde quer que o homem comece a alterar seu clima e a migrar de um país a outro, sua natureza está sujeita a várias alterações. Em países temperados, que supomos adjacentes ao local onde ele foi originado, essas alterações têm sido bem ligeiras; mas elas aumentam em proporções quando ele se afasta desta localização” [25]&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Buffon, Natural History: General and Particular, Book 7, Treatise on the Degeneration of Animals (Pag. 391) (obtido em http://faculty.njcu.edu/fmoran/vol7degeneration.htm)&lt;/span&gt;&lt;/blockquote&gt;	&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O caso do lobo mostrado acima, evidencia como &lt;span style="font-style:italic;"&gt;Leclerc acreditava na existência de alguns moldes básicos que teriam se modificado dando origem às espécies existentes&lt;/span&gt;. Buffon, portanto, embora tenha entendido diversos fatores responsáveis pelo processo evolutivo, como a importância da migração, não os explicitou de uma forma direta e concisa. Assim, fatores relacionados à evolução dos seres vivos permaneceram diluídos em meio à sua gigantesca obra. Uma vez que a evolução é o que dá sentido para entendermos as relações de parentesco entre os seres vivos; e dado que Buffon escreveu sobre a história natural de centenas de organismos sem abordar explicitamente a evolução, conclui-se que ele não foi, de fato, um evolucionista, como muitas vezes se supõe. Assim, talvez, a citação de Darwin a Buffon ao dizer logo na primeira página de “&lt;span style="font-style:italic;"&gt;A origem das espécies&lt;/span&gt;” – doravante citado como Origem – que o filósofo natural francês tenha sido o primeiro a tratar a evolução segundo espírito científico, deveu-se mais a um aspecto sociológico – devido à importância do naturalista em sua época, onde seus escritos eram tão difundidos quanto os de Voltaire e Rousseau –, do que realmente a um fator direto e científico, relacionado ao contexto da justificação. Na primeira página da Origem, Darwin relata:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;blockquote&gt;&lt;span style="font-style:italic;"&gt;“Some few naturalists (...) have believed that species undergo modification, and that the existing forms of life are descendants by true generation of pre-existing forms. Passing over allusions to the subject in the classical writers, the first author who in modern times has treated it in a scientific spirit was Buffon.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Alguns poucos naturalistas (...) têm acreditado que as espécies passam por modificações e que as formas de vida existentes são descendentes através de formas pré-existentes por intermédio de geração regular. Pondo de lado as alusões que, a tal respeito, se encontram nos autores clássicos, Buffon foi o primeiro que, nos tempos modernos, tratou este assunto com espírito científico.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;	Darwin, The Origin of Species, An Historical Sketch pag. 1.&lt;/span&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como vimos, Buffon apenas relata pequenos processos de mudança que, embora pudessem ser entendidos num contexto contrário ao fato de que as espécies tivessem sido colocadas por deus na Terra em caráter fixo, jamais poderiam corroborar com a extensão da mudança evolutiva como sugerida por Darwin e Lamarck. Neste primeiro capítulo da Origem (&lt;span style="font-style:italic;"&gt;A historical sketch&lt;/span&gt;), portanto, Darwin reúne um conjunto de citações de outros naturalistas da época que, ainda que perdidas em meio a um conjunto enorme do trabalho dos outros autores, de alguma forma verificavam suas idéias sobre a mutabilidade das espécies ao longo das gerações. Mas passamos aqui o carro na frente dos bois e é hora de voltar a um personagem muito importante na história do pensamento evolutivo e que, além de Aristóteles e Buffon, também é citado diretamente na primeira página da &lt;span style="font-weight:bold;"&gt;Origem&lt;/span&gt;.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;A gênese do pensamento evolutivo&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Embora freqüentemente tido como vilão da história do pensamento evolutivo, já passa da hora de dar um crédito definitivo ao francês Jean-Baptiste de Monet, o cavaleiro de Lamarck (1744-1829). &lt;span style="font-style:italic;"&gt;O naturalista foi de fato o primeiro a considerar a evolução dos organismos de uma maneira séria e a criar uma teoria abrangente e concisa para explicar a origem e a modificação dos organismos ao longo do tempo&lt;/span&gt;. Lamarck nasceu no norte da França e participou cedo em sua vida em uma Guerra contra a Alemanha (1761). Quando a paz foi declarada, Lamarck mudou-se para o sul da França, onde ainda atuou no exército até que um ferimento o forçou a deixar a instituição. Assim, ele se mudou para Paris, onde depois de trabalhar por algum tempo em um banco, começou a estudar medicina e botânica, assunto em que logo se tornou um especialista. Em 1778 publicou, com sucesso, um livro chamado &lt;span style="font-style:italic;"&gt;"Flore française"&lt;/span&gt;, que teve o apoio de Buffon para a publicação. Assim, com o sucesso do livro e a ajuda do filósofo natural, Jean-Baptiste de Monet foi contratado como botânico assistente no Jardim das Plantas (o jardim botânico real da França), que era na verdade um centro para a pesquisa médica e biológica. Lamarck viveu na pobreza até 1793, quando Louis XVI e Marie Antoniette foram para a guilhotina e então o Jardim das Plantas teve seu nome modificado para "&lt;span style="font-style:italic;"&gt;Musée National d'Histoire Naturelle&lt;/span&gt;", onde o naturalista se tornou um dos 12 professores indicados para reorganizar o museu. Ele trabalharia, então, com a história natural de um grupo de organismos muito pouco estudado à época: os insetos e os vermes, que foram batizados pelo francês de “invertebrados” [26].&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Seu trabalho mais aclamado, onde ele expõe suas idéias sobre evolução é o livro "&lt;span style="font-style:italic;"&gt;Philosophie Zoologique&lt;/span&gt;", publicado em 1809. Logo no prefácio, o protegido de Buffon mostra o caráter teleológico de sua obra, &lt;span style="font-weight:bold;"&gt;evidenciando acreditar em um tipo de escala de sucessão na natureza&lt;/span&gt;, onde os organismos tenderiam a passar de mais simples a mais complexos, de mais imperfeitos a mais perfeitos e diz que é esse desenvolvimento gradual que pretende estudar. Para isso, ele verifica que pretende estudar as causas das mudanças na escala da vida animal e apresenta duas idéias que explicariam a forma como as mudanças nos organismos se processariam: primeiramente, portanto, ele descreve pela primeira vez a idéia de &lt;span style="font-weight:bold;"&gt;uso e desuso&lt;/span&gt;, onde a utilização sustentada de determinados órgãos fortaleceria-os e os tornaria maiores, enquanto a falta de uso dos mesmos iria gradualmente diminuindo-os até que eles desaparecessem por completo. Sua segunda idéia diz respeito ao &lt;span style="font-weight:bold;"&gt;poder da movimentação dos fluídos&lt;/span&gt; nos organismos, onde ele acredita que o aumento dos fluidos e de sua velocidade de movimento seriam fatores importantes para gerar complexidade nos organismos vivos; uma idéia que parece ter sido refutada e completamente esquecida. Ainda no prefácio, o cavaleiro de Lamarck diz que pretende também estudar o sistema nervoso e as maneiras segundo as quais os animais usam suas condições para serem capazes de sentir o meio ambiente ao seu redor através de propriedades de um possível fluido nervoso. &lt;span style="font-style:italic;"&gt;Ao estudar as sensações dos animais, o naturalista francês conclui que os movimentos de sensação dos animais não são uma forma de comunicação e sim uma forma de estímulo que o ambiente empresta aos organismos de forma a estimular movimentos e ações em animais imperfeitos. Tais movimentos e ações permitiriam um aumento na complexidade desses animais e trariam um poder de transformação para dentro dos organismos, permitindo-se colocar este poder à disposição do indivíduo e verificando a aquisição de novidades de acordo com o ambiente&lt;/span&gt; [27]. Para Lamarck, portanto, o ambiente influencia diretamente as modificações na estrutura dos animais de forma a gerar uma maior "adaptação". Embora não se fale em seleção natural com relação à teoria lamarckiana, &lt;span style="font-style:italic;"&gt;o erro de Lamarck não foi o de não prever a seleção natural e sim o de reunir a seleção natural – ou seja, os efeitos do ambiente – à origem da variação&lt;/span&gt;. O que Lamarck não conseguiu enxergar, talvez por ter pouca experiência em realizar cruzamentos entre animais, é que &lt;span style="font-weight:bold;"&gt;a variação surge aleatoriamente&lt;/span&gt;, e não é dirigida pelo ambiente. (Vale notar que mesmo Darwin não conseguiu entender de forma precisa este problema e embora suas observações comumente seguem em direção à aleatoriedade da variação, quando teoriza racionalmente, Darwin continua a utilizar o pensamento lamarckista do uso e desuso, um argumento que só foi realmente refutado no fim do século XIX com Weissman. De fato, diz-se que a primeira edição da Origem é justamente mais moderna que a sexta e última edição pois Darwin foi ao longo do tempo aceitando as críticas de seus contemporâneos e lamarckizando sua teoria no sentido incorreto.)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mais para o fim de seu prefácio, o naturalista francês escreve em sua filosofia zoológica, sem qualquer modéstia, que os fatos que irá apresentar com relação aos “&lt;span style="font-style:italic;"&gt;seus estudos sobre animais, suas características gerais e particulares, sua estrutura orgânica, as causas de seus desenvolvimentos e diversidade e as faculdades que eles adquiriram (...) são numerosos e confiáveis, e as conclusões derivadas [dessas observações] parecem ser apropriadas e necessárias, de forma que estou convencido da dificuldade de trocá-las por outras melhores&lt;/span&gt;”. Sabendo da dificuldade de aceitação de suas novas idéias, Jean-Baptiste de Monet comenta:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;blockquote&gt;&lt;span style="font-style:italic;"&gt;“Quelquefois, néanmoins, d’excellentes vues et des pensées solides, sont (...) rejetées ou négligées. Mais il vaut mieux qu’une vérité, une fois aperçue, lutte long-temps sans obtenir l’attention qu’elle mérite, que si tout ce que produit l’imagination ardente de l’homme étoit facilement reçu.” 27&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Algumas vezes, entretanto, algumas opiniões excelentes e idéias sólidas são (...) rejeitadas ou neglicencidas. Mas é melhor que a verdade, uma vez percebida, lute por um bom tempo sem obter a atenção que merece do que aceitar que qualquer coisa produzida pela fértil imaginação humana seja facilmente aceito”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Jean-Baptiste Lamark, Philosophie Zoologique, Avertissement (obtido em http://fr.wikisource.org/wiki/Philosophie_zoologique%2C_Avertissement)&lt;/span&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lamarck termina, portanto, seu prefácio, com uma reflexão epistemológica. Ele diz que “&lt;span style="font-style:italic;"&gt;não existem verdades confiáveis para os seres humanos&lt;/span&gt;”, embora afirme que os fatos empíricos e observações não possam ser negadas. Como Aristóteles, mais uma vez, percebe-se que os&lt;span style="font-style:italic;"&gt; cientistas são mesmo inclinados a desconsiderar um claro cunho interpretativo de suas observações&lt;/span&gt;. Talvez, entretanto, eles queiram realmente dizer que os fatos observáveis estejam menos sujeitos a interpretações baseadas no paradigma corrente do que, evidentemente, suas teorias, opiniões, idéias, além da predição de conseqüências futuras. “&lt;span style="font-style:italic;"&gt;Apesar disso,” diz Lamarck, “tudo é incerto, ainda que algumas conseqüências, teorias, opiniões e assim por diante mostrem-se muito mais prováveis que outras&lt;/span&gt;.” Ele continua: &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;blockquote&gt;&lt;span style="font-style:italic;"&gt;“(...) les pensées, les raisonnemens, et les explications dont on trouvera l’exposé dans cet ouvrage, ne devront être considérés que comme de simples opinions que je propose, dans l’intention d’avertir de ce qui me paroît être, et de ce qui pourroit effectivement avoir lieu.” 27&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“(…) os pensamentos, as cadeias de raciocícios e as explicações que são apresentadas neste trabalho, devem ser consideradas apenas simples opiniões que proponho com a intenção de indicar o que me parece acontecer, e que pode efetivamente ser o caso.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Jean-Baptiste Lamark, Philosophie Zoologique, Avertissement (obtido em http://fr.wikisource.org/wiki/Philosophie_zoologique%2C_Avertissement)&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/blockquote&gt;	&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lamarck ainda incentiva aquelas pessoas que gostam do estudo da natureza a seguir e tentar estudar mais a história natural com o intuito de verificar suas teorias, verificando quais de suas conclusões serão julgadas mais aceitáveis pelos biólogos e &lt;span style="font-style:italic;"&gt;termina o prefácio dizendo que terá alcançado seu objetivo caso as idéias de seu livro venham a se mostrar interessantes ou úteis para aqueles que amam o estudo da natureza&lt;/span&gt;. Certamente, seu objetivo foi coroado com enorme êxito.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em seguida ao prefácio, Lamarck apresenta um discurso preliminar [29] que é uma declaração de amor à zoologia e à pesquisa científica. “&lt;span style="font-style:italic;"&gt;De fato, o que pode ser mais interessante na observação da natureza do que o estudo dos animais, e então pensar sobre as conexões entre suas estruturas e as estruturas dos seres humanos, sobre o poder de seus hábitos, formas de vida, climas e ambientes que precisam modificar seus órgãos, faculdades, suas características (...)&lt;/span&gt;”. Segue então comentando que o estudo dos animais e da ordem através da qual eles aparecem na natureza – uma frase de claro cunho evolucionista – pode nos permitir entender a origem das faculdades que eles apresentam como um notável progresso estrutural e de desenvolvimento. Em seguida, Lamarck argumenta sobre o fato de que o físico e o moral originam-se, de fato, em uma mesma coisa, embora ele pense que não se tenha ainda dado atenção suficiente à influência do moral no físico. O autor comenta também neste discurso preliminar que “&lt;span style="font-style:italic;"&gt;Com relação aos corpos que vivem, a natureza tem feito tudo gradual e sucessivamente, e não há mais dúvida possível quanto a isso&lt;/span&gt;”, evidenciando que o &lt;span style="font-weight:bold;"&gt;gradualismo&lt;/span&gt; dito darwiniano já estava presente em sua obra. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Talvez o grande problema de Lamarck tenha sido o de -- como Aristóteles 2000 anos antes -- acreditar na chamada “&lt;span style="font-style:italic;"&gt;cadeia dos seres&lt;/span&gt;”, onde os seres menos complexos (ou derivados) eram tidos como inferiores e os seres mais complexos eram tidos como superiores, com o homem representando o ápice desta cadeia natural. É possível que o trabalho de Jean-Baptiste de Monet não tenha sido visto como extensamente revolucionário para a sociedade da época justamente porque, mesmo aceitando a evolução e a modificação de todas as formas, ele considerava o homem como o cume de um movimento gerador de complexidade. Esta observação antropocêntrica é bem característica do pensamento do início do século XIX.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lamarck então apresenta um pequeno resumo do método segundo o qual ele acredita que a ciência progrida e segundo o qual podemos adquirir um conhecimento ao máximo coordenado que pudermos, apresentando tanto aspectos metodológicos da pesquisa quanto a rigidez dos estudos empíricos. Em geral, Lamarck apresenta suas teorias pragmáticas sobre a ciência, ou seja, tenta nos convencer como ele acredita que a pesquisa científica deva ser conduzida. Ele diz ainda que não devemos nos guiar por nenhum método que restrinja ou limite nossas idéias. Finalmente, ele descreve as &lt;span style="font-style:italic;"&gt;três partes&lt;/span&gt; em que são constituídas seu livro: uma primeira parte mais epistemológica, onde ele irá discutir o que ele chama de “partes artísticas” das ciências e evidenciará seu método de pesquisa; uma segunda parte onde ele dissertará sobre a ordem e a condição das coisas que criam a essência da vida animal; e uma terceira parte que tratará de sua opinião sobre as causas dos sentimentos, o poder da ação e os atos de inteligência de certos animais. [29]&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No primeiro capítulo de sua obra, portanto, o naturalista francês discorre sobre o que é fazer ciência e, ainda em 1809, já percebe a importância das práticas sociais da ciência ao reconhecer como um dos três fatores importantes para a aquisição de conhecimento &lt;span style="font-style:italic;"&gt;a capacidade de se comunicar e trocar conhecimento entre colegas&lt;/span&gt;. O evolucionista também percebe a relevância de aspectos econômicos para o avanço das ciências e considera que o verdadeiro naturalista é aquele que apresenta um interesse filosófico em entender a natureza.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://3.bp.blogspot.com/_h2XRf7gRzfY/SvHHQGXHDOI/AAAAAAAAANw/iSuxQL0nvrE/s1600-h/Jean-baptiste_lamarck2.jpg"&gt;&lt;img style="display:block; margin:0px auto 10px; text-align:center;cursor:pointer; cursor:hand;width: 340px; height: 329px;" src="http://3.bp.blogspot.com/_h2XRf7gRzfY/SvHHQGXHDOI/AAAAAAAAANw/iSuxQL0nvrE/s400/Jean-baptiste_lamarck2.jpg" border="0" alt=""id="BLOGGER_PHOTO_ID_5400316507593313506" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;blockquote&gt;&lt;span style="font-style:italic;"&gt;Jean-Baptiste Pierre Antoine de Monet, Chevalier de Lamarck (Bazentin, 1 de agosto de 1744 — Paris, 28 de dezembro de 1829) foi o primeiro naturalista a defender seriamente uma ampla e moderna teoria da evolução, teorizando sobre a hereditariedade e o surgimento de mutações. Foi ele quem primeiro teve a idéia da relação do ambiente com os organismos e, portanto, a idéia de adaptação que culminaria posteriormente na seleção natural. Segundo alguns foi ele que, de fato, introduziu o termo biologia.&lt;/span&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O cavaleiro de Lamarck foi, portanto, um exímio &lt;span style="font-weight:bold;"&gt;filósofo da biologia&lt;/span&gt; e que olhava para a natureza já com as questões do tipo “porquê” com que Darwin posteriormente também olhou, talvez com mais cuidado. Como poeta, Lamarck evidencia seu amor à vida e ao estudo das ciências; como epistemólogo, mostra-se preocupado em definir uma metodologia apropriada das ciências e evidenciar o aspecto interpretativo de seu trabalho; como evolucionista, as passagens mostram o quanto sua teoria era complexa por pensar (i) o gradualismo, (ii) a artificialidade dos sistemas de classificação e (iii) a continuidade apresentada pela natureza. Vale ainda notar que a artificialidade da classificação animal e a extensa continuidade das formas de vida como entendidas por Lamarck pode estar relacionado ao fato de que ele aceitava a extinção apenas para determinadas formas – a existência de grandes extinções só veio a ser um assunto aceito depois de extensos trabalhos de seu contemporâneo, Georges Cuvier. Vejamos alguns trechos:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;blockquote&gt;&lt;span style="font-style:italic;"&gt;“En effet, le défaut de règles convenues, relatives à la formation des genres, des familles et des classes mêmes, exposant ces parties de l'art à toutes les variations de l'arbitraire (...)” 30&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“De fato, devido à falta de consenso com relação às regras para a formação de gêneros, famílias e mesmo classes mostra que essas práticas artísticas estão sujeitas a todas as formas de variações arbitrárias (...)” &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Jean-Baptiste Lamark, Philosophie Zoologique, chapitre premier, Des Parties de l'Art dans les productions de la Nature (obtido em http://fr.wikisource.org/wiki/Philosophie_zoologique%2C_Premi%C3%A8re_Partie%2C_Premier_Chapitre)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Si l'on eut considéré que toutes les lignes de séparation que l'on peut tracer dans la série des objets qui compose un des règnes des corps vivans, sont réellement artificielles, sauf celles qui résultent des vides à remplir, cela ne fut point arrivé.” 30&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Se considerássemos que todas as linhas de separação que podem ser traçadas entre as séries de objetos que compõem o reino dos seres vivos são artificiais, salvo aquelas que resultam de buracos a serem preenchidos, nada disso [os problemas da classificação animal] estaria acontecendo.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Jean-Baptiste Lamark, Philosophie Zoologique, chapitre premier, Des Parties de l'Art dans les productions de la Nature (obtido em http://fr.wikisource.org/wiki/Philosophie_zoologique%2C_Premi%C3%A8re_Partie%2C_Premier_Chapitre)&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No início de seu terceiro capítulo, "&lt;span style="font-style:italic;"&gt;De l'Espèce parmi les Corps vivans, et de l'idée que nous devons attacher à ce mot&lt;/span&gt;" (Da especiação entre seres vivos e da idéia de que nós devemos ter sobre esta palavra), Lamarck inicia questionando o dogma vigente sobre a estabilidade das espécies:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;blockquote&gt;&lt;span style="font-style:italic;"&gt;“Ce n'est pas un objet futile que de déterminer positivement l'idée que nous devons nous former de ce que l'on nomme des espèces parmi les corps vivans, et que de rechercher s'il est vrai que les espèces ont une constance absolue, sont aussi anciennes que la nature, et ont toutes existé originairement telles que nous les observons aujourd'hui ; ou si, assujetties aux changemens de circonstances qui ont pu avoir lieu à leur égard, quoiqu'avec une extrême lenteur, elles n'ont pas changé de caractère et de forme par la suite des temps. § L'éclaircissement de cette question n'intéresse pas seulement nos connoissances zoologiques et botaniques, mais il est en outre essentiel pour l'histoire du globe.” 31&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Não é algo fútil determinar afirmativamente a idéia que devemos ter sobre o que chamamos de espécies entre os organismos vivos, e se é verdadeira a pesquisa que diz que as espécies apresentam uma constância absoluta, sendo velhas na natureza e tendo existido originalmente da forma como as observamos hoje; ou se, sujeitas às mudanças de circunstancias que aconteceram com relação a elas, ainda que extremamente lentas, [essas espécies] não mudaram suas características e formas ao longo dos tempos. § O esclarecimento desta questão não é apenas de interesse para o nosso conhecimento de zoologia ou botânica, mas é essencial para a história do nosso planeta.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Jean-Baptiste Lamark, Philosophie Zoologique, chapitre troisième, De l'Espèce parmi les Corps vivans, et de l'idée que nous devons attacher à ce mot (obtido em http://fr.wikisource.org/wiki/Philosophie_zoologique%2C_Premi%C3%A8re_Partie%2C_Troisi%C3%A8me_Chapitre)&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A &lt;span style="font-weight:bold;"&gt;estabilidade das espécies&lt;/span&gt;, portanto, é atacada veementemente e em várias passagens por Lamarck, que acredita que este pensamento foi estabelecido em um tempo em que as pessoas não observavam a natureza suficientemente e quando as ciências naturais ainda eram extremamente incipientes. &lt;br /&gt;&lt;blockquote&gt;&lt;span style="font-style:italic;"&gt;“(...) mais, par la suite des temps, la continuelle différence des situations des individus dont je parle, qui vivent et se reproduisent successivement dans les mêmes circonstances, amène en eux des différences qui deviennent, en quelque sorte, essentielles à leur être ; de manière qu'à la suite de beaucoup de générations qui se sont succédées les unes aux autres, ces individus, qui appartenoient originairement à une autre espèce, se trouvent à la fin transformés en une espèce nouvelle, distincte de l'autre.” [31]&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“(...) mas como o tempo passa, a diferença contínua na situação dos indivíduos que abordo, que vivem e reproduzem sucessivamente nas mesmas circunstâncias, leva a mudanças neles que se torna, de certa maneira, essencial para seu ser; de maneira que após muitas gerações que se sucedem uma após a outra, os indivíduos, que pertenciam originalmente a uma espécie, encontram-se transformados em uma espécie nova, distinta da outra.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Jean-Baptiste Lamark, Philosophie Zoologique, chapitre troisième, De l'Espèce parmi les Corps vivans, et de l'idée que nous devons attacher à ce mot (obtido em http://fr.wikisource.org/wiki/Philosophie_zoologique%2C_Premi%C3%A8re_Partie%2C_Troisi%C3%A8me_Chapitre)&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Assim, o pensamento evolutivo já se mostrava excessivamente desenvolvido em Lamarck e talvez seu grande erro tenha sido um que ele não pôde evitar devido a um provável fator sócio-histórico no contexto do início do século XIX: seu antropocentrismo colocava uma ordem de complexidade inexistente na natureza (a escalada dos seres), evidenciando o homem como o ápice da criação divina; sendo que também o pensamento religioso por vezes encontrava lugar no trabalho deste &lt;span style="font-weight:bold;"&gt;primeiro grande evolucionista&lt;/span&gt;.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em tempo: outro ponto característico da idéia lamarckiana da evolução está ligada ao fato de que, para Lamarck, todas &lt;span style="font-style:italic;"&gt;espécies evoluem apenas dentro de sua própria linhagem&lt;/span&gt;. Não existe o conceito de &lt;span style="font-weight:bold;"&gt;cladogênese&lt;/span&gt; no pensamento lamarckiano; existe apenas a &lt;span style="font-weight:bold;"&gt;anagênese&lt;/span&gt;, ou seja, evolução dentro de linhagens. A especiação ocorre quando aquela linhagem já alcançou uma modificação tal em suas estruturas anatômicas de forma que possa agora ser chamada de outro nome pelos naturalistas. A história de cada uma das espécies existente nos dias de hoje deve ser traçada em direção ao passado diretamente: &lt;span style="font-style:italic;"&gt;não há o conceito de ancestralidade comum&lt;/span&gt; e todas as espécies existentes provavelmente teriam se iniciado como organismos unicelulares e se modificado ao longo do tempo, transformando-se e modificando-se apenas dentro de sua linhagem. Lamarck peca por não entender a questão espacial durante a evolução dos organismos, focando apenas na dimensão temporal. Além do mais, colocando o homem no &lt;span style="font-weight:bold;"&gt;topo&lt;/span&gt; da escalae naturae, seria de se esperar que todas as espécies fossem se complexificando mais e mais até se tornarem um organismo como o ser humano. &lt;span style="font-style:italic;"&gt;Lamarck não foi capaz de se desviar deste pensamento antropocêntrico&lt;/span&gt;. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;O período entre-gigantes&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os trabalhos de Lamarck infelizmente não tiveram tanta aceitação no meio dos naturalistas de sua época, talvez devido ao ofuscamento de suas teorias pela extensa obra quase contemporânea de Buffon, um cientista de mais renome à época. Mas enquanto seus contemporâneos pensavam na evolução apenas de um modo muito restrito, com pesquisadores como o próprio Buffon e Richard Owen, na Inglaterra, acreditando que as espécies derivavam de outras espécies “moldes”, possivelmente colocadas por deus na Terra, Lamarck já havia expandido as fronteiras do pensamento evolutivo de forma extensa. Mesmo pesquisadores vivendo uma geração depois de Lamarck – como o próprio Owen (1804-1892), que criou o conceito de “&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;arquétipo&lt;/span&gt;”, identificando o padrão geral que formava um vertebrado – normalmente não acreditavam que um possível padrão geral relativo a um grupo de animais correspondesse a um provável ancestral destes e sim a uma idéia tipológica presente na mente divina [32]. Como veremos abaixo, &lt;span style="font-style:italic;"&gt;St. Hilaire&lt;/span&gt; também tinha pensamentos similares sobre a origem das espécies.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dois outros biólogos que trataram de alguma forma de evolução dos organismos vivos precisam ser considerados neste período entre gigantes: &lt;span style="font-style:italic;"&gt;Georges Cuvier e Étienne Geoffroy St. Hilaire&lt;/span&gt;. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://4.bp.blogspot.com/_h2XRf7gRzfY/SvHJ34aN2mI/AAAAAAAAAN4/Zih5okP3IZM/s1600-h/Georges_Cuvier.jpg"&gt;&lt;img style="display:block; margin:0px auto 10px; text-align:center;cursor:pointer; cursor:hand;width: 298px; height: 400px;" src="http://4.bp.blogspot.com/_h2XRf7gRzfY/SvHJ34aN2mI/AAAAAAAAAN4/Zih5okP3IZM/s400/Georges_Cuvier.jpg" border="0" alt=""id="BLOGGER_PHOTO_ID_5400319390066268770" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;blockquote&gt;&lt;span style="font-style:italic;"&gt;Georges Cuvier (1769-1832) foi um naturalista francẽs que ressaltava a questão da presença de arquétipos anatômicos em grupos biológicos e defendia uma visão teleológica da evolução, com as estruturas anatômicas sendo formadas para realizar uma determinada função em particular. Ele também era adepto do chamado catastrofismo e teorizava sobre as extinções e o registro fóssil.&lt;/span&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Georges Cuvier (1769-1832) nasceu em uma comunidade francesa na Alemanha e após estudar em uma escola em Stuttgart, mudou-se para a Normandia para atuar como tutor de uma família de nobres. Dessa forma, conseguiu fugir da revolução francesa e adquiriu uma posição dentro do governo local, logo começando a atuar como naturalista. &lt;span style="font-style:italic;"&gt;Cuvier acreditava na perfeita organização biológica em nível anatômico e, portanto, não pensava em evolução, uma vez que qualquer mudança anatômica em um organismo o desestabilizaria e o faria incapaz de sobreviver.&lt;/span&gt; Uma das grandes contribuições de Cuvier para a biologia evolutiva vem do fato de que ele foi o &lt;span style="font-style:italic;"&gt;primeiro grande partidário das extinções&lt;/span&gt; e sugeria que a Terra havia sido palco de inúmeras extinções e catástrofes ambientais [34]. Além disso, ele apresentava argumentos para explicar a descontinuidade do registro fóssil, mostrando que a fossilização deveria acontecer em situações específicas; do contrário a decomposição dos animais os faria invisíveis para a posteridade. &lt;br /&gt;&lt;blockquote&gt;&lt;span style="font-style:italic;"&gt;“That catastrophe also left in the northern countries the cadavers of great quadrupeds locked in the ice, preserved right up to our time with their skin, hair, and flesh. If they had not been frozen as soon as they were killed, decay would have caused them to decompose.” 35&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Aquela catástrofe [ele provavelmente se refere ao dilúvio] também deixou nos países nórdicos os cadáveres dos grandes quadrúpedes presos no gelo, preservados até os nossos tempos com sua pele, cabelo e corpo. Se eles não tivessem sido congelados, tão logo tenham morrido, pois o decaimento os teria feito decompor-se.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Georges Cuvier, Discourse on the revolutionary upheavals on the surface of the globe and on the changes which they have produced in the animal kingdom (obtido em http://www.victorianweb.org/science/science_texts/cuvier/cuvier-e.htm)&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-style:italic;"&gt;Talvez por dar grande importâncias às formas anatômicas, o barão de Cuvier acreditava que os diferentes ramos mais amplos da classificação animal (como as classes Vertebrata, Articulata, Mollusca e Radiata) eram formas tão fundamentalmente diferentes entre si que não poderiam estar conectadas entre si através de mudanças evolutivas.&lt;/span&gt; As semelhanças entre os organismos, segundo Cuvier, eram explicadas através de convergências adaptativas, onde órgãos originalmente diferentes apresentariam similaridades devido a um objetivo funcional: &lt;span style="font-weight:bold;"&gt;a função explicava a forma, não o contrário&lt;/span&gt; [34]. Essa sua filosofia era contrária à de seus contemporâneos como Buffon, Lamarck e Geoffroy St. Hilaire e em 1830, ele e St. Hilaire realizaram &lt;span style="font-style:italic;"&gt;famosos debates&lt;/span&gt; sobre suas posições na Academia Real de Ciências, em Paris. Enquanto se diz que Cuvier teria vencido o debate, são as idéias de seu oponente que parecem ter se perpetuado nos círculos científicos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://3.bp.blogspot.com/_h2XRf7gRzfY/SvHLIV9ywlI/AAAAAAAAAOA/yxIr9ZlMc2Q/s1600-h/Geoffroy72.jpg"&gt;&lt;img style="display:block; margin:0px auto 10px; text-align:center;cursor:pointer; cursor:hand;width: 277px; height: 400px;" src="http://3.bp.blogspot.com/_h2XRf7gRzfY/SvHLIV9ywlI/AAAAAAAAAOA/yxIr9ZlMc2Q/s400/Geoffroy72.jpg" border="0" alt=""id="BLOGGER_PHOTO_ID_5400320772389651026" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;blockquote&gt;&lt;span style="font-style:italic;"&gt;Étienne Geoffroy Saint-Hilaire (1772-1844) foi um naturalista francês. Adepto do saltacionismo, suas principais contribuições foram os estudos da homologia de caracteres animais e acreditava num tipo de lamarckismo ainda mais ferrenho onde o ambiente influ
